Categorias
Comportamento Conto Crônica Freudcast Literatice Música Paulo-Coelhismo Sem categoria Umbigada XXX

Zero-vinte-e-um-nove-nove-um

Sofria com aquela bobagem de esperar alguma coisa dar errado, sabe? Ela era assim. Falou sobre isso com o cara. E comentou que naquele dia estava experimentando um prazerzão. Viu os olhos dele ficarem diferentes e continuou: “Você concordou com o lance que sugeri e aí… É que eu sou meio louca, entende? Fica tudo pior, na vida de uma louca.” Teve certeza de que o parceiro não havia sacado nada. Pegou dali e insistiu: “Quando a gente está feliz, ou pelo menos acha que está, o que dá quase no mesmo, a mana que é meio louca acha que vai acumulando pontos que lá na frente vão dar numa grande M.” Tinha acabado de ter a sensação, ela, de que aquilo tudo era bobabem e, melhor, de que estava esquema-tudo-tranquilo. Isso porque havia lido a mensagem do sujeito em que ele dizia “Ok, vamos viajar, neste fim de semana”, e manteve os batimentos numa levada razoável, sem precisar do respira-calma-concentra-respira-calma. Mais: ficou serena e feliz. Usou até a palavra “Feliz”. Fez uma pausa e se comentou: “É estranho falar ‘mana’? Mulher pode falar ‘mina’, né?”

Tinha pensado que aquelas dores que andava sentindo representavam uma chance de alcançar aquilo que a humanidade como um todo não tinha conseguido, mesmo com a pandemia: melhorar. Chamava de “pandemia própria”, a sentença do médico, que indicava a necessidade de um “pequeno procedimento cirúrgico”. Sofria com isso tudo e se escorava na vontade de brincar de ser artista. Anotou uma frase — “O sonho da pandemia própria” — e prometeu transformar aquilo num cartaz, assim que estivesse recuperada. Rapidinho, deixou escapulir: “Não, não é pra gastar mais dinheiro, porra!” Também em relação ao tratamento tinha medo, mas achava que havia mesmo uma chance de vencer aquilo. E fez mais uma promessa a si mesma: de escrever aquela máxima nos banheiros femininos dos botecos que tivesse a sorte de frequentar, num futuro próximo. Tinha aprendido com o namorado a se divertir com canetões.

Pixies, Martinho da Vila, Blur, Gal, Beatles, Novos Baianos, Nação Zumbi, Cake, Céu, Breeders, Miles Davis. Ouviu coisa pra caramba, na véspera do feriadão. Achava que com música construía um clima, tornava uma cena mais palpável, aliementava uma esperança, passava o tempo, esquecia a culpa, resistia ao respira-calma-concentra-respira-calma, aproveitava mais o respira-calma-concentra-respira-calma, preservava a libido, bloqueava sugadores anônimos e outrem nem tão anônimos assim, controlava as despesas com chocolate e castanhas e vinhos e queijo, aceitava os banhos quentes nos quais quase invariavelmente achava demorar mais do que devia. E o que parecia melhor que tudo: resistia à ideia de ter um gato. Tinha conversado com o namorado sobre Led Zeppelin e ficou incomoda com a zoação do cara, que classificou os tiozinhos como metal farofa. Quase ficou puta. Mas sorriu quando ele pediu perdão, explicou que ela era “muito nova pra gostar de Zeppelin” e disse que topava ouvir o álbum favorito dela. Já estava clareando, quando combinaram isso, antes de uma nova agarração e da chegada do sono. Pensou em arrumar confusão dizendo que Dead Kennedys também é som de velho. Antes de dormir, lembrou do médico e do tratamento. Pensou na vida curta. Queria ter coragem para levantar e tomar um banho quente e demorado. Queria dormir só quando o sol já estivesse alto. Mas ficou ali com o cara. “Ainda bem que ele não ronca.”

