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Chocolate

Pode ser preciso ter sangue beeem frio, e muito amor, pra desenrolar sobre futebol com o Tiago Velasco. Isso, no caso de o interlocutor torcer para um time diferente daquele defendido pelo autor de “Naturezas-mortas” (Editora Cachalote). Mas foram tantos os dribles, gols e assistências vistos aqui nos 40 lances do livro que um clima de pelada deve apoiar a construção de uma bastante merecida crônica/resenha elogiosa. É em alguns sentidos um risco, claro, mas quem não chuta não marca. O paralelo ainda joga luz sobre uma, digamos, charmosa sisudez que de vez em quando surge na obra e ajuda a segurar o leitor-torcedor — além de conduzi-lo com segurança para aquele bom mastigamento psicanalítico de capim com que a gente tenta levar a vida. Tem jogada que serve para deixar o malandro pensativo.

Os dribles. A gente quer ver gol, mas drible… drible também é muito bom, cara. Velasco faz isso, por exemplo, deixando o público na dúvida sobre o que ele estava espiando quando elaborou cada um daqueles textinhos. Quais foram os problemas que não tinha conseguido deixar fora do campo, quando juntou papagaio, uma senhora e Julio Iglesias? Por que demorou a bicar a bola, quando quase preencheu uma página (coisa que só acontece duas vezes)? E quando parece que entendemos alguma coisa e não vamos cair nem tampouco seremos deixados para trás, num próximo confronto, a brincadeira parece mudar. Sutilmente. Ele pode não estar jogando, mas falando do jogo de alguém.

É preciso fugir da comparação com redações de escola, quando põem a gente para escrever sobre os mais diversos assuntos que não são tão diversos assim. Parece que às vezes o autor está lendo/zoando um manual. Ou oferecendo um. Um manual. Assim como fica claro que um certo punhado de linhas veio da capa ou da publicidade impressa numa revista antiga. Despretensioso? Não é. Quem também escreve percebe isso de pronto e pode ficar pensando se ele de cara fez textos maiores para, em seguida, ir enxugando tudo. Resta a sensação de que essa poda, se foi o que aconteceu, acaba abrindo janelas.

De cara, “Naturezas-mortas” parecia pegar carona numa brincadeira que rolou,  meses/anos atrás: “Words Only Instagram” (Insta só de palavras), que se explica pelo próprio nome. Termina mostrando-se bem mais do que isso. Soa “velho”, ao sugerir um flerte com outro jogo, o (quase-)falecido Palavras Cruzadas. Quando foi que você leu “oblongo” pela última vez? As palavras, claro, são peças-chave, na brincadeira. Porque ao se repetirem aqui e ali parecem criar uma unidade, juntar os pedacinhos. Na cabeça do leitor que quer achar coisas, assume papel de tática. Jogo é jogo. Então, deixa o cara jogar.

Os textos são elegantes/comedidos/curtos e não se deve resistir à tentação de retornar ao início deles na tentativa de extrair alguma coisa diferente/nova. Como quando se volta o vídeo até o momento em que o placar foi aberto. Por que negar-se este prazer? Afinal, há a cada fechamento a sensação de que podemos ter perdido algum detalhe. É bom perceber um flash de “terror”, uma graça que parece não existir pra fazer alguém rir. É bom sacar um troço ali no miolo, e da arquibancada meter um “Tá, mas e daí?”. É massa isolar uma frase que faz todo um parágrafo valer a pena ou, talvez ao contrário, sentir espaço se abrindo para alguma “dissonância” ou uma dose de “impaciência”.

Estamos diante de um sujeito que é bem mais do que candidato à vaga de redator-chefe-de-legendas na “Folha de S. Paulo”. Só lá pra ter um cargo assim (modo irônico ligado, tá?). Seria um novo patamar para as legendas (agora, modo sonhador). Mas o Velasco quer é driblar e fazer gol. Deixa o cara, deixa o cara jogar. E seguimos aguardando uma próxima aparição dele em campo.

