Categorias
Arte Cinema Comportamento Crônica Ctrl + C -> Ctrl + V Literatice Paulo-Coelhismo Sem categoria Vídeo

Em nome de Lynch e Maradona: amém

Se tem uma grande sacanagem que o PPP fez foi emporcalhar o “conceito” de oração. PPP, você sabe, é o Projeto Pentecostal de Poder. Letras bastante razoáveis, estas, né: não sustentam nenhum palavrão e deixam bem claro o que há por trás (e pela frente, e de ladinho) daquela Igreja. Igreja contra Igreja é uma equação que soa beeem velha. Mas por que falar de oração, então? Por causa do Maradona, que nos deixou. E por conta dos vídeos do David Lynch.

Teve um Argentino, o Emi, que frequenta um bar ali de Laranjeiras, que chorou e tudo. Não foi zoado por nenhum de seus compadres de copo. Todos foram solidários. Ali tinha/era, claro, entre muitas coisas, uma celebração da macheza, defensores do pinto como centro do mundo sendo bróders uns dos outros. A despeito dos vômitos que isso possa ter causado nas feministas da área, foi fofo, foi o reconhecimento, a celebração da “obra” de um cara que fez bonito na sua passagem por aqui. Vacilou, claro. Mas mandou bem e tirou uma onda que muito verde-e-amarelo-aí-do-futebol jamais conseguirá. Maradona tinha tutano. Talvez isso deixe o adeus mais doloroso. O tutano do mundo parece que está mesmo super-acabando.

Oração, segundo o google-cionário é um “ato religioso que visa ativar uma ligação, uma conversa, um pedido, um agradecimento”. A explicação fala também num “ser transcendente e divino”, mas é possível “entender” o bagulho como um todo sem chegar até aí. Gritar “Gol!” é uma oração, num certo sentido, porque é uma celebração extremamente positiva, um momento de superação de todos os perrengues. Ou pelo menos de muitos perrengues.

Há a oração de todo mundo, talvez corriqueira, mas mesmo assim “necessária”. E há a de cada um. Pelo menos, pode haver. Ah, pode. No mesmo boteco que o Emi frequenta, alguém sempre deixa, no balcão, uns brinquedinhos feitos de papel. Aquilo que antigamente chamavam de Origami. Um destes brinquedinhos invariavelmente gera comentários: o Tsuru. Aquele pássaro, tão ligados? Há quem acredite que mil, isso mesmo, fazer mil Tsurus meio que equivale a uma oração.

Outra coisa que parece ser um equivalente do exercício de “ligação” são os vídeos diários do David Lynch. Ele quase que invariavelmente fala sobre o tempo em Los Angeles, emendando isso com um comentário sobre a cultura americana. Tipo uma crônica-oração. Você até pode achar importante saber há quanto tempo  uma pessoa faz orações. Pode surgir a pergunta sobre quantos vídeos Mr. Lynch já fez e se é por isso, por talvez ter passado dos mil, que a brincadeira pode ser considerada uma oração. Não é bem por isso. É por ser uma rotina, diária, que estabelece uma ligação entre ele e seus “seguidores”. Também neste caso, é possível ficar com uma explicação/retórica que não chegue até a discussão do “ser transcendente e divino”.

Estes vídeos são os Tsurus do senhor David Lynch. Hoje, o escriba que vos digita teve a chance de presentear o tiozinho cineasta com o milésito polegar-pra-cima do dia. Se ele orou por isso, conseguiu. Há orações diferentes. Há rezas diferentes. Há até quem fale em “rezo”, em vez de “reza”, o que chega a ser surpreendente nesta época de “feminização forçada” da Língua. Mas isso é outra ladainha. Ninguém (aqui) disse/diz que você deve restringir-se a uma única oração. Lynch, por exemplo, faz também regularmente um (outro modelo de) vídeo, no qual sorteia números. Mas isso aí também é outra ladainha.

Categorias
Arte Desenho Lowbrow Umbigada XXX

@monteiro4852 #24

É preciso ter envolvimento com aquilo que se faz. Outra coisa que precisa ter é saco. Mas aí é com tudo, não apenas com aquilo que se faz.

Categorias
Arte Desenho Poesia Quadrinhos Resenha

Matando a vontade de fazer reviews

Quem passou pelos anos 80 flertando com ou fazendo zines babou/babava diante de belezinhas como “Flipside” e “Factsheet Five”. Gringos e gigantes, eles faziam o zineiro deste lado do hemisfério sonhar com uma cena semelhante ou ao menos parecida. E se tinha uma coisa que provocava mais baba eram os reviews publicados nestas bíblias alternativas. O “FF” era na verdade basicamente um apanhado de resenhas; uma referência sensacional, além de uma promessa: se você mandasse para lá um envelope selado para resposta, receberia em casa um pacote com algumas das publicações resenhadas por eles. Era também assim que faziam a informação circular. Com a rede mundial de computadores, esse troço de fazer resenha de publicação alternativa perdeu um pouco a força. Aquela conversinha de todo mundo ter acesso “fácil” a tudo. Os tempos mudaram e alguns dos zines mais maneiros de hoje em dia têm a pegada da “arte”. Duas pérolas aqui da terrinha que merecem registro são o “5inco”, do Alberto Pereira, e “Brasil”, de Rafael Sica.