“Não precisa de acompanhante, não. Você vai se internar na segunda logo cedo e no dia seguinte já deve estar liberada.” Foram as palavras do médico. Ela não entendia como tinham conseguido marcar tudo tão rápido. E por que não precisava de acompanhante? Será que o boy insistiria na ideia de acompanhá-la? Será que não haveria chance de novos banhos quentes, num futuro próximo? Queria ter a chance de aproveitar a água sem culpa. Já não acreditava na polarização na política, evitava hambúrgueres na loja do palhaço, às vezes abusava do vinho, queria ter mais tempo, precisava de mais tempo, não era justo que tudo terminasse ali daquele jeito, sem que tivesse ouvido sequer um álbum do Led Zeppelin com o maluquinho. “Caralho, tô chamando o cara de namorado. A gente tem que tomar um banho quente juntos. A gente já morre, todo dia. Mas é pior quando a gente se mata, todo dia…” Respira-calma-concentra-respira-calma.

.

Categorias
Comportamento Crônica Freudcast Literatice Paulo-Coelhismo Sem categoria Umbigada Vídeo XXX

Um, dois: feijão com arroz

Parou ali, no Café Gaúcho, na volta de Niterói, aquela cidade escura, e quando percebeu já estava bebendo um. Conseguiu resistir aos sanduíches, aos rissoles, às empadas. A ilha do cafezinho, que mesmo em tempo de pandemia fica bem movimentada, durante o dia, já estava fechada. Era quase noite. Ou já era noite. Tanto faz, como tanto fez. Se desse alguma merda no estômago, como vinha acontecendo, a culpa seria só do goró. Nada de rissoles. Sempre é mais fácil, assim, quando a gente tem certeza do que ou quem deve condenar.

A questão não era complicada. Era aquela escrotice de quase sempre. Dinheiro, trabalho, compromissos, responsas. Outra condenação certa. Para compensar, havia a mensagem do Lúcio, que merece ser chamado de Mister Prata. Oferecendo ajuda, falando dos perrengues que ele mesmo andava encarando, das cervejas que eram cada vez mais raras. A mensagem do Mister Prata tinha sido a companhia ideal para a travessia de barca. Um percurso que, à noite, de Niterói, aquela cidade escura, para o Rio, aquela cidade que é o que mesmo, hein?, bem, de Niterói pro Rio, a mensagem do cara tinha sido a companhia ideal porque vinha recheada de ideias para um zine. Pra um livro. Pra uma conversa.

Foi uma quase-conversa. E serviu para um entendimento importante: não é só no táxi que é difícil digitar ou jogar xadrez, no celular. Na barca, quando a gente faz o percurso entre a cidade escura e a cidade sobre a qual não se deve falar nada, porque é a cidade da gente, deu pra perceber que mesmo com pouca trepidação é muito difícil se entender coa’quele tecladinho. Assim como é muito fácil errar a jogada no xadrez e fazer besteira numa partida que parecia possível vencer.

Não deu pra resistir por muito tempo. Uma empadinha faria, no máximo, o papel de disputar com a bebida o posto de vilã. E a gente não espera isso de uma empada. Quem quer ser vilã ou vilão? As empadinhas estão sintonizadas com o que rola nas redes sociais, querem só parecer boazinhas pra todo mundo. Conseguem. Para um estômago que já estava mesmo embrulhado, tudo bem, né? Uma segunda tulipa. Uma terceira, junto com o pensamento de que uma bala de hortelã seria necessária para evitar problemas. Problema é aquilo que vem depois de um bafo inesperado/inadequado de cerveja. Quer dizer, quando é só um bafo, tudo bem. O problema é isso na cara de outrem.

Pelo que diz o vídeo de agora, no YouTube, as pessoas na Grécia também têm problemas com bafo de cerveja. Como serão as balas de hortelã de lá? Ou o que será que usam para evitar problemas, naquela parte do planeta? Medo de andar errado, uma preocupação extrema, quase paralisia. Não dá pra caminhar e vr vídeo. Porra, mas três chopes, só, e isso ficou assim desse jeito? Foram mesmo só três chopes? A pergunta se repetia mais do que os anúncios no YT, antes de cada música. Na esquina escura-mas-clara, porque era uma esquina do Rio, ou clara-mas-escura, porque era da cidade que de uma maneira ou de outra sempre acolhe. Mesmo que seja uma acolhida para na sequência conduzir a um quarto em que os spankings de revistas alemãs antigas parecerão fichinha diante do placar marcado no lombo do cordeiro. Sete a um. Dez a zero. Um a zero que seja, porque o que vale é ganhar.

