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Chocolate

Pode ser preciso ter sangue beeem frio, e muito amor, pra desenrolar sobre futebol com o Tiago Velasco. Isso, no caso de o interlocutor torcer para um time diferente daquele defendido pelo autor de “Naturezas-mortas” (Editora Cachalote). Mas foram tantos os dribles, gols e assistências vistos aqui nos 40 lances do livro que um clima de pelada deve apoiar a construção de uma bastante merecida crônica/resenha elogiosa. É em alguns sentidos um risco, claro, mas quem não chuta não marca. O paralelo ainda joga luz sobre uma, digamos, charmosa sisudez que de vez em quando surge na obra e ajuda a segurar o leitor-torcedor — além de conduzi-lo com segurança para aquele bom mastigamento psicanalítico de capim com que a gente tenta levar a vida. Tem jogada que serve para deixar o malandro pensativo.

Os dribles. A gente quer ver gol, mas drible… drible também é muito bom, cara. Velasco faz isso, por exemplo, deixando o público na dúvida sobre o que ele estava espiando quando elaborou cada um daqueles textinhos. Quais foram os problemas que não tinha conseguido deixar fora do campo, quando juntou papagaio, uma senhora e Julio Iglesias? Por que demorou a bicar a bola, quando quase preencheu uma página (coisa que só acontece duas vezes)? E quando parece que entendemos alguma coisa e não vamos cair nem tampouco seremos deixados para trás, num próximo confronto, a brincadeira parece mudar. Sutilmente. Ele pode não estar jogando, mas falando do jogo de alguém.

É preciso fugir da comparação com redações de escola, quando põem a gente para escrever sobre os mais diversos assuntos que não são tão diversos assim. Parece que às vezes o autor está lendo/zoando um manual. Ou oferecendo um. Um manual. Assim como fica claro que um certo punhado de linhas veio da capa ou da publicidade impressa numa revista antiga. Despretensioso? Não é. Quem também escreve percebe isso de pronto e pode ficar pensando se ele de cara fez textos maiores para, em seguida, ir enxugando tudo. Resta a sensação de que essa poda, se foi o que aconteceu, acaba abrindo janelas.

De cara, “Naturezas-mortas” parecia pegar carona numa brincadeira que rolou,  meses/anos atrás: “Words Only Instagram” (Insta só de palavras), que se explica pelo próprio nome. Termina mostrando-se bem mais do que isso. Soa “velho”, ao sugerir um flerte com outro jogo, o (quase-)falecido Palavras Cruzadas. Quando foi que você leu “oblongo” pela última vez? As palavras, claro, são peças-chave, na brincadeira. Porque ao se repetirem aqui e ali parecem criar uma unidade, juntar os pedacinhos. Na cabeça do leitor que quer achar coisas, assume papel de tática. Jogo é jogo. Então, deixa o cara jogar.

Os textos são elegantes/comedidos/curtos e não se deve resistir à tentação de retornar ao início deles na tentativa de extrair alguma coisa diferente/nova. Como quando se volta o vídeo até o momento em que o placar foi aberto. Por que negar-se este prazer? Afinal, há a cada fechamento a sensação de que podemos ter perdido algum detalhe. É bom perceber um flash de “terror”, uma graça que parece não existir pra fazer alguém rir. É bom sacar um troço ali no miolo, e da arquibancada meter um “Tá, mas e daí?”. É massa isolar uma frase que faz todo um parágrafo valer a pena ou, talvez ao contrário, sentir espaço se abrindo para alguma “dissonância” ou uma dose de “impaciência”.

Estamos diante de um sujeito que é bem mais do que candidato à vaga de redator-chefe-de-legendas na “Folha de S. Paulo”. Só lá pra ter um cargo assim (modo irônico ligado, tá?). Seria um novo patamar para as legendas (agora, modo sonhador). Mas o Velasco quer é driblar e fazer gol. Deixa o cara, deixa o cara jogar. E seguimos aguardando uma próxima aparição dele em campo.

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A gente que desenha #3

Aquele papo de Natal e fim de ano. Festa, festa, festa. Inclui fácil, fácil, uma última aula. Um último chocolate. Peraí, vamos nos resguardar com as aspas: “último”. Em meses como dezembro, a gente tende a não lembrar de começos. Quando despertou o interesse pelo desenho, pelo café, pelo chocolate, pela…? Não. A gente só sente o tempo passando, chances — se é que podemos chamar assim — escapando. Um tantinho de aprendizagem. Num grupo de estudos, o sujeito é capaz de sentir também que algumas “verdades” flertam com o “absoluto”. A hora de parar, por exemplo. De considerar o troço pronto. Serve tanto para texto quando para desenho.

