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Bolo de fubá

Viram que a Dona Lena está mais magrinha? Dá para imaginar? Mais magra, pois é: passou entre dois táxis que estavam estacionados ali, no ponto da Senador Correa, perto da praça; e nem precisou ficar de ladinho para completar o movimento. Vinha com aquele vestido roxo, com detalhes verdes, aquela combinação sobre a qual a gente sempre fica comentando, que ela usa quase toda terça-feira, e o vestido deu uma espanada na poeira daqueles carros amarelos, porque estava ventando muito quando Dona Lena apareceu e se espremeu por ali. Quer dizer, ela não se espremeu.

Tá ligado nas unhas da Dona Lena, né? Outro dia, alguém estava comentando sobre isso mas em vez de falar “unhas da” optou por “unhas de”, e, aí, começou aquela palhaçada de um zoar o outro dizendo/acusando “Você é de Bangu e por isso fala assim”. Mas parece que acontece também em Jacarepaguá, isso de falar com “de”. E Dona Lena participava da discussão, lembrando das coisas que tinha aprendido com o pai farmacêutico, sem saber que o gatilho para aquilo tudo tinham sido suas unhas enormes, que às vezes chamavam ainda mais a atenção porque vinham pintadas. Teve uma menininha da escola ali da praça que demonstrou medo uma vez quando viu as unhas roxas de Dona Lena. Roxo é uma cor que aquela senhora simplesmente adora.

Era engraçado ver como ela conseguia mobilizar os motoristas para contar sobre as coisas que tinha aprendido com o pai. Havia quem achasse que os caras só paravam para ouvir por conta de um detalhe: quando ia contar histórias, ela trazia uns pedaços de bolo de fubá. “Porra, o bolo de fubá da Dona Lena é show!” Invariavelmente, havia a explicação de que no caso do bolo a receita era de uma tia e não do pai. Na sequência, quase sempre ela falava que aquelas duas eram as pessoas de quem mais sentia saudades.

Alguém sempre lembrava de uma ocasião em que Dona Lena havia explicado por que não sentia saudades da mãe. Parece que uma vez ficou esperando muito tempo, na saída escola, numa noitinha de chuva, e a mãe havia demorado muito a aparecer e como desculpa disse que tinha ido ao mercado. Dona Lena teria perguntado pelas compras e a resposta da mãe foi “Não me questione, menina…”

Dona Dorinha da papelaria conta que foi neste dia que Dona Lena elegeu o roxo como sua cor preferida. Era portanto um gosto que vinha desde a infância. Parece que ela falou, muito pequena ainda, como ainda era quando aconteceu aquilo do atraso da mãe, parece que ela falou que “cor é uma coisa alegre mas é importante a gente saber usar as cores para conseguir lidar com as tristezas e o roxo é bom para isso…” Diz Dona Dorinha que Dona Lena falou isso no dia seguinte ao da demora da mãe.

Agora que começou a circular essa história de que Dona Lena está mais magra, calhou de comentarem também que ela está com algum problema com a irmã, que parece que é a única pessoa que lhe resta da família que um dia já foi grande. O detalhe engraçado é que ninguém sabe o nome da irmã. Já até disseram que as duas não se dão muito bem. Vai ver que essa irmã era a preferida da mãe. Mas isso é só especulação. Foi a irmã com certeza que deu à Dona Lena aquele vestido roxo com detalhes verdes, o das terças-feiras, e as pessoas sabem disso porque, aí, sim, Dona Lena comentou.

Quem talvez saiba dizer se há alguma coisa errada com Dona Lena é o Jorge Advogado, ali do prédio da esquina. Ele era o responsável pelo acerto do aluguel do apartamento em que mora Dona Lena. Parece que ela paga bem pouco. O imóvel é de uma senhorinha muito boa, amiga de Dona Lena também do tempo da escola. E é uma senhora que tem boas condições de vida, anda sempre muito arrumada, mora ali na Paissandu, que é tida na região como uma rua mais nobre. E ela fez essa gentileza de cobrar um aluguel simbólico de Dona Lena porque não precisa de dinheiro. Talvez alguém devesse dizer a ela que Dona Lena está parecendo mais magra, se é que essa história ainda não chegou à Paissandu, porque de repente esta senhora endinheirada pode ajudar de alguma maneira. Se for o caso.