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Vai vendo, vai vendo

Não foi à toa que o grande Paulo Leminski escreveu: “Não discuto/Com o destino/ O que pintar/ Eu assino”. Sempre valeu a pena estar atento ao que propõem os versos daquele nobre e saudoso samurai curitibano e… E você pode escolher também não tretar com o Doutor Destino se ele providenciar um clássico para ser revisitado. Só mesmo Doc Dest para numa festa junina inventar uma barraquinha em que se oferece por dez pratas o assustadoramente maravilhoso “1984”, de George Orwell. Aproveitando todo esse clima de distopia que atualmente nos embala, mais a apresentação do professor Clóvis de Barros Filho, anunciada na capa do livro, não poderia haver investimento melhor para aquele dinheirinho.

Merece ser relida, uma obra que impressiona um então-jovem da Geração X e contribui com as desconfianças que ele tem da sociedade. Todo mundo sonha com algum alívio, hoje, e, vai que a maturidade ajuda, numa releitura, a enxergar as coisas de um jeito diferente. O noticiário está aí, com todo esse papo sobre a-História-que-se-repete, impérios que caem, e, portanto, tudo bem tentar (re)elaborar as coisas. Nos poucos minutos do dia em que às vezes conseguimos fugir da tela do celular, o Big Brotherzinho safado que na atualidade nos consome, um livro assim se apresenta como ótimo recheio para o pouco tempo que sobra…

Fala-se muito de memória, na obra de Orwell. E, sim, mesmo nesta piscina de insensibilidade e embrutecimento em que a gente flutua, ainda é possível se agoniar com a história de Winston Smith. Winston? Smith? Winston Smith? Já que estamos flertando com a tentativa de reelaboração e, em consequência disso, religando pontos, vem à tona o nome do artista que fazia muitas das colagens das capas e encartes dos Dead Kennedys. É muita big-brodagem perguntar sobre isso ao Google, para saber se aquilo era um nome ou um pseudônimo. Faça você o trabalho sujo, se quiser. Os Kennedys citam “1984”, num dos clássicos da banda, “California über alles”. Aproveite para procurar também e ler alguma coisa sobre outro personagem, o Ranxerox, aquele mesmo, o dos quadrinhos criados por Tamburini e Liberatore e que os X-revoltados conheceram-consumiram aqui graças à revista “Animal”. Numa crônica, violência pouca é bobagem. Entre outros bons motivos para reler um troço importante como “1984”, décadas depois da primeira incursão, estão as novas referências que surgem, se acumulam e parecem contribuir muito com a liquidificação do cérebro do leitor.

Falar em massa encefálica triturada parece bem Gen-X para você? E máquinas de tortura com ponteirinhos que vão de zero a cento e poucos, também entram nesta categoria? “1984” não é sobre suspense ou terror freddy-kruegeriano-barato. Se pá, sobre verdades. Ou ainda sobre fantasmas. História, quem sabe… Pode servir para o leitor de umbigo angustiado com os rumos do planeta. Nos dias de hoje, precisa ser lido e relido e a Psicanálise — tão em alta no YouTube e entre classe-medianos que querem se cuidar e lidar melhor com a Dona Culpa — devia recomendar isso. Não que o queridinho deles, o também maravilhoso “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse, não valha o hype. Mas variar não custa nada. Ou pode às vezes custar só dez pratas…

Entrar numa de marcar trechos em clássicos pode dar muito trabalho para o leitor mais apegado. “1984” oferece muitas máximas para artistas registrarem em muros e — melhor, hein!? — viadutos de qualquer grande cidade.Tipo “Ninguém jamais toma o poder com a intenção de abdicar dele”. Ou “O objetivo da tortura é a tortura, o objetivo do poder é o poder”. E aquela que já vimos em muitos zines punks dos Anos 90: “Se você quer uma foto do futuro, imagine uma bota pisando em um rosto humano… para sempre.” Para quem acha pessimismo demais, bem na época em que Saturno-ou-sei-lá-quem entra em Áries, olha, a saída pode ser reclamar com o pessoal da barraca da festa junina. Mas não adianta ir agora. Só em junho, se até lá ainda houver clima — ou mesmo mundo — para celebrações deste tipo.

