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Auuu!!

Chegou aqui: “O Lobisomem Errante”, do mestre Julio Shimamoto. Edição da MMarte. Vem com uma serigrafia (21x15cm, numerada e assinada Pelo Shima). Sua coleção vai ficar ainda mais linda com isso aqui. Trabalho lindão. Dá uma olhada lá no site deles: www.mmarteproducoes.com.

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Cabe a você, playboy

Agora, foi o Noam Chomsky, do alto dos seus mais de 90 anos, ali numa daquelas redes sociais falando das transformações, pequenas que sejam, que a gente pode fazer no cotidiano. Será que é aquela história de cotidianizar a revolução? Se o Chomsky está falando, é o caso de parar e ouvir pelo menos um pouco. É engraçado ver propostas/sugestões, digamos, mais radicalmente transformadoras, partindo de uma galera mais cascuda, quer dizer, experiente. A juventude parece que só pensa mesmo no oba-oba. “Pensa” é ótimo, né? Não que os mais cascudos de um modo geral tenham muita moral para dizer que são pensadores mais ativos e preparados.

Mas, sim, aqui nesta bolha há a impressão de que atualmente podemos esbarrar com mais gente “madura” defendendo essa história de que geral no fim das contas vai dar uma “boa repensada”. Quando será que chega o “fim das contas”? Repensada, para os mais pessimistas, pode não passar de uma nova fórmula para anúncios de margarina. No fim das contas, seja em que bolha for e seja quando for, é garantia de veia entupida, qualidade de vida piorando mas… com aquele sorriso maneiro de quem consegue consumir o que DEVE ser consumido. É a pandemia das dívidas, esta.

A margarina é uma das coisas que estão custando mais caro, né? Para resolver isso, tem o homem que ensina no YouTube como fazer para ficar rico. Ele esses dias deu uma esculachada nos bancos, no esquema de juros, e seguindo sua doutrina de “como conquistar a liberdade”, bateu nas mesmas teclas de sempre. Não falou da margarina, mas isso deve ser com o pessoal que fala de saúde. Espirrou? Tava com a máscara, vacilão? Isso, a crônica hoje é quase um rap.

Ainda não dá para dizer que se trata de um momento de revisão dos padrões, mas, estes dias, num grupo de WApp, um sujeito beirando meio século de vida consultou seus “amigos” sobre um “empreendimento”. Está querendo abrir uma banca de jornal, no Rio. O silêncio imperou. Houve quem sugerisse um tiro na cabeça. Isso, sim, vai ser mais fácil, agora, com o fim das taxas para quem quer importar revólveres e pistolas. Quem quer ser rico precisa mesmo de muitas e boas informações. E talvez precise saber a diferença entre um e outro tipo de arma, nem que seja para fazer a coisa “certa” depois de um empreendimento errado.

Basta um parágrafo falando em armas para que a coisa toda pareça contaminada por um cheiro ruim. Como nessa história tem margarina, que também não é a parada mais legal do mundo, tá difícil encontrar uma boa saída para terminar a falação. Como o rap sugere muitos lances sem explicar, cabe a você, playboy, decidir o que fazer com a margarina e o trabuco. Lembrando que no dos outros é refresco e aí não vale.

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Boteco connection #3 — Sapatinho de cristal e cara de pau

A pandemia criou uma nova categoria: o intelectual de calçada. Você pode chamar de uma evolução do intelectual de boteco. A diferença entre os dois é que os do novo grupo se preocupam mais com a saúde. Ou têm mais medo de morrer. O que (para os menos esclarecidos, pelo menos) pode dar no mesmo. Ambos ficam com aquele caô de chamar o garçom pelo nome, ensaiando uma intimidade/gentileza que não passa do terceiro copo ou do primeiro “não” que o trabalhador for obrigado a dizer. O que é que ia mudar mesmo, depois do Covid, hein? Ah, a maneira como as pessoas veem o mundo, a vida, quem está do lado…

