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Comportamento Crônica Literatice

Ppfff…

Houve quem apostasse — e estava coberta de razão, esta gente — que um dos maiores desafios do isolamento seria aprender(mos) a conviver com nosso umbigo. Lavar a própria privada também se apresentava como uma luta a ser vencida, mas luvas de borracha e milagrosos detergentes vendidos pelas modelos na TV estavam/estão aí para facilitar tudo. Quase três meses depois… Lidar com as próprias presepadas? Belezinha! A analista está respondendo pelo vídeo, no WApp. Mas… Passado este estágio da evolução, alcançado o entendimento dos protocolos de atuação política no Insta-só-alegria-gram, e mesmo com os bares ainda fechados, a gente começa a se perguntar: agora que somos (quase) capazes de nos aguentar, pelo menos um pouco, será que vai sobrar alguma coisa, uma dose de energia para suportarmos outrem?

A propósito: “outrem” soa melhor do que “outrxs”, não soa? Mas isso é uma outra história. As pessoas, mesmo isoladas, não escreveram mais do que vinham costumando escrever. Fizeram mais lives, mais vídeos, mais discursos, sim, isso elas fizeram. Mas… escrever? Ppfff… Aliás, de volta aos umbigos dos outros, à necessidade iminente  de encarar as manias dos convivas de outrora, ppfff… Poderemos ver o surgimento de uma espécie de Era do Pff… Vai ter quem prefira dizer “Ppfff… Times” ou ainda “Ppfff… Age”. O “Ppfff”, que é diferente do “e-daí-?” presidencial, pode vir a servir pra muita coisa. “Ppfff…” é aquele som que você faz quando simula um início de risada. Um verdadeiro coquetel de planejamento e espontaneidade, sem precisar de gelo.

Na prática, pode ser usado no momento em que pretende dar uma zoada, mas uma zoada de leve, em quem está por exemplo colocando nas alturas o próprio time de futebol. Sim, discussões importantíssimas sobre futebol devem ser das primeiras coisas a voltar à tona. Então, agora, quando as ruas estiverem sendo de novo ocupadas por prosas saudáveis e amigáveis, muito amigáveis mas às vezes capazes de acender o pavio do ódio… podemos soltar um “Ppfff…” e teremos achado a saída para não brigar.

O “Ppfff…”, na sua essência, já carrega um quê de válvula de escape. Você que além de limpar o banheiro arriscou-se a cozinhar feijão na panela de pressão teve a chance de observar o maravilhoso barulhinho que sai de lá. É quase um exercício de meditação conduzida: “Ppfffffffff…”

Os médicos não precisam se preocupar. Não é o caso de recomendarem o uso moderado do “Ppfff…”. Estamos falando de uma proposta anti-porradaria bastante segura. Estaremos todos usando máscaras… Elas não vão cair de uma hora pra outra. Aquele sujeito que cospe em todo mundo, vai poder fazer seu “Ppfff…”, como todos — vai ficar com o paninho que lhe cobre a cara um pouco molhado, vai ter que trocar, de vez em quando. Mas o “Ppfff…” é pra ser geral e irrestrito. Não faz sentido ter “Ppfff…” pra uns e não ter “Ppfff…” pra outros.

A gente vive num mundo de simplificações. O “Ppfff…” pode ser uma maravilhosa ferramenta para quem não aguenta mais essa história de bom-dia, boa-tarde, boa-noite. Vai bastar um “Ppfff…” e tudo estará resolvido. Imagina só: você passa por alguém, tudo que precisa dizer é “Ppfff…” e, pelas novas regras de convivência, em nome da tolerância umbilical, tudo vai funcionar bem. Sem cara feia, só “Ppfff…”.

