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Sol e Lua

Falar em hiato, quando você tem menos de duas décadas de vida, tem a ver com aulas de português. Depois, é uma danada de uma lacuna no tempo. Destas que te deixam com uma folga de mentirinha e às vezes medo de pensar. Outro dia, numa tentativa de piada, um cara na rua comentou que o bom deste ano é que, em 2021, ele vai dizer que está com a mesma idade porque 2020 não terá feito parte da contagem. Não foi uma piada maravilhosa, mas serviu como tempero para este hiato que estamos todos vivendo. Naquele minuto, contribuiu com os humores de quem estava por perto.

O domingo foi de sol e havia muita gente sem máscara, na praça. Dona Marlene, num dos seus flashes de Rainha de Espadas, avisava que quem quisesse passar por ela para ir ao banheiro, ali no Salvatore Café, só tinha uma alternativa: cobrir a cara. As pessoas riam e obedeciam. Claro, né!? E na segunda vez em que se aproximavam não esperavam por um novo aviso, já abriam suas pochetes e sacavam seus paninhos com elásticos. Como tem gente usando pochete, meu Deus.

É tanta sede, tanta vontade de ir para a rua, que fica bem perigoso o risco de esquecer que o pesadelo ainda não passou. Não acabou. Mesmo que haja menos discurso notadamente pessimista, entre um gole e outro, ainda podemos contar com os matemáticos do apocalipse avisando sobre os números que caem no fim de semana porque ninguém contabiliza direito a coisa, e, na segunda, tudo volta a subir, “sem falar nos países X e Y, onde o vírus parece ter voltado com força e já se ensaiam novos períodos de isolamento”.

Sorrisos, mais do que nunca, revelam-se os melhores entre todos os entorpecentes. Ainda mais quando, por sorte, mesmo dispensando o paninho na cara, muita gente lembra de evitar os abraços. Ah, tem o detalhe dos cotovelos. As pessoas usando os cotovelos umas para cumprimentarem as outras. Será que dobram a quantidade de álcool ali, naquela região, quando chegam em casa? Fica a dica. Poderemos dizer, no futuro, que houve uma época em que as pessoas não se davam as mãos, para que fossem apertadas, mas, em vez disso, faziam um movimento que parecia o de um lançador no beisebol para oferecerem seus cotovelos e assim celebrarem um encontro. Isso tudo em praça pública.

Dez por cento de desconto em que mesmo, hein!? Um carro de som, anunciando promoções numa churrascaria, faz o favor de lembrar todo mundo que já é segunda-feira. Podemos contar ainda com um pouco de sol, por sorte. Há também uma mudança de lua garantida no calendário, para mais tarde. Mas, talvez por ser início de semana, dia de prosseguir com o trabalho mesmo sem saber bem como… Surge na boca aquele gosto amargo de hiato. Esse troço que não passa.

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Já prepara aí

Preparação. É uma coisa que você consegue perceber no cinema. É quando — literalmente — preparam a gente pra algo que vai acontecer. Mostram, sei lá, um bicho morto e você com razão saca e pensa: “Ih, vai dar M…” Afinal, M de cara pode não fazer muito sentido, pelo menos para quem ainda se liga em histórias bem contadas, então, num bom filme, te preparam direitinho para a M. As samambaias que sumiram ali no número 39, as begônias que o Capitão Nando percebeu que faltavam lá no 57 e… bom, o desaparecimento da samambaia que enfeitava ali o cantinho da praça foi a gota d’água. “Tem alguém surrupiando as bichinhas”, pensou o Capitão.

Ele não era capitão de verdade. Mas gostava de heróis, ou um dia tinha gostado do Capitão Marvel, e brincava com a esposa quando chegava em casa: “Capitão Nando na Área!” Ela respondia com um “Shazam!!” Isso mesmo. Assim como há as Loucas dos Gatos, há os Defensores das Verdinhas. Ele preferia, por uma questão meio moral, chamar as plantas de “Verdinhas” em vez de “Bichinhas”. Mas quando deu por falta da Samambaia o sofrimento foi tanto que não conseguiu controlar o vocabulário. Sabia que deveria ter controlado, porque, com superpoderes, vêm as super-responsabilidades; inclusive as semânticas. Sim, nosso herói também gostava do Spider-Man.

