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Boteco connection #3 — Sapatinho de cristal e cara de pau

A pandemia criou uma nova categoria: o intelectual de calçada. Você pode chamar de uma evolução do intelectual de boteco. A diferença entre os dois é que os do novo grupo se preocupam mais com a saúde. Ou têm mais medo de morrer. O que (para os menos esclarecidos, pelo menos) pode dar no mesmo. Ambos ficam com aquele caô de chamar o garçom pelo nome, ensaiando uma intimidade/gentileza que não passa do terceiro copo ou do primeiro “não” que o trabalhador for obrigado a dizer. O que é que ia mudar mesmo, depois do Covid, hein? Ah, a maneira como as pessoas veem o mundo, a vida, quem está do lado…

Seguimos esperando. E bebendo. Porque cerveja é coisa sagrada, para esquerdopatas e terraplanistas. Disso, você já sabe. É o que obriga os dois a acreditarem na água, mesmo que no fim da rodada cada um dê um peso para aquele “produto”. Mas nestes dias de pré-derrubada do atual prefeito do Rio (com o caminho aberto pela queda do Trump), faz mais sentido a gente falar naquilo que — pra te influenciar — colocam no teu WApp (e não na piada mais velha, sobre o que puseram na água) e não no encanamento. Capivarinha esperta não deveria beber qualquer água ou acreditar em qualquer vídeo. Mas não podemos esperar muito de capivarinhas.

Pois então: tava em algumas bolhas, no WApp, a historinha de uma Patrícia que teria pedido ao menino do boteco que cruzasse uma praça inteira para, como um favor, comprar para ela um maço de cigarros. A primeira resposta dele, depois da cara de descrença diante do pedido, foi o “não”. A cliente seguiu tentando. Explicou que estava usando saltos muito altos e que precisava fazer aquilo porque o calçado tinha sido presente da avó. “Tenho que provar para a minha avó que usei o presente dela”, declarou, sorrindo. A cara do garçom continuou sendo de descrença. Faltam palavras para descrever a cara de quem estava em volta, alguém que provavelmente frequentou alguma aula de teatro.

Conhecida num passado não muito distante como destruidora de superego, a cerveja pós-pandemia poderá ajudar em duas coisas: combustível para juntar os cacos dos muros que forem quebrados. E, o que é mais provável, a quebrar barreiras que durante estes dias difíceis acabaram se solidificando ainda mais. Como sempre, haja goró.

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Boteco connection #2 — Cortando a asa do pavão

A louca dos gatos. O louco dos cães. Dois personagens que, entra pandemia, sai pandemia, continuam aí firmes e fortes. Às vezes, sem máscara, desafiam as “leis”, como se sua relação com os bichos garantisse tudo. Além de afeto-anti-estresse, eles parecem ter superpoderes que lhes permitem descartar(/desdenhar d)o paninho na cara. Já tem até loja de animais de estimação prometendo, além do pet, uma dose extra de imunidade/saúde/anticorpos para seus clientes. Se não tem, anota aí, vai ter. Afinal, se tem uma coisa que a doença não colocou abaixo é essa história de que “marketing é tudo”. Pra algumas pessoas, não vai ser atraente, porque ficam mais “atraentes” de máscara mesmo.

Outro dia, uma LDL, tipo numa “crise”, foi ao bar levando na gaiolinha o felino de estimação. Disse que fazia aquilo por conta da dedetização que estava em andamento na casa em que moram ela e a gatinha. Explicou também que “a pessoa é alérgica a gatos e mesmo assim tem gatos”, o que pareceu colocar abaixo (ou ao menos em xeque) o cheiro de razão que havia primeira justificativa. Mas loucura é loucura, a gente não está aqui (e muito menos nos bares) para apontar a cura para ninguém. A gente só espera que os bichos, na hora do passeio, estejam devidamente preparados: com máscaras e, no caso dos cachorros, com coleira e se pá focinheira.

Porque marketing não resolve tudo. Ponto para o cidadão de bom senso, se é que ainda existe algum solto por aí. Aliás, marketing bom (ou ao menos divertido) muitas vezes é marketing desmontado. Os montadores de estratégias não deviam ter medo disso. Assim como muita gente não tem medo de sair sem máscara.