Seguimos esperando. E bebendo. Porque cerveja é coisa sagrada, para esquerdopatas e terraplanistas. Disso, você já sabe. É o que obriga os dois a acreditarem na água, mesmo que no fim da rodada cada um dê um peso para aquele “produto”. Mas nestes dias de pré-derrubada do atual prefeito do Rio (com o caminho aberto pela queda do Trump), faz mais sentido a gente falar naquilo que — pra te influenciar — colocam no teu WApp (e não na piada mais velha, sobre o que puseram na água) e não no encanamento. Capivarinha esperta não deveria beber qualquer água ou acreditar em qualquer vídeo. Mas não podemos esperar muito de capivarinhas.

Pois então: tava em algumas bolhas, no WApp, a historinha de uma Patrícia que teria pedido ao menino do boteco que cruzasse uma praça inteira para, como um favor, comprar para ela um maço de cigarros. A primeira resposta dele, depois da cara de descrença diante do pedido, foi o “não”. A cliente seguiu tentando. Explicou que estava usando saltos muito altos e que precisava fazer aquilo porque o calçado tinha sido presente da avó. “Tenho que provar para a minha avó que usei o presente dela”, declarou, sorrindo. A cara do garçom continuou sendo de descrença. Faltam palavras para descrever a cara de quem estava em volta, alguém que provavelmente frequentou alguma aula de teatro.

Conhecida num passado não muito distante como destruidora de superego, a cerveja pós-pandemia poderá ajudar em duas coisas: combustível para juntar os cacos dos muros que forem quebrados. E, o que é mais provável, a quebrar barreiras que durante estes dias difíceis acabaram se solidificando ainda mais. Como sempre, haja goró.

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Cruzamentos

É engraçado ler o que pensam algumas pessoas sobre as estradas, essa história de que elas afastam e ao mesmo tempo aproximam. Quase dá vontade de rir, mas é um riso nervoso, vale dizer, já que tanto é possível considerar o caminho como tudo e ao mesmo tempo como nada. Tá bom, tá bom, vamos controlar o raul-seixismo, hoje. Mas, sim… Tem que passar por aí para concluir que, no fim das contas, não, nenhuma destas duas extremidades conta. Segure a onda. Sem cara de desprezo, ok? O que conta, então? Ah, acho que vamos demorar um pouco mais para saber. Se é que vamos chegar sequer perto. Um amigo acaba de dizer, agora, agora mesmo, que ontem para variar estava nesta avaliação do “todo”, numa daquelas tardes em que a gente joga xadrez com a gente mesmo, e somos nós contra a Morte, e acabou conseguindo fazer um zinão. O detalhe é que isso acabou se desenrolando num mergulho de 15 anos, porque ele foi até o início do século para garimpar as imagens com que trabalhou para apertar o botão da descarga de poesias. O botão de descarga de poesias é um recurso criado por esse amigo para libertar uma série de coisas escritas que ficam travadas em folhas de rascunho que quase que invariavelmente se perdem na casa que ele tem fora da cidade. E quando pinta esse papo de “fora da cidade” fica fácil voltar a pensar nas pessoas que falam sobre as estradas, as ligações, os passados, os presentes, os futuros que nunca foram tão incertos. Ah, tá, você não é boba nem nada, não chegou a falar dos futuros, conseguiu cuidar/escapar disso, deve ser o caso de agradecer ao ventinho da estrada, aquele que entra pela janela do carro, quando a gente alcança uma velocidade boa. Não que seja preciso um bagulho de quatro rodas e motor para aproveitar um ventinho: o amigo de fora da cidade consegue isso de bicicleta e às vezes sem sair do próprio quintal, quando ele leva para lá uma mesa portátil, canetas, pincéis e tintas vagabundas e, naquele caô de passados recheados de lembranças, acaba fazendo um zine. Tudo não passa de desculpa para revisitar o Centro e lamentar o fim de um monte de papelarias. As estradas, os ventos, os zines, os passados… são todos detalhes e costuras entre pessoas que nunca se conheceram direito, beberam menos do que desejaram, se abraçaram beeem menos do que mereciam, cozinharam demoradamente questões que nunca ficaram macias a ponto de serem digeridas adequadamente. E se até hoje não estão prontas para serem engolidas, estas questões, haja dente, haja maxilar, haja paciência, haja pandemia, haja exercício de alongamento, porque isso uma hora vai ter que acontecer. Haja estômago. E quando chegar esta hora, a dos acontecimentos que estão ali sendo chocados, vai ser um danado de um presente. E pode ser que ninguém esteja devidamente preparado para isso. E tudo bem se não estiver, porque isso é assim mesmo: a gente nunca está cem por centro para aguentar os duzentos por centro que desde sempre ameaçam desabar sobre a nossa cabeça. Em dias nublados, isso pode chegar a trezentos por cento. Então, é melhor não reclamar e seguir na direção da Luz. É o mínimo que pode fazer um candidato a Louco. As estradas estão aí pra isso.

