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Um poeminha não dói

Detalhe da capa de “Sete poemas de casulo e fuga”, de Carolina Medeiros

“Perder-me / Há de acontecer / A ti / E a mim” É assim que Carolina Medeiros começa batendo em “Sete poemas de casulo e fuga”. Batendo porque isso é sim um tapa na cara e, vá lá, porque o trabalho é todo feito co’uma máquina de escrever. Suspire aí você também. É o tipo de empreitada que faz a gente lembrar prazerosamente de décadas atrás, quando era mais comum ver zines xerocados circulando por aí. Naquela época, anos 80 e 90, de vez em quando, um deles gritava na cara do leitor. Ou, como é o caso deste aqui, chegava ressoando como um tabefe.

A gente precisa de tapa na cara? Por que a gente precisa de tapa na cara? Vamos descartar as respostas que a Polícia eventualmente tenha para nos dar. E também não precisa achar que bater é a meta da autora deste zine. O que não dá pra fazer é ficar sem sentir o que ela provoca.

“Sete poemas de casulo e fuga” tem também umas figuras, no miolo. De casulos. E de insetos. Não chega a ser um pôster central. A gente passa por lá e quer voltar logo para o que está escrito. Mas… CM não é de dar ponto sem nó e… Algumas visitas depois, surge a impressão de que aquilo, ali, de alguma maneira, reafirma a posição “feminista” da artista.

Vamos agora jogar uma luz no detalhe da encadernação: as páginas são presas por uma linha e dois nós. Uma referência aos bordados com que a autora também trabalha? Um mimo? É lá e cá, o negócio: um detalhe fofo, um sopapo. Um mata-leão, um afago/abraço. Atenção!

Dá para dizer que os poemas são densos. Dá para dizer que são confessionais. Lidos de uma tacada, os versos parecem montar um filminho. Com figurino bem pensado/caprichado, claro. Carolina Medeiros capricha. Entre em contato com ela por e-mail: carolamedeiros@gmail.com.

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Cheiro de diversão, digo, treta

O Zé continua Sem Nome e Em Forma. Deu à luz “Cheiro de treta”, faixa que vem com participação dos ilustres Junior Abreu e Marco Homobono. O lance nasceu, segundo Zé Felipe, a.k.a. ZSN, porque “o pessoal dum coletivo lá de Curitiba pediu uma inédita pruma coletânea”. Quer dizer: em Curitiba há, sim, pessoas a quem devemos agradecer por alguma coisa.

Você passa um tempo sem ouvir o clássico “Parece Rap” e este distanciamento te dá — se ainda não tinha certeza — o que é preciso para concluir que, sim, se trata(va) de um troço muito louco e muito bom. “Cheiro de treta” mantém o nervosismo, uma avalanche de palavras que não é um simples caô verborrágico, mas, sim, a tradução de uma postura (somente sonora?) peituda de quem parece estar chamando o ouvinte para uma porrada.

Seguir a letra requer concentração. Dá para identificar um refrão, ali, mas vai transcrever, na intenção de fazer uma texto-resenha. Dá pra sacar bem o coro com as respostas do Homobono e do Abreu, quase construindo a cena de um baile funk-charme apocalíptico. Vai; tenta, aí. “Cheiro de treta no ar, acho melhor nem falar nisso, a gente zoa e pede desculpa, (…) uns passinho e vamos dançar…”

Tudo pautado por um certo desprendimento, um descompromisso, uma leveza que tempera a música com “atitude” e revela uma poesia mucho-mucho-loka. Pode rir. Porque o Zé é isso, é pra te fazer rir. Te divertir. E fazer pensar. Pelo menos um pouco. Elaborar, sabe? Se não for pra isso, melhor procurar alguém “com nome”, correndo o risco de perder toda uma diversão.

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Gelatina sempre super punk

A sociedade estadunidense não aguenta por muito tempo uma pedra em seu sapato. Coloca essa pedra na cadeia. Ou se acostuma a ela, transformando-a em objeto de consumo e exemplo de que a Democracia deles funciona. Jello Biafra conseguiu não mofar atrás das grades, sob a acusação de distribuir material inapropriado para menores. Aconteceu, quando éramos todos jovens, por causa do encarte em “Frankenchrist” — lembra? Só o título do álbum, num período da História em que havia mais tutano inclusive entre os reaças, já era motivo de muita falação/preocupação. O Senhor Gelatina nunca parou. À sua “aglomeração” mais recente, que já vem de alguns anos, deu o nome de The Guantanamo School Of Medicine. Esteve no Brasil, ele, com esta banda, e pudemos vê-lo no palco usando uma roupa pintada de maneira que fazia parecer que ali há sangue… Quem sempre foi fã dos Dead Kennedys não tem do que reclamar em relação à pérola recém-lançada por JB & TGSOM: “The last big gulp” (algo como “O último grande gole”).

Falar de um “lançamento”, nestes tempos internéticos, é uma coisa estranha ou, no mínimo, bem diferente. Com a avalanche de informação, é certo perceber o tempo demasiado curto para dar conta de tanta coisa. Estamos falando aí de uma impossibilidade; tá ligadx, né? Mas… filtrar uma música assim é um remedinho para matar saudades de uma época em que a audição de uma faixa (um single) ou um álbum tinham um impacto diferente nos ouvidos e nos corações do público. A Alternative Tentacles, já há algum tempo, rendeu-se ao marketing digital e manda informativos por e-mail avisando sobre seus lançamentos. E um dos mais recentes tem a ver com Mister Gelatina em pessoa, mesmo que ele não apareça no “clipe”. Ah, sim: falar em Alternative Tentacles pede que se faça uma alusão ao excelente slogan da gravadora: “Tormenting the stupid since 1979”. Numa tradução livre/carioca, fica algo do tipo “Zoando os manés desde 1979”.

