O presidente estadunidense e sua fama, quer dizer, fome por novos territórios reacendeu uma espécie de discussão-conscientização-pregação em bolhas que flertam com o budismo e com o estilo, digamos, mais zen de viver e eventualmente protestar. O pessoal começou a falar muito da “impermanência das coisas”. É inconstância aqui, transformação ali… Vazou. Viralizou. Houve claro quem digitasse esbravejando contra esse vento de fragilidade que parece embalar o mundo de hoje. Nas prateleiras, há impermanência em todas as cores e tamanhos. A de marca, a marba e marva. Pra quem não dá rolé entre ambulantes, vale a explicação: Marba é a marbarata. Marva, a marvagabunda.
A bolha pode ter estourado, ou a culpa é da água distribuída pela cidade, porque em dois dias foi possível ouvir referências vindas das mais diversas vizinhanças e situações. O fantasma da impermanência está solto. Até há pouco, ela até podia ser comparada às marés, ao vai e volta. A solução poderia estar em conseguir alcançar o próprio rabo, mordendo-o e recomeçando a brincadeira. Mas após a invasão de um país, ferrou, parece não haver mais retorno. Isso é como soltar todos os cachorros. Com a massa deprimida, assustada e refém de boatos-verdades sobre a impermanência, está bem parecido: depois que espalhou, ferrou; virou hype. Aí, é consumir e ser feliz. Tinha a Inteligência Artificial. Agora, de tão forte que está, parece ter nascido a Impermanência Artificial. Ou Impermanência Apressada. Será doideira da cidade maravilhosamente impermanente do Rio de Janeiro? Depois dos inesquecíveis Da-Lata e Do-Apito, pode ter chegado o Verão-da-Impermanência.
O que vai sobrar de mundo para a gente continuar fazendo besteira? Abra os olhos. O troço ainda não acabou. O sol está aí, oferecendo esse calor do inferno que não vai desaparecer com três dias de chuva. Sacanas que somos, pegamos a sombra, cerveja fresca, Impermanência e a transformamos em propaganda de pré-carnaval; quando a proximidade da folia faz ficarem ainda mais entusiasmados, os discursos: “Mais uma vez, mais uma chance de a gente experimentar ser outra coisa”, disseram, em praça pública, para logo depois empurrarem a confirmação mais convidativa do que realmente questionadora: “Ué, essa temporada é pra isso, né? E se puder não repetir a fantasia, melhor ainda”, ensinou a moça que garante ter um modelo novo para cada dia.
Está fácil ficar permanentemente perdido, diante das impermanências. A gente sempre soube que o mesmo folião nunca vai duas vezes ao mesmo bloco, porque ambos se transformam, sempre. E aí nem é a cada ano, mas a cada esquina. Para renovar o cabide de acessórios, a pochete, às vezes tão condenada, ganha uma nova chance entre os homens, num formato retangularzinho que surge muito ligado à etiqueta Every Day Care, reunindo itens “indispensáveis” para quem quer/precisa estar preparado para tudo. Tudo o quê? Não adianta responder, porque muda em segundos.