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Beber Comer Comportamento Crônica Literatice Paulo-Coelhismo Sem categoria Umbigada

Seja pvc

Mais uma daquelas cenas em que as pessoas se encontram, demonstram pra começar algum entusiasmo e vão invariavelmente murchando abrigadas/protegidas dentro de suas máscaras e amarras pandêmicas. A estas, uma boa dose de Bruce Lee! O cara que já se foi mas em vídeos nos explica que a água deve/pode tornar-se a garrafa. E este espaço todo que anda ficando entre as pessoas, este void/vazio que parece ser impossível de preencher, hoje em dia, como a gente vai resolver isso, depois da vacina? Como, Bruce? De onde você estiver, mande uma resposta ou um sinal. Será esta a grande transformação pela qual vai passar a classe média, a tomada de consciência a respeito do vazio que mais do que nunca HÁ entre as pessoas?

Claro que não, né, porque esperar que o classe-mediano-mediano experimente um insight qualquer, mesmo dos pequenininhos, e perceba seu lugar no mundo, antes ou depois da pandemia, tanto faz, é esperar demais. Está aí, o novo grande ensinamento pandêmico é este, a grande queda da ficha é: “O idiota classe-mediano não vai aprender nada mesmo, porque ele não veio ao mundo para aprender. Ele bebe uma cachaça e fala besteira com o peito estufado. E só.” Quer dizer, aprende, sim, uma ou outra música de torcida, um ou outro passinho de dança, e o estrangulamento básico — porque não basta alimentar-se bem, é preciso praticar um esporte maneiro para conseguir encarar este mundão de meu Deus.

É justamente do vazio que falava o cozinheiro desempregado, ali na mesa ao lado. Ele acredita que “os restaurantes vão precisar se reinventar”. E depois de declarar de peito também projetado pra frente suas crenças básicas, aos quase-aglomerados tasqueiros em derredor, ele pode ter deixado muita gente em dúvida sobre quantos vídeos no YT precisou ver para chegar a esta conclusão. A pergunta seguinte também é básica para os dias de hoje: quando ele vai começar o seu próprio canal naquela rede? É mais fácil ser showman do que fazer batatas fritas decentes? Há quem acredite que sim. O que será que Bruce, lá de onde ele está, tem a dizer sobre essa dicotomia?

Por falar em batata frita, o segredo para muitos candidatos à fama parece ser este: transformar-se numa espécie de salgadinho. E na Grande Lanchonete Universal do Reino do Entretenimento seguir se movimentando para que as pessoas babem de vontade de morder algo todas as vezes que te percebem na tela. Simples assim. Vale dizer que por trás de uma batata-frita-style muitas vezes há técnicas surpreendentes. No próprio YT, você vai encontrar receitas que dizem que o segredo é fritar duas vezes. Há muitos segredos por trás de uma batata. Imaginem o que nos escondem os pastéis, hein!?