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Haja punk rock

“Aperta aqui. Depois, a gente passa um álcool na mão e tá tudo certo.” Foi assim a tentativa de encerrar uma discussão que começou com futebol e, por causa da cerveja, não terminava. O álcool por dentro talvez tenha estimulado o mais calmo dos dois a sugerir o álcool por fora, isto é, nas mãos, para encerrar e pendenga de maneira que, digamos, nenhum dos dois lados levasse prejuízo para casa. Como os mais civilizados faziam, antigamente. Neste caso, o prejuízo seria o Covid. Mas logo depois de pronunciada a frase… Bom, a coisa acabou, ali, acabou mesmo. Mas com os dois fazendo papel de cara-de-bunda, sem o aperto de mãos. Mesmo quase bêbados, entenderam que o álcool-70% tiraria mais do que os “germes”, como diz a Lucy do desenho dos Peanuts. A moral da história é: álcool por dentro pode estragar tudo; por fora, já não garante muita coisa, para infelicidade dos mais civilizados.

Um troço que não acaba é discussão sobre futebol e política. Outro dia, um cara, bem intencionado, até, pelo que se sabe, do tipo que nas últimas eleições não fez o papel de classe-mediano-escroto, esse cara falava de “cidadãos de bem”. Pra você ver, hein, como se trata de uma expressão emporcalhada pelo ódio mas que pode aparecer em qualquer dos 300 lados. Aconteceu num grupo de WApp. E foi só aquele social-democrata falar em “cidadão de bem” para uma integrante da turma apontar que aquele era o nome de um jornal da Ku Klux Klan. Acabou como no episódio anterior. As expressões de constrangimento, desta vez, não apareceram. Porque se tem uma coisa boa nos grupos de WApp é a garantia de certa “proteção” aos usuários: o cara-de-bunda do iPhone interage com o cara-de-bunda do Samsung sem precisar do álcool por fora.

Estes dois primeiros parágrafos resumem tão bem o “quadro” dos últimos dias que seria razoável encerrar por aqui mesmo a crônica. A vida em dois parágrafos. Histórias curtíssimas. Já é quase Natal. Esperanças limitadíssimas, mas, com um liquidozinho higienizador, tudo pode se resolver e manter a esperança de pé. Rá! Mas o tempero extra do universo — pitadas de passado quase esquecido e de futuro bastante incerto — andam aparecendo de uma forma assim tão 70%, como que prometendo desdobramentos improváveis, que há algum combustível para seguir em frente. Ah, e teve o aniversário de lançamento do “Fresh fruit for rotting vegetables”, dos Dead Kennedys, esta semana. O álbum fez 40 anos. Não dá para terminar uma prosa sem registrar isso.

Estamos falando de um álbum que não era exatamente uma pregação em favor da revolução. Mas uma zoação que beliscava os mais sensíveis num modo non-stop. E tudo com uma velocidade, um vigor, umas letras e um deboche provocador que até então a gente não estava acostumado a ver. Não foi à toa que um monte de cinquentões postou estes dias que aquele foi um disco que mudou suas vidas. Será que estes sujeitos percebem que mesmo sem o medo da terceira grande guerra podemos eleger aquela pérola punk como uma trilha bastante adequada para os tempos atuais? O legado dos Kennedys não vai morrer nunca.

Quer coisa mais Dead Kennedys do que sair para ir à feira, num sábado, e, por se tratar de um percurso feito na Zona Sul do Rio, ver uns bons 30 policiais, pelas esquinas, espalhados em duplas ou trios, cuidando (até as 20h, pelo menos) da segurança da tradicional família carioca? E em pelo menos quatro destes pontos, o que eles estavam fazendo? Mexendo em seus celulares! O que será que estavam lendo/digitando?  De que grupos de WApp será que fazem parte? Não há mesmo álcool 70% que dê jeito. Haja punk rock.