Em discurso de candidato, sabe? Já quase dá para imaginar alguém, no palanque, de terno e gravata, claro: “Porque aqui, meus irmãos, não tem privilegiamento, é tudo na mais abençoada transparetude. Tudo em nome de todos e do progresso, pra que você não chegue no fim do mês e em vez de contribuir fique no… Ppfff…”

O “Ppfff…” não é concordância nem discordância. É paz/retórica da melhor qualidade resumida em pouquíssimas letras, cheia de sonoridade, de descompromisso. É expressão de firmeza e gentileza, sem que isso seja confundido com desafio e confronto. É sutileza, sem que deixe de haver um flerte com o deboche saudável, sem que seja um não à argumentação, pra carioca nenhum botar defeito. Já dá pra imaginar o Verão Do Ppfff…

O “Ppfff…”, inclusive, tem potencial para superar o “like”, o “joinha”. O negócio pode evoluir, interneticamente falando. Imagina se nas redes sociais criam o Botão do Ppfff…, vejam só. E aquele famoso adesivo, o Shit Happens? Vamos ter o Ppfff… Happens. Registra aí, antes que Ppfff…

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Comportamento Crônica Música Paulo-Coelhismo

Velocidade

O cara leva um dia inteiro para entender que precisa colocar nas redes sociais um adesivo que o qualifique como antifascista. Veja só, um dia quase inteiro correndo o risco de ser considerado um “antifascista lento demais”. Para dizer o mínimo, porque a era da pós-verdade também é a dos julgamentos-velozes-e-furiosos. A pandemia estava aí, quem diria, também para ensinar as pessoas a serem mais rápidas. Na manhã seguinte, senso de interpretação já mais aguçado, fica fácil o cidadão da internet perceber, após ver 17 perfis exibindo um quadro completamente preto, que tem alguma coisa no ar para ser entendida/seguida/comprada.

É hora de pintar tudo de preto, não de pensar em música e em cores? Teve uma artista plástica, muito engajada, por sinal, que parece que sem querer querendo furou isso. Não que ela discorde da #blackouttuesday, mas é que o trabalho que vinha sendo elaborado há semanas por acaso é bem bem bem colorido e no impulso ela publicou aquela imagem. Deve ter acordado cedo demais, antes do início da onda de quadros pretos. Ou foi dormir tarde, ontem. Teve um feedback positivo, talvez por ter mais tarde pedido desculpas, o que prova que as pessoas, isto é, algumas pessoas, são capazes de apertar o botão do preto e o botão das cores, nas horas certas, sem que isso se transforme num problema. Outra lição da pandemia: manter a concentração e o esforço para conversar.

Claro que não é sempre que dá para levar um lero. Já deu tempo de ver em ação quem tentasse conduzir essa pauta do preto nas telas com uma argumentação, digamos, técnica. Um papinho de que “preto é ausência de cor” e “branco é a soma de todas as cores”. Pouca coisa é mais irritante do que ver alma sebosa tentando se dar bem no palco. Se isso já é chato em dias “normais”, imagine num período de exceção…

Essa história de blecaute também pode levar a gente a pensar em sons. Tem as esquisitices eletrônicas — no bom sentido — de sempre. Mas essa onda toda de violência, que às vezes pelo menos em pensamento é capaz de nos levar ao século passado, quase ainda ao retrasado, pode nos fazer também revisitar clássicos. Como “Paint it, black”, dos Stones. Se for para voltar ao passado, vendo as fascistices do Poder ferrarem a cabeça da gente, com medo da polícia de um lado e do web-tribunal de outro, façamos uma viagem que ao menos tenha trilha sonora.

Por mais mainstream que seja, Stones merecem uma chance de nos embalar/ajudar aí. Richards e Jagger erraram e acertaram muitas vezes. “Paint it, black”, com certeza, é um dos acertos. E se o engajamento no protesto pode, de alguma modo, valer-se da oportunidade para promover algo, digamos, poético/colorido, que a música — sim! — entre em cena. Né? Que ela seja ouvida e sentida. E que os corpos e almas que estão sendo baleados e sufocados tenham uma chance de vibrar sob versos e acordes inspiradores — para eles e para os que ainda estão vivos.

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Ctrl + C -> Ctrl + V Música Umbigada Vídeo

:)

É muito fofo, quando logo pela manhã na segunda-feira um amigo do segundo grau te manda um vídeo do Napalm Death. Muito fofo mesmo: cover de um clássico do Sonic Youth! Só um camarada das antigas sabe do que a gente gosta, do que a gente sente saudade. Os vídeos de mulher pelada estão mesmo em baixa, durante a pandemia. Ou essa onda toda de doença mudou de fato a cabeça das pessoas. Valeu, Macaco Louco.