Está aí uma instituição que perigou sumir do mapa, ou pelo menos das feiras, nestes tempos de Covid. Foi estranho ver rolos e mais rolos de plástico finíssimo envolvendo as barracas que servem caldos de cana, pastéis e hoje em dia também quibes e bolinhos de bacalhau. Agora, é estranho testemunhar que aquela barreira já foi dispensada. De repente, é isso, hein… Lições da pandemia… É com filme de pvc que vamos “amenizar” o danado do vazio. O que Bruce Lee diria sobre isso?

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Futum

Pra muita gente, hoje é dia de voltar ao passado. Porque acham corriqueiro e ao mesmo sério e pertinente agora falar do episódio que muitos passaram a chamar de O Dia Que Mudou A História. A maioria faz isso ainda sem saber se deve escrever assim, com maiúsculas, ou não; sem ter lá muita certeza sobre aquilo de que estão sentenciando. É a perspectiva botequiana tomando de novo conta da História, emprestando seriedade ao mesmo tempo em que banaliza; mesmo em dias/noites de botecos vazios. O que você estava fazendo, 19 anos atrás? É a pergunta que mais se ouve, hoje? Ou geral está mais preocupado com o preço do arroz?

O Passado é compadre da Justiça? Segure a gargalhada aí, porque a pergunta é séria. Poucos anos atrás, era comum a gente ouvir alguém dizer que os dias que estávamos vivendo eram os melhores que havíamos conseguido alcançar. Agora, já não dá para dizer/garantir isso. Quase dá para ter certeza do contrário. Águas passadas não movem mesmo moinhos. E o arroz será sempre uma das partes do binômio que no fim das contas comanda toda a organização da humanidade por estas: o arroz-com-feijão. Ah, sim: Feijão, pode esperar, a tua hora vai chegar/voltar. Afinal, se tem uma coisa que o Passado nos ensina é que, se podem ferrar a massa com dois ingredientes, não usarão apenas um.

Cada um de nós tem o próprio 11 de Setembro. Ou terá. Aquele dia em que é atingido(a) no peito com uma frase mortal, desconstrutora/desmoronante, fatal para uma enxurrada de sonhos que podiam sair dali mas se perderam. Viraram poeira. “Você não sabe o que é amor.” “Seu filho morreu.” “É que eu quero ficar com outra pessoa.” “Foi embora.” “Vá embora.” “Some da minha frente.” “Eu não sou isso aí que você está falando, não…” Aviões derrubando torres. Perceber pessoas se esforçando para entender O Dia Que Mudou A História, quase duas décadas depois de um acontecimento que ainda merece manchete, pode ser um ótimo estopim para quem pretende entender (pelo menos um pouco) o próprio percurso. Ou a interrupção do percurso, o que não deixa de ser percurso-em-si.

Para quem ainda está em isolamento, por conta da pandemia, este pode ser um exercício ainda mais marcante/assustador. Quem ainda vive de construir listas, coisa que parece não sair da moda, pode brincar com a coincidência entre os números: no décimo nono aniversário do ataque às torres gêmeas, estamos às voltas com o Covid-19. No mesmo dia, pipoca uma notícia de que as vendas de vinis ultrapassaram as de CDs na primeira metade do ano. Passado é assim: às vezes, traz um perfuminho. Mas noutras resgata mesmo é um futum bem desagradável. Tá sentindo, né?

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Haja punk rock

“Aperta aqui. Depois, a gente passa um álcool na mão e tá tudo certo.” Foi assim a tentativa de encerrar uma discussão que começou com futebol e, por causa da cerveja, não terminava. O álcool por dentro talvez tenha estimulado o mais calmo dos dois a sugerir o álcool por fora, isto é, nas mãos, para encerrar e pendenga de maneira que, digamos, nenhum dos dois lados levasse prejuízo para casa. Como os mais civilizados faziam, antigamente. Neste caso, o prejuízo seria o Covid. Mas logo depois de pronunciada a frase… Bom, a coisa acabou, ali, acabou mesmo. Mas com os dois fazendo papel de cara-de-bunda, sem o aperto de mãos. Mesmo quase bêbados, entenderam que o álcool-70% tiraria mais do que os “germes”, como diz a Lucy do desenho dos Peanuts. A moral da história é: álcool por dentro pode estragar tudo; por fora, já não garante muita coisa, para infelicidade dos mais civilizados.