Tem sempre alguém dando palpite na orelha da gente. Quase nunca é uma pessoa equilibrada. A gente suporta porque palpite, geralmente, vem baixinho, disfarçado de conselho. Sempre é necessário ter cuidado com os conselhos que pipocam por aí. Alguém que não tem coragem de agir deveria concentrar-se na própria covardia, apenas, em vez de encher o saco do resto da humanidade. Quatro chopes. Cinco chopes. Foram seis. Seis chopes.

Categorias
Comportamento Crônica Freudcast Literatice Sem categoria Umbigada

O sonho do canal próprio

Unboxing? Desencaixotar, desembalar? Até a psicanalista pop-da-moda falou disso. Quer dizer, ela fez isso, comemorando a placa youtúbica que havia recebido pela marca de cem mil seguidores clicantes. O seguidor clicante é melhor do que o seguidor comum. Número não é mais apenas número. Número tem que clicar. Número bom é número que clica — depois claro de uns bons 30 segundos hipnotizado por um anúncio. Décadas atrás, quando se falava em desencaixotar alguma coisa, a gente que curtia um pouco de cinema lembrava de Helena. Era uma época em que você se escondia “tranquilamente” dentro de uma sala de projeção, sem ficar pensando se estavam todos vacinados, de máscara, livres de tosse, com o frasquinho de álcool cheio etc. Helena era a personagem de “Encaixotando Helena” (“Boxing Helena”, de 1993).

Tem sido um pouco mais possível sair de nossas caixas, ultimamente. Dos armários e das caixas, vale dizer, porque parece haver alguma diferença. Vamos considerar como “caixas” as nossas casas, nós que temos casas e reclamamos do frio com a sensação de que estamos prestes a viver um sonho comum na infância de muita gente: morar num país em que há neve. Morar num país em que não haja picaretagem política deve ter sido um sonho de bem menos gente porque parece ainda muito longe de se tornar realidade.

De volta às caixas, quer dizer, ao exterior das caixas: ainda é um pouco preocupante. Passou a época em que você precisava ir a uma sala de cinema com o intuito de sentir medo. Basta ficar na rua. A máscara própria parece um sonho tão distante quanto o da casa própria. Ou o do amor próprio (*). Ponderações classe-medianas, é disso que estamos falando; tá bom, tá bom. Pode atirar a primeira máscara. “O sonho da máscara própria”: está aí uma boa frase, hein!? Veja onde um desencaixotamento pode levar o sujeito. Se já frequentamos shows em que calcinhas eram jogadas no palco, quem sabe chegará o dia em que máscaras terão o mesmo destino…

Por falar em sujeito, além da psicanalista pop-da-moda, outros psis saíram de suas salas confortáveis para ocupar nossas telas. Não se satisfazem/realizam mais com a transferência à moda antiga. Agora, tem que ser no esquema transferência de dados mesmo, porque é outra maneira de fazer um dinheirinho. Claro que não é exclusividade deles. E daqui a pouco pode ser que a gente, mais escabreado ou pouco disposto a encarar um sábado infeliz, evite certas vizinhanças virtuais. Vizinhanças virtuais, sim: onde há calçadas virtuais… Lugares escolhidos por classe-medianos que já não conseguem promover churrascos e feijoadas de aniversário. Pontos em que se derramam em seus discursos sobre originalidade para pedirem aos conhecidos que ajudem a realizar o sonho do canal monetizado próprio. * — Valeu pela inspiração-referência, Agrade Camiz.

Categorias
Crônica Freudcast Literatice Sem categoria

Cartaz

Paulinho chegava sempre com uma fome que parecia mórbida. Pedia a quem estivesse por perto que lhe pagasse um pedaço de empadão de frango. Às vezes, conseguia. Teve um dia em que chegou no balcão, não viu ninguém nas mesas e arriscou com a tiazinha que trabalhava no lugar: “Esse empadão aí tá sobrando, né?” Ela era boa e rápida nas respostas: “Aqui, nada sobra…” Com a barba mais por-fazer do que geralmente mostrava, entregando muitos fiapos brancos, o avoado insistiu. Na verdade, ele não era avoado, mas estava alheio a tudo, inclusive às caras de poucos amigos que a tiazinha tinha na manga: “Mas se sobrar você pode me dar?” O fechamento da conversa veio sem nenhuma vírgula diferente: “Aqui, nada sobra…”

