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Números

Há números para todos os fins. E para todos os gostos. Em ano eleitoral, tem também para todos os desgostos. A gente vê as pesquisas, faz as contas, dá de cara com o Bicho Urnão piscando pra gente e… Alguém estala os dedos, bem ao lado, e não dá para perder a chance de voltar aos números, outros números, os do cotidiano, das contas no mercado, do desenrolo com a molecada que diz que te ama e pede um pix para garantir a pizza com a galera. Era disso que uma mãe falava, outro dia, na mesa ao lado. Parecia ser uma mulher de números. De três filhos e muitos números.

Um deles, 18 anos, era o personagem principal daquela lista-momento. Ouvintes atentos suávamos para entender se aquilo na ladainha era queixa ou somente constatação. Navegar pelos números daquela senhora se apresentava como uma possibilidade de diversão interessante para quem interagia com apenas um cafezinho. Cinquentona, a tal parecia concentrar-se nesse rapaz de quase 20 que havia desistido do Design para mergulhar na Economia. Na infância, parece que ele dizia que ia ser bombeiro.

“Vai começar a faculdade, no segundo semestre”, apresentava ela, antes de contar que o moleque faz 150 pratas se chegar às 3h na praia de Copa para ajudar a montar um esquema de aulas de Stand Up Paddle. Se chegar às 6h, quando o trabalho provavelmente é menor, ainda segundo ela, o cachê cai para $50,00. Depois disso, há ainda a chance de o “garoto” embolsar $30,00 ou $20,00 por cada partida de futebol em que atue como goleiro. Ser mãe é saber quanto o filho pode ganhar como goleiro jogando nas areias de Copa ou no Aterro do Flamengo. Quem sabe o cobre melhora na Lagoa, hein, onde as coisas tendem a ser mais caras?

O tom da mulher, de repente, mudou. Em instantes, ela pareceu envelhecer ou confessar com os olhos um certo enfezamento. A partir daí, só fez reclamar que o filho havia rejeitado um convite para almoçar com a avó, num restaurante japonês. Era para ser um rodízio e a mãe-da-mãe pagaria $100,00. É mais fácil ser goleiro na praia do que dar uma bola para a vovó, esta era a conclusão mais rápida. Mas mãe é mãe, não é madrasta, já dizia a máxima, e a radialista — porque nessa hora ela parecia ter certeza de que estava sendo ouvida por muita gente — seguiu com seus números.

Aquilo que podia ser um iminente número-2 pareceu abandoná-la e voltamos todos a compartilhar e celebrar o jogo de cintura do futuro economista. Todos souberam que naquela tarde o sortudo poderia contar com $40,00 por hora para acompanhar um influenciador gringo. Ela sabia que no trajeto estava incluída a Feira da Glória. Aquela mesmo, em que não cabe mais ninguém. “Meu menino manda bem no inglês. Aí, consegue esses jobs”, destacava.

A mamãe havia tirado da bolsa o celular, após um minuto de silêncio. Mostrou à amiga com quem dividia a mesa e comentou o que aparecia na brilhante telinha. Parecia ser uma pesquisa de preços. “Tamarindo, $59,90, o quilo. Cupuaçu, $24,99, o quilo. Tangerina importada, $16,99, o quilo”, falava, enquanto fazia com o indicador da mão direita aquele movimento muito atual de arrastar-para-o-lado. O ensinamento que ficou é que ser mãe é — também — entender de números e que mesmo com o estresse danado em que a gente vive atualmente há na Zona Sul do Rio famílias ganhando um “cascalho” fácil e comendo muito bem.

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Rainha do pop… Zzz…

O que torna uma pessoa merecedora disso ou daquilo? A gente merece o show de Madonna, aqui no Rio? A pergunta não quer dizer que o escriba a considere grande coisa. E tampouco a última frase serve para colocá-la num lixo liliputiano qualquer. A questão é: aqui está a artista, em pauta/alta. Nos últimos dias, foi esculhambada por um velhaco cineasta lacrador, celebrada por uma colunista bonitona e de veiculozão, passou pelas confissões de uma crítica gastronômica que lamentava que seus amigos chefs não lhe tivessem dado qualquer informação relevante… Madonna estava em todos lugares, nos últimos dias. Até aqui. E parecia unir o que já estava junto, além é claro de apartar o que já estava separado.

Os conselhos, essas coisas que a gente sempre pode ouvir, em vagões às vezes lotados do metrô, pareciam estar sendo dados aos montes e sendo direcionados a quem se arriscaria a ir à praia de Copa para ver a veterana. Será que Madonna fica boladona de ser chamada de “veterana”? Alguém tem para ela um conselho sobre isso? Ah, não era sobre isso, o conselho no vagão entupido de gente? Não, era para quem quisesse ouvir, e era em torno duma regra básica para eventos deste naipe naquele bairro: “levar o celular do ladrão”. Pra quem veio de fora, o encontro com Madonna na praia vai ser uma aula/prova de sobrevivência. Para quem é da cidade, idem.