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Três lados

Está rolando, desde o último fim de semana: uma espécie de trégua. Gente de todos os tipos, digo, de quase todos os tipos fazendo a mesma pergunta. Todo mundo, ou quase todo mundo, querendo saber do presidente que história é essa de a patroa ter recebido todo aquele cascalho do Queiroz. Alguém lembra de um episódio recente em que tenha havido uma “união” assim tão grande, ainda mais nos terrenos internéticos? Bem que algum estrategista podia aproveitar isso para começar um trabalho de pacificação/reunião que tire da prefeitura do Rio aquele cara que está lá. Mas aí talvez já fosse pedir demais. Vamos nos concentrar no momento, nos contentar com a sensação de paz, boa vontade e colaboração que anda rolando. Como se o novo normal pudesse ser assim. Pelo menos aqui nesta bolha.

Ah, é, tem a questão da bolha e esta “trégua” pode ajudar a gente a entender melhor as bolhas. Ou as moedas. Quer dizer, pode ser um passo definitivo na direção da aceitação dos três (e não dois) lados da moeda. As bolhas não são apenas a reunião de um grupo de pensadores/agentes pautados por uma única verdade. Em cada bolha, há na realidade gente de diferentes tipos enxergando a “verdade” de acordo com o que é conveniente para o próprio umbigo num determinado instante. A história dos 89 mil tostões faz a gente pensar que, neste xadrez, mais do que uma bolha contra a outra, há em cada grupo discordâncias cada vez mais ferozes que andam dificultando a manutenção das bolhas em si.

Quem aí com algum tutano não conhece uma alma que considera menos privilegiada na capacidade de elaboração e entendimento do mundo mas com quem, por uma série de motivos, por “afeto”, vá lá, é capaz de (ou ao menos tenta) manter algum diálogo? Isso não significa render-se ao caô de que não há Direita nem tampouco Esquerda. Não é isso. E “afeto” não é sinônimo de perdão incondicional. Mas isso é fugir pelo menos um pouco do maniqueísmo futebolístico.

Talvez a gente pudesse seguir o exemplo daquela rapaziada californiana descolada, que, meses atrás, combinou de levar seus cachorros para passear justamente no trajeto programado para horas depois ser preenchido por uma manifestação de extremistas de Direita. A ideia não era brigar, mas sim deixar que os cachorros fizessem número dois pelo caminho para que os reaças, pelo menos alguns deles, cagassem seus pés durante a caminhada.

Imagina se essa “moda” pega, por aqui. Vislumbre um novo momento de união nas bolhas. De um lado, pessoas que se preocupam com os direitos de cães e gatos mas resistem/meditam pra não jogar seus Jeeps em cima dos humanos que estão em situação de rua… Do outro, o grupo social-democrata, que defende ações do Estado para garantir o bem-estar da maioria e que por isso são tidos como radicais de esquerda, áses da arrogância nas discussões com referências acadêmicas… Todos unidos contra aquele vizinho mané que nem enche o saco de ninguém, mas… mas há alguma coisa de “estranha” no comportamento dele, né!?

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Promoção

Desde que viu um anúncio de “orgânico torrado e moído especialmente para cariocas”, ficou com aquilo na cabeça. Talvez porque tivesse coincidentemente comentado com um camarada, dias antes, que estava incomodado com essa história de viver uma época em que andava bebendo mais café do que cerveja. Se pá, porque a “anunciante” era uma garota-propaganda e tanto. Aliás, tinha dela uma imagem diferente, e, vasculhando o HD, achou um clique de tempos bem-bem-pré-pandêmicos em que a moça aparecia sorrindo como poucas são capazes de sorrir, ali na adega da praça, com uma caldereta na mão. Na época deste clique, não enxergava nela uma “vendedora”. Mas, então, anos depois, percebendo que o registro não se apagara com o tempo, tinha entendido o “poder de venda” que se concentrava ali naquela personagem. Levou um tempão, mas tinha sacado que aquilo era um anúncio. E duplo: de chope e de consultório de ortodontia.