Às vezes, e geralmente isso acontecia à noite, Paulinho andava com um cartaz. Com aquilo, pedia ajuda. Ou achava que estava pedindo. Provavelmente, não era nada escrito/feito por ele. Muitas vezes, a mensagem parecia uma zoação. Como quando trazia a frase “Eu quero casar”. Os observadores mais constantes sabiam que, em momentos de crise, o “maluco” repetia aquela frase. Houve uma noite em que a praça estava recheada de policiais, por algum motivo, e deu para perceber o olhar de que-porra-é-essa-? que alguns dos fardados faziam quando viam Paulinho passar pela calçada, entrando e saindo dos bares, em alta velocidade, gritando isso: “Eu quero casar? Eu quero casar!” A frase do cartaz vinha de algum lugar da alma daquele sujeito.

Talvez fosse lá da alma também que viesse a força para um agudo assustador. Mesmo para policiais em bando. Dava pra ver pelas caras, de espanto, descrença… Aproveitando que se tratava claramente de um “maluco”, os homens da lei ficavam só observando. Paulinho era grandalhão e segurá-lo, para que parasse de gritar ou revisse aquela história de anunciar num cartaz o desejo de casório, não seria fácil. Para quem era do time sem farda mas ficava também só observando, podia surgir alguma pergunta do tipo “De onde vem essa história de o cara andar por aí gritando que quer casar?”. A vizinhança quase não recebia forasteiros, então, de um modo geral, ninguém se assustava com a eventual gritaria. Aguentar a música dos playbas, madrugada adentro, com seus carros abertos, meio que garantindo que ninguém na área ia dormir direito, era mais chato do que testemunhar a peregrinação repetitiva e neurótica do Paulinho.

De vez em quando, surgia uma resposta. Ou era um médico qualquer explicando o comportamento do candidato a noivo ou um morador mais antigo repetindo uma história não muito divulgada: “Paulinho era normal. Até queria casar, como todo mundo, mas era normal. Não ficava gritando isso por aí, não. Empadão, ele comia como todo mundo… Mas ele trabalhava pro pessoal do Bicho e, parece, pegou um dinheiro que não era pra pegar… Levou uma surra que deixou ele assim, meio abobado…” Havia uma outra versão, de que o Paulinho fingia que tinha ficado doido porque, sem conseguir repor o dinheiro, ficar maluco foi a saída para continuar vivo.

Uns “humoristas” tinham criado para o showman da área uma conta num aplicativo de encontros. Entre eles, um advogado que se divertia bebendo por ali e misturando português e inglês. Sempre que via o Paulinho, gritava, num agudo que devia ser comum aos de pouco juízo: “C’mon, Paulinho! Come here!” Numa noite de frio, esse aí deu ao Paulinho uma jaqueta branca. Estava usando a peça, tirou e deu ao solitário do cartaz: “Com uma jaqueta assim, você vai arrumar hoje mesmo um casamento…” Paulinho agradeceu. E na sequência perguntou se podia ganhar também um pedaço de empadão.

Categorias
Arte Beber Cinema Comportamento Crônica Freudcast Literatice Sem categoria XXX

Minguante

Os balcões dão à gente a chance de ouvir muita coisa. Tem muita bobagem. Mas conte também com razoáveis lições de vida. E piadas. De todos os tipos, sendo que a maioria não é razoável, se é que se pode mesmo esperar isso de um chiste. Dava para dispensar as chatices tipo as do pessoal que reclama dos pedintes que “daqui a pouco vão ter máquina de cartão para tirar dinheiro nosso”. Dava também para não ter assim tantas baratas na calçada, porque, ao contrário dos balcões, elas rendem mais gritinhos histéricos do que ensinamentos. Além de quase invariavelmente piorarem o carma da rapaziada que se vale de pesados calçados na condução de esmagamentos atabalhoados e bem pouco cinematográficos.