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Ghibli: Dez! Nota dez

Fogo. Fogos. Gente correndo. Bichos falando e impondo desafios. Sapos que se empilham e, em segundos, são capazes de encobrir um moleque. Periquitos afiando facas. Questões amorosas escorrendo por todo lado. Portais entre mundos/dimensões diferentes. Momentos de silêncio. Momentos de silêncio? Se não fossem estes instantes em que quase se conseguia ouvir a respiração da pessoa na poltrona ao lado, a gente poderia estar fazendo uma alusão à folia de Momo, que, apesar dos avisos do calendário, ainda se faz presente na cidade. Mas é melhor do que isso: o negócio é a pré-estréia de “O menino e a garça”, filme de Hayao Miyazaki — a.k.a. Studio Ghibli. Lançada no Japão, em julho de 2023,  a animação chega agora a esta parte do globo.

Após um início já muito intenso, é possível pensar que o filme deve estar na prateleira em que ficam coisas para adultos. Tem morte. Tem guerra. Mas tanto o menino Mahito revela-se um homenzinho corajoso, capaz de lidar com questões “de outro mundo”, quanto, no decorrer da fita, a sucessão de “loucuras” garante sorrisos e ruídos de satisfação à plateia mesmo que ela seja bem heterogênea. O filme é uma adaptação de “How do you live?”, história de Genzaburo Yoshino que o Google informa ter sido publicada pela primeira vez em 1937.

Em duas horas e quatro minutos, o público fica assombrado com detalhes que — não há como evitar — trazem à lembrança os maravilhosos “Ponyo: Uma amizade que veio do mar” (2008), “O castelo animado” (2004) e “Meu amigo Totoro” (1988). Numa brincadeira/tentativa de fazer associações com outras histórias, não é difícil comparar sete senhorinhas com os anões da Branca de Neve. Os prazeres visuais, isto é, os lugares aonde Miyazaki pode te levar dependem um pouco, claro, da tua capacidade de associar as imagens que ele apresenta com referências que já existem. A tal da tua bagagem. Mas mesmo os menos iniciados no circuito da realidade fantástica animada podem ficar atônitos com todo aquele surrealismo-pouco-é-bobagem.

Vale investir num ingresso para ter esta experiência numa sala escura com uma tela gigante lá na frente. Enquanto os celulares não destroem também isto. Ao mostrar gente velha, sopas sendo preparadas, animais, lama e personagens construídos com traços de dor, rigidez e nobreza, Miyazaki como que convida a um exercício de mergulho interno e de resistência. E quando parece que vamos ficar no conforto do entendimento, flertar com um happy end bem explicadinho, o que se ganha é um tapa na cara, seguido pelos créditos.

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Salve, salve, Chico Chico

Na Grande Bolha Classe-mediana, Subdivisão Metida a Besta a.k.a. Algo Intelectualizada com Pretensões de Descolamento, Microbolha dos que se adiantam para fazer valer a expressão “Sextou!”, só se falava no show do Chico Chico, no Clube Manouche. Em Laranjeiras, nos arredores da São Salvador, um dia antes da apresentação do filho da saudosa Cássia Eller, alguém comentava: “Chicão? Era da sala do meu filho, no CEAT… Fio desencapado, esse moleque. Mas muito talentoso!” Na Tijuca, na São Francisco Xavier, também foi possível pescar comentários a respeito de Francisco Eller: “O show é muito bom. Já vi no Smoking, na Lapa. Agora, acho que só em casas maiores. Tá crescendo. Ninguém segura.” Na noite de sexta (07/07), data em que se celebra(va) entre umbandistas e simpatizantes a força do “malandro” Zé Pilintra, Chico Chico fez bonito. O garoto sabe jogar. Tem que respeitar.

Pessoas de 40 e poucos anos tiraram do armário suas jaquetas de couro e foram até o Jardim Botânico para ver o espetáculo. O ambiente lembrava um pouco o extinto Ballroom. Parecia uma versão reduzida daquele antigo pico do Humaitá, incluindo gente chata às vezes falando alto demais perto do bar. Não chegaram a atrapalhar. Foi divertido ver levarem um susto quando o fio desencapou no entorno, quer dizer, quando Chico Chico desceu do palco e um corredor se abriu para que ele desse uma corridinha, microfone em punho, do palco até os arredores dali de onde se comprava cerveja e outros drinques. Aliás, quantos drinques coloridos, gente; parecia até festa de casamento. Mas o pessoal das jaquetas de couro parecia gostar. Espumante, não, não se via. A cerveja estava bem gelada, pelo menos.

