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Seja pvc

Mais uma daquelas cenas em que as pessoas se encontram, demonstram pra começar algum entusiasmo e vão invariavelmente murchando abrigadas/protegidas dentro de suas máscaras e amarras pandêmicas. A estas, uma boa dose de Bruce Lee! O cara que já se foi mas em vídeos nos explica que a água deve/pode tornar-se a garrafa. E este espaço todo que anda ficando entre as pessoas, este void/vazio que parece ser impossível de preencher, hoje em dia, como a gente vai resolver isso, depois da vacina? Como, Bruce? De onde você estiver, mande uma resposta ou um sinal. Será esta a grande transformação pela qual vai passar a classe média, a tomada de consciência a respeito do vazio que mais do que nunca HÁ entre as pessoas?

Claro que não, né, porque esperar que o classe-mediano-mediano experimente um insight qualquer, mesmo dos pequenininhos, e perceba seu lugar no mundo, antes ou depois da pandemia, tanto faz, é esperar demais. Está aí, o novo grande ensinamento pandêmico é este, a grande queda da ficha é: “O idiota classe-mediano não vai aprender nada mesmo, porque ele não veio ao mundo para aprender. Ele bebe uma cachaça e fala besteira com o peito estufado. E só.” Quer dizer, aprende, sim, uma ou outra música de torcida, um ou outro passinho de dança, e o estrangulamento básico — porque não basta alimentar-se bem, é preciso praticar um esporte maneiro para conseguir encarar este mundão de meu Deus.

É justamente do vazio que falava o cozinheiro desempregado, ali na mesa ao lado. Ele acredita que “os restaurantes vão precisar se reinventar”. E depois de declarar de peito também projetado pra frente suas crenças básicas, aos quase-aglomerados tasqueiros em derredor, ele pode ter deixado muita gente em dúvida sobre quantos vídeos no YT precisou ver para chegar a esta conclusão. A pergunta seguinte também é básica para os dias de hoje: quando ele vai começar o seu próprio canal naquela rede? É mais fácil ser showman do que fazer batatas fritas decentes? Há quem acredite que sim. O que será que Bruce, lá de onde ele está, tem a dizer sobre essa dicotomia?

Por falar em batata frita, o segredo para muitos candidatos à fama parece ser este: transformar-se numa espécie de salgadinho. E na Grande Lanchonete Universal do Reino do Entretenimento seguir se movimentando para que as pessoas babem de vontade de morder algo todas as vezes que te percebem na tela. Simples assim. Vale dizer que por trás de uma batata-frita-style muitas vezes há técnicas surpreendentes. No próprio YT, você vai encontrar receitas que dizem que o segredo é fritar duas vezes. Há muitos segredos por trás de uma batata. Imaginem o que nos escondem os pastéis, hein!?

Está aí uma instituição que perigou sumir do mapa, ou pelo menos das feiras, nestes tempos de Covid. Foi estranho ver rolos e mais rolos de plástico finíssimo envolvendo as barracas que servem caldos de cana, pastéis e hoje em dia também quibes e bolinhos de bacalhau. Agora, é estranho testemunhar que aquela barreira já foi dispensada. De repente, é isso, hein… Lições da pandemia… É com filme de pvc que vamos “amenizar” o danado do vazio. O que Bruce Lee diria sobre isso?

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Futum

Pra muita gente, hoje é dia de voltar ao passado. Porque acham corriqueiro e ao mesmo sério e pertinente agora falar do episódio que muitos passaram a chamar de O Dia Que Mudou A História. A maioria faz isso ainda sem saber se deve escrever assim, com maiúsculas, ou não; sem ter lá muita certeza sobre aquilo de que estão sentenciando. É a perspectiva botequiana tomando de novo conta da História, emprestando seriedade ao mesmo tempo em que banaliza; mesmo em dias/noites de botecos vazios. O que você estava fazendo, 19 anos atrás? É a pergunta que mais se ouve, hoje? Ou geral está mais preocupado com o preço do arroz?

