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Ardência

“Duas por cinco, ainda?” O classe-mediano compra flores, na feira; mas não dispensa a pechincha. Já não se sente culpado por negociar trocados e conseguir vantagens em cima duma galera que está bem mais ferrada do que ele. O classe-mediano anda tentando evitar palavrões, então, “ferrada” é uma palavra atualmente bastante usada. A camiseta branca surrada, amarelada em certas partes, principalmente ali pelo sovaco, parece dar a ele a desenvoltura e o direito de além de tudo escolher com muito cuidado as melhores peças, as que vai levar para a casa. Porque estamos falando de alguém que quer um axé maneiro para a semana, que está só começando; ué. Mas aí pinta aquele constrangimento/incômodo quando, na hora em que estava prestes a se decidir por Aquela Rosa Vermelha Já Mais Aberta, tem que dizer “não” a um cara que do nada — Bum! — apareceu para pedir dinheiro. Quer dizer, “não é dinheiro, não”, declarou o pedinte.

O grandalhão da barraca de flores, bem sem saco, dispara um “aí, se liga…” e faz com as mãos um sinal que a gente facilmente entende como algo que quer dizer “sai daqui”. Parece que no cotidiano o feirante também está evitando algumas palavras. O pedinte, até ali, tinha dado a deixa de que, por sua vez, o que ele parece estar  evitando é pedir dinheiro. Talvez porque esteja difícil pra todo mundo e, na rua, deve ser possível sentir isso muito bem. Deve ser quase impossível as pessoas ouvirem o que ele diz. Aquele que pode escolher flores faz isso com tanto cuidado que parece até um lance de xadrez ou um daqueles momentos em que, conversando com o gerente do banco, precisa decidir o que fazer com aquele dinheirinho que ficou na poupança. Uma indecisão/demora cheia de “poesia”, quase um anúncio de sabonete.

O da camisa amarelada, então, fura o dedo numa das rosas que até então não tinham causado nenhum desprazer. Furos nas pontas dos dedos, você sabem, provocam uma sensação bem ruim. Quem não quiser testar isso escolhendo rosas em feiras pode optar por um daqueles testes (de colesterol?) em que furam o dedo da gente, apertam pra que o sangue saia na quantidade devida e, depois, espalham o líquido vermelho numa plaquinha transparente, aparentemente de vidro, para que seja inserida numa máquina. O classe-mediano, algo angustiado porque o atual prefeito da cidade em que mora conseguiu uma vaga no segundo turno das eleições, já fez este tipo de exame. O feirante de poucas palavras, também.

Passou pela cabeça do pechincheiro: “Deve ter a pele dos dedos bem grossa, nunca deve ter passado por um exame assim.” Antes de seguir para o pensamento seguinte, sobre a resistência das mãos do rapaz ao manusear flores com espinhos, mexeu nos bolsos e, tirando de lá muitas notas de $5 e de $2, separou o suficiente para pagar pelas flores e… E além disso pegou uma, a de menor valor, para dar ao rapaz.  Sob o olhar do feirante, dobrou uma nota, como que para que ficasse firme no trajeto entre a mão dele e a do destinatário dos dedos que nunca foram furados. E esticou aquilo na direção do homem que tinha ficado ali, meio de lado. “Mas não é dinheiro, não…”, lembrou o pedinte.

“Mas cara dinheiro é o que eu tenho, agora…”, desculpou-se com “calma” o mais bem-alimentado dos três ali. E sentiu-se aliviado com esta frase/explicação, como se ela deixasse muita, muita coisa clara. Foi ajudado pelo olhar cúmplice do vendedor, que balançava pros lados a cabeça como se não entendesse a recusa do mais ferrado dos três ali: “Pô, aí, que vacilo…” Percebeu-se suado, o comprador/pechicheiro/classe-mediano, talvez em consequência do excesso de pensamentos que tomavam conta dele, e lamentou que em tempos de pandemia não fosse possível tirar/secar as gotinhas que se haviam formado em baixo do nariz, por baixo da máscara. Era o único dos três que usava máscara. Tinha tomado o cuidado de não limpar o sangue do dedo na roupa. Bastava uma camiseta amarelada, não queria uma bermuda manchada. E, em vez de fazer isso, espalhou o líquido pela mão — que ficou um pouco grudenta. Mas uma borrifada de álcool resolveria tudo. Antecipou a ardência que sentiria no dedo furado. O classe-mediano voou para casa porque estava atrasado para a meditação. Fazia isso todos os dias. Flor era só uma vez por semana. Mas meditação era diariamente. Precisava meditar. Precisava meditar.