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Conto Literatice XXX

Dona Martha

Ela esculhamba com os clientes, pelo telefone. Outro dia, logo cedinho, parecia estar com a corda toda e falou com alguém de maneira bem áspera que era preciso parar de acreditar “nessa Astrologia de fundo de quintal”, porque “esse negócio de dizer que Escorpião é o inferno astral de Sagitário é uma tremenda bobagem; não existe isso de inferno astral, de um signo puxar o outro para trás”. Também era particularmente esclarecedor prestar atenção quando ela falava da carta da Morte: “É um sinal de renascimento, de mudança. Você precisa jogar fora as coisas velhas. Principalmente as da sua cabeça…”

Era possível ouvir muitas das conversas de dona Martha e concluir que ela dedicava muito tempo à Astrologia e ao Tarô. Assim com maiúsculas. Ai de quem escrevesse estas palavras com caixas baixas. Dava para imaginar isso, o perigo que seria, diante de dona Martha, não dar a devida importância à Astrologia e ao Tarô. Com dona Martha, todo cuidado era pouco. Se continuasse atento, talvez fosse possível para Nico aprender muito sobre aquelas ciências. Se tomasse notas, talvez pudesse no futuro inclusive oferecer estes serviços. Seria uma coisa meio fundo de quintal, claro, e ao pensar neste detalhe ele desistia do projeto. Nico era muito bom de projetos, outros surgiriam.

Ela não morava no mesmo prédio dele, mas provavelmente em algum edifício coladinho ao do rapaz. Isso dificultava a identificação da personagem. Quer dizer, já andava muito difícil identificar as pessoas co’essa história de todo mundo usar máscara. Conhecer alguém, neste período, o período das máscaras, era um lance bem improvável. O rapaz sabia disso e se dava por satisfeito quando, todas as manhãs, ali pelas 10h, a vizinha começava uma sequência de conversas pelo telefone.

Ela falava alto, durante os atendimentos, as sessões telefônicas com os/as clientes. E isso fazia com que o vizinho se perguntasse como não tinha começado a ouvir tudo aquilo antes. Talvez porque a doença, e o consequente isolamento das pessoas em seus cubículos, tivessem dado finalmente uma chance para a humanidade treinar a audição.

Houve vezes em que Nico se perguntou se havia mais alguém, além dele, concentrado nas conversas telefônicas de todas as manhãs. “Concentrado” era o jeito de dizer. Por causa da proximidade, não dava para fugir do que falava aquela senhora. “Senhora” também era o jeito de dizer, porque isso era só uma suposição, por causa do tom da voz que invadia o conjugado. As Verdades, assim também com maiúscula, invadiam os ouvidos de Nico. Martha com certeza não era uma adolescente, ainda mais tendo aquela coragem de identificar e condenar a Astrologia de fundo de quintal. E usando tantos plurais, como ela fazia… só podia ser uma senhora. “Deve ter sido professora”, ele desenhava.

Nico não ousava pensar nela em outros termos. Tinha certeza de que o nome dela se escrevia com “h”, depois do “t”. E era “dona”, sim, e não se falava mais naquilo. Pela regularidade com que as conversas vinham acontecendo, e sem que antes pudessem ser percebidas, talvez fosse uma vizinha nova. Mal podia esperar para que a pandemia passasse para descobrir de onde saíam todas aquelas frases tão certeiras. Tanta firmeza não se via em qualquer conversa… Estava com vontade de pedir a ela que fizesse o seu mapa astral. Ou que lhe desse a oportunidade de consultar o Tarô.

A dúvida era se deveria fazer isso pessoalmente ou tratar de agendar uma consulta por telefone. Era preciso ter o cuidado de não ser identificado pela vizinhança. Já bastava nas reuniões de condomínio ser “o maconheiro”, “o maluco” e “o artista”. Contava com dona Martha para esclarecer pontos importantes da vida. Por que as coisas andavam travadas no trabalho? Por que a carreira de artista não decolava? Por que Paula tinha ido embora? Por quê? Por quê?

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Parece Poesia Poesia Tipo Poesia Umbigada XXX

Leminskiando

Tenho uma coisa com sonho

Eu sonho

E tenho uma coisa contigo

Eu contigo

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Crônica

Curador de M

O hitchcockiano “Dial M for murder” ganhou nos anos 80 uma zoação em formato de fanzine: “Dial M for motherfucker”. A piada era boa, soava mesmo bem, e, ainda naquela década, “Dial M for motherfucker” virou também título de um álbum do Pussy Galore. Desde ontem, dá para usar esta zoação para nos referirmos a um certo curador: o nome dele começa com M e o cara vinha/vem aparecendo em lives para falar das novas possibilidades que aguardam a gente em museus e instituições que têm como “missão” levar “cultura” ao público.