As redes já há séculos não são sociais, mas comerciais. Tira esse risinho daí, que isso é sério. Se é que o ódio foi superado, na computância internética, foi para dar lugar às (estratégias de) vendas. Mas não é qualquer uma que vende tão bem. E é disso que estamos falando. Ainda mais que lá pelas tantas a gente descobre que o café não é dela. Na verdade, é coisa da irmã que andou se aventurado pelo interior de São Paulo e agora traz isso na bagagem. Se você é um comprador cuidadoso, não pode ser acusado de stalker. Em algum momento, um cliente mais desconfiado pode chegar a pensar naquilo que bem-bem-antigamente chamavam de “rivalidade” entre os dois picos, RJ e SP. Mas não há de ser uma preocupação que crie raízes: mesmo se tiverem batizado o produto, tenham feito sabe lá o que com o café, para torná-lo especial para os playbas gourmets do litoral, depois de torrado e moído deve ficar tudo certo. Deve ser café com gosto de café mesmo.

A mobilização foi tanta, a partir daquela mensagem publicada no Instagram, que logo depois de ler pela primeira vez o texto, já ficou pensando em quantos amigos frescos, destes que não bebem Pilão e ainda falam mal pra caramba dele, estariam interessados no produto. Talvez pudesse ser um segundo atravessador. A pandemia anda obrigado a gente a pensar em maneiras de levantar um trocado a mais. Mas na verdade não queria ganhar nada com isso, nada que não fosse a gratidão das irmãs. Era só no que pensava. E pensava muito porque, com essa história de investir menos em álcool e mais em cafeína, o cérebro dispara. Neurônios parecem fazer ligações nunca antes experimentadas. E com uma pitada de algoritmo em vez de açúcar, garantindo que o post-anúncio apareceu em cinco das 17 conectadas mais recentes, a mensagem havia se fixado de maneira surpreendente/assustadora. Platão pode explicar.

Há uma formalidade, no café. Ele vem de um universo diferente daquele de onde sai a cerveja. E isso talvez revele, ou ao menos ajude a entender, por que andamos nos dedicando mais a um do que a outro. Cerveja é coisa de boteco. E boteco, por mais que haja um afrouxamento nas regras de isolamento, ainda é proibitivo. O café é um lance mais caseiro. Cerveja é da mesma escola do cachorro-quente-podrão: na rua, ganha um sabor especial. Porque sugere uma interação entre os consumidores. Você até pode ser um bebedor solitário. Mas, ao escolher este avatar, meio que aceita exibir um status e — querendo ou não — pode ser apontado ou virar alvo de um comentário feito por alguém que está num grupo e em busca de assunto. “Olha aquele maluco sozinho quase caindo, ali; puts, como é que dá pra segurar garrafa, copo descartável, cigarro, celular e a porcaria do álcool em gel?”

Quando as artesanais estavam na moda, havia a possibilidade de juntar as duas coisas: café e cerveja. Tinha até bebidas de cor clara mas reunindo os dois sabores. Bom, na verdade, aí não eram dois sabores. Você achava que estava bebendo um café estranho e só sabia que se tratava de uma cerveja porque esta informação vinha escrita na garrafa ou na latinha.

Café gelado, até o fim do século passado, não era uma coisa fácil de ser vista por aqui. As Starbucks e o bagulho da globalização instituíram novos hábitos, nestas terras. Talvez o Covid, que está sendo responsável pelo fechamento de muitas lojas, provoque uma volta ao paladar antigo — se o vírus for suficientemente forte, como apontam os adivinhos de plantão, para varrer daqui as redes gringas que colocam gelo no café com leite e fazem todo mundo acreditar que isso é gostoso. Será que nossa garota-propaganda conseguiria vender um pingado gelado? Será que ela é tão boa assim?