O Passado é compadre da Justiça? Segure a gargalhada aí, porque a pergunta é séria. Poucos anos atrás, era comum a gente ouvir alguém dizer que os dias que estávamos vivendo eram os melhores que havíamos conseguido alcançar. Agora, já não dá para dizer/garantir isso. Quase dá para ter certeza do contrário. Águas passadas não movem mesmo moinhos. E o arroz será sempre uma das partes do binômio que no fim das contas comanda toda a organização da humanidade por estas: o arroz-com-feijão. Ah, sim: Feijão, pode esperar, a tua hora vai chegar/voltar. Afinal, se tem uma coisa que o Passado nos ensina é que, se podem ferrar a massa com dois ingredientes, não usarão apenas um.

Cada um de nós tem o próprio 11 de Setembro. Ou terá. Aquele dia em que é atingido(a) no peito com uma frase mortal, desconstrutora/desmoronante, fatal para uma enxurrada de sonhos que podiam sair dali mas se perderam. Viraram poeira. “Você não sabe o que é amor.” “Seu filho morreu.” “É que eu quero ficar com outra pessoa.” “Foi embora.” “Vá embora.” “Some da minha frente.” “Eu não sou isso aí que você está falando, não…” Aviões derrubando torres. Perceber pessoas se esforçando para entender O Dia Que Mudou A História, quase duas décadas depois de um acontecimento que ainda merece manchete, pode ser um ótimo estopim para quem pretende entender (pelo menos um pouco) o próprio percurso. Ou a interrupção do percurso, o que não deixa de ser percurso-em-si.

Para quem ainda está em isolamento, por conta da pandemia, este pode ser um exercício ainda mais marcante/assustador. Quem ainda vive de construir listas, coisa que parece não sair da moda, pode brincar com a coincidência entre os números: no décimo nono aniversário do ataque às torres gêmeas, estamos às voltas com o Covid-19. No mesmo dia, pipoca uma notícia de que as vendas de vinis ultrapassaram as de CDs na primeira metade do ano. Passado é assim: às vezes, traz um perfuminho. Mas noutras resgata mesmo é um futum bem desagradável. Tá sentindo, né?

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Haja punk rock

“Aperta aqui. Depois, a gente passa um álcool na mão e tá tudo certo.” Foi assim a tentativa de encerrar uma discussão que começou com futebol e, por causa da cerveja, não terminava. O álcool por dentro talvez tenha estimulado o mais calmo dos dois a sugerir o álcool por fora, isto é, nas mãos, para encerrar e pendenga de maneira que, digamos, nenhum dos dois lados levasse prejuízo para casa. Como os mais civilizados faziam, antigamente. Neste caso, o prejuízo seria o Covid. Mas logo depois de pronunciada a frase… Bom, a coisa acabou, ali, acabou mesmo. Mas com os dois fazendo papel de cara-de-bunda, sem o aperto de mãos. Mesmo quase bêbados, entenderam que o álcool-70% tiraria mais do que os “germes”, como diz a Lucy do desenho dos Peanuts. A moral da história é: álcool por dentro pode estragar tudo; por fora, já não garante muita coisa, para infelicidade dos mais civilizados.

Um troço que não acaba é discussão sobre futebol e política. Outro dia, um cara, bem intencionado, até, pelo que se sabe, do tipo que nas últimas eleições não fez o papel de classe-mediano-escroto, esse cara falava de “cidadãos de bem”. Pra você ver, hein, como se trata de uma expressão emporcalhada pelo ódio mas que pode aparecer em qualquer dos 300 lados. Aconteceu num grupo de WApp. E foi só aquele social-democrata falar em “cidadão de bem” para uma integrante da turma apontar que aquele era o nome de um jornal da Ku Klux Klan. Acabou como no episódio anterior. As expressões de constrangimento, desta vez, não apareceram. Porque se tem uma coisa boa nos grupos de WApp é a garantia de certa “proteção” aos usuários: o cara-de-bunda do iPhone interage com o cara-de-bunda do Samsung sem precisar do álcool por fora.

Estes dois primeiros parágrafos resumem tão bem o “quadro” dos últimos dias que seria razoável encerrar por aqui mesmo a crônica. A vida em dois parágrafos. Histórias curtíssimas. Já é quase Natal. Esperanças limitadíssimas, mas, com um liquidozinho higienizador, tudo pode se resolver e manter a esperança de pé. Rá! Mas o tempero extra do universo — pitadas de passado quase esquecido e de futuro bastante incerto — andam aparecendo de uma forma assim tão 70%, como que prometendo desdobramentos improváveis, que há algum combustível para seguir em frente. Ah, e teve o aniversário de lançamento do “Fresh fruit for rotting vegetables”, dos Dead Kennedys, esta semana. O álbum fez 40 anos. Não dá para terminar uma prosa sem registrar isso.

Estamos falando de um álbum que não era exatamente uma pregação em favor da revolução. Mas uma zoação que beliscava os mais sensíveis num modo non-stop. E tudo com uma velocidade, um vigor, umas letras e um deboche provocador que até então a gente não estava acostumado a ver. Não foi à toa que um monte de cinquentões postou estes dias que aquele foi um disco que mudou suas vidas. Será que estes sujeitos percebem que mesmo sem o medo da terceira grande guerra podemos eleger aquela pérola punk como uma trilha bastante adequada para os tempos atuais? O legado dos Kennedys não vai morrer nunca.

Quer coisa mais Dead Kennedys do que sair para ir à feira, num sábado, e, por se tratar de um percurso feito na Zona Sul do Rio, ver uns bons 30 policiais, pelas esquinas, espalhados em duplas ou trios, cuidando (até as 20h, pelo menos) da segurança da tradicional família carioca? E em pelo menos quatro destes pontos, o que eles estavam fazendo? Mexendo em seus celulares! O que será que estavam lendo/digitando?  De que grupos de WApp será que fazem parte? Não há mesmo álcool 70% que dê jeito. Haja punk rock.

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Chocolate

Ela chegou, sorrindo, e depois de tirar o tênis, a máscara, passar álcool pelos braços, pelas orelhas, pelo cangote e de tirar também a camiseta e o short, disse: “Trouxe uma coisa pra você.” Seguiu removendo as peças mais íntimas, aí dispensando o líquido higienizante, porque aquilo tudo estava coberto por tecidos que devem proteger de alguma maneira. “Ar fresco”, completou, uns bons minutos depois de ter começado a falar. Estava se dirigindo à plantinha, que ficava no início do corredor que não era bem um corredor mas que levava à cozinha. Tinha voltado da primeira caminhada desde o início da pandemia. E arriscou fazer aquilo, mesmo com uma dorzinha no joelho, porque precisava trazer ar fresco para dentro de casa.

As janelas andavam ficando mais fechadas do que abertas. Quando percebia isso, lembrava de uma decisão tomada logo depois que o vírus tomou conta do noticiário. Não conseguiria escrever num papel que decisão tinha sido aquela. E pensava nisso, na impossibilidade de transcrever a coisa, porque tinha tido essa vontade. Não se assustou com sua incapacidade. Mas ficou pensativa. Achava que tinha percebido a primeira pontada no joelho direito bem neste instante, o instante em que não conseguiu escrever o que tinha decidido. Naquele dia, fez um desenho que decidiu prender com fita crepe na parede do corredor que não era corredor, perto da planta a quem dava ar fresco depois de voltar daquela esplêndida primeira caminhada.

Pesquisou “joelho”. Pesquisou “dor”. Pesquisou “caminhar”. Pesquisou “pandemia”. Pesquisou “vítimas”. Pesquisou “prefeito”, mas desistiu desta e antes que o resultado aparecesse pesquisou “bdsm”. Pesquisou “mulheres dominadoras”. Pesquisou “sagitarianos”. Pesquisou “compatibilidade entre os signos”. Pesquisou “tarot” e “tarô”. Pesquisou “trabalho voluntário”. Pesquisou “mudança de carreira”. Pesquisou “solitude”. Pesquisou “Cem anos de solidão”. Pesquisou “delivery japonês botafogo”. Pesquisou “saquê”. Seguiu pesquisando, até que o interfone tocou e percebendo que já era noite colocou máscara, armou-se com o borrifador de álcool 70 e foi até a porta receber a comida e o saquê. Tinha sido dia de ar fresco. Achava que podia ser uma noite de peixe fresco.

Começou uma série. Estava disposta a maratonar. Não maratonava havia já algum tempo. Maratonar tinha perdido a graça, se é que algum dia teve graça. Sorriu satisfeita, olhando pros sashimis. E a satisfação escorria do sorriso porque o saquê era uma bebida danada de boa para contribuir com isso, com sorrisos de satisfação. Sentiu saudades de caipisaquês de lichia. Pensou nas estações do ano, achou que lembrava de ter visto lichia nas feiras em dezembro, época de natal. Mas não quis pesquisar aquilo. Enquanto colhia ar fresco, mais cedo, havia decidido só pesquisar uma vez por dia. Ficou pensando que talvez pudesse complementar aquela decisão, acrescentando um limite de horas ou assuntos para mergulhos no computador.

Foi como um insight: “Essa dor no joelho pode ser de ficar demais no computador, com a perna cruzada… Não é bom pra circulação, isso…” Sentiu-se aliviada e sorriu o melhor sorriso do dia, melhor do que quando disse à planta que lhe tinha trazido de presente ar fresco. Derramou o restinho de saquê num copo quadrado, com bordinha larga para quem quisesse colocar sal, ali, na beiradinha. Gostava de saquê com pitadinhas de sal, e se sentia uma personagem de série enquanto fazia isso. Estava de novo sem roupa e pensou em quanta gente gostaria de vê-la daquele jeito.

Lembrou dos chocolates que namorava de vez em quando e que mantinha guardados no armário da cozinha, quase escondidos. Do lado de fora, deixava as barrinhas de cereais. Pensou em pesquisar sobre calorias, fazendo rapidamente um cálculo importante, pro qual o resultado era que gastaria menos tempo ligando o computador do que tentando ler o que estava escrito no rótulo de cada embalagem. Lembrou-se da decisão tomada naquele dia. Nada de pesquisas. Não havia decidido nada ainda sobre o consumo de chocolates. E mesmo sem digitar ou ler nada achou que comer um docinho ajudaria a curar o joelho. Desejou ter mais saquê.

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@monteiro4852 #11

“O tempo voa”, foi o que disse o camarada Monteiro. Uma frase de balcão de padaria, da época em que se podia ficar tranquilo num balcão. E quando a gente fala em balcão, pensa no(s) de padaria e, claro, no(s) de boteco. É tudo balcão? Mais ou menos. Outras histórias. O que não muda é o tempo. Continua voando. Valeu, valeu, Siri Boy.

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Gelatina sempre super punk

A sociedade estadunidense não aguenta por muito tempo uma pedra em seu sapato. Coloca essa pedra na cadeia. Ou se acostuma a ela, transformando-a em objeto de consumo e exemplo de que a Democracia deles funciona. Jello Biafra conseguiu não mofar atrás das grades, sob a acusação de distribuir material inapropriado para menores. Aconteceu, quando éramos todos jovens, por causa do encarte em “Frankenchrist” — lembra? Só o título do álbum, num período da História em que havia mais tutano inclusive entre os reaças, já era motivo de muita falação/preocupação. O Senhor Gelatina nunca parou. À sua “aglomeração” mais recente, que já vem de alguns anos, deu o nome de The Guantanamo School Of Medicine. Esteve no Brasil, ele, com esta banda, e pudemos vê-lo no palco usando uma roupa pintada de maneira que fazia parecer que ali há sangue… Quem sempre foi fã dos Dead Kennedys não tem do que reclamar em relação à pérola recém-lançada por JB & TGSOM: “The last big gulp” (algo como “O último grande gole”).

Falar de um “lançamento”, nestes tempos internéticos, é uma coisa estranha ou, no mínimo, bem diferente. Com a avalanche de informação, é certo perceber o tempo demasiado curto para dar conta de tanta coisa. Estamos falando aí de uma impossibilidade; tá ligadx, né? Mas… filtrar uma música assim é um remedinho para matar saudades de uma época em que a audição de uma faixa (um single) ou um álbum tinham um impacto diferente nos ouvidos e nos corações do público. A Alternative Tentacles, já há algum tempo, rendeu-se ao marketing digital e manda informativos por e-mail avisando sobre seus lançamentos. E um dos mais recentes tem a ver com Mister Gelatina em pessoa, mesmo que ele não apareça no “clipe”. Ah, sim: falar em Alternative Tentacles pede que se faça uma alusão ao excelente slogan da gravadora: “Tormenting the stupid since 1979”. Numa tradução livre/carioca, fica algo do tipo “Zoando os manés desde 1979”.

“The last big gulp”, mesmo vista e ouvida no YouTube, consegue prender a atenção do velho fã do punk californiano oitentista. A sobreposição de imagens aparece pro quarentão/cinquentinha como uma referência direta às colagens de Winston Smith, o cara que fez o Jesus crucificado em dólares na capa de “In God we trust” e tantas outras coisas boas a partir da teoria do corte-e-cole. Em algum momento do vídeo, a gente pode ver o Trump com o rosto preenchido por arame farpado, numa nova versão para a capa do já mencionado “Frankenchrist”. Fazendo questão de ser bem atual, Ani Kyd Wolf (que aparece nos créditos como criadora do vídeo) nos mostra um monstrinho verde que — adivinha! — é o nosso já velho conhecido Corona Vírus.

Trump é uma das grandes “estrelas” do filminho. Surge sacaneado de várias maneiras. Mas o vídeo é mais do que um míssil na retaguarda do republicano. É uma semente de pesadelo da cachola do classe-mediano que tira alguns minutos do dia para preocupar-se com questões ambientais. Quando esteve no Brasil para o lançamento de um livro no qual era um dos personagens mais importantes, Jello Biafra aproveitou para soltar a voz, na Eco-92. E uma das coisas que comentou na época era que estava representando o Earth First, grupo então conhecido por ações de “terrorismo ecológico”. A palavra “terrorista”e suas variações ainda não causavam a preocupação que despertam nos dias de hoje.

Assistir ao vídeo de “The last big gulp”, na mesma medida em que diverte a gente e preenche o cérebro com uma pitada de fúria construtiva pode dar a sensação de que a luta está perdida. Termine de ver o troço e depois, veja se é capaz de decidir onde vai arquivá-lo: em “Viagem a um passado feliz” ou “Projeção de um futuro sombrio”. Esperava o que de Jello Biafra?

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Padaria

Saudade parece que nunca anda sozinha. A falta que a gente sente de escrever ou de desenhar se emenda fácil, fácil, na falta que faz (convi)ver (co’)uma determinada pessoa. Numa época em que rabiscar pensando em alguém tornou-se um exercício muito mais comum e possível do que rabiscar olhando de perto para alguém, é bom achar uma maneira de lidar com elas, as saudades. Sobram os textos, às vezes, e sorte de quem consegue achar que isso é muito/suficiente.

Fica um pouco chato quando, quase clicando no link da sabotagem, o cara se pega fugindo da escrita, guiado por algum circuito da cachola em que aquilo se transformou numa obrigação. Saudade, quando vem, está longe de ser uma obrigação. É isso sim uma orca te perseguindo na praia, você sabendo que não está suficientemente perto da areia para conseguir fugir. É bom respeitar/aceitar o texto, quando ele surge, porque se aquilo escapa você provavelmente nunca mais conseguirá rever/repensar naqueles mesmos “moldes”. Textos mais do que nunca moldam saudades.

Com a poesia é a mesma coisa. Ou pior. Porque com os versos a gente pode ficar mais escabreado, juntando à possibilidade de registro o medo do ridículo. Se para provocar a gente diz que “fazer poesia é fácil, difícil é confessar que fez…”, imagina pensar poesia, e não escrever nada… No mundo ideal, seria ainda mais “confortável”. Mas o desespero de perder um versinho, um versinho que seja, pode ser também uma semente de ferida com a qual ninguém aí está preparado para lidar. Se disser que está, pode ser uma declaração que não passa de cagaço. Trocando em miúdos, é isso: cagaço.

Teve esta semana a história de um cara que, para lidar com a falta de tempo e a saudade, ocupava ainda mais as brechas que se lhe apresentavam. Isso. Não tinha tempo e tratava de ter ainda menos. Desandou a fazer pães. Cismou com isso e dizia aos manos que aquela “brincadeira” era uma espécie de meditação. Mais um louco-de-pandemia. Quando comia o resultado do trampo, da queima de um tempo que nem existia direito, ou quando distribuía aquilo entre amigues, relaxava. E percebia um alívio. Mas durava só um piscar de olhos, porque a onda era preencher todas, todas as brechas. Pra muita gente, não tem dado tempo de sentir nada.

Lidar com o tempo nunca foi fácil. Com a saudade, menos ainda. Nestes dias, a tarefa parece ter assumido ares ainda mais impossibilitadores. Porque a gente pode se pegar sem conseguir decidir se ele, o tempo, está passando rápido demais ou demasiado lento. No mesmo dia, você pode ouvir alguém dizendo que “já é Agosto” e uma esquina depois que “nem parece que já se passaram quatro meses de trancamento em casa”. O mundo precisa se decidir.

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Sol e Lua

Falar em hiato, quando você tem menos de duas décadas de vida, tem a ver com aulas de português. Depois, é uma danada de uma lacuna no tempo. Destas que te deixam com uma folga de mentirinha e às vezes medo de pensar. Outro dia, numa tentativa de piada, um cara na rua comentou que o bom deste ano é que, em 2021, ele vai dizer que está com a mesma idade porque 2020 não terá feito parte da contagem. Não foi uma piada maravilhosa, mas serviu como tempero para este hiato que estamos todos vivendo. Naquele minuto, contribuiu com os humores de quem estava por perto.

O domingo foi de sol e havia muita gente sem máscara, na praça. Dona Marlene, num dos seus flashes de Rainha de Espadas, avisava que quem quisesse passar por ela para ir ao banheiro, ali no Salvatore Café, só tinha uma alternativa: cobrir a cara. As pessoas riam e obedeciam. Claro, né!? E na segunda vez em que se aproximavam não esperavam por um novo aviso, já abriam suas pochetes e sacavam seus paninhos com elásticos. Como tem gente usando pochete, meu Deus.

É tanta sede, tanta vontade de ir para a rua, que fica bem perigoso o risco de esquecer que o pesadelo ainda não passou. Não acabou. Mesmo que haja menos discurso notadamente pessimista, entre um gole e outro, ainda podemos contar com os matemáticos do apocalipse avisando sobre os números que caem no fim de semana porque ninguém contabiliza direito a coisa, e, na segunda, tudo volta a subir, “sem falar nos países X e Y, onde o vírus parece ter voltado com força e já se ensaiam novos períodos de isolamento”.

Sorrisos, mais do que nunca, revelam-se os melhores entre todos os entorpecentes. Ainda mais quando, por sorte, mesmo dispensando o paninho na cara, muita gente lembra de evitar os abraços. Ah, tem o detalhe dos cotovelos. As pessoas usando os cotovelos umas para cumprimentarem as outras. Será que dobram a quantidade de álcool ali, naquela região, quando chegam em casa? Fica a dica. Poderemos dizer, no futuro, que houve uma época em que as pessoas não se davam as mãos, para que fossem apertadas, mas, em vez disso, faziam um movimento que parecia o de um lançador no beisebol para oferecerem seus cotovelos e assim celebrarem um encontro. Isso tudo em praça pública.

Dez por cento de desconto em que mesmo, hein!? Um carro de som, anunciando promoções numa churrascaria, faz o favor de lembrar todo mundo que já é segunda-feira. Podemos contar ainda com um pouco de sol, por sorte. Há também uma mudança de lua garantida no calendário, para mais tarde. Mas, talvez por ser início de semana, dia de prosseguir com o trabalho mesmo sem saber bem como… Surge na boca aquele gosto amargo de hiato. Esse troço que não passa.

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Já prepara aí

Preparação. É uma coisa que você consegue perceber no cinema. É quando — literalmente — preparam a gente pra algo que vai acontecer. Mostram, sei lá, um bicho morto e você com razão saca e pensa: “Ih, vai dar M…” Afinal, M de cara pode não fazer muito sentido, pelo menos para quem ainda se liga em histórias bem contadas, então, num bom filme, te preparam direitinho para a M. As samambaias que sumiram ali no número 39, as begônias que o Capitão Nando percebeu que faltavam lá no 57 e… bom, o desaparecimento da samambaia que enfeitava ali o cantinho da praça foi a gota d’água. “Tem alguém surrupiando as bichinhas”, pensou o Capitão.

Ele não era capitão de verdade. Mas gostava de heróis, ou um dia tinha gostado do Capitão Marvel, e brincava com a esposa quando chegava em casa: “Capitão Nando na Área!” Ela respondia com um “Shazam!!” Isso mesmo. Assim como há as Loucas dos Gatos, há os Defensores das Verdinhas. Ele preferia, por uma questão meio moral, chamar as plantas de “Verdinhas” em vez de “Bichinhas”. Mas quando deu por falta da Samambaia o sofrimento foi tanto que não conseguiu controlar o vocabulário. Sabia que deveria ter controlado, porque, com superpoderes, vêm as super-responsabilidades; inclusive as semânticas. Sim, nosso herói também gostava do Spider-Man.

Nando, isto é, Capitão Nando vinha andando, não muito atento, pela Senador Correa, aquela rua que dá bem na praça, quando seu Instinto Verdinho fez seus pelos se eriçarem. Viu perto da igreja uma velhinha que agachava lentamente, porque é assim que a maioria das velhinhas faz, levando a mão na direção de uma pobre e indefesa Espada de São Jorge que alegrava ali o jardinzinho em frente à casa do Seu Zeca. Apressou o passo, agradecendo aos céus por ter este superpoder. Resolveu recorrer ao supergogó, quando viu que a velhinha era rápida no agachamento e a Espada de São Jorge ali sozinha não tinha a menor chance naquela briga. “EI, SENHORA!” Tirou a máscara, sem que ela se desprendesse da orelha direita, falou, e colocou de volta.

Esperou que ela respondesse com “Senhora, não…” e completasse com sua alcunha de vilã. Mas Dona Melina não foi além de ficar um pouco ruborizada. Levantou-se, ela; como quem assume que está fazendo algo que não é mesmo aquilo que os padres ensinavam nas missas de antigamente. É, os ensinamentos de antigamente, nas missas, deviam ser melhores que as de hoje. No Largo do Machado, por exemplo, já se viu sacerdote que fala até em armas em tom de “piada” quando quer repreender catequista. Mas aí é outra história, assunto para outro super-herói. Deus, talvez.

Dona Melina arrumou o vestido verde-claro, com as mãos sujas, e soltou um palavrãozinho quando percebeu que isso tinha deixado uma mancha na roupa. Foi bem no instante em que o Capitão Nando estava a uma distância em que era possível ouvir o que saía da boca da inimiga recém-descoberta. Era a vez de ele ruborizar um pouco. Herói e Vilã que ruborizam, frente a frente, não é coisa que se vê todo dia. Parecia que a batalha ia ser boa. Lembrava cinema de verdade porque de alguma janela saíam os versos de “Agressão repressão”, com os Ratos de Porão. Devia ser do apartamento do Ari, que é conhecido como metaleiro mas ouve na boa umas coisas de crossover. Música também serve como preparação, dá um clima. O filme, quer dizer, a chapa estava esquentando.

“O que que a senhora tá fazendo aí? Deixa a plantinha! Solta a plantinha, por favor!”, desafiou Nando, o Capitão dessa vez sem afastar a máscara. Foi quando pensou em usar no rosto algo que trouxesse uma frase do tipo “Salve as Verdinhas!”, mas desistiu logo porque podiam achar que ele estava se referindo a dólares e não a plantas. Pensaria mais tarde noutra mensagem para estampar. Era hora de manter o foco. “Geeente, eu só tava pensando em levar a bichinha pra colocar num vasozinho…”, devolveu a anciã, sem para isso retirar seus acessórios pandêmicos: máscara de pano com compartimento para filtro descartável e aquela proteção que se assemelha a um para-brisa.

Era uma vilã que sabia se proteger. Mas o aparato dificultava-lhe a comunicação. O Capitão tinha a resposta, mesmo sem entender bem o que tinha saído da boca daquela “bandida”: “No Cadeg, a senhora acha várias. Lá, todas elas precisam de alguém que cuide delas…” Disse isso e sorriu, satisfeito com a dose de sarcasmo, velocidade e firmeza que havia colocado nas palavras.

Coadjuvantes se aprumaram e ameaçaram uma aproximação, nem todos com máscaras, mas todos sim com celulares nas mãos. Foi quando herói e vilã perceberam que não estavam num filme e, melhor, não queriam virar manchete de um daqueles programas tristes de TV aberta, à tardinha; quando são apresentados casos que invariavelmente dão em desgraceira. Dona Melina praguejou contra o defensor da Espada de São Jorge, de novo vermelha mas desta vez de raiva, e foi saindo. O Capitão Nando atravessou a rua, sem encarar os outros atores. E os dois sumiram rapidinho da cena. Como num filme.

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Defcon o quê?

Tava com a corda toda, hoje de manhã, a vizinha. Logo cedo, berrou contra o marido, é, devia ser o marido, berrou que ele não tivera coragem de fazer o caderninho de realizações, então, que não viesse agora em plena pandemia reclamar com ela sobre os desejos não alcançados. Será que tinha sexo, na lista não feita? Minutos de silêncio. Minutos mesmo, longos, longos períodos de silêncio; era uma berração feroz mas pausada. E o infeliz, e vale dizer infeliz porque se podia deduzir que os desejos não vinham sendo realizados, e o infeliz responde: “É que eu sabia que se fizesse você ia dar um jeito de ir lá pra ler o que tava escrito. E caderninho de realizações, sua louca, tem que ser uma coisa feita em segredo. E segredo é uma coisa que não se divide com ninguém.” Agora, boa parte da vizinhança sabia da história. Mas não era assim tão terrível porque estávamos diante de um segredo que não existia. O caderninho dele não existia.

Outra coisa que provavelmente toda a vizinhança sabia é que o mané não devia ter usado a palavra “louca”. O ritmo da pendenga mudou, ali, bem naquele instante. Os minutos de silêncio, o xadrez barulhento mas que até então poderia ser considerado “elegante” deu lugar a uma pelada, um totó cheio de desespero, recheado de roletadas. Foram apenas milésimos de segundos, se desse pra contar, sim, daria pra dizer que, milésimos de segundos após disparada a acusação, a quebradeira começou. Os que moramos em volta ficamos algum tempo, também menos que minutos, sem saber se o que rolava era uma destruição de coisas da casa ou do marido em si.

Já se vão umas duas horas de silêncio. E continuávamos sem saber, nós que tínhamos acordado cedo na segunda-feira ainda pandêmica, pra fazer coisa nenhuma além de pensar. Talvez tenham começado juntos o caderninho, sem segredos. E dizer que o lance é sem segredos passava até certo ponto a incluir moradores de umas boas três dúzias de apartamentos. De dois e três quartos, com dependências. Esperamos todos que isso pese, se for pesar, claro, que pese positivamente na realização dos desejos deles lá. E como neste momento de isolamento estamos nos tornando pessoas diferentes, diferentes no mínimo no sentido de mais gordos e gordas, esperamos também que alguns de nós tomem aquela treta como inspiração para começamos nossos próprios caderninhos de realizações.

Mesmo sem saber bem o que é uma coisa, a gente pode começar. O velho ensinamento, e dizemos velho porque é de antes da pandemia, o velho ensinamento de que basta um passo e você já está noutro lugar serve bem pra isso. Serve pra muita coisa. Mas estamos falando de caderninhos de realizações, então, por favor, concentre-se. E faça a sua lista. Pense um pouco antes se vai manter a coisa em segredo. E se é segredo Defcon 5 ou 3 ou 2. Porque periga ter uma hora em que alguém pode descobrir e os seus desejos se pá vão se espalhar pela vizinhança. Por umas boas três dúzias de apartamentos, pelo menos, onde moram pessoas que você nem conhece. Mas que podem saber/desconfiar quem é você.