Nem sempre é fácil, ou mesmo possível, decidir isso. Aí, vem o outro lado da moeda. Ou mesmo outra moeda. Alguém sugerindo que se revisite um determinado trabalho, que ali ainda há (n)o que mexer. Qualquer estômago embrulhado, ar de dor de cabeça, desconforto-sem-nome pode surgir daí. A existência de uma hora “certa” para terminar alguma coisa não significa que todo mundo vai concordar com o momento em que essa necessidade surge.

Você está preparado para uma sentença/sugestão como “Vamos refinar as coisas, hoje… Nesse antigo mesmo… Em vez de começar um novo…”?

Para o que você se preparou? Está tudo OK para participar da foto da turma, com iluminação dirigida por alguém que se preocupa com luzes e sombras? Está relax para deixar os cliques acontecerem? Será capa de sorrir? Numa sala repleta de artistas e observadores natos, o que ficará evidente na pose da turma? Os que os sorrisos dirão? O que a luz dirá? O que as sombras dirão? Apertos de mão fortes. Sorrisos repetidos e ao mesmo tempo ímpares. Abraços. A lembrança de um desenho que representa uma vitória, ou, ao menos, um passo dado.

Ah, as sombras. Fim de ano é dia de lembrar de frases marcantes. Tipo “Core shadow é onde a sombra canta”. É dia de rir com piadas toscas: “A pessoa se mexe porque é aula de modelo vivo… Se não mexesse, seria modelo morto…” É tempo de esperar que as informações se assentem, que deixas ganhem corpo, que vibes circulem. Que chocolates estejam sempre presentes. É dia de no caminho procurar novos sentidos para o que está rabiscado ali nos velhos sobrados da Gamboa: “Vento / Vem me trazer / Boas novas”.

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Chocolate para todes

“De doce, basta a vida.” Estava aí uma provocação com a qual havia se acostumado. Pensava frequentemente no que motivava e tornava tão recorrente aquela zoação. E — sempre! — antes de concluir qualquer coisa, estava abrindo um novo tablete de chocolate com pelo menos 65% de cacau. Tinha que ser com mais de 65% de cacau. Eram constantes, as idas ao mercado, em busca daquelas belezinhas. Ria com a satisfação de quem não precisa de muito trabalho para livrar-se de uma chacota. Depois, ria por ter esquecido de trazer arroz e batatas. Em seguida, ria ao olhar para os chocolates. Sim, de doce, bastava a vida. De amargos, os chocolates.

Revisitava momentos, através de sabores. Era percorrendo estes mesmos caminhos que entendia/tolerava posicionamentos políticos, as declarações da diarista e do tio militar.Talvez pudesse considerar-se um doce. E, como se fosse pouco, experimentava emoções às vezes contraditórias. Sentia-se assim capaz de viajar no tempo e no espaço. Um parágrafo, quer dizer, um minuto depois, sentia o flerte do esgotamento, e aí para refrescar a cabeça duas possibilidades se apresentavam: algum artista espanhol pop e obscuro, como se fosse possível ser as duas coisas ao mesmo tempo, ou, o que era mais confortável, um pouco de Tchaikovsky.

Arriscou levar uma criança da família ao cinema para assistir ao “Wonka”. Férias pedem isso, afinal. Não queria admitir que o tema do filme havia exercido forte atração. Chorou junto com provavelmente 90% da sala escura quando o protagonista sentenciou que o segredo de uma barrinha de sucesso não é o que há na lista de ingredientes e, sim, as pessoas com quem a gente compartilha aquilo.

Enquanto disfarçava lágrimas, Solar e Ascendente trouxeram à pauta uma campanha que talvez acabasse com o império das pipocas nos espaços de exibição de filmes. Era do tipo que elabora muita coisa ao mesmo tempo. Desistiu logo porque os chocolates estava bem, obrigado, não precisavam de campanha nenhuma. E nem dava tempo de levar aquilo adiante porque os frilas da semana tinham sido tantos que haviam posto em xeque a aula de desenho. Uma aula importante, em que estava estudando perspectiva com um Toblerone.

Um intervalo, um gole de água. Porque todos precisam de intervalos. Um rolé numa noite de sábado. Umas batatinhas fritas aqui, uns pastéis de camarão com catupiry ali. Mais água. A melhor coisa para quem vai ter que dirigir. Um passeio que se estende precisa incluir no planejamento uma passagem pelo mercado 24h, porque é lá que se pode encontrar… chocolate. Se não for assim, não tem (tanta) graça.