Nando, isto é, Capitão Nando vinha andando, não muito atento, pela Senador Correa, aquela rua que dá bem na praça, quando seu Instinto Verdinho fez seus pelos se eriçarem. Viu perto da igreja uma velhinha que agachava lentamente, porque é assim que a maioria das velhinhas faz, levando a mão na direção de uma pobre e indefesa Espada de São Jorge que alegrava ali o jardinzinho em frente à casa do Seu Zeca. Apressou o passo, agradecendo aos céus por ter este superpoder. Resolveu recorrer ao supergogó, quando viu que a velhinha era rápida no agachamento e a Espada de São Jorge ali sozinha não tinha a menor chance naquela briga. “EI, SENHORA!” Tirou a máscara, sem que ela se desprendesse da orelha direita, falou, e colocou de volta.

Esperou que ela respondesse com “Senhora, não…” e completasse com sua alcunha de vilã. Mas Dona Melina não foi além de ficar um pouco ruborizada. Levantou-se, ela; como quem assume que está fazendo algo que não é mesmo aquilo que os padres ensinavam nas missas de antigamente. É, os ensinamentos de antigamente, nas missas, deviam ser melhores que as de hoje. No Largo do Machado, por exemplo, já se viu sacerdote que fala até em armas em tom de “piada” quando quer repreender catequista. Mas aí é outra história, assunto para outro super-herói. Deus, talvez.

Dona Melina arrumou o vestido verde-claro, com as mãos sujas, e soltou um palavrãozinho quando percebeu que isso tinha deixado uma mancha na roupa. Foi bem no instante em que o Capitão Nando estava a uma distância em que era possível ouvir o que saía da boca da inimiga recém-descoberta. Era a vez de ele ruborizar um pouco. Herói e Vilã que ruborizam, frente a frente, não é coisa que se vê todo dia. Parecia que a batalha ia ser boa. Lembrava cinema de verdade porque de alguma janela saíam os versos de “Agressão repressão”, com os Ratos de Porão. Devia ser do apartamento do Ari, que é conhecido como metaleiro mas ouve na boa umas coisas de crossover. Música também serve como preparação, dá um clima. O filme, quer dizer, a chapa estava esquentando.

“O que que a senhora tá fazendo aí? Deixa a plantinha! Solta a plantinha, por favor!”, desafiou Nando, o Capitão dessa vez sem afastar a máscara. Foi quando pensou em usar no rosto algo que trouxesse uma frase do tipo “Salve as Verdinhas!”, mas desistiu logo porque podiam achar que ele estava se referindo a dólares e não a plantas. Pensaria mais tarde noutra mensagem para estampar. Era hora de manter o foco. “Geeente, eu só tava pensando em levar a bichinha pra colocar num vasozinho…”, devolveu a anciã, sem para isso retirar seus acessórios pandêmicos: máscara de pano com compartimento para filtro descartável e aquela proteção que se assemelha a um para-brisa.

Era uma vilã que sabia se proteger. Mas o aparato dificultava-lhe a comunicação. O Capitão tinha a resposta, mesmo sem entender bem o que tinha saído da boca daquela “bandida”: “No Cadeg, a senhora acha várias. Lá, todas elas precisam de alguém que cuide delas…” Disse isso e sorriu, satisfeito com a dose de sarcasmo, velocidade e firmeza que havia colocado nas palavras.

Coadjuvantes se aprumaram e ameaçaram uma aproximação, nem todos com máscaras, mas todos sim com celulares nas mãos. Foi quando herói e vilã perceberam que não estavam num filme e, melhor, não queriam virar manchete de um daqueles programas tristes de TV aberta, à tardinha; quando são apresentados casos que invariavelmente dão em desgraceira. Dona Melina praguejou contra o defensor da Espada de São Jorge, de novo vermelha mas desta vez de raiva, e foi saindo. O Capitão Nando atravessou a rua, sem encarar os outros atores. E os dois sumiram rapidinho da cena. Como num filme.