“The last big gulp”, mesmo vista e ouvida no YouTube, consegue prender a atenção do velho fã do punk californiano oitentista. A sobreposição de imagens aparece pro quarentão/cinquentinha como uma referência direta às colagens de Winston Smith, o cara que fez o Jesus crucificado em dólares na capa de “In God we trust” e tantas outras coisas boas a partir da teoria do corte-e-cole. Em algum momento do vídeo, a gente pode ver o Trump com o rosto preenchido por arame farpado, numa nova versão para a capa do já mencionado “Frankenchrist”. Fazendo questão de ser bem atual, Ani Kyd Wolf (que aparece nos créditos como criadora do vídeo) nos mostra um monstrinho verde que — adivinha! — é o nosso já velho conhecido Corona Vírus.

Trump é uma das grandes “estrelas” do filminho. Surge sacaneado de várias maneiras. Mas o vídeo é mais do que um míssil na retaguarda do republicano. É uma semente de pesadelo da cachola do classe-mediano que tira alguns minutos do dia para preocupar-se com questões ambientais. Quando esteve no Brasil para o lançamento de um livro no qual era um dos personagens mais importantes, Jello Biafra aproveitou para soltar a voz, na Eco-92. E uma das coisas que comentou na época era que estava representando o Earth First, grupo então conhecido por ações de “terrorismo ecológico”. A palavra “terrorista”e suas variações ainda não causavam a preocupação que despertam nos dias de hoje.

Assistir ao vídeo de “The last big gulp”, na mesma medida em que diverte a gente e preenche o cérebro com uma pitada de fúria construtiva pode dar a sensação de que a luta está perdida. Termine de ver o troço e depois, veja se é capaz de decidir onde vai arquivá-lo: em “Viagem a um passado feliz” ou “Projeção de um futuro sombrio”. Esperava o que de Jello Biafra?

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Bem-vindos ao caos (porque há muito amor aqui)

Zé Sem Nome fez um favorzão a todos nós, nestes tempos de pandemia: lançou no sapatinho um segundo álbum. Parece estar — o que é um direito dele — tirando aquela onda de “Ah, tinha material sobrando…” Agoniado, bem-humorado, poesia-tapa-na-cara, porradeiro… Assim é “Falando com as bases”, que vem à luz podendo ser considerado tanto sequência quanto tipo um complemento do anterior — o sensacional “Parece RAP”, de meados do ano passado. “Fala javanês” foi eleita pelo ex-baixista do Zumbi do Mato, o agora Zé Sem Nome, como o primeiro single. Está lá no Spotify, para quem quiser ficar de boca aberta.

Na pasta das “crônicas”, além da primeira música de trabalho, você pode colocar “Rei Momo” e “Protesto R.J.”. Nesta, tem uma frase lá que pra muita gente define como poucas a cidade outrora maravilhosa: “Essa merda é o Rio de Janeiro.” A despeito do exagero, porque é também uma cidade onde surgem artistas inquietos e cheios de verdades pra jogar nas nossas caras, só esta sentença já dá vida à música. Mas o negócio vai muito além. “Rei Momo” é bem-humorada: você pode rir por exemplo quando ele anuncia um solo de guitarra.

Por falar em verdades, ente encarar “Amor perfeito”, uma bela prova da firmeza do discurso do cara. Nesta, o ouvinte tem a chance de imaginar ZSN como um bamba daquele esquema que há algums anos estava tão na moda, o stand-up comedy. Neste segundo disco, é um dos melhores momentos dele como intérprete, com plins e plons que os teóricos aí da vida podem até chamar de referência oitentista.

Falar de amor amor mesmo é coisa que ele faz mais em “Swing loco”, que com um título assim pode de cara ser julgada como uma… sacanagem! É isso sim um mergulho na poesia. Pode rir, pode desconfiar, leitor(a), mas tem isso. Versos como “Sexo sem camisinha / Brincadeira de canibais / Swing loco…” fazem a gente pensar que Zé está in love. Apaixonado pelo caos (?). Talvez. “Swing loco”, “Ilhas” e “Sopa de piranha” são parcerias com Renato Pittas, que já deixara sua assinatura na melhor faixa do lançamento anterior (“Lost”). A capa desta vez traz a marca de Márcio Jr., integrante da banda Mechanics e manda-prender-e-manda-soltar lá em Goiânia.

“O povo tá doente” não faz de ZSN uma Mãe Dinah de última hora. Com sua melodia, ela se separa um pouco das outras. O que também acontece com “Ilhas”, que sugere uma digestão mais fácil. “Ilhas podem ser oásis no meio do deserto disfarçadas de miragem” é um bom refrão. Antigos fãs de Los Hermanos ou até mesmo gente mais cascuda,  como admiradores de Legião Urbana, deviam dar uma chance pro Zé. Não se decepcionariam.

“Rosto de rico”, também sombria, carrega uma roupagem bluesy. Nosso homem-caos-da-vez até brinca com isso, cantando “Segura aí… Virou um blues…” Mas não fique achando que ele explica todas as “piadas”. E tampouco que tudo é gracinha. Se tem uma sensação que fica depois da audição é de que há muita, muita coisa escondida naquela avalanche de palavras. Não basta uma audição. Com sotaque bem carioca, fica ótimo ouvir o cara provocar: “Eu tenho rosto de rico / A sorte que eu tive meu deus fiz miséria / Vamos nós sorrindo, dando beijinho e sem destino.” O amor ressurge aí como assunto e, além disso, parece haver uma ligação com “Sopa de piranha”, que aventureiros irresponsáveis poderão considerar uma provocação às feministas de hoje em dia. O que seria um perigo.