Categorias
Arte Beber Comportamento Crítica Crônica Freudcast Literatice Paulo-Coelhismo Sem categoria Umbigada

Não chega a ser uma conexão

As manobras que a gente precisa fazer às vezes para não apertar a mão de alguém, né? Mesmo que às vezes nem haja nesta escolha tanta certeza. O cara pode ficar perdido entre aqueles dois caminhos: um que a placa descreve como certa a opção de tocar outrem. Um segundo, uma outra placa, ali, bem do lado, que avisa sobre o risco do que será absorvido mesmo que o toque seja acidental. É muita coisa para a gente decidir, o tempo todo.

O que faz uma pessoa colar um adesivo num banheiro público? O que faz alguém remover de um banheiro um sticker que estava lá, muito de bobeira mas com o compromisso, talvez, de animar mijões e mijonas das mais diversas origens. É mais fácil a gente perdoar quem coloca ou quem tira? Perdoar é fácil? O que é o perdão? Gente que cola pedaços de papel ou plástico por aí não deve estar preocupada com o perdão de ninguém. É intrigante tentar achar motivos que fazem alguém colar um troço numa caixa de metal que fica bem no alto de um poste. Mijões e mijonas não devem se divertir com aquilo porque fica muito no alto.

A falta que pode fazer, veja só, não só um adesivo mas, também, o contato com o pessoal que te vende aquele café especial. Um pacote se esvaziando pode ser o gatilho para alguém pensar na relação que se forma, depois de alguns anos, entre duas pessoas, mesmo que os encontros se limitem a dar-o-dinheiro-pegar-o-pó. Às vezes, dá para subverter o protocolo. Como quando a entregadora, em pé num balcão de bar onde marcou o encontro com o cliente, fala sobre uma cerveja escura que está vendo na geladeira e que a faz lembrar-se de uma irmã mais velha. Um rolé que começa com uma promessa de pó de café pode render uma cerveja, uma descoberta, uma história de família. Sem esquecer de olhar a porcaria do Instagram, que ninguém é de ferro.

Um aviso que chega muito em cima da hora, no laço, e por isso — mais do que matar uma vontade — faz a gente querer ainda mais alguma coisa. Uma ampulheta em que a areia escorre tão rapidamente que o observador pode chegar a visualizar, na parte inferior, uma espécie de aspirador de pó. Não de pó de café. De pó rosado, que é a cor da areia que passa pela cabeça no escriba, no momento em que a frase é montada. Areia cor-de-rosa, ampulheta com duração de seis minutos. Meia dúzia de minutos. Meia dúzia de frustrações, de encontros que não se confirmam. Porque o tempo é curto. De quanto tempo a gente precisa para tomar um café? Quando você fala “Vamos tomar um café?”, está pensando em quanto tempo?

O moleque pede água. Não se bebe adesivo. Ainda. Do lado de dentro do balcão, o atendente do bar finge não perceber a mão que estava esticada, buscando um aperto, uma saudação. Ao menos, rolou a água. Uma sede chegou ao fim. Para bom amarelador, meio sorriso amarelo basta.  Para bom corredor, meio café basta. Para quem está atrasado, meia corrida não resolve. Para quem entende a mão e não recebe uma mão de volta, um copo d’água pode virar um balde de água fria. Em dias de chuva, a água fica ainda mais gelada. Em cada curva, um adesivo que a gente não esperava.

Categorias
Conto Literatice

Bem, às vezes…

“Tá pronta, filha?” O pai fez a pergunta, certo de que a resposta seria o costumeiro “Peraí, por favor…” mas não chegou a ficar surpreso quando em vez disso ganhou ligeiro um “Vamos lá”. Saíram com mochilas, a menina de 7 anos com uma bem pequena, que era num formato de pandinha, e o chefe da família com uma grandona, de armação, antiga, da qual ele se orgulhava. Tinha pensado em desistir daquela mochila, porque ela era camuflada e trazia num dos lados uma bandeirinha do Brasil. Levavam também dois cases, sendo que um era para manter frios alguns dos alimentos que seriam consumidos, durante o fim de semana. Fazia friozinho, naquela sexta.

“Vai ser legal, né, papai?” Ele sorriu e respondeu que sim, enquanto arrumava no carro todas as coisas. “Mas precisa paciência, porque viagem, você sabe: às vezes, é árvore; às vezes, é cidade; às vezes, é vaca; às vezes, é fio; às vezes, não tem fio…” A menina sorriu o melhor sorriso daquela manhã, e revelou resíduos de pão francês entre os dentinhos da frente. O pai percebeu e ligou o botão da voz firme para dizer que eles precisariam voltar para o apartamento, para que a pequena escovasse os dentes, coisa que ela não tinha mesmo feito.

Já na estrada, a garota ocupava seu lugar na parte de trás do 4×4, e se divertia com um pacote de biscoitos de queijo. O pai caçava o olharzinho dela pelo espelho e ficava pensando se haveria algum problema com os dentes da filha, já que ela não parava de comer e ele precisava ficar toda hora lembrando da escovação… Tinha aprendido fazia pouco tempo a não deixar que pensamentos assim o levassem para um poço escuro, tomado por água-raiva, onde encontrava a ex-mulher e se afogava com ela em discussões sobre o valor da pensão.

“Às vezes, é o aluguel; às vezes, um extra pro dentista; às vezes, uniforme novo; às vezes, dentista… Porra, tem essa porra de dentista…”, deixou escapar, deixou escapar bem, com um tom de voz que foi crescendo. Se tivesse parado no aluguel, a menina não o teria ouvido. Mas ela ouviu. Sorte dele, porque a resposta para aquele momento de cólera, foi o melhor dos antídotos: “Eu te amo super ultra big mega power infinito, papai… Estou muito feliz de ir viajar com você. Acho que eu vou amar o acampamento…” Ele sorriu e explicou: “Não vai ser bem acampamento, dessa vez. Tem que ser aos poucos, porque eu sou cascudo mas você, não. Com o tempo, a gente vai acampar, perto das praias, perto dos rios, e aí vai ser muito, muito legal. Mas por enquanto a gente vai ficar numa cabana. E vai ter lareira, vai ser muito legal, a gente vai brincar de acender fogueira…”

Pararam num posto, para abastecer, e também porque precisavam comer alguma coisa. Quem sabe a menina poderia escovar os dentes, coisa que acalmaria muito o pai. “Porra, tem essa porra de dentista…” O frentista vestia por baixo do macacão a camisa de um time de futebol que era justamente a agremiação pela qual pai e filha não tinham muita simpatia. “Ih, papai, olha a camisa dele…” “Pois é, filha… Deixa pra lá…” Por algum motivo, o pai deu cinco pratas de gorjeta ao rapaz que limpou o para-brisa, colocou água nos lugares em que era preciso colocar água, reabasteceu o veículo, sorriu um sorriso meio amarelo mas que não deixava de ser sorriso. Ficou satisfeito, ele, por ter dado aquelas cinco pratas. Sorriu um sorriso que também era meio amarelo, antes de seguir com a menina para a lanchonete incrustada ao posto.

Era um daqueles lugares onde você pega um cartão magnético em que são registrados os produtos consumidos. A pequena quis um cartão só para ela, mesmo depois de a moça da entrada ter dito que “Criança pode registrar tudo no cartão do pai, e é bom que aí o pai paga…” Depois de sorrir um sorriso meio amarelo, diante da frase da moça, a menina sorriu um sorriso mais de verdade para o pai e começou a conversa que duraria todo o tempo que eles passariam ali dentro: “Viagem, às vezes, é árvore; às vezes, é cidade; às vezes, é vaca; às vezes, é fio; às vezes, não tem fio… Né, papai?”