“É, a gente brigou. É sempre assim, a senhora sabe”, choraminga a moça que, parecendo exausta,  desaba debruçada sobre uma mochila, duas sacolas de mercado e uma quarta bolsa que parece mais pesada do que todas as três primeiras juntas. Quase um acampamento. Ela reclama do marido, numa ladainha que pelo sorriso — debochado? desdenhoso? — a atendente parece reconhecer. E como que para eleger a noite como definitivamente apropriada para a piora dos carmas dos presentes, aquela-que-dá-cervejas-a-quem-pede-desde-que-pague-na-hora coloca uma pilha bem errada: estimula a falação da cliente sofredora. Sob os olhares desaprovadores de todos os outros presentes, que chegam a oito cabeças, porque é um balcão comprido, a reza se estende por uns bons 15 segundos. E, de repente, como acontece nos balcões, o pessoal conseguimos a liberdade, fugindo completamente daquele teaser de novela mexicana.

Nada contra as tramas televisivas daquela nacionalidade. Estão repletas de ensinamentos, assim sem aspas mesmo, e assim como os balcões. Quando acontece de os dois universos se misturarem, aí, olha, aí é um prêmio na loteria. Uma chance de lidar melhor com o desembrulhar do carma. Quer coisa melhor do que perceber o incômodo na voz de um intelectual cachaceiro? Ah, sim, o capítulo que estava em andamento: o beberrão seboso se incomoda com  os movimentos de um outro que, rapidamente, consegue embrenhar-se na prosa de duas moças. Elas, além de darem trela, dão sorrisos, o número do WApp, aceitam cervejas, cobrem de elogios a empadinha já famosa que toparam também como mimo e… E está mexicanizada, a novela do bar. Olhares dos quais escorrem ódios. Falas que desenterram problemáticas antigas. Espetáculos assim não são pra qualquer um. Quem ficou atento ao início mal pode esperar pelas próximas cenas. A noite naquela calçada úmida promete ser quente. O pico deve ficar árido.

Quem está sob a luz da lua, que naquela noite de dança dos agravamentos cármicos é por acaso minguante, tem a chance de perceber a Fiscalização se aproximando. Geral parece saber que é assim, com maiúsculas, que aquele pessoal uniformizado gosta de ser tratado. É quando há uma união, mesmo que rápida, entre o pessoal que acha que está enricando além da conta o dono do bar. Há temor, além de um inexplicável desejo de desafiar a Lei. Referem-se à Lei, assim, com maiúscula, mas com dúvida. E isso aumenta o desejo de pagar para ver. Ainda mais que quem vai pagar mais caro, no fim de tudo, é o proprietário do estabelecimento. Ele preferia que a “brincadeira” ficasse só na questão do carma. Mas nem sempre é assim.

Categorias
Comportamento Crônica Literatice Música Paulo-Coelhismo Sem categoria Umbigada Vídeo XXX

Quem cringe?

Explicar a moda pode ser mais difícil do que entender a estupidez. Tendência é coisa que um dia, quem sabe, vai parar de ser discutida. Pode nem estar longe, isso, porque continua perigoso ficar em mesa de bar, falando besteira e tentando entender a vida. Daqui a pouco, todo mundo desiste disso, dessa história de “entender”. Seja como for, “cringe” segue sendo a coisa que todos — de influencers a antigos “formadores de opinião” — parecem querer escrever/citar. Aliás, todos, não: todEs, né? Vamos brincar de “respeitar tendência”, já que é pra falar de uma, sempre correndo o risco da acusação de deboche. Quer coisa mais divertida?

Pode ser que com aquilo que chamam de “fim do período de retrogradação de Mercúrio”, que estava anunciado para ontem, não como tendência mas como, sei lá, fato, seja possível “mais comunicação e portanto mais entendimento”. Mas é bom ir com calma. Sem cringe, sem crise. Tipo vai ser tranquilo para lavar a louça do almoço, mas pensar na roupa suja são outros quinhentos. Deixe a roupa suja para depois. Siga a tendência que não põe em risco a tua vida. Tome vacina.

Ah, de repente, dá uma saudade de “Inverno sombrio”, d’Os Replicantes.