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Conto Literatice XXX

Chocolate

Ela chegou, sorrindo, e depois de tirar o tênis, a máscara, passar álcool pelos braços, pelas orelhas, pelo cangote e de tirar também a camiseta e o short, disse: “Trouxe uma coisa pra você.” Seguiu removendo as peças mais íntimas, aí dispensando o líquido higienizante, porque aquilo tudo estava coberto por tecidos que devem proteger de alguma maneira. “Ar fresco”, completou, uns bons minutos depois de ter começado a falar. Estava se dirigindo à plantinha, que ficava no início do corredor que não era bem um corredor mas que levava à cozinha. Tinha voltado da primeira caminhada desde o início da pandemia. E arriscou fazer aquilo, mesmo com uma dorzinha no joelho, porque precisava trazer ar fresco para dentro de casa.

As janelas andavam ficando mais fechadas do que abertas. Quando percebia isso, lembrava de uma decisão tomada logo depois que o vírus tomou conta do noticiário. Não conseguiria escrever num papel que decisão tinha sido aquela. E pensava nisso, na impossibilidade de transcrever a coisa, porque tinha tido essa vontade. Não se assustou com sua incapacidade. Mas ficou pensativa. Achava que tinha percebido a primeira pontada no joelho direito bem neste instante, o instante em que não conseguiu escrever o que tinha decidido. Naquele dia, fez um desenho que decidiu prender com fita crepe na parede do corredor que não era corredor, perto da planta a quem dava ar fresco depois de voltar daquela esplêndida primeira caminhada.

Pesquisou “joelho”. Pesquisou “dor”. Pesquisou “caminhar”. Pesquisou “pandemia”. Pesquisou “vítimas”. Pesquisou “prefeito”, mas desistiu desta e antes que o resultado aparecesse pesquisou “bdsm”. Pesquisou “mulheres dominadoras”. Pesquisou “sagitarianos”. Pesquisou “compatibilidade entre os signos”. Pesquisou “tarot” e “tarô”. Pesquisou “trabalho voluntário”. Pesquisou “mudança de carreira”. Pesquisou “solitude”. Pesquisou “Cem anos de solidão”. Pesquisou “delivery japonês botafogo”. Pesquisou “saquê”. Seguiu pesquisando, até que o interfone tocou e percebendo que já era noite colocou máscara, armou-se com o borrifador de álcool 70 e foi até a porta receber a comida e o saquê. Tinha sido dia de ar fresco. Achava que podia ser uma noite de peixe fresco.

Começou uma série. Estava disposta a maratonar. Não maratonava havia já algum tempo. Maratonar tinha perdido a graça, se é que algum dia teve graça. Sorriu satisfeita, olhando pros sashimis. E a satisfação escorria do sorriso porque o saquê era uma bebida danada de boa para contribuir com isso, com sorrisos de satisfação. Sentiu saudades de caipisaquês de lichia. Pensou nas estações do ano, achou que lembrava de ter visto lichia nas feiras em dezembro, época de natal. Mas não quis pesquisar aquilo. Enquanto colhia ar fresco, mais cedo, havia decidido só pesquisar uma vez por dia. Ficou pensando que talvez pudesse complementar aquela decisão, acrescentando um limite de horas ou assuntos para mergulhos no computador.

Foi como um insight: “Essa dor no joelho pode ser de ficar demais no computador, com a perna cruzada… Não é bom pra circulação, isso…” Sentiu-se aliviada e sorriu o melhor sorriso do dia, melhor do que quando disse à planta que lhe tinha trazido de presente ar fresco. Derramou o restinho de saquê num copo quadrado, com bordinha larga para quem quisesse colocar sal, ali, na beiradinha. Gostava de saquê com pitadinhas de sal, e se sentia uma personagem de série enquanto fazia isso. Estava de novo sem roupa e pensou em quanta gente gostaria de vê-la daquele jeito.

Lembrou dos chocolates que namorava de vez em quando e que mantinha guardados no armário da cozinha, quase escondidos. Do lado de fora, deixava as barrinhas de cereais. Pensou em pesquisar sobre calorias, fazendo rapidamente um cálculo importante, pro qual o resultado era que gastaria menos tempo ligando o computador do que tentando ler o que estava escrito no rótulo de cada embalagem. Lembrou-se da decisão tomada naquele dia. Nada de pesquisas. Não havia decidido nada ainda sobre o consumo de chocolates. E mesmo sem digitar ou ler nada achou que comer um docinho ajudaria a curar o joelho. Desejou ter mais saquê.