Falar sobre café, cerveja e uma pessoa (mesmo uma garota-propaganda, com o distanciamento garantido pela eventual fama) é uma maneira de mergulhar nas sensações que tanto as bebidas quanto a pessoa em questão são capazes de provocar. Olha só a equação, que apesar de um tanto esdrúxula não deixa de ajudar a entender a relação: gostar de café sem açúcar é uma coisa, e tem gente que tira onda de descolado(a) fazendo esta opção; gostar de uma pessoa sem sal é outra bem diferente, mistura o inaceitável e o inexplicável. Pensar em cerveja “quente” é outra coisa, só inglês ou alemão é capaz de entender. Quando a gente fala em amargor, o da cerveja provoca menos estranheza. Pelo menos no entendimento do bebedor-médio, aquele que preenche os balcões das padarias e botecos mais populares, que não se rendeu ao pingado gelado. E que dependendo da garota-propaganda gasta até o último trocado ou divide no cartão de crédito, mas não deixa de adquirir o produto.

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Óleo básico

O Zé estava falando agora mesmo da Terceira Guerra Mundial. Tem que escrever assim mesmo, com maiúsculas, porque o cara empregou um tom bem sério. O Zé É sério. Comentou sobre a anticiência, sobre coisas que não são provadas, mas, apenas comentadas. “A anticiência dos nossos dias precisa ser absurda pra os computadores serem incapazes de entendê-la”, lançou, cabeceando ele mesmo logo depois: “E os discursos, nascidos sem cálculos, criam parâmetros que sendo bonzinhos a gente pode chamar de fantasiosos. TGM é isso.” Há também quem diga que o atual patamar da taxa de desemprego em países ricos é uma comprovação de que estamos vivendo a Terceira Guerra Mundial. Um vendedor de cursos online recorreu outro dia a estes números pra oferecer seu pacote de aulas. Será que o Zé compra esse tipo de coisa? Quantos terão caído nessa?

A conversa chegou aos robôs e eles foram apontados como os grandes personagens por trás da TGM. “Eles, que vão trabalhar pra sempre nos bancos.” Isso merece virar verso, tem peso para ser um pedaço de letra de música. A gente passa por aqui, por esta vida, mas rapidinho. Mas eles, os robôs, ficarão pela eternidade. Daqui a pouco, vai ter igreja vendendo isso; robôs que permanecerão no mundo para pagarem pelos pecados do humano SORTUDO que tiver conseguido adquirir um. Imagine uma época em que automóveis não serão mais os grandes sonhos de consumo.

Pode surgir uma treta aí, quando as bonecas infláveis reivindicarem seu direito ao óleo básico, querendo igualdade de condições/status com os robôs vendidos pelos templos — em suaves e abençoadas prestações mensais. Tudo com desconto em folha, para facilitar; imaginem! Em breve, a sofisticação cyber pode emprenhar a religiosidade com um detalhe impensável há até bem pouco tempo. Dá para imaginar que teremos grande oferta de modelos de terno e gravata. Um país que adora bandidos escondidos neste figurino, claro, vai achar a coisa mais normal do mundo “investir” em robôs vestidos assim.

Estamos diante de uma retomada do Philip-K-Dickianismo, quando a gente achava que já tinha usado todas as referências para reclamar da lama que nos borra a camiseta que deveria estar limpa para quem ainda não desistiu de encarar uma Smart Fit da vida. Com hora marcada, agora, para que sejamos montanhas de músculos re-al-men-te saudáveis, isto é, livres do Covid. Já houve quem, com alguma pretensão de ser humano-e-esclarecido, questionasse estes templos da boa forma, acusando aquele ambiente de criar… robôs. Profético, né, esse pessoal da psicanálise!? Mas a provocação não chegou a ganhar eco entre a intelectualidade. Nas mãos de um Fausto Fawcett, isso talvez rendesse um álbum.

Dirão alguns que falar sobre máquinas é falar do mesmo. Mas elas evoluem tanto que acaba sendo algo novo, porque jogamos luz sobre modelos fresquinhos. Máquinas carregam um princípio Tostines. Máquinas e Marcas, como essas “coisas” estão próximas, hein, caramba! Próximas, não. Podem ser tomadas como uma só coisa. As guerras estão aí para estimular as indústrias e o consumo, já tivemos toneladas de punkrocks, pelo menos duas gerações de anarcopunks explicando isso. Na Terceira Guerra Mundial, não seria diferente. Humanos de boa vontade concordarão.