O do Sica é um livrinho feito em serigrafia e encadernado artesanalmente pela Caderno Listrado. Vem com uma serigrafiazinha destacada, assinada pelo autor. “Brasil” tem desenhado na lombada um palito de fósforo aceso que parece até premonição… Bate aí na madeira. “Todo mato que está impresso neste miolo foi desenhado por Rafael Sica, durante a pandemia de 2020, enquanto a boiada passava”, diz um cartãozinho que acompanha o pacote. Para quem está minimamente atento ao que se produz de quadrinhos independentes nesta terra, estamos falando de uma edição obrigatória. O conteúdo cheira a curta-metragem, ou é uma HQ-relâmpago. Dê o nome que quiser. A nota é DEZ.

O “5inco”, feito por Alberto Pereira, é um esquema mais humilde/alternativo, xerocado, incluindo poesia, colagens, desenhos. E por isso parece muito com bastante do que se fazia por aqui 30 anos atrás. Pereira é um dos nomes em alta no ranking da produção de lambes e adesivos. Por falar em adesivos, neste pacote vieram dois e não precisa mais do que isso para que nasça a vontade de colecionar material produzido por este cara. Os versos são leminskiantes e só isso já basta para que se queira ler mais. Entre em contato pelo http://albertopereira.com.br

Categorias
Arte Comportamento Crônica Freudcast Literatice Paulo-Coelhismo Sem categoria Umbigada XXX

Boteco connection #3 — Sapatinho de cristal e cara de pau

A pandemia criou uma nova categoria: o intelectual de calçada. Você pode chamar de uma evolução do intelectual de boteco. A diferença entre os dois é que os do novo grupo se preocupam mais com a saúde. Ou têm mais medo de morrer. O que (para os menos esclarecidos, pelo menos) pode dar no mesmo. Ambos ficam com aquele caô de chamar o garçom pelo nome, ensaiando uma intimidade/gentileza que não passa do terceiro copo ou do primeiro “não” que o trabalhador for obrigado a dizer. O que é que ia mudar mesmo, depois do Covid, hein? Ah, a maneira como as pessoas veem o mundo, a vida, quem está do lado…

Seguimos esperando. E bebendo. Porque cerveja é coisa sagrada, para esquerdopatas e terraplanistas. Disso, você já sabe. É o que obriga os dois a acreditarem na água, mesmo que no fim da rodada cada um dê um peso para aquele “produto”. Mas nestes dias de pré-derrubada do atual prefeito do Rio (com o caminho aberto pela queda do Trump), faz mais sentido a gente falar naquilo que — pra te influenciar — colocam no teu WApp (e não na piada mais velha, sobre o que puseram na água) e não no encanamento. Capivarinha esperta não deveria beber qualquer água ou acreditar em qualquer vídeo. Mas não podemos esperar muito de capivarinhas.

Pois então: tava em algumas bolhas, no WApp, a historinha de uma Patrícia que teria pedido ao menino do boteco que cruzasse uma praça inteira para, como um favor, comprar para ela um maço de cigarros. A primeira resposta dele, depois da cara de descrença diante do pedido, foi o “não”. A cliente seguiu tentando. Explicou que estava usando saltos muito altos e que precisava fazer aquilo porque o calçado tinha sido presente da avó. “Tenho que provar para a minha avó que usei o presente dela”, declarou, sorrindo. A cara do garçom continuou sendo de descrença. Faltam palavras para descrever a cara de quem estava em volta, alguém que provavelmente frequentou alguma aula de teatro.

Conhecida num passado não muito distante como destruidora de superego, a cerveja pós-pandemia poderá ajudar em duas coisas: combustível para juntar os cacos dos muros que forem quebrados. E, o que é mais provável, a quebrar barreiras que durante estes dias difíceis acabaram se solidificando ainda mais. Como sempre, haja goró.

Categorias
Arte Desenho Lowbrow Quadrinhos XXX

@monteiro4852 #23

Tchau, tchau.

Categorias
Arte Desenho Lowbrow Quadrinhos Sem categoria

@monteiro4852 #22

Vai cair pro Centro, algum dia dessa semana, bróder?

Categorias
Arte Desenho Lowbrow Quadrinhos Sem categoria XXX

@monteiro4852 #21

Vai ter quem ache isso coisa de comunista. Será alguém com quem não dá para conversar sobre comunismo. Nem sobre futebol. Também não vai dar pra tomar uma cerveja com esta pessoa, nem tampouco comer um pastel de siri em sua companhia.

Categorias
Arte Crônica Freudcast Literatice Paulo-Coelhismo Sem categoria XXX

Cruzamentos

É engraçado ler o que pensam algumas pessoas sobre as estradas, essa história de que elas afastam e ao mesmo tempo aproximam. Quase dá vontade de rir, mas é um riso nervoso, vale dizer, já que tanto é possível considerar o caminho como tudo e ao mesmo tempo como nada. Tá bom, tá bom, vamos controlar o raul-seixismo, hoje. Mas, sim… Tem que passar por aí para concluir que, no fim das contas, não, nenhuma destas duas extremidades conta. Segure a onda. Sem cara de desprezo, ok? O que conta, então? Ah, acho que vamos demorar um pouco mais para saber. Se é que vamos chegar sequer perto. Um amigo acaba de dizer, agora, agora mesmo, que ontem para variar estava nesta avaliação do “todo”, numa daquelas tardes em que a gente joga xadrez com a gente mesmo, e somos nós contra a Morte, e acabou conseguindo fazer um zinão. O detalhe é que isso acabou se desenrolando num mergulho de 15 anos, porque ele foi até o início do século para garimpar as imagens com que trabalhou para apertar o botão da descarga de poesias. O botão de descarga de poesias é um recurso criado por esse amigo para libertar uma série de coisas escritas que ficam travadas em folhas de rascunho que quase que invariavelmente se perdem na casa que ele tem fora da cidade. E quando pinta esse papo de “fora da cidade” fica fácil voltar a pensar nas pessoas que falam sobre as estradas, as ligações, os passados, os presentes, os futuros que nunca foram tão incertos. Ah, tá, você não é boba nem nada, não chegou a falar dos futuros, conseguiu cuidar/escapar disso, deve ser o caso de agradecer ao ventinho da estrada, aquele que entra pela janela do carro, quando a gente alcança uma velocidade boa. Não que seja preciso um bagulho de quatro rodas e motor para aproveitar um ventinho: o amigo de fora da cidade consegue isso de bicicleta e às vezes sem sair do próprio quintal, quando ele leva para lá uma mesa portátil, canetas, pincéis e tintas vagabundas e, naquele caô de passados recheados de lembranças, acaba fazendo um zine. Tudo não passa de desculpa para revisitar o Centro e lamentar o fim de um monte de papelarias. As estradas, os ventos, os zines, os passados… são todos detalhes e costuras entre pessoas que nunca se conheceram direito, beberam menos do que desejaram, se abraçaram beeem menos do que mereciam, cozinharam demoradamente questões que nunca ficaram macias a ponto de serem digeridas adequadamente. E se até hoje não estão prontas para serem engolidas, estas questões, haja dente, haja maxilar, haja paciência, haja pandemia, haja exercício de alongamento, porque isso uma hora vai ter que acontecer. Haja estômago. E quando chegar esta hora, a dos acontecimentos que estão ali sendo chocados, vai ser um danado de um presente. E pode ser que ninguém esteja devidamente preparado para isso. E tudo bem se não estiver, porque isso é assim mesmo: a gente nunca está cem por centro para aguentar os duzentos por centro que desde sempre ameaçam desabar sobre a nossa cabeça. Em dias nublados, isso pode chegar a trezentos por cento. Então, é melhor não reclamar e seguir na direção da Luz. É o mínimo que pode fazer um candidato a Louco. As estradas estão aí pra isso.

Categorias
Arte Crônica Desenho Lowbrow Quadrinhos Sem categoria XXX

@monteiro4852 #20

Ontem, era Santa Cruz Sem Internet Da Serra e por isso AM não conseguiu mandar o desenho. Hoje, quando o negócio chegou, quase foi o caso de pensar duas vezes. O que será que a falta de conexão provocou no nosso grande amigo? Percorrer as linhas que ele escreveu no dia do incêndio da catedral faz a gente se perguntar por que rolou essa viagem no tempo. AM é um cara que provoca interrogações e, quase que invariavelmente, dá respostas que na verdade são outras… outras… outras interrogações. Se um colaborador não for ranzinza, um zine mesmo que na www perde a sua essência ranzinza. E parece que ninguém tá aqui pra facilitar nada. Pra se divertir, talvez. Pra facilitar, sei lá, quase dá pra apostar que não. AM sendo AM.

Categorias
Arte Beber Desenho Lowbrow Quadrinhos

@monteiro4852 #19

Poucas palavras? Bastam poucas palavras, às vezes. Tipo quando alguém fala “Vamos beber uma!”