Um troço que não acaba é discussão sobre futebol e política. Outro dia, um cara, bem intencionado, até, pelo que se sabe, do tipo que nas últimas eleições não fez o papel de classe-mediano-escroto, esse cara falava de “cidadãos de bem”. Pra você ver, hein, como se trata de uma expressão emporcalhada pelo ódio mas que pode aparecer em qualquer dos 300 lados. Aconteceu num grupo de WApp. E foi só aquele social-democrata falar em “cidadão de bem” para uma integrante da turma apontar que aquele era o nome de um jornal da Ku Klux Klan. Acabou como no episódio anterior. As expressões de constrangimento, desta vez, não apareceram. Porque se tem uma coisa boa nos grupos de WApp é a garantia de certa “proteção” aos usuários: o cara-de-bunda do iPhone interage com o cara-de-bunda do Samsung sem precisar do álcool por fora.

Estes dois primeiros parágrafos resumem tão bem o “quadro” dos últimos dias que seria razoável encerrar por aqui mesmo a crônica. A vida em dois parágrafos. Histórias curtíssimas. Já é quase Natal. Esperanças limitadíssimas, mas, com um liquidozinho higienizador, tudo pode se resolver e manter a esperança de pé. Rá! Mas o tempero extra do universo — pitadas de passado quase esquecido e de futuro bastante incerto — andam aparecendo de uma forma assim tão 70%, como que prometendo desdobramentos improváveis, que há algum combustível para seguir em frente. Ah, e teve o aniversário de lançamento do “Fresh fruit for rotting vegetables”, dos Dead Kennedys, esta semana. O álbum fez 40 anos. Não dá para terminar uma prosa sem registrar isso.

Estamos falando de um álbum que não era exatamente uma pregação em favor da revolução. Mas uma zoação que beliscava os mais sensíveis num modo non-stop. E tudo com uma velocidade, um vigor, umas letras e um deboche provocador que até então a gente não estava acostumado a ver. Não foi à toa que um monte de cinquentões postou estes dias que aquele foi um disco que mudou suas vidas. Será que estes sujeitos percebem que mesmo sem o medo da terceira grande guerra podemos eleger aquela pérola punk como uma trilha bastante adequada para os tempos atuais? O legado dos Kennedys não vai morrer nunca.

Quer coisa mais Dead Kennedys do que sair para ir à feira, num sábado, e, por se tratar de um percurso feito na Zona Sul do Rio, ver uns bons 30 policiais, pelas esquinas, espalhados em duplas ou trios, cuidando (até as 20h, pelo menos) da segurança da tradicional família carioca? E em pelo menos quatro destes pontos, o que eles estavam fazendo? Mexendo em seus celulares! O que será que estavam lendo/digitando?  De que grupos de WApp será que fazem parte? Não há mesmo álcool 70% que dê jeito. Haja punk rock.

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Chocolate

Ela chegou, sorrindo, e depois de tirar o tênis, a máscara, passar álcool pelos braços, pelas orelhas, pelo cangote e de tirar também a camiseta e o short, disse: “Trouxe uma coisa pra você.” Seguiu removendo as peças mais íntimas, aí dispensando o líquido higienizante, porque aquilo tudo estava coberto por tecidos que devem proteger de alguma maneira. “Ar fresco”, completou, uns bons minutos depois de ter começado a falar. Estava se dirigindo à plantinha, que ficava no início do corredor que não era bem um corredor mas que levava à cozinha. Tinha voltado da primeira caminhada desde o início da pandemia. E arriscou fazer aquilo, mesmo com uma dorzinha no joelho, porque precisava trazer ar fresco para dentro de casa.