Dick é o verdadeiro pai dos replicantes
Dick é o verdadeiro pai dos replicantes

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Padaria

Saudade parece que nunca anda sozinha. A falta que a gente sente de escrever ou de desenhar se emenda fácil, fácil, na falta que faz (convi)ver (co’)uma determinada pessoa. Numa época em que rabiscar pensando em alguém tornou-se um exercício muito mais comum e possível do que rabiscar olhando de perto para alguém, é bom achar uma maneira de lidar com elas, as saudades. Sobram os textos, às vezes, e sorte de quem consegue achar que isso é muito/suficiente.

Fica um pouco chato quando, quase clicando no link da sabotagem, o cara se pega fugindo da escrita, guiado por algum circuito da cachola em que aquilo se transformou numa obrigação. Saudade, quando vem, está longe de ser uma obrigação. É isso sim uma orca te perseguindo na praia, você sabendo que não está suficientemente perto da areia para conseguir fugir. É bom respeitar/aceitar o texto, quando ele surge, porque se aquilo escapa você provavelmente nunca mais conseguirá rever/repensar naqueles mesmos “moldes”. Textos mais do que nunca moldam saudades.

Com a poesia é a mesma coisa. Ou pior. Porque com os versos a gente pode ficar mais escabreado, juntando à possibilidade de registro o medo do ridículo. Se para provocar a gente diz que “fazer poesia é fácil, difícil é confessar que fez…”, imagina pensar poesia, e não escrever nada… No mundo ideal, seria ainda mais “confortável”. Mas o desespero de perder um versinho, um versinho que seja, pode ser também uma semente de ferida com a qual ninguém aí está preparado para lidar. Se disser que está, pode ser uma declaração que não passa de cagaço. Trocando em miúdos, é isso: cagaço.

Teve esta semana a história de um cara que, para lidar com a falta de tempo e a saudade, ocupava ainda mais as brechas que se lhe apresentavam. Isso. Não tinha tempo e tratava de ter ainda menos. Desandou a fazer pães. Cismou com isso e dizia aos manos que aquela “brincadeira” era uma espécie de meditação. Mais um louco-de-pandemia. Quando comia o resultado do trampo, da queima de um tempo que nem existia direito, ou quando distribuía aquilo entre amigues, relaxava. E percebia um alívio. Mas durava só um piscar de olhos, porque a onda era preencher todas, todas as brechas. Pra muita gente, não tem dado tempo de sentir nada.

Lidar com o tempo nunca foi fácil. Com a saudade, menos ainda. Nestes dias, a tarefa parece ter assumido ares ainda mais impossibilitadores. Porque a gente pode se pegar sem conseguir decidir se ele, o tempo, está passando rápido demais ou demasiado lento. No mesmo dia, você pode ouvir alguém dizendo que “já é Agosto” e uma esquina depois que “nem parece que já se passaram quatro meses de trancamento em casa”. O mundo precisa se decidir.

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Carbona aí, ó

Você pisca, Harry Potter completa quatro décadas. Pisca de novo e não acredita no tamanho da barba do Henrique Badke (voz), que junto com Melvin Ribeiro (baixo), Pedro Roberto (bateria) e Bjorn Hovland (guitarra) está lançando hoje uma música nova do Carbona: “Minha cabeça”. Badke, além de cultivar os pelos que lhe cobrem a cara, vem mostrando recentemente uma rica/constante produção musical, frutos que não parecem ser só por causa do plantio forçado no isolamento pandêmico mas, sim, desdobramentos de uma inquietação inerente ao punk/rock bubblegum que desde 1998 ele vem defendendo com o Carbona.

A faixa composta por Badke é fresquinha, deste ano que para muita gente merece o rótulo de “maldito”. E, sim, também, a música fala um pouco disso que a gente está vivendo. Diz um trecho: “Dentro da minha cabeça / Antes que’u enlouqueça / Aí fora tá osso/ Eu nem quero seguir/ Já que dentro da minha cabeça / Aconteça o que aconteça / Eu pego minha viola / Conto umas histórias / Sigo por aí / Eu pego minha viola / Toco três acordes / Saio por aí.”