Mas não era só quarentão, na plateia.  Entre os videomakers havia também gente mais nova. E eram estes os que pareciam estar mais afinados com o artista. “Ribanceira” e “O tempo nunca mais firmou” podiam dar a entender que a noite seria de introspecção. Mas “Amarelo amargo” apontava outro caminho. Outros caminhos. Um dos pontos altos da noite. Dava para lembrar um pouco dos primeiros shows do Cordel do Fogo Encantado, no Rival. Não só pela performance do rapaz, mas, também pela poesia — é, poesia — que ele oferecia. Havia firmeza, malandragem e poesia, naquilo que ele entregava ao pessoal que levantava os celulares para registrar o que estava acontecendo.

O momento Chico César  (“Béradêro”) foi outro de arrepiar. Aliás, o garoto soube escolher bem o que levar pros jovens e tiozinhos do Manouche. Tirou onda de grande intérprete com “Norte”, de Carlos Posada. Foi tocante ouvi-lo cantar que “as coisas acontecem / de uma hora pra outra / mesmo que demorem / a vida inteira para acontecer”. Nem precisava daquela coisa de dividir a plateia em duas, durante esta música, para que cada metade repetisse uma parte do refrão. Se houve um vacilo do malandrinho, foi aí.

Chico Chico soube escolher bem as companhias. Caio Prado, uma das participações especiais do show, com sua “Cantiga de Erê” (parceria com Jean Kuperman), estava no palco para um outro grande momento da noite: ajudou o amigo na brincadeira de alternar climas.  Todo mundo gostou. Salve Zé Pilintra. Viva a malandragem. Salve, Chico Chico.

(Foto de Catharina Rocha)

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Mattoso contra as instagra(mes)mices

Tem essa história de os textos curtos  (e vídeos etc na mesma medida) de hoje em dia nos oferecerem/provocarem uma carga dopaminérgica viciante. Que nos torna preguiçosos. Porque a “satisfação” vem rápido. É um engole-e-cospe ou nem-digere-direito-mas-expele-logo de fazer gosto. Glauco Mattoso, no seu recém-lançado “Promptos Ponctos contos” (Editora Casa de Ferreiro, 2023), rema contra esta maré. Não que sejam demasiado longos, os 20 textos do livro. Mas é que aquela história de ele adotar a escrita revogada pelo Estado Novo, de Getúlio Vargas, em 1943, é uma tijolada desaceleradora e provocativa nas nossas fuças acostumadas com as instagra(mes)mices de hoje em dia. E isso é só o começo.

A “Nota introductoria” serve de aquecimento. “Fazer prosa poetica não é difficil para alguem ja callejado no verso decassylabo. (…) Mantenho o meu historico de bardo bastardo, goliardo, obsceno. Pouco me importo com os falsos moralismos. (…). Nossos tempos revivem a barbarie dessas eras antigas e desfazem illusões dum mundo mais humano que, durante algumas phases dictas democraticas, suppunhamos  que fossem ja conquistas da civilização. São peresciveis, contudo (…).” É isso mesmo, tem “y”, tem “ph”, tem “ll” e o diabo. É Mattoso matando a pau, como ele mesmo dirya. Ou Dyria. Dyrya, talvez? Tem coisa que parece que só Glauco Mattoso sabe.

E há tempos é assim. Décadas atrás, quando brincávamos todos de jovens fanzineiros-revolucionários, GM já era um pouco mais cascudo. Reconhecido como baluarte da poesia marginal, bom de lábia, ele (muito respeitosa e educadamente) nos convidava a uma troca. Mandávamos, numa folha de ofício, um contorno de nossos pés e recebíamos, por exemplo, uma edição do “Manual do pedólatra amador”. O livro tinha este título, na primeira edição (1986). Depois, o negócio mudou de nome, a despeito da correção (e “propriedade”, e “inocência”) explicada por ele para o uso daquela palavra na capa. Hoje em dia, é “Manual do podólatra amador”. Tem na Amazon, pra quem quiser ver e comprar. O autor pode ser considerado pervertido, mas não é bobo.

“O Manual…” tinha aquela pegada SM. Porque naquela época só se usava estas duas letras para se falar do que hoje se chama de BDSM. Os livros deste paulistano de 1951 passeiam muito por este tema/universo. E com “Promptos ponctos” não é diferente. “Ponctual caso de Myrlayne”, “Ponctual caso de Heloiza” e “Ponctual caso de Hamilton”, os três primeiros, deixam isso bem claro. “Bem claro” é o jeito de dizer, porque eles deixam é tudo bem sujo, na medida para o leitor apreciador desta estética fetichista. Vamos chamar de “estética fetichista”. Além disso, para quem é fã do Yoda de “Star Wars”, tem ali no miolo da prosa um jeito de escrever que parece trocar a ordem mais corriqueira das palavras, do mesmo jeito que faz aquele feioso mestre Jedi. Divertido fica.

A frequência com que aparecem personagens com deficiência visual faz crer que há algo de autobiográfico na obra. Ou fantasioso, com muito foco do autor no próprio umbigo. O que é bem Mattosiano. Prepare-se para um conteúdo bem XXX. Laranja-mecanicamente falando, um prato cheio. Pode ser que alguém reclame de “muita erudição”. Mas, pô, é o Glauco, e ele está nessa há muito tempo. A erudição, ou o que se pode chamar assim, fica em segundo plano. Em primeirão está a devassidão.

A escrita é um espetáculo à parte. Você tem que ler com calma. “Mandaram-me tirar a roupa toda, aptaram minhas mãos attraz das costas…” Olha esse “aptaram”! Os contos surgem dando a impressão de serem frutos de relatos obtidos pelo autor. Isso traz um verniz de, digamos, formalidade para o que é revelado ali naquelas páginas. Assim como um cheiro de mofo, de antiguidade. E junto vem um cheirinho de verdade. É tudo tão possível que às vezes se torna assustador. É Glauco Mattoso, o bom e velho Glauco Mattoso. Pronto para escandalizar e/ou satisfazer a tradicional família brasileira.

N.E.: @ed.casadeferreiro, no Instagram.

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Segue a, isto é, O Paixão

André parece ter trocado mesmo o Nervoso por Paixão. Pode ser que tenha trocado também o gosto por roupas porque, naquele início de noite, numa sexta que prometia frio mas entregou certo calor, o figurino diferente provocava certa estranheza. Era o lançamento do single “Litoral”, na estação General Osório do metrô, Zona Sul do Rio, e o artista anunciou o início de uma série de apresentações pela cidade. “Litoral” é uma faixa solta, só mesmo um single, mas o artista está na iminência de colocar pra fora um álbum que já há três longos anos lhe dá trabalho. Em clima de celebração, com uma guitarra e um microfone, André Paixão contou com um público formado por passantes e por ilustres amigos, como os músicos Maurício Garcia e Pedro Serra, e a jornalista Catharina Rocha.

Era mesmo verdadeira, a história de turnê. Enquanto esta crônica ganhava vida, dias depois do lançamento, chegava nova mensagem do artista para anunciar uma segunda apresentação nos subterrâneos do Rio. Dia 30, às 19h, na Estação Carioca, Acesso B (Avenida Chile).

Em Ipanema, o show começou com “Só verão”, seguindo o setlist (que foi parar na coleção de dona Cath Rocha). Começou bem. Na verdade, a descontração parecia já estar garantida com o “Segue o líder!” que Paixão, botafoguense de carteirinha e tatuagem, soltou mesmo antes dos primeiros acordes. Vieram “Desencontro marcado” e “Maduro”. A primeira, uma inédita feita em parceria com Bernardo Vilhena. Mas foi em “Um sonho de transatlântico” que mais sorrisos foram vistos. Dentes de todos os tipos apareceram/brilharam, entre as cabeças que emergiam das entranhas da General Osório. Se teve um trem que chegou em boa hora, foi aquele lá.

O velho hit “O bom veneno” deu as caras, anunciado por uma introdução noise-barulhenta. Quase como que um rastro mais nervoso-no-wave em meio a toda aquela paixão. Se houvesse também alguma pequena multidão desembarcando, ali,  naquele instante, teria sido ótimo. Mas tem trem que é daquele jeito: não vem na hora certa. “O bom veneno deve ser assim/ E eu te peço / Sirva uma dose desses pra mim”, diz um trechinho. De um passado menos distante, ressurgiu “Já desmanchei minha relação”, que também caiu muito bem. “Curtindo a solidão… Assoviando essa canção”, lembra? “E é por essas e outras que eu não tenho mais saco pra te servir, meu bem…”, lembra? Os tempos são outros. É tudo líquido, dizem. Mas “Já desmanchei minha relação” tem um potencial radiofônico para todas as épocas.

“Saturation” era a última da lista. Mas houve tempo para mais pérolas. A noite terminou com um repeteco de “Maduro”, que — esta, sim — também fará parte do próximo álbum. “A vida é assim/ Veja as folhas no jardim (…) Todos são bem parecidos/ Quando sentem que o pior está por vir…”

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Um poeminha não dói

Detalhe da capa de “Sete poemas de casulo e fuga”, de Carolina Medeiros

“Perder-me / Há de acontecer / A ti / E a mim” É assim que Carolina Medeiros começa batendo em “Sete poemas de casulo e fuga”. Batendo porque isso é sim um tapa na cara e, vá lá, porque o trabalho é todo feito co’uma máquina de escrever. Suspire aí você também. É o tipo de empreitada que faz a gente lembrar prazerosamente de décadas atrás, quando era mais comum ver zines xerocados circulando por aí. Naquela época, anos 80 e 90, de vez em quando, um deles gritava na cara do leitor. Ou, como é o caso deste aqui, chegava ressoando como um tabefe.

A gente precisa de tapa na cara? Por que a gente precisa de tapa na cara? Vamos descartar as respostas que a Polícia eventualmente tenha para nos dar. E também não precisa achar que bater é a meta da autora deste zine. O que não dá pra fazer é ficar sem sentir o que ela provoca.

“Sete poemas de casulo e fuga” tem também umas figuras, no miolo. De casulos. E de insetos. Não chega a ser um pôster central. A gente passa por lá e quer voltar logo para o que está escrito. Mas… CM não é de dar ponto sem nó e… Algumas visitas depois, surge a impressão de que aquilo, ali, de alguma maneira, reafirma a posição “feminista” da artista.

Vamos agora jogar uma luz no detalhe da encadernação: as páginas são presas por uma linha e dois nós. Uma referência aos bordados com que a autora também trabalha? Um mimo? É lá e cá, o negócio: um detalhe fofo, um sopapo. Um mata-leão, um afago/abraço. Atenção!

Dá para dizer que os poemas são densos. Dá para dizer que são confessionais. Lidos de uma tacada, os versos parecem montar um filminho. Com figurino bem pensado/caprichado, claro. Carolina Medeiros capricha. Entre em contato com ela por e-mail: carolamedeiros@gmail.com.

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A dor de perder um disco…

Um momento música de acampamento. Assim é “Sketch of light“. Capaz de fazer você imaginar um ex-SY em frente a uma fogueira, com um violão de aço… Prepare-se para uma daquelas introduções demoradas, do tipo que levam a gente até um passado que nem é tão distante mas que, pela velocidade como as coisas andam acontecendo, sugerem um hiato de sei lá 200 anos (?). E olha que Sonic Youth tinha um pouco a ver com “velocidade”, hein? Agora, “Sketch of light” faz a gente acreditar estar diante de um certo vovô Thurston, na jogada. É, porque apesar de aparecer posando em fotos com Iggy Pop ele não parece ter se transformado no monstro pop que dona Kim desenhou naquele livro dela. De volta à música: não era introdução, era uma instrumental mesmo.

A sugestão é a gente ficar mesmo com o sketch, com o rascunho, porque comprar vinil está muito caro e muito arriscado. Este sujeito aqui do outro lado da tela amargou uma perda, recentemente, ao apostar na encomenda do 12 polegadas do vovô Moore. Nunca houve um cara tocando a campainha para avisar que “By the fire” estava chegando. Aí, agora, nessa internetência de meu Deus, surge um consolo. É um consolo. Lento. Sem voz, como se ele não tivesse o que dizer pelo bolachão que nunca chegou…

A solução, como já pregava nosso amigo Zé Sem Nome, é o Bandcamp. Lá, você ouve “Sketch of light” e outras coisas mais frescas do ex-/sempre- Sonic Youth. Tem por exemplo “7/7/77“, dele com (o guitarrista e DJ) Zac Davis, que é um mergulho naquela agonia noise de antigamente. ZD já tinha trabalhando com grampa Moore e outros integrantes do SY, ao longo da década passada, quase sempre ensopado por esse molho noisey do fim do século 20. Alguns caras parecem congelados no tempo e são muito atuais por isso. “7/7/77” é um desafio para qualquer ouvinte, mesmo fã dos trabalhos antigos dos artistas em questão.

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Mameluco Canibal

Uma loucura leva à outra. Teve essa história de o Junior Abreu participar daquele single do Zé Sem Nome e logo na sequência ele lançou também uma parada novinha: “Só pro teu dia alegrar”, com o Diego Cruz, com quem forma o Mameluco Canibal. Outra onda.

Nesse caso, é bem mais fácil entender a letra: “sou capaz de tudo até mover o muro / só pro teu dia alegrar / corro riscos, enfrento o mundo / só pro teu dia alegrar / dou nó em pingo d`água / só pro teu dia alegrar / enfeito noites com castelos / pinto de cores todo o resto / só pro teu dia alegrar / finjo paz quando há guerra / acalanto as noites de trevas”.

Dá pra chamar de muitas coisas, isso aí. Clipe feito com o celular. Música de estreia. Guitarras cremosas. Dá até pra correr o risco de dizer que Abreu e Cruz estão lidando com o grande combustível da música pop. Aquele papo de amor, sabe qual é? Em tempos pandêmicos, um ingrediente assim, pros mais ranzinzas, pode parecer ainda mais piegas. Mas a dupla aperta o bom e velho botão do F… “F” de “fazer”, sacou?

Cruz (esq.) e Abreu fazem de tudo pra alegrar o dia de alguém
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Cheiro de diversão, digo, treta

O Zé continua Sem Nome e Em Forma. Deu à luz “Cheiro de treta”, faixa que vem com participação dos ilustres Junior Abreu e Marco Homobono. O lance nasceu, segundo Zé Felipe, a.k.a. ZSN, porque “o pessoal dum coletivo lá de Curitiba pediu uma inédita pruma coletânea”. Quer dizer: em Curitiba há, sim, pessoas a quem devemos agradecer por alguma coisa.

Você passa um tempo sem ouvir o clássico “Parece Rap” e este distanciamento te dá — se ainda não tinha certeza — o que é preciso para concluir que, sim, se trata(va) de um troço muito louco e muito bom. “Cheiro de treta” mantém o nervosismo, uma avalanche de palavras que não é um simples caô verborrágico, mas, sim, a tradução de uma postura (somente sonora?) peituda de quem parece estar chamando o ouvinte para uma porrada.

Seguir a letra requer concentração. Dá para identificar um refrão, ali, mas vai transcrever, na intenção de fazer uma texto-resenha. Dá pra sacar bem o coro com as respostas do Homobono e do Abreu, quase construindo a cena de um baile funk-charme apocalíptico. Vai; tenta, aí. “Cheiro de treta no ar, acho melhor nem falar nisso, a gente zoa e pede desculpa, (…) uns passinho e vamos dançar…”

Tudo pautado por um certo desprendimento, um descompromisso, uma leveza que tempera a música com “atitude” e revela uma poesia mucho-mucho-loka. Pode rir. Porque o Zé é isso, é pra te fazer rir. Te divertir. E fazer pensar. Pelo menos um pouco. Elaborar, sabe? Se não for pra isso, melhor procurar alguém “com nome”, correndo o risco de perder toda uma diversão.