As janelas andavam ficando mais fechadas do que abertas. Quando percebia isso, lembrava de uma decisão tomada logo depois que o vírus tomou conta do noticiário. Não conseguiria escrever num papel que decisão tinha sido aquela. E pensava nisso, na impossibilidade de transcrever a coisa, porque tinha tido essa vontade. Não se assustou com sua incapacidade. Mas ficou pensativa. Achava que tinha percebido a primeira pontada no joelho direito bem neste instante, o instante em que não conseguiu escrever o que tinha decidido. Naquele dia, fez um desenho que decidiu prender com fita crepe na parede do corredor que não era corredor, perto da planta a quem dava ar fresco depois de voltar daquela esplêndida primeira caminhada.

Pesquisou “joelho”. Pesquisou “dor”. Pesquisou “caminhar”. Pesquisou “pandemia”. Pesquisou “vítimas”. Pesquisou “prefeito”, mas desistiu desta e antes que o resultado aparecesse pesquisou “bdsm”. Pesquisou “mulheres dominadoras”. Pesquisou “sagitarianos”. Pesquisou “compatibilidade entre os signos”. Pesquisou “tarot” e “tarô”. Pesquisou “trabalho voluntário”. Pesquisou “mudança de carreira”. Pesquisou “solitude”. Pesquisou “Cem anos de solidão”. Pesquisou “delivery japonês botafogo”. Pesquisou “saquê”. Seguiu pesquisando, até que o interfone tocou e percebendo que já era noite colocou máscara, armou-se com o borrifador de álcool 70 e foi até a porta receber a comida e o saquê. Tinha sido dia de ar fresco. Achava que podia ser uma noite de peixe fresco.

Começou uma série. Estava disposta a maratonar. Não maratonava havia já algum tempo. Maratonar tinha perdido a graça, se é que algum dia teve graça. Sorriu satisfeita, olhando pros sashimis. E a satisfação escorria do sorriso porque o saquê era uma bebida danada de boa para contribuir com isso, com sorrisos de satisfação. Sentiu saudades de caipisaquês de lichia. Pensou nas estações do ano, achou que lembrava de ter visto lichia nas feiras em dezembro, época de natal. Mas não quis pesquisar aquilo. Enquanto colhia ar fresco, mais cedo, havia decidido só pesquisar uma vez por dia. Ficou pensando que talvez pudesse complementar aquela decisão, acrescentando um limite de horas ou assuntos para mergulhos no computador.

Foi como um insight: “Essa dor no joelho pode ser de ficar demais no computador, com a perna cruzada… Não é bom pra circulação, isso…” Sentiu-se aliviada e sorriu o melhor sorriso do dia, melhor do que quando disse à planta que lhe tinha trazido de presente ar fresco. Derramou o restinho de saquê num copo quadrado, com bordinha larga para quem quisesse colocar sal, ali, na beiradinha. Gostava de saquê com pitadinhas de sal, e se sentia uma personagem de série enquanto fazia isso. Estava de novo sem roupa e pensou em quanta gente gostaria de vê-la daquele jeito.

Lembrou dos chocolates que namorava de vez em quando e que mantinha guardados no armário da cozinha, quase escondidos. Do lado de fora, deixava as barrinhas de cereais. Pensou em pesquisar sobre calorias, fazendo rapidamente um cálculo importante, pro qual o resultado era que gastaria menos tempo ligando o computador do que tentando ler o que estava escrito no rótulo de cada embalagem. Lembrou-se da decisão tomada naquele dia. Nada de pesquisas. Não havia decidido nada ainda sobre o consumo de chocolates. E mesmo sem digitar ou ler nada achou que comer um docinho ajudaria a curar o joelho. Desejou ter mais saquê.

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@monteiro4852 #11

“O tempo voa”, foi o que disse o camarada Monteiro. Uma frase de balcão de padaria, da época em que se podia ficar tranquilo num balcão. E quando a gente fala em balcão, pensa no(s) de padaria e, claro, no(s) de boteco. É tudo balcão? Mais ou menos. Outras histórias. O que não muda é o tempo. Continua voando. Valeu, valeu, Siri Boy.