É Carbona roots, rápido, divertido, podendo provocar uma invejinha em quem está parado só esperando que o tempo melhore. Capaz de comover quarentões, graças às imagens que incluem compactos em vinil, vitrolas, fita cassete, sujeitos tocando instrumentos. O clipe foi dirigido por Sergio Caldas. Uma ótima para quem quer animar a sexta-feira.

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Um brinde, Bebel

Para fugir da(s possibilidades de aglomeração), três caras marcam um encontro naquele que para o grupo é o boteco-do-coração. Em Copacabana, às 14h de uma terça-feira. Serão apontados como exemplo de vagabundagem e vão se orgulhar de defender a essência da carioquice. Sem falar que se os chopes forem como antigamente, tudo/muito terá valido a pena. É no que acreditam, estes irresponsáveis. O grande lamento é que neste horário o garçom preferido deles, o Beto, ainda estará em casa. A promessa de beber apenas três copos é isso, uma promessa. Em nome de velhos sonhos, que vêm se desfazendo, cumprir o escrito, mesmo se estiver escrito no WApp, está com tudo. Cumprir o combinado é o novo black. Mesmo de mentirinha. Mesmo para os irresponsáveis.

Outro black parece ser o zine novo do MZK. Está lá no Foicebook, um aperitivo, para quem quiser ver. Se é para a gente ser engolido pela WWW e ainda por cima ser acusado de dar piti, que o azul seja outro diferente daquele do Foicebook, né? Aquele troço lá só pra de vez em quando mesmo, para colocar o link de uma crônica ou outra e, sem querer querendo, esbarrar com desenhos de caras como o Maurício Zuffo Kuhlman. E do Sica. Também tinha um livro do Rafael Sica, anunciado lá. Tiragem baixa, acho que com assinatura. O minúsculo e o gigante, conforme disseram três décadas atrás, estão se confirmando como tendência. O minúsculo, que são caras como estes artistas aí, estão dando de dez nos gigantes. Esqueceram de falar nos miseráveis, naquelas palestras dos anos 90, e continuam esquecendo agora.

Para lidar com gigantes, vale seguir as dicas sobre como ludibriar o algoritmo. Tem uma história de visitar páginas feitas por pessoas com as quais você não concorda muito. E até mesmo fazer comentários. Porque assim afrouxam-se os filtros sobre o que te é oferecido na timeline. Que coisa, hein!? Perca aí uma tarde pensando, pra ver se encontra equivalente para isso nos tempos passados. Surge no ar a pergunta sobre a necessidade de ter filtros/algoritmos para oferecerem aquilo que vamos consumir/ler/ouvir/ver. Mas uma terceira acusação de piti ninguém aguenta. Desligar o aparelhinho está cada vez mais difícil. Dirão os esquerdopatas que “feliz era o porteiro, que mergulhava no radinho de pilha mas ainda tinha algum tempo para brigar sobre futebol”.

Naquele lugar em que se encontram gigantes, anões, blacks, whites, enfim, quem estiver de máscara e não se importar com xingamento… bem ali, estão os sonhos. Recorrentes, às vezes, e nestes dias de Blade Runner se materializando em cada esquina. Como as bonecas com aparência quase humana para quem se sente “só”. O Zé Sem Nome falava outro dia sobre robôs e testes feitos com robôs, sobre como isso desperta a compaixão de certos humanos. Pois é, Zé, a humanidade, está mais do que se afeiçoando às máquinas. Investindo neste tipo de “aparência” para si mesmo, facilita muito as coisas para a indústria. Eram proféticos os versos d’Os Replicantes, em “Astronauta”: “…Agora quando a lua cresce no céu/ Aperto contra o peito o coração de Bebel/ E abençoo toda a indústria eletrônica/ Por ter criado a minha nova esposa fiel/ E molho a garganta tentando me livrar/ Das últimas partículas de poeira lunar/ Bebel então percebe e começa a chorar/ E eu tenho medo que ela vá enferrujar…”

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Sem crachá?