Tendência e publicidade se misturam? Ou se sustentam? Uma cria a outra? O que o carioca vai fazer com esse frio todo? O que a gente precisa fazer para frear o Tik Tok, pra eles pararem com aquele anúncio em que colocam uma menina para dançar, no quarto? O André Dahmer já fez tirinha falando de dançarinas de Tik Tok, os mais velhos já lembramos de Carla Perez e do É O Tcham. Já deu. O Tik Tok já pode parar. Alguém precisa parar o Tik Tok.

A menina aparece de shortinho, quase sempre de barriga de fora, às vezes de Mulher-Maravilha. Há sequências em que duas outras pessoas se anunciam, no filminho, como que interrompendo a dança da protagonista. Deve ser uma campanha para uma geração muito específica porque a gente que passou pelo medo da guerra nuclear não consegue fazer outra coisa que não seja se incomodar com aquilo. E odiar o Tik Tok. O Tik Tok é a prova de que publicidade pode funcionar muito bem com um nicho.

Vai ter quem diga que este escriba está frequentando ambientes virtuais “errados”. Nem é o caso. O caso de o escriba parar para ouvir isso. É o caso de os publicitários-marketeiros descolados e criativos e extremamente capazes de produzir com baixo custo segurarem a onda. O que nos resta de neurônio serve para lembrar que houve um momento ali na campanha do Trump em que uma “legião de tik tockers” zoou o republicano fazendo com que um comício fracassasse. Esquerdopatas de plantão aplaudimos. Mas agora chega. Ou… Zooom! Zapp! Punch! Cringe!

Categorias
Arte Crítica Literatice Parece Poesia Poesia Resenha XXX

Um poeminha não dói

Detalhe da capa de “Sete poemas de casulo e fuga”, de Carolina Medeiros

“Perder-me / Há de acontecer / A ti / E a mim” É assim que Carolina Medeiros começa batendo em “Sete poemas de casulo e fuga”. Batendo porque isso é sim um tapa na cara e, vá lá, porque o trabalho é todo feito co’uma máquina de escrever. Suspire aí você também. É o tipo de empreitada que faz a gente lembrar prazerosamente de décadas atrás, quando era mais comum ver zines xerocados circulando por aí. Naquela época, anos 80 e 90, de vez em quando, um deles gritava na cara do leitor. Ou, como é o caso deste aqui, chegava ressoando como um tabefe.

A gente precisa de tapa na cara? Por que a gente precisa de tapa na cara? Vamos descartar as respostas que a Polícia eventualmente tenha para nos dar. E também não precisa achar que bater é a meta da autora deste zine. O que não dá pra fazer é ficar sem sentir o que ela provoca.

“Sete poemas de casulo e fuga” tem também umas figuras, no miolo. De casulos. E de insetos. Não chega a ser um pôster central. A gente passa por lá e quer voltar logo para o que está escrito. Mas… CM não é de dar ponto sem nó e… Algumas visitas depois, surge a impressão de que aquilo, ali, de alguma maneira, reafirma a posição “feminista” da artista.

Vamos agora jogar uma luz no detalhe da encadernação: as páginas são presas por uma linha e dois nós. Uma referência aos bordados com que a autora também trabalha? Um mimo? É lá e cá, o negócio: um detalhe fofo, um sopapo. Um mata-leão, um afago/abraço. Atenção!

Dá para dizer que os poemas são densos. Dá para dizer que são confessionais. Lidos de uma tacada, os versos parecem montar um filminho. Com figurino bem pensado/caprichado, claro. Carolina Medeiros capricha. Entre em contato com ela por e-mail: carolamedeiros@gmail.com.

Categorias
Arte Comportamento Desenho Freudcast Literatice Lowbrow Parece Poesia Paulo-Coelhismo Quadrinhos Sem categoria Umbigada XXX

@monteiro4852 #52

Carinha de anjo. “Anjo de cu é rola.”

Categorias
Beber Comportamento Crônica Literatice Paulo-Coelhismo Sem categoria

Boteco Connection #5 — O (mau) cheiro da mudança

Pode não ser muito fácil, pelo menos não para a maioria, o sujeito parar e se perguntar o que mudou num determinado espaço de tempo. Ainda mais numa época em que a cada dois minutos tudo pode estar muito, muito diferente. E se a gente vê dificuldade neste questionamento, como esperar que haja chance — pelo menos para um ou outro maluco — de entender transformações que se construíram por, digamos, duas décadas? Fica difícil, no mínimo, por conta da quantidade de detalhes que podem ter se acumulado ao longo de um período assim tão grande. Né?