O bamba da curadoria, arauto da transformação cultural, acredita que a saída para a sobrevivência das instituições será o que chamou de “vínculo afetivo” que houver/restar com os frequentadores. Até aí, tudo bem. OK também falar de instituições assim como se fossem “templos”. Mas já fica meio estranho quando emenda que, para estar nestes lugares, os representantes das camadas mais populares bem que podiam vestir o pano de festa, aquele ternozinho de fim de semana…

Outra ideia dada foi uma diferença no valor dos ingressos. Com venda antecipada, pela internet. Preços diferentes, experimentações diferentes. Quem puder pagar mais, sugere Mister M (essa também é boa e o pessal do ternozinho que não fala inglês pode entendender), talvez pudesse visitar os salões de exposição de maneira mais isolada, mais privê. Quem sabe até durante toda uma tarde, aproveitando para saborear um chazinho, ali pelas 17h.

Também foi possível ouvir a sentença de morte das “artes visuais”. Porque aquilo que apenas se vê será pouco para garantir sustentação a uma obra no universo que está para nascer na produção artística. E, claro, no circuito de eventual consumo do público (o privê, claro).

Houve ainda um momento para falar das companhias aéreas, que para ele devem, de alguma maneira, estar intimamente ligadas ao circuito das artes. A solução para a crise? Passagens bem mais caras. Sim, porque as pessoas precisarão ficar mais distantes umas das outras e aí, se as companhias quiserem se manter de pé, ou nos céus, a saída vai ser ter menos gente nas aeronaves. Todas aquelas empregadas domésticas indo para a Disney só podia mesmo dar nisso.

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Gostinho de hoje

Anderson Badaró e Junior Abreu são velhos conhecidos. Já até fizeram live juntos no Instagram, veja só. Mas, melhor do que isso, são dois caras que insistem em compor. Cada um separadamente soltou uma música que estava lá engavetada. E elas — coincidentemente — ganharam o mundo com um ar de atualidade que chama a atenção da gente. Parecem ter a ver com a época que estamos vivendo: “Eu direi apenas coisas que você quiser ouvir”, do Verbase, e “Vai passar”, da Ursa Maior. Soam “atuais”, sim, ou “bem contemporâneas” por causa de seus títulos, suas letras, suas densidades…

Mas não são de agora. “Eu direi apenas coisas que você quiser ouvir” é de 2002 e acabou não entrando em nenhum disco. Ganhou vida agora depois que Badaró montou um estúdio e conseguiu trabalhar melhor umas coisas que vinha matutando. A faixa deve entrar num disco que ele espera lançar até o fim do ano. “Vai passar” é um pouco mais nova, tem cinco anos. “Profetizei, sem querer, cara”, brinca Abreu.

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Pop, o cachorrão

Imagem: Maurizio Cattelan

Iggy Pop sempre foi meio cachorrão. Feroz. No sentido rock’n’roll. O que é um “bom” sentido, na medida em que, bem, rock é só um troço que se consome aí como também se faz com clássicos, axés, emepebês etc. E, talvez por ser cachorrão, era fácil lembrar logo da maravilhosa “I wanna be your dog”, quando se falava dele. E não é que, no projeto “Bedtime stories“, para o New Museum (NY), ele dá o pontapé inicial lendo um trecho em que só falta latir…!? Vai ser mais fácil a criançada ficar com o olho arregalado do que pegar no sono, depois de ouvi-lo.

Imagem: Maurizio Cattelan

Por trás de tudo está um cara chamado Maurizio Cattelan, que meses atrás foi aplaudido por colar uma banana numa parede usando fita adesiva. O New Museum fica em NY, pelo que diz o Google, e foi inaugurado em 1977, na Bowery —  mesma via em que ficava o CBGB. A gravação faz parte de um desses projetos que oferecem uma coisinha digital a mais para a humanidade suportar o período de isolamento pelo qual está passando. Um bando de outros artistas vai participar do projeto, incluindo David Byrne (sabe?), Jeff Koons (o do coelho de 90 milhões de dólares) e Raymond Pettibon (aquele que fez a logo do Black Flag).