O pessoal da Astrologia está dizendo que o Sol… Ah, passou rápido demais. Não deu pra pegar. Mas está fazendo sol, hoje, e esta minúscula no início, na sequência, não é “desrespeito”; é só pra aproveitar com mais intimidade. O pessoal da Astrologia também estava falando de Lilith. Mas a grande preocupação do dia é com a fiscalização. Os homens com crachás vão voltar e é bom que esteja tudo em ordem. Depois da ordem, vai ser o caso de torcer: para os caras terem alcançado um bronzeado legal e estarem bem-humorados. “Se o Sol está contente, também vale a pena a gente ficar”, dizem na internet os estudiosos dos astros. Fiscais pálidos, a gente ainda encara. Mas se estiverem azedos, aí…

Além da multiplicação de lives no Instagram e no Youtube, a rede mundial de computadores assistiu a uma revoada de aconselhamentos e cursos. De todos os tipos. Ontem, este escriba foi alvo de propagandas de uma série educativa sobre Magia. Ninguém quer problemas com fiscais e nem tampouco com magos. Vai ficar endinheirado, o sujeito que resolver montar um pacote de programas que ensine como lidar com representantes do Poder Público. Será que, na primeira aula, aquela gratuita, já seria o caso de pintar a dica de oferecer água ou cafezinho para começar a conversar depois disso? Que toque você aí dá para o empreendedor?

Talking Heads, a banda, tinha este nome numa alusão às cabeças que ficavam falando na TV. Hoje em dia, quando a TV parece ter ficado no passado, cabeças continuam falando e brigando por fama. E por dinheiro, claro, através de cursos (atualmente). Se for só fama, é bom o pessoal rever os sonhos porque parece época de se contentar com 15 segundos. Em época de pandemia, o noticiário faz a gente não saber se ainda tem 15 minutos de vida… E se vier um trocadinho junto, ótimo, claro. Imagina quando começar a fiscalização na WWW. Como será chamar para um cafezinho, via computador?

Não se tem mais notícia de concurso público. Mas, num passado não muito distante, todo mundo tinha um conhecido que estudava para ser aprovado em um. Talvez o poder do fiscal faça parte do emaranhado-inconsciente-coletivo dos nossos dias. Porque quando você se depara com um sujeito marrento, por exemplo, conhecedor de um determinado assunto, é como se ele fosse fiscal daquilo.

Imagina Fiscal de Hendrix, por exemplo. Existe. Teve aquele caso do amigo que, para testar o outro, desafiou: “Me diz o nome de uma música do Hendrix. Só uma!” Era uma daquelas antigas conversas sobre música, coisa comum de acontecer em botequim. E a prosa empacou, ali. Por conta da bebedeira, ou por desconhecimento mesmo, não houve resposta do desafiado e o desafiante, digo, o Fiscal de Hendrix, voltou para casa com a sensação de ter humilhado um adversário, alguém que havia vindo ao mundo para lamber-lhe as botas, glauco-mattosomente falando.

Era comum, antes da pandemia, a gente ouvir também a respeito do Fiscal da Natureza. Falar isso sobre alguém era como um xingamento. De leve, mas era. Melhor evitar a piada, porque ninguém quer ver fiscal ficando nervosinho.

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Sol e Lua

Falar em hiato, quando você tem menos de duas décadas de vida, tem a ver com aulas de português. Depois, é uma danada de uma lacuna no tempo. Destas que te deixam com uma folga de mentirinha e às vezes medo de pensar. Outro dia, numa tentativa de piada, um cara na rua comentou que o bom deste ano é que, em 2021, ele vai dizer que está com a mesma idade porque 2020 não terá feito parte da contagem. Não foi uma piada maravilhosa, mas serviu como tempero para este hiato que estamos todos vivendo. Naquele minuto, contribuiu com os humores de quem estava por perto.

O domingo foi de sol e havia muita gente sem máscara, na praça. Dona Marlene, num dos seus flashes de Rainha de Espadas, avisava que quem quisesse passar por ela para ir ao banheiro, ali no Salvatore Café, só tinha uma alternativa: cobrir a cara. As pessoas riam e obedeciam. Claro, né!? E na segunda vez em que se aproximavam não esperavam por um novo aviso, já abriam suas pochetes e sacavam seus paninhos com elásticos. Como tem gente usