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Vai vendo, vai vendo

Não foi à toa que o grande Paulo Leminski escreveu: “Não discuto/Com o destino/ O que pintar/ Eu assino”. Sempre valeu a pena estar atento ao que propõem os versos daquele nobre e saudoso samurai curitibano e… E você pode escolher também não tretar com o Doutor Destino se ele providenciar um clássico para ser revisitado. Só mesmo Doc Dest para numa festa junina inventar uma barraquinha em que se oferece por dez pratas o assustadoramente maravilhoso “1984”, de George Orwell. Aproveitando todo esse clima de distopia que atualmente nos embala, mais a apresentação do professor Clóvis de Barros Filho, anunciada na capa do livro, não poderia haver investimento melhor para aquele dinheirinho.

Merece ser relida, uma obra que impressiona um então-jovem da Geração X e contribui com as desconfianças que ele tem da sociedade. Todo mundo sonha com algum alívio, hoje, e, vai que a maturidade ajuda, numa releitura, a enxergar as coisas de um jeito diferente. O noticiário está aí, com todo esse papo sobre a-História-que-se-repete, impérios que caem, e, portanto, tudo bem tentar (re)elaborar as coisas. Nos poucos minutos do dia em que às vezes conseguimos fugir da tela do celular, o Big Brotherzinho safado que na atualidade nos consome, um livro assim se apresenta como ótimo recheio para o pouco tempo que sobra…

Fala-se muito de memória, na obra de Orwell. E, sim, mesmo nesta piscina de insensibilidade e embrutecimento em que a gente flutua, ainda é possível se agoniar com a história de Winston Smith. Winston? Smith? Winston Smith? Já que estamos flertando com a tentativa de reelaboração e, em consequência disso, religando pontos, vem à tona o nome do artista que fazia muitas das colagens das capas e encartes dos Dead Kennedys. É muita big-brodagem perguntar sobre isso ao Google, para saber se aquilo era um nome ou um pseudônimo. Faça você o trabalho sujo, se quiser. Os Kennedys citam “1984”, num dos clássicos da banda, “California über alles”. Aproveite para procurar também e ler alguma coisa sobre outro personagem, o Ranxerox, aquele mesmo, o dos quadrinhos criados por Tamburini e Liberatore e que os X-revoltados conheceram-consumiram aqui graças à revista “Animal”. Numa crônica, violência pouca é bobagem. Entre outros bons motivos para reler um troço importante como “1984”, décadas depois da primeira incursão, estão as novas referências que surgem, se acumulam e parecem contribuir muito com a liquidificação do cérebro do leitor.

Falar em massa encefálica triturada parece bem Gen-X para você? E máquinas de tortura com ponteirinhos que vão de zero a cento e poucos, também entram nesta categoria? “1984” não é sobre suspense ou terror freddy-kruegeriano-barato. Se pá, sobre verdades. Ou ainda sobre fantasmas. História, quem sabe… Pode servir para o leitor de umbigo angustiado com os rumos do planeta. Nos dias de hoje, precisa ser lido e relido e a Psicanálise — tão em alta no YouTube e entre classe-medianos que querem se cuidar e lidar melhor com a Dona Culpa — devia recomendar isso. Não que o queridinho deles, o também maravilhoso “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse, não valha o hype. Mas variar não custa nada. Ou pode às vezes custar só dez pratas…

Entrar numa de marcar trechos em clássicos pode dar muito trabalho para o leitor mais apegado. “1984” oferece muitas máximas para artistas registrarem em muros e — melhor, hein!? — viadutos de qualquer grande cidade.Tipo “Ninguém jamais toma o poder com a intenção de abdicar dele”. Ou “O objetivo da tortura é a tortura, o objetivo do poder é o poder”. E aquela que já vimos em muitos zines punks dos Anos 90: “Se você quer uma foto do futuro, imagine uma bota pisando em um rosto humano… para sempre.” Para quem acha pessimismo demais, bem na época em que Saturno-ou-sei-lá-quem entra em Áries, olha, a saída pode ser reclamar com o pessoal da barraca da festa junina. Mas não adianta ir agora. Só em junho, se até lá ainda houver clima — ou mesmo mundo — para celebrações deste tipo.

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Seja pvc

Mais uma daquelas cenas em que as pessoas se encontram, demonstram pra começar algum entusiasmo e vão invariavelmente murchando abrigadas/protegidas dentro de suas máscaras e amarras pandêmicas. A estas, uma boa dose de Bruce Lee! O cara que já se foi mas em vídeos nos explica que a água deve/pode tornar-se a garrafa. E este espaço todo que anda ficando entre as pessoas, este void/vazio que parece ser impossível de preencher, hoje em dia, como a gente vai resolver isso, depois da vacina? Como, Bruce? De onde você estiver, mande uma resposta ou um sinal. Será esta a grande transformação pela qual vai passar a classe média, a tomada de consciência a respeito do vazio que mais do que nunca HÁ entre as pessoas?

Claro que não, né, porque esperar que o classe-mediano-mediano experimente um insight qualquer, mesmo dos pequenininhos, e perceba seu lugar no mundo, antes ou depois da pandemia, tanto faz, é esperar demais. Está aí, o novo grande ensinamento pandêmico é este, a grande queda da ficha é: “O idiota classe-mediano não vai aprender nada mesmo, porque ele não veio ao mundo para aprender. Ele bebe uma cachaça e fala besteira com o peito estufado. E só.” Quer dizer, aprende, sim, uma ou outra música de torcida, um ou outro passinho de dança, e o estrangulamento básico — porque não basta alimentar-se bem, é preciso praticar um esporte maneiro para conseguir encarar este mundão de meu Deus.

É justamente do vazio que falava o cozinheiro desempregado, ali na mesa ao lado. Ele acredita que “os restaurantes vão precisar se reinventar”. E depois de declarar de peito também projetado pra frente suas crenças básicas, aos quase-aglomerados tasqueiros em derredor, ele pode ter deixado muita gente em dúvida sobre quantos vídeos no YT precisou ver para chegar a esta conclusão. A pergunta seguinte também é básica para os dias de hoje: quando ele vai começar o seu próprio canal naquela rede? É mais fácil ser showman do que fazer batatas fritas decentes? Há quem acredite que sim. O que será que Bruce, lá de onde ele está, tem a dizer sobre essa dicotomia?

Por falar em batata frita, o segredo para muitos candidatos à fama parece ser este: transformar-se numa espécie de salgadinho. E na Grande Lanchonete Universal do Reino do Entretenimento seguir se movimentando para que as pessoas babem de vontade de morder algo todas as vezes que te percebem na tela. Simples assim. Vale dizer que por trás de uma batata-frita-style muitas vezes há técnicas surpreendentes. No próprio YT, você vai encontrar receitas que dizem que o segredo é fritar duas vezes. Há muitos segredos por trás de uma batata. Imaginem o que nos escondem os pastéis, hein!?

Está aí uma instituição que perigou sumir do mapa, ou pelo menos das feiras, nestes tempos de Covid. Foi estranho ver rolos e mais rolos de plástico finíssimo envolvendo as barracas que servem caldos de cana, pastéis e hoje em dia também quibes e bolinhos de bacalhau. Agora, é estranho testemunhar que aquela barreira já foi dispensada. De repente, é isso, hein… Lições da pandemia… É com filme de pvc que vamos “amenizar” o danado do vazio. O que Bruce Lee diria sobre isso?