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@monteiro4852 #23

Tchau, tchau.

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Cruzamentos

É engraçado ler o que pensam algumas pessoas sobre as estradas, essa história de que elas afastam e ao mesmo tempo aproximam. Quase dá vontade de rir, mas é um riso nervoso, vale dizer, já que tanto é possível considerar o caminho como tudo e ao mesmo tempo como nada. Tá bom, tá bom, vamos controlar o raul-seixismo, hoje. Mas, sim… Tem que passar por aí para concluir que, no fim das contas, não, nenhuma destas duas extremidades conta. Segure a onda. Sem cara de desprezo, ok? O que conta, então? Ah, acho que vamos demorar um pouco mais para saber. Se é que vamos chegar sequer perto. Um amigo acaba de dizer, agora, agora mesmo, que ontem para variar estava nesta avaliação do “todo”, numa daquelas tardes em que a gente joga xadrez com a gente mesmo, e somos nós contra a Morte, e acabou conseguindo fazer um zinão. O detalhe é que isso acabou se desenrolando num mergulho de 15 anos, porque ele foi até o início do século para garimpar as imagens com que trabalhou para apertar o botão da descarga de poesias. O botão de descarga de poesias é um recurso criado por esse amigo para libertar uma série de coisas escritas que ficam travadas em folhas de rascunho que quase que invariavelmente se perdem na casa que ele tem fora da cidade. E quando pinta esse papo de “fora da cidade” fica fácil voltar a pensar nas pessoas que falam sobre as estradas, as ligações, os passados, os presentes, os futuros que nunca foram tão incertos. Ah, tá, você não é boba nem nada, não chegou a falar dos futuros, conseguiu cuidar/escapar disso, deve ser o caso de agradecer ao ventinho da estrada, aquele que entra pela janela do carro, quando a gente alcança uma velocidade boa. Não que seja preciso um bagulho de quatro rodas e motor para aproveitar um ventinho: o amigo de fora da cidade consegue isso de bicicleta e às vezes sem sair do próprio quintal, quando ele leva para lá uma mesa portátil, canetas, pincéis e tintas vagabundas e, naquele caô de passados recheados de lembranças, acaba fazendo um zine. Tudo não passa de desculpa para revisitar o Centro e lamentar o fim de um monte de papelarias. As estradas, os ventos, os zines, os passados… são todos detalhes e costuras entre pessoas que nunca se conheceram direito, beberam menos do que desejaram, se abraçaram beeem menos do que mereciam, cozinharam demoradamente questões que nunca ficaram macias a ponto de serem digeridas adequadamente. E se até hoje não estão prontas para serem engolidas, estas questões, haja dente, haja maxilar, haja paciência, haja pandemia, haja exercício de alongamento, porque isso uma hora vai ter que acontecer. Haja estômago. E quando chegar esta hora, a dos acontecimentos que estão ali sendo chocados, vai ser um danado de um presente. E pode ser que ninguém esteja devidamente preparado para isso. E tudo bem se não estiver, porque isso é assim mesmo: a gente nunca está cem por centro para aguentar os duzentos por centro que desde sempre ameaçam desabar sobre a nossa cabeça. Em dias nublados, isso pode chegar a trezentos por cento. Então, é melhor não reclamar e seguir na direção da Luz. É o mínimo que pode fazer um candidato a Louco. As estradas estão aí pra isso.