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Boteco Connection #15 — Mister Silver

Perdeu, quem apostou que é só para se esconder da esposa que o Seu Antônio corre para trás da geladeira. Quer dizer, para a lateral, ali no meio do caminho para o balcão, que por sua vez está no meio do caminho para o banheiro. O velha-guarda parece calcular os movimentos, nos detalhes. Atrapalha a passagem de todos, quando escolhe ficar ali. Nosso amigo desenvolveu a técnica de esconder-se bem no… meio do caminho. Nunca vai ao banheiro e vive de obstruir a passagem de todos que desejam fazê-lo. Suas investidas diárias — duas garrafas de cerveja de 600ml mais duas cachacinhas — nunca foram suficientes para levá-lo ao segundo andar, o que talvez trouxesse um novo tempero para o esconde-esconde com Dona Nelma. No banheiro, que fica no longínquo segundo andar, ele não correria nenhum risco de ser visto. Mas é bem verdade que seria uma proteção de validade curta e existe, no fim das contas, o perigo, ele deve saber, de ao descer as escadas dar de cara com alguém que não estava por ali na hora da subida. Risco altíssimo para quem não quer ser visto. Parece excesso de frio na barriga para um discreto mestre na sutil arte de desaparecer na hora do almoço. Ainda não pintou uma alma com coragem para questionar um sujeito com o cabelo prateado daquele jeito.

Sabe-se que já se vão umas três décadas nessa brincadeira do casal. É cascudo, o Seu Antônio, e portanto apenas perde tempo quem julga poder ensinar a ele algo novo em termos de camuflagem botequeira. É boa, a sensação de encontrá-lo, agora no ainda-início do ano, porque vem junto uma promessa de riso/entrenimento por toda a temporada. Duas cervejas e duas cachacinhas, quando saboreadas pelo Seu Antônio, provocam, no entorno, a sensação de que o tempo corre mais lentamente. No esconde-esconde de Seu Antônio e Dona Nelma parece haver uma “terapia” da qual todos participamos. Calados, claro.

Nos instantes em que pisca/relaxa, Seu Antônio revela-se bom também na criação de histórias e personagens. É o tipo de cara que, enquanto se esconde, fala de fala de conhecidos que se empenham exatamente na mesma prática. Nestes tempos em que todo mundo é roteirista, Silver Tony é Doutor. Neste último domingo, compartilhou com a plateia sua experiência como “parte” de uma perseguição policial. “Quase levei um tiro. Desde esse dia, nunca mais fico na calçada”, comentou, sério, esclarecendo que não, não gosta muito de caçar bares novos, prefere repetir os já manjados — onde às vezes por exemplo ganha um tasco de batata doce. Essa história envolvendo mocinhos e bandidos, onde não ficava claro quem tinha feito os disparos, ele revelou só recentemente. Como se estivesse testando a gente, ali, em volta, para saber se poderia falar coisas mais sérias. Quase morrer porque ficou na calçada bebendo uma cerveja é uma coisa muito séria. Quase morrer de vergonha ao chegar em casa e ser confrontado com alguma verdade, tipo a esposa dizendo que tinha visto o que ele anda fazendo naquela meia hora a mais de almoço, também pode ser considerada coisa séria.

Dono de olhos muito azuis e uma vasta cabeleira branquinha/prateada, Seu Antônio é um velha-guarda clássico. É bom em dois tipos de rasantes: a chegada-saída-passagem pelo bar, quando se mostra às vezes escabreado, e as passagens pela praça, que fica ali perto, quando está com três sacolas de mercado, nenhuma delas muito cheia. Sempre sorrindo. Dando a entender que cada coisa tem sua hora.

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