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Gelatina sempre super punk

A sociedade estadunidense não aguenta por muito tempo uma pedra em seu sapato. Coloca essa pedra na cadeia. Ou se acostuma a ela, transformando-a em objeto de consumo e exemplo de que a Democracia deles funciona. Jello Biafra conseguiu não mofar atrás das grades, sob a acusação de distribuir material inapropriado para menores. Aconteceu, quando éramos todos jovens, por causa do encarte em “Frankenchrist” — lembra? Só o título do álbum, num período da História em que havia mais tutano inclusive entre os reaças, já era motivo de muita falação/preocupação. O Senhor Gelatina nunca parou. À sua “aglomeração” mais recente, que já vem de alguns anos, deu o nome de The Guantanamo School Of Medicine. Esteve no Brasil, ele, com esta banda, e pudemos vê-lo no palco usando uma roupa pintada de maneira que fazia parecer que ali há sangue… Quem sempre foi fã dos Dead Kennedys não tem do que reclamar em relação à pérola recém-lançada por JB & TGSOM: “The last big gulp” (algo como “O último grande gole”).

Falar de um “lançamento”, nestes tempos internéticos, é uma coisa estranha ou, no mínimo, bem diferente. Com a avalanche de informação, é certo perceber o tempo demasiado curto para dar conta de tanta coisa. Estamos falando aí de uma impossibilidade; tá ligadx, né? Mas… filtrar uma música assim é um remedinho para matar saudades de uma época em que a audição de uma faixa (um single) ou um álbum tinham um impacto diferente nos ouvidos e nos corações do público. A Alternative Tentacles, já há algum tempo, rendeu-se ao marketing digital e manda informativos por e-mail avisando sobre seus lançamentos. E um dos mais recentes tem a ver com Mister Gelatina em pessoa, mesmo que ele não apareça no “clipe”. Ah, sim: falar em Alternative Tentacles pede que se faça uma alusão ao excelente slogan da gravadora: “Tormenting the stupid since 1979”. Numa tradução livre/carioca, fica algo do tipo “Zoando os manés desde 1979”.

“The last big gulp”, mesmo vista e ouvida no YouTube, consegue prender a atenção do velho fã do punk californiano oitentista. A sobreposição de imagens aparece pro quarentão/cinquentinha como uma referência direta às colagens de Winston Smith, o cara que fez o Jesus crucificado em dólares na capa de “In God we trust” e tantas outras coisas boas a partir da teoria do corte-e-cole. Em algum momento do vídeo, a gente pode ver o Trump com o rosto preenchido por arame farpado, numa nova versão para a capa do já mencionado “Frankenchrist”. Fazendo questão de ser bem atual, Ani Kyd Wolf (que aparece nos créditos como criadora do vídeo) nos mostra um monstrinho verde que — adivinha! — é o nosso já velho conhecido Corona Vírus.

Trump é uma das grandes “estrelas” do filminho. Surge sacaneado de várias maneiras. Mas o vídeo é mais do que um míssil na retaguarda do republicano. É uma semente de pesadelo da cachola do classe-mediano que tira alguns minutos do dia para preocupar-se com questões ambientais. Quando esteve no Brasil para o lançamento de um livro no qual era um dos personagens mais importantes, Jello Biafra aproveitou para soltar a voz, na Eco-92. E uma das coisas que comentou na época era que estava representando o Earth First, grupo então conhecido por ações de “terrorismo ecológico”. A palavra “terrorista”e suas variações ainda não causavam a preocupação que despertam nos dias de hoje.

Assistir ao vídeo de “The last big gulp”, na mesma medida em que diverte a gente e preenche o cérebro com uma pitada de fúria construtiva pode dar a sensação de que a luta está perdida. Termine de ver o troço e depois, veja se é capaz de decidir onde vai arquivá-lo: em “Viagem a um passado feliz” ou “Projeção de um futuro sombrio”. Esperava o que de Jello Biafra?