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Defcon o quê?

Tava com a corda toda, hoje de manhã, a vizinha. Logo cedo, berrou contra o marido, é, devia ser o marido, berrou que ele não tivera coragem de fazer o caderninho de realizações, então, que não viesse agora em plena pandemia reclamar com ela sobre os desejos não alcançados. Será que tinha sexo, na lista não feita? Minutos de silêncio. Minutos mesmo, longos, longos períodos de silêncio; era uma berração feroz mas pausada. E o infeliz, e vale dizer infeliz porque se podia deduzir que os desejos não vinham sendo realizados, e o infeliz responde: “É que eu sabia que se fizesse você ia dar um jeito de ir lá pra ler o que tava escrito. E caderninho de realizações, sua louca, tem que ser uma coisa feita em segredo. E segredo é uma coisa que não se divide com ninguém.” Agora, boa parte da vizinhança sabia da história. Mas não era assim tão terrível porque estávamos diante de um segredo que não existia. O caderninho dele não existia.

Outra coisa que provavelmente toda a vizinhança sabia é que o mané não devia ter usado a palavra “louca”. O ritmo da pendenga mudou, ali, bem naquele instante. Os minutos de silêncio, o xadrez barulhento mas que até então poderia ser considerado “elegante” deu lugar a uma pelada, um totó cheio de desespero, recheado de roletadas. Foram apenas milésimos de segundos, se desse pra contar, sim, daria pra dizer que, milésimos de segundos após disparada a acusação, a quebradeira começou. Os que moramos em volta ficamos algum tempo, também menos que minutos, sem saber se o que rolava era uma destruição de coisas da casa ou do marido em si.

Já se vão umas duas horas de silêncio. E continuávamos sem saber, nós que tínhamos acordado cedo na segunda-feira ainda pandêmica, pra fazer coisa nenhuma além de pensar. Talvez tenham começado juntos o caderninho, sem segredos. E dizer que o lance é sem segredos passava até certo ponto a incluir moradores de umas boas três dúzias de apartamentos. De dois e três quartos, com dependências. Esperamos todos que isso pese, se for pesar, claro, que pese positivamente na realização dos desejos deles lá. E como neste momento de isolamento estamos nos tornando pessoas diferentes, diferentes no mínimo no sentido de mais gordos e gordas, esperamos também que alguns de nós tomem aquela treta como inspiração para começamos nossos próprios caderninhos de realizações.

Mesmo sem saber bem o que é uma coisa, a gente pode começar. O velho ensinamento, e dizemos velho porque é de antes da pandemia, o velho ensinamento de que basta um passo e você já está noutro lugar serve bem pra isso. Serve pra muita coisa. Mas estamos falando de caderninhos de realizações, então, por favor, concentre-se. E faça a sua lista. Pense um pouco antes se vai manter a coisa em segredo. E se é segredo Defcon 5 ou 3 ou 2. Porque periga ter uma hora em que alguém pode descobrir e os seus desejos se pá vão se espalhar pela vizinhança. Por umas boas três dúzias de apartamentos, pelo menos, onde moram pessoas que você nem conhece. Mas que podem saber/desconfiar quem é você.

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Música Resenha Umbigada

Acorda, Weller!

Um camarada pediu um texto sobre Paul Weller. Pra um projeto. Uma das tantas ideias que a gente vem discutindo, nas últimas semanas. “Pô, Paul Weller?”, me perguntei, de cara, meio sem coragem de falar com o mano que acho meio sem graça esse PW aí. Foram dois dias ouvindo o recém-lançado “On sunset”, com suas 15 faixas (sendo dois repetecos: um remix e outro instrumental), pra chegar à conclusão de que, hm, sabe? É mesmo insosso, o negócio.  E ainda por cima começo a escrever sem saber se é pra ser um texto-texto-mesmo, destes que as pessoas leem, ou se o bagulho é pra funcionar como “roteiro”: pra ser lido, pra alimentar/orientar um locutor. Sabe?

PW, que na verdade é JWW (John William Weller) é um britânico sessentão, cantor e compositor, que não foge à regra de ter feito coisas melhores quando começou a carreira. No caso dele, o começo foi com o The Jam. Neste álbum de agora, PW/JWW inicia melancólico com “Mirror ball”. Parece até que estava numa quarentena ou algo assim, eu, hein! Tem hora que OK a faixa de abertura ganha alguma animação, mas segue como se fosse uma música para quem tem tempo, muito tempo para ficar ouvindo sobre indecisões e passados mais felizes. “Baptiste” vem depois, um pouco mais suingada, como que pra salvar um pouco a situação. Uma música mais “simples”, que fica ainda mais simples quando aparece uma segunda vez, fechando o álbum, sem a letra, isto é, em versão instrumental.

Talvez a gente possa dizer que “Walkin'” é uma música com uma mensagem clara, neste disco. E esta mensagem é de otimismo. Otimismo água-com-açúcar, sabe? Talvez seja euforia para inglês ver/ouvir. Também é uma faixa que serve para pensarmos que estamos diante de um trabalho de altos e baixos. Porque “Walkin'” vem logo depois de “Equanimity”, que é do time das soturnas.

Mas… Verdade seja dita: elas, as soturnas, não estão em maior número, porque há também as que ficam em cima do muro. Você aí que está procurando raios de sol, pode encontrar alguma coisa do tipo em “Earth beat” (“She’s a new day, a new morning…”): esta sim é gostosa de ouvir, mesmo que não seja a coisa mais original do mundo. Há um momento mais rock, em “Ploughman”. Benza Deus. Talvez estejamos falando aí da melhor faixa de todas. Outra candidata ao posto é “More”, com um groove que até se sustenta mas peca pelos solos abusivos.

“On sunset”, que dá título ao trabalho, é bluesy, e merece o rótulo de “bem atual”, por trazer na letra um detalhe que, se não for uma alusão aos dias de isolamento que estamos vivendo, é um lance profético: “And the world I knew has all gone by.” Mais? “Rockets” não decola, “I ‘ll think of something” talvez alguma noite numa arena sirva de pano de fundo para pessoas acendendo isqueiros, “4th dimension” é instrumental mas, tá, e daí?

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Crônica Literatice Música

Cloroquina no Covid dos outros é refresco

Entre os espíritos de porco da bolha nossa de cada dia, tem sempre aquele que se acha capaz de zoar sem parecer que está zoando. Ou pelo menos sem achar que parece. Quantos cínicos orgulhosos te seguem? Quantos cínicos orgulhosos você segue? Hoje, foi possível ouvir por aí a defesa de um mundo pop divertido e livre de preconceitos, quer dizer, livre de correção política. E o preço seria justamente este, uma certa licença para ser politicamente incorreto. Tudo bem que rir é o melhor remédio. Mas já não chega de dar certas gargalhadas? Cloroquina pra tratar Covid dos outros é refresco, né, minha filha?

Os absurdos podem servir para o aprendizado de todos nós. A sugestão que fica para debochadinhos criativos é que, ao contrário, acabar com o “mundo pop” é que seria um preço baixíssimo para interromper a multiplicação de mentalidades mergulhadas em… em… ah, nisso aí em que eles estão. A pandemia pode ter piorado ainda mais a “audição” de uma galera. Como será que reagem às indicações musicais que surgem nas bolhas? Porque tá assim, ó, de gente entendendo de e sugerindo som… Bolhas incham, bolhas desincham. Sacos se enchem e se esvaziam. Como uma onda no mar.

Depois de muita gente falar sobre o documentário dos Beastie Boys, que nem é tão maravilhoso assim, tivemos outro dia a chance de ver muitos comentátios e alusões aos 30 anos de lançamento do “Goo”, álbum do Sonic Youth. Horas depois, carcomidos pela saudade e orgulhosos pela sintonia que mantêm com as novidades, muitos roqueiros de meia-idade começaram a falar do “Covid-666”, do Brujeria. Outra onda. Mas pra quem quer se livrar do caldo do deboche que gruda nos ouvidos, vale um mergulho pelo menos na faixa-título.

Lembrar do “Goo” pode provocar na cabeça do quarentão avançado uma série de associações. O desenho do Pettibon nos leva ao Black Flag. E nesta era de pandemia e lives todo santo dia desembocamos naqueles antigos álbuns em que o sujeito em vez de cantar… falava. Eram verdadeiros discursos. Devem ter inspirado um ou outro humorista dessa história de stand-up comedy. Então, tem aquele disco do Black Flag que um bom exemplo disso: “Family man”, que dá título ao álbum (de 1984), merece ser ouvida. Não é bem um “spoken” no estilo Jello Biafra, tem um quê de poesia. Mas dá pra dizer que não é um troço cantado e sim falado.

A capa, também by Pettibon, é uma porrada. E essa faixa-título, podes crer, mermão, é um negócio beem atual. Não é à toa que a gente corre o risco de ficar com essa sensação de volta ao passado. E sabe lembra na essência um pouco a onda rap de grupos como os Racionais. Porque parece uma pregação, aquilo que sai das caixinhas de som. Ah, claro, pensar em “Goo” ou qualquer coisa daquela época também provoca uma inevitável saudade das grandes caixas de som. Quando bons deboches ganhavam a vizinhança. Numa provocação que não era internética mas não tinha fim.

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O cidadão 125 cilindradas

Estava num post, pra todo mundo ver: a história de um entregador que, feito o serviço, estendeu para o cliente uma nota de dez pratas dizendo “Olha, por favor, fica com isso aqui e me dá o mesmo valor em gorjeta lá pelo aplicativo, porque, quando mais gorjeta eu tiver, mais me chamam pra outras entregas”.  Não estava escrito lá se a proposta havia sido ou não aceita. Entregadores tomaram mesmo conta dos nossos corações e mentes.

“Coxinha” é uma palavra que parece ter ficado no passado. Mas é tão fofa que vamos resgatá-la. Aqui, agora, ó… O coxinha-padrão, que enxerga nos rapazes de moto ou de bicicleta do Itaú exemplos de força de vontade, de boa índole e de empreendedorismo, deve aplaudir a proposta do rapaz… Afinal, ele está tentando garantir o seu. O que deixa um classe-mediano-coxinha mais feliz do que um “pobre esforçado”? Eles têm convicção de que “é por aí mesmo”. Se for um pobre que freqüenta a igreja, então, aí não há felicidade maior.

O esquerdopata… O esquerdopata fala algo sobre isso? Ou o mortadela (outro resgate semântico) está até agora pensando o que é mais OK: “Pedir comida pelo telefone ou pelo aplicativo”? O esquerdista-raiz gasta seu tempo não comendo, mas mergulhado na digestão dos possíveis desdobramentos de uma “greve ‘séria’ de entregadores”. Antes, sonhava com a organização do proletariado, agora, pós-pandemia, não lhe sai da cabeça uma paralisação/conscientização do motocariado.

Enquanto uns fazem greve, outros fazem pedidos. E há ainda os que se viram. Como é que os arautos pregadores da resiliência ainda não recorreram ao exemplo dos motoboys para suas palestras online? O pessoal do Tarot, também muito na ativa, nos dias de hoje, já podia pensar em adicionar uma carta ao deck: O Entregador. E os compositores? Teve aniversário do Chico Buarque, estes dias, né? Daqui a pouco, surge um hit com algo do tipo “Você não pede nada pra mim, mas sua filha…”

Uma avalanche de possibilidades, né, minha filha? Muito mais desdobramentos do que imaginava o rapaz que fez a proposta de trocar dinheiro vivo por gorjeta virtual. Seguindo assim, a gente daqui a pouco vê surgir um Partido dos Entregadores. E aí já dá pra antecipar um futuro em que a grande discussão será se a culpa por tudo isso que está aí é ou não desse desgraçado desse PE.

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É, camará…

“Nem tudo que reluz é ouro… Nem tudo que balança cai…”, diz um corrido de Capoeira. Isso parece retratar bem nosso momento político, nos fazendo pensar que estamos em meio a um grande, grande jogo, né? Todo mundo achava que estava acontecendo uma coisa, mas, na verdade, é bem outra que se revela co’o andar da carruagem: é o que está implícito nas estrofes que abrem este texto. “Corridos” são os versos cantados por quem está, digamos, no comando da roda. E estes versos são respondidos pelos que integram o grupo e, não raramente, por quem está assistindo ao espetáculo. As respostas formam um coro. Talvez o corrido mais conhecido seja o “Paranaê…” Todo mundo sabe a resposta e isso ajuda muito a animar o jogo. O coro fica bonito.

Dependendo da escola, há às vezes gente batendo palmas; para com isso contribuir com o ritmo. Na Capoeira, a música pode funcionar como uma espécie de crônica: fala sobre o que está acontecendo, ali, no momento. Noutras ocasiões, é a música quem imprime/dita uma cadência, faz certos movimentos se desenvolverem ou, no mínimo, inspira isso. Uma canção superpode tornar mais rápidos e consequentemente mais agressivos os movimentos dos jogadores.

Assim… Se um participante leva uma rasteira, o puxador pode mudar rapidamente o canto e soltar um “Meu facão cortou em baixo, eu falei…” E todo mundo vai/deve responder: “A bananeira caiu!” Está aí um bom exemplo de “crônica”. Ou, por outro lado, se o mestre responsável num determinado instante avalia que o clima está morno demais, tem o “direito” de provocar, cantando algo como “Olha, rala o coco…” E a resposta para isso será: “Catarina!” Com a repetição de “Catarina!…”, de forma constante e mais acelerada do que vinha acontecendo até então no coro, é certo que os movimentos ficarão mais acalorados. No mínimo, mais animados/quentes.

Há outros tipos de música, nos rituais capoeirísticos. A Ladainha, que abre os trabalhos, é uma das mais importantes. Além de contar uma história, de muitas vezes fazer alusões, por exemplo, ao passado da vida dos negros escravos, a Ladainha pode conter provocações. Agachado, de frente para o oponente, um jogador pode puxar uma música que soe como afronta. E isso pode ser o prenúncio de uma movimentação particularmente ardilosa, com o intuito de desconcentrar/desnortear o “oponente”.

Co’essa história do confinamento, não se vê roda de Capoeira pela cidade. As pessoas já estão andando pela orla, enchendo bares, deixando máscaras de lado, mas roda de Capoeira — graças a Deus — ainda não anda rolando, o que talvez comprove que capoeirista é mesmo malandro(a). Malandro(a), no bom sentindo, sim. A “malandragem”, aliás, é um dos temas musicais mais recorrentes, nestas reuniões de praticantes da grande arte/luta que tem como referências mais famosas os mestres baianos Pastinha e Bimba.

Um corrido que nos faz pensar na situação política que a gente vive pode ser um convite para que mergulhemos noutros ensinamentos da Capoeira. Ficar bem atento ao que está acontecendo, no jogo, por exemplo. Isso é uma regra básica, que serve para a vida como um todo. Vai que na hora daquele bocejo despreocupado vem um pé na orelha… Na orelha de quem estava só assistindo ao jogo. Cabe a nós identificar o sujeito que, pela postura, ou por uma orquestração enganosa, sugere que é capaz de fazer e acontecer, mas… Mas em cinco segundos mostra que ginga feito um siri com câimbra. Atenção, camará! Atenção para o jogo em que te puseram. Atenção pra não responder errado na hora do coro, hein!

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Conto Literatice

Tonto, sim

Bené sabia que Tonto era o nome de um índio em algum programa de televisão. Da época em que era criança. Não estava certa se ainda era uma atração que podia ser vista, hoje em dia; mas lembrava de ter acompanhado uma história que tinha um personagem batizado daquele jeito: Tonto. Achava aquilo engraçado. Ficava se perguntando se tinha achado bonitão, o Tonto. Se era por tal motivo que havia decidido chamar daquela maneira o irmão mais novo. Era isso: foi por causa do Tonto da TV que o pequeno Antônio tinha recebido aquele apelido.

Até que a palavra Tonto tomasse conta da cabeça — ou saísse dos sonhos — de Bené, todo mundo chamava o menino de Tonho. Mas ela, aos 13 anos, já achava que tinha idade para decidir coisas importantes na vida, considerava “muito sem graça aquela história de Tonho”. Pensava que o menino merecia coisa melhor. E Tonto era bem melhor. Era uma escolha da qual ela se orgulhava. Muito. Não que tenha sido fácil. Considerou que seria, sim, um risco para o pequeno. Outras crianças talvez aproveitassem o apelido para na escola fazer chacota dele, por exemplo. Mas ela esperava que com aquela nova alcunha pudesse dar ao irmão também sabedoria para enfrentar as coisas difíceis que a vida por acaso colocasse no caminhozinho dele. Ela falava assim: “caminhozinho”.

Bené estava certa de que a humanidade a via com melhores olhos desde que tinha deixado para trás o Benedita escolhido por sua mãe. Ou seu pai. Ou sua avó. Ou seu avó. Vivia se perguntando quem tinha escolhido o nome que carregava. Nunca tivera coragem de perguntar sobre aquilo. Tinha medo da reação da mãe. E do pai. E da avó. E do avô. O avô era quem ela mais temia. Brincava com os nomes, para fazer parecer que era só mesmo brincadeira. Mas era uma estratégia. Bené era boa de apelidos e de estratégias. Era a sua Capoeira.

Esta semana que passou agora, Bené, já adulta, foi à feira com o irmão. Ele também já adulto, acostumado com o “Tonto” com que a irmã o tinha presenteado. Enquanto caminhavam, entre cachos de bananas, abacates e caquis, Bené apontou para uma graviola. Tonto entendeu logo o que ela quis dizer e os dois pararam para comprar. Ele tirou do bolso uma nota de 20 e deu ao feirante, achando que estava diante de um rosto algo familiar. E era mesmo. O vendedor sorriu um sorriso meio estranho, no qual Tonto identificou algum traço de deboche. Comprovou isso quando ouviu o sujeito dizendo: “Ah, o Tonto… fio de dona Zefa…”

O jeito como o mercador pronunciou “Tonto” causou um leve desconforto nos irmãos. Depois de dizer isso, o feirante separou três notas e deu ao rapaz. Era o troco. Três notas de dois. Fez isso e virou, como fosse atender outra pessoa que se aproximava da barraca. Foi um movimento muito rápido. Ele na verdade não ia atender ninguém. Tonto — mandingueiro, aprendiz de Bené — percebeu a manha. Levantou a cabeça, como que esticando o queixo para a frente, e coçou levemente o pescoço. O homem da feira voltou o olhar para o freguês, dessa vez sem qualquer traço de zombaria, e viu o movimento de ir e vir dos dedos do irmão de Bené, coçando o pescoço. Separou então uma nota de dez, que era o que faltava para completar o troco, e deu ao rapaz. Bené sorriu, certa de que tinha ensinado coisas importantes ao irmão.

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Comportamento Crônica Literatice

Bocas e suas orientações políticas

Outro dia, numa pesquisa de Twitter, uma jornalista usou a linha do tempo para tocar uma pauta: “Quantas pessoas de esquerda estão com empregada em casa na pandemia?” Era provavelmente uma pesquisa para achar personagens para uma matéria. Mas um detalhe — o “de esquerda” — chamou a atenção de gente que noutra esquina da rede mundial de computadores discutia os “50 tons de esquerda”. Era um grupo de lero às vezes bem-humorado, batizado a partir do nome daquele filme de 2015. Uma galera também muito “atenta”, do tipo que está em casa agora durante o isolamento, porque pode. Gente capaz de pescar a pesquisa da repórter para rechear suas argumentações, contra e a favor de qualquer coisa.

Para você ter uma ideia do que rolava: ali, naquela aglomeração internética, e portanto atualmente permitida, era possível ler coisas como “se é de esquerda, não tem como ser machista”. Questão que, como resposta, TODAS dadas por mulheres, além de uma ameaça de tapa na cara gerou a única unanimidade daquela tarde: a conclusão de que estavam diante de um “esquerdomacho”. A ameaça de esbofeteamento, caso venha mesmo a acontecer, só após o período de isolamento. A conferir.

Quanta variedade, nestas discussões de grupos de mensagens! É. Parecia feira. Dá pra imaginar pessoas de jaleco, sacudindo moedas nos bolsos como se fossem chocalhos e oferecendo seus produtos, quase esfregando na cara da dona que passa com o carrinho aquele caqui da promoção. “Experimenta, experimenta aqui!” Ofertas que às vezes soavam como ameaças. Houve quem aparecesse para dizer que não acreditava mais em Esquerda. O “consolo” é que não acreditava também em Direita, o que para ambos os lados pareceu ainda pior.

Estavam ligados pelo desconforto. Sim, parecia que no debate eram todos esquerdopatas, mas falar dos tons quase colocava alguém do/de outro lado. Mesmo num grupo em que os membros se identificavam pelas ideias em comum, havia diferenças. E aí… havia lados diferentes. Pra não dizer opostos. O que pra muitos significava “Direita”. A conferir, também — aí, provavelmente, só nas próximas eleições. Quando e se surgir o papo de “voto útil”, isso poderá ajudar muito.

“Eu nunca tive dúvidas de que você era a Esquerda da Direita. Ou a Direita da Esquerda”, dizia um playboy, tentando ser simpático. Sim, havia playbas na conversa. E eles se comportavam até bem. Talvez estivessem medrosos, o que fazia deles pelo menos temporariamente “playbas razoáveis”. E, às vezes, dava para ser simpático. Talvez porque estivessem todos neste “momento água”, vendo no Youtube (e indicando) vídeos sobre resiliência. Com certeza, cansados de estar em casa por tanto tempo. Vale repetir: sim, eram do tipo de gente que anda podendo ficar entre quatro paredes, lidando com a culpa, em muitos casos, e, noutros, rezando para o achatamento da Curva.

Eram bons de explicações, os envolvidos. E faziam questão de pormenorizar as coisas, às vezes distanciando-se da discussão que parecia ser mais importante num determinado momento. Apelaram muito para o futebol, apontando que, “historicamente”, entre os que amam o jogo de bola, “os times trabalham pela destruição do adversário, muitas vezes, mais do que para o sucesso da própria agremiação.” Foi um dos poucos momentos de consenso, naquelas horas quentes.

Podia parecer um pouco estranho a exemplificação não ir para o mundo das cervejas, depois de passar pelo futebol. Talvez porque não haja muita familiaridade co’o rótulo Esquerda-Loura-Gelada. Por outro lado, ali naquelas intermináveis mensagens sobre “50 tons de esquerda”, foi quase consenso que “esquerda nutella” anda sendo um troço difícil de sustentar porque o pote de 650 gramas dessa parada está saindo por 40 moedas num supermercado da Zona Sul do Rio. “E não pode ser um pote menor?”, perguntou um conciliador esperançoso, porque entre esquerdopatas há conciliadores, sim. Depois, teve que engolir, sem cacau com avelã, que “precisa ser da grande, sim, porque a gente não quer socializar pobreza, a gente quer dividir riqueza”.

É importante manter o bom humor nas discussões. Ou, então, o cara pira. Seja de que lado estiver. A grande lição foi que, se é do tipo que anda recebendo diarista em casa, o negócio é manter a boca fechada. Seja qual for a orientação política da boca.