E pra quem não tem maturidade para absorver ensinamentos assim tão… tão importantes? Tipo a menina de 11 anos, que vai ter que se contentar em ficar na areia mesmo, em meio aos milhões de aconselhados que foram até lá para participar da festa. Precisava ter já chegado aos 13 para participar da promoção que oferecia ingresso VIP para a maratona. O primo do vizinho de um amigo sumido foi quem falou: Madonna publicou no Insta dela que você estará concorrendo a um ingresso VIP se mandar um zap com a palavra “rio”. Tomara que alguém esteja espalhando isso no metrô, porque mesmo que hoje em dia as notícias — as falsas e as muito falsas, principalmente — circulem por celular, artista que já pretendeu orientar o futuro de uma certa humanidade hoje tem uma certa cara de passado e… e é isso que dá pra apontar como legal nela.

Para o cineasta grisalho, parece que nem mesmo isso. Cineasta não aprende mesmo, né? Essa mania de provocar, de achar que dá para fantasiar inveja de verdade… Precisava dizer que aqui no quintal tem pelo menos umas duas dezenas de cantoras melhores do que a material girl? Não deu tempo de pesquisar que intérpretes são estas, porque, além de cheio o metrô anda atrasando muito. Aí, você chega tarde em casa e vai escolher o lado de quem está contra o show em frente ao Copacabana Palace? Não, você vai lá conferir se é verdade essa história de sorteio de ingresso vip porque, cara, se você consegue, vai ser tipo ganhar na loteria. “Menos. Menos. Menos.” Tipo ganhar no bicho, pode ser?  Só não vai arrumar confusão comparando Madonna com um bicho qualquer. O conselho vale também para quem não é cineasta. Ela é da espécie das vencedoras. Das que fazem o mais ranzinza dos alvinegros levantar a bunda do sofá pra dizer que sua música preferida é “Borderline” e, também, rascunhar algo. Já que não vai na porcaria do show. Pelo menos faz uma porcaria de texto.

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Formigamento

Um passeio pela praça. Crianças brincando. Ninguém parecendo ligar para a promessa de chuva. Nenhum ambulante vendendo cerveja. Cachorros que chegam perto, atraídos sabe-se lá pelo quê — a ponto de pegar as bolinhas que os donos jogavam para, na volta, perderem o rumo. Como se a recompensa tivesse mudado de lugar. Os pombos davam uma trégua, até porque não havia nenhuma migalha por perto. Não era uma tarde de restos. Era sim um pico, um pontinho de intensidade. Talvez no plural mesmo: in-ten-si-da-des. Uma praça é uma promessa.

A história da senhorinha do prédio branco de janelas azuis é a seguinte: ela morava ali com o marido. Foi por décadas o endereço deles. E parece ainda ser, mesmo que nenhum dos dois esteja mais por lá. As janelas daquele andar revelam-se as mais desbotadas, como se há muito não fossem acariciadas com tinta nova. Janelas fechadas-fechadas-mesmo, não como as outras em que o pessoal parece se contentar em se esconder atrás de vidros. Contam que o casal de velhinhos ia sempre à feira que rola ali perto, aos domingos.

As formigas ensaiam uma mobilização. Como se estivessem estudando desenho. Figurativo mesmo, o negócio. Formigas inteligentes. Terão sido inventadas, na última hora, elas, e já estavam tomando conta de Copacabana? Estarão aliadas aos cachorros, naqueles desvios de comportamento? Será que estes bichos riem, agora entendendo a estranheza que provocam na gente que fica sentada se beijando, alheia a tudo, celebrando um amor que parece o mais intenso de todos? De todos os tempos.

Terão os bichos respostas sobre o futuro ou será que estão limitados aos desenhos que parecem capazes de fascinar um estudante do Parque Lage? Um colecionador investiria algum trocado naquilo? Talvez depois de pesquisar quanto tempo vive uma formiga e calcular como será a produção anual da turma daquela área. Um vento fresco surge para espantar as contas e evidenciar o calor. Um sopro que gela um pouco o suor e espalha cheiros doces. Gente vendendo amendoim, ali perto, amendoim doce, contribui com o adoçamento. A pergunta passa a ser sobre a influência que aquele cheiro pode ter sobre a produção artística das formigas. O espetáculo parece continuar só com as formigas, porque depois de um tempo os cachorros deixam claro que se cansam logo.

Somos todos formigamentos, organizadinhos em nossos sonhos de desenhos. Crianças num cercadinho misturando suor e poeira, vendedores de estalinhos e outros brinquedos num quadrado que deve ter sido definido pelos coronéis das redondezas, bancos convidativos com espaço para cinco mas sendo usados invariavelmente por dois caras. Um casal. Tem alguma coisa acontecendo, ali…