Categorias
Beber Comer Comportamento Crônica Freudcast Literatice Sem categoria Umbigada

Boteco Connection #16 — Legenda

Pow! Bump! Splash! Não era um antigo episódio de “Batman”, aquele do Adam Gordinho West. Eram os oitis. Peraí, que eles merecem uma maiúscula: OITIS. Quem merece uma, leva cinco; fácil, fácil. Feira boa é assim. Então: existiu o “padrão Fifa”, preenchendo os discursos classe-medianos, anos atrás. Agora, vivemos o Padrão-Oiti. Você pode achar que não merece nenhum no próprio quengo, mas… Nesse Rio de Janeiro de Meu Deus,  asfalto marcado e com aquele cheiro meio de azedo… Pow! Bum! Splash! Escapou de três, mas vem o quatro e Zap!

Dois cafés. Dois minutos. Os dois perdidos ou perdidamente alguma coisa. Protegidos dos oitis, ali, embaixo da marquise. Dois loucos, como muitos apontavam. Assunto terminado ou engasgado, tanto fazia, os celulares eram sempre a escolha-continuação óbvia. Se alguém precisa entender o que é zona de conforto, é porque não tem telefone-esperto. Duas redes sociais, cada um na sua. Nada de pagar boleto, naquela hora. E um caldo de ternura de repente encharca o aparelhinho. Era uma foto do falecido Seu Fred.

A imagem tinha aparecido num dos 200 grupos de WApp que recheiam a vida da gente que se presta a internetices. Tem até quem fique triste com fim de grupo de WApp. Pow! Bum! Waaap! Tem gosto pra tudo. Tem tristeza pra tudo. Naquele grupo, em 20 minutos, a foto do Seu Fred já havia alcançado 22 coraçõezinhos , meia dúzia de joinhas e três palminhas batendo. Parece que não existe emoji de oiti.

Na imagem, além do falecido, apareciam Didi, Sassá e Vampirão, sendo que este último mostrava-se meio deslocado, na fita; garantindo ao registro uma certa descontração. Vampirão ainda não era conhecido assim, quando aquela foto foi clicada. Tira uma onda, ele, hoje em dia, declarando xeque ao celular e ao papel que o aparelho ganhou nas relações. Vampirão não usa PIX e faz disso uma bandeira. Bandeira 2, porque ele cobra caro pelos cigarrinhos de artista que descola para os mais cascudos.

Seu Fred morava no Complexo 591, o maior prédio/condomínio do bairro. Diziam que aquele lugar fazia o papel de um Google da vizinhança, porque ali era possível encontrar de tudo. Era de onde vinha o Seu Fred, segundas, quartas e sextas. Não precisava digitar nada: ele aparecia. Tinha um horário mais ou menos certo, pra isso acontecer. A vida da gente é feita de WApp, de um Google às vezes “próprio” e de uma saudade inexplicável. E parecíamos estar todos satisfeitos assim. Três minutos depois, 25 coraçõezinhos. Pow! Bum! Womp!

Categorias
Comportamento Crítica Crônica Música Resenha

Salve, salve, Chico Chico

Na Grande Bolha Classe-mediana, Subdivisão Metida a Besta a.k.a. Algo Intelectualizada com Pretensões de Descolamento, Microbolha dos que se adiantam para fazer valer a expressão “Sextou!”, só se falava no show do Chico Chico, no Clube Manouche. Em Laranjeiras, nos arredores da São Salvador, um dia antes da apresentação do filho da saudosa Cássia Eller, alguém comentava: “Chicão? Era da sala do meu filho, no CEAT… Fio desencapado, esse moleque. Mas muito talentoso!” Na Tijuca, na São Francisco Xavier, também foi possível pescar comentários a respeito de Francisco Eller: “O show é muito bom. Já vi no Smoking, na Lapa. Agora, acho que só em casas maiores. Tá crescendo. Ninguém segura.” Na noite de sexta (07/07), data em que se celebra(va) entre umbandistas e simpatizantes a força do “malandro” Zé Pilintra, Chico Chico fez bonito. O garoto sabe jogar. Tem que respeitar.

Pessoas de 40 e poucos anos tiraram do armário suas jaquetas de couro e foram até o Jardim Botânico para ver o espetáculo. O ambiente lembrava um pouco o extinto Ballroom. Parecia uma versão reduzida daquele antigo pico do Humaitá, incluindo gente chata às vezes falando alto demais perto do bar. Não chegaram a atrapalhar. Foi divertido ver levarem um susto quando o fio desencapou no entorno, quer dizer, quando Chico Chico desceu do palco e um corredor se abriu para que ele desse uma corridinha, microfone em punho, do palco até os arredores dali de onde se comprava cerveja e outros drinques. Aliás, quantos drinques coloridos, gente; parecia até festa de casamento. Mas o pessoal das jaquetas de couro parecia gostar. Espumante, não, não se via. A cerveja estava bem gelada, pelo menos.

Mas não era só quarentão, na plateia.  Entre os videomakers havia também gente mais nova. E eram estes os que pareciam estar mais afinados com o artista. “Ribanceira” e “O tempo nunca mais firmou” podiam dar a entender que a noite seria de introspecção. Mas “Amarelo amargo” apontava outro caminho. Outros caminhos. Um dos pontos altos da noite. Dava para lembrar um pouco dos primeiros shows do Cordel do Fogo Encantado, no Rival. Não só pela performance do rapaz, mas, também pela poesia — é, poesia — que ele oferecia. Havia firmeza, malandragem e poesia, naquilo que ele entregava ao pessoal que levantava os celulares para registrar o que estava acontecendo.

O momento Chico César  (“Béradêro”) foi outro de arrepiar. Aliás, o garoto soube escolher bem o que levar pros jovens e tiozinhos do Manouche. Tirou onda de grande intérprete com “Norte”, de Carlos Posada. Foi tocante ouvi-lo cantar que “as coisas acontecem / de uma hora pra outra / mesmo que demorem / a vida inteira para acontecer”. Nem precisava daquela coisa de dividir a plateia em duas, durante esta música, para que cada metade repetisse uma parte do refrão. Se houve um vacilo do malandrinho, foi aí.

Chico Chico soube escolher bem as companhias. Caio Prado, uma das participações especiais do show, com sua “Cantiga de Erê” (parceria com Jean Kuperman), estava no palco para um outro grande momento da noite: ajudou o amigo na brincadeira de alternar climas.  Todo mundo gostou. Salve Zé Pilintra. Viva a malandragem. Salve, Chico Chico.

(Foto de Catharina Rocha)