Aconteceu outro dia, num balcão aqui das Laranjeiras: o gerente de vendas de uma grande marca acompanhava o seu “vendedor” para enfrentar uma comerciante com fama de raivosa. Falando assim é quase como que falar de um cão ou um gato, né? Mas vivemos uma época em que muita gente tem mesmo mais “paciência” com bicho do que com gente. Aqui nesta página, não deixamos de acreditar na coleção de motivos de ninguém. Chegaram na lojinha e disseram, quer dizer, disse o gerente: “Senhora, esta cerveja não pode custar menos do que aquela…” Ao que a dona olhou por cima dos óculos e num momento de rara calma respondeu que “Pode, sim, porque aquela outra é mais popular, todo mundo quer, e aquele pessoal lá quando diz que vai entregar, entrega mesmo. Os pedidos que faço a vocês vêm sempre faltanto alguma coisa…”

O gerente e seu quase-cão saíram algo enfurecidos/cabisbaixos. A senhora foi quase aplaudida pela simplicidade e firmeza com que enfrentou a situação. Ela não precisa de bichos de estimação. É ela mesmo quem diz isso. Precisa apenas de marqueteiros que não se metam onde não devem. E que cumpram o que prometem. Ponto para as vendedoras deste naipe, enquanto ainda estão soltas por aí.

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Cruzamentos

É engraçado ler o que pensam algumas pessoas sobre as estradas, essa história de que elas afastam e ao mesmo tempo aproximam. Quase dá vontade de rir, mas é um riso nervoso, vale dizer, já que tanto é possível considerar o caminho como tudo e ao mesmo tempo como nada. Tá bom, tá bom, vamos controlar o raul-seixismo, hoje. Mas, sim… Tem que passar por aí para concluir que, no fim das contas, não, nenhuma destas duas extremidades conta. Segure a onda. Sem cara de desprezo, ok? O que conta, então? Ah, acho que vamos demorar um pouco mais para saber. Se é que vamos chegar sequer perto. Um amigo acaba de dizer, agora, agora mesmo, que ontem para variar estava nesta avaliação do “todo”, numa daquelas tardes em que a gente joga xadrez com a gente mesmo, e somos nós contra a Morte, e acabou conseguindo fazer um zinão. O detalhe é que isso acabou se desenrolando num mergulho de 15 anos, porque ele foi até o início do século para garimpar as imagens com que trabalhou para apertar o botão da descarga de poesias. O botão de descarga de poesias é um recurso criado por esse amigo para libertar uma série de coisas escritas que ficam travadas em folhas de rascunho que quase que invariavelmente se perdem na casa que ele tem fora da cidade. E quando pinta esse papo de “fora da cidade” fica fácil voltar a pensar nas pessoas que falam sobre as estradas, as ligações, os passados, os presentes, os futuros que nunca foram tão incertos. Ah, tá, você não é boba nem nada, não chegou a falar dos futuros, conseguiu cuidar/escapar disso, deve ser o caso de agradecer ao ventinho da estrada, aquele que entra pela janela do carro, quando a gente alcança uma velocidade boa. Não que seja preciso um bagulho de quatro rodas e motor para aproveitar um ventinho: o amigo de fora da cidade consegue isso de bicicleta e às vezes sem sair do próprio quintal, quando ele leva para lá uma mesa portátil, canetas, pincéis e tintas vagabundas e, naquele caô de passados recheados de lembranças, acaba fazendo um zine. Tudo não passa de desculpa para revisitar o Centro e lamentar o fim de um monte de papelarias. As estradas, os ventos, os zines, os passados… são todos detalhes e costuras entre pessoas que nunca se conheceram direito, beberam menos do que desejaram, se abraçaram beeem menos do que mereciam, cozinharam demoradamente questões que nunca ficaram macias a ponto de serem digeridas adequadamente. E se até hoje não estão prontas para serem engolidas, estas questões, haja dente, haja maxilar, haja paciência, haja pandemia, haja exercício de alongamento, porque isso uma hora vai ter que acontecer. Haja estômago. E quando chegar esta hora, a dos acontecimentos que estão ali sendo chocados, vai ser um danado de um presente. E pode ser que ninguém esteja devidamente preparado para isso. E tudo bem se não estiver, porque isso é assim mesmo: a gente nunca está cem por centro para aguentar os duzentos por centro que desde sempre ameaçam desabar sobre a nossa cabeça. Em dias nublados, isso pode chegar a trezentos por cento. Então, é melhor não reclamar e seguir na direção da Luz. É o mínimo que pode fazer um candidato a Louco. As estradas estão aí pra isso.