Porque, sim, é um período muito grande. Ou ainda é. Mesmo que haja esta velocidade toda, hoje em dia, e essa relativização incessante para qualquer assunto/questão. Tá: mesmo 20 anos atrás, tudo podia mudar em dois minutos. Mas talvez pouca coisa mudasse assim tão rápido. Ao contrário do que (pode) acontece(r) hoje. As mudanças são cada vez mais velozes e assustadoras talvez porque sejam fruto/desdobramento umas das outras. O mundo está pegando embalo. Onde isso vai parar? Isso vai parar? Desacelerar é possível/necessário? Mudança é um troço que se retroalimenta?

Por falar em necessidade, está rolando neste momento o 1.876.987° curso online que oferece a quem teme a fome a chance de entender o “mercado” e se reajustar/reorganizar para voltar a ganhar dinheiro logo agora, antes do fim da pandemia. Vai ser rápido. E pode fazer o pobre ainda resistente aceitar que os balcões de boteco mudaram. E que se, duas décadas atrás, ninguém sequer imaginava que existiria uma coisa chamada “grab’n’go”, isso hoje é uma realidade. Que pode mudar em dois minutos, claro. Mas é realidade…

Uma “prova” da capacidade que as coisas têm de mudar é este texto. Você até pode desdenhar: “Ah, é só uma provinha…” Mas, no início, mesmo sem que se soubesse para onde iria a prosa, não existia ainda nenhuma poeira que parecesse ser capaz de encaixá-lo na série Boteco Connection. Mas nada é garantido, os cursos online estão aí para reafirmar isso (e que tudo depende de planilhas, metas e organização). Pode ser que tudo mude ainda mais. Se vai ser possível entender, aí, são outros quinhentos. Ninguém disse que ia ser fácil.

Categorias
Comportamento Crônica Freudcast Literatice Paulo-Coelhismo Sem categoria Umbigada

Boteco connection #4 — Vender cerveja requer paciência

Era fácil encontrar um traço de saudade, em qualquer crônica que se embrenhasse por botecos. Goró é a droga “permitida”, então, pra muita gente, é sobre ele/ela que se deve/pode escrever. E sobre a relação entre isso e os desdobramentos que podem surgir nas vidas de quem está em volta. Quando o assunto é uma desgraça, porque todo mundo sabe que o álcool provoca muita tragédia, aí a gente não chama de crônica e esquece das vezes em que celebramos a “permissão” que reina por aí. Para quem pode, é bom esquecer.

Antigamente, tinha aquela possibilidade de piada, que era o cara dizer “sou maior e vacinado”, o que parecia deixar clara uma certa “permissão” para pequenas (e às vezes grandes) ousadias. Agora, com a escassez de doses contra o Covid-19, não faz muito sentido recorrer a essa alegoria. E marcar ponto nos botecos envolve um certo risco. Tem isso, também. Risco de vida, pode-se dizer, porque estamos falando da possibilidade de contágio. Não é todo mundo que pode correr tal risco…

Mas os balcões e seus atendentes-terapeutas seguem resistindo. Neste momento, aqui em frente ao escriba, há um desenrolo desses que fazem o calouro querer prestar atenção em todos os detalhes. Vale dizer “calouro” porque, para quem já conhece ao menos de vista o personagem que está ali em ação, sabe que a conversinha picareta se repete sempre e não leva a lugar nenhum. Vender cerveja requer doses gigantescas de paciência.

Mas uma série de promessas/esporros e desculpas, repetidas diversas vezes, seguidas por intervalos com suor, caras-vermelhas e confissões quase choronas merece registro. Enquanto se puder fazer isso dando a outrem uma provinha do gosto que há nesta brincadeira, que se faça. Vamos aproveitar as permissões que temos. Mas com responsabilidade. E antes que seja tarde.

Uma piada não precisa ser repetida inconsciente e insistentemente para correr o risco de gerar risos amarelos. E amarelo não é problema. Nem vermelho. O problema hoje em dia é verde-e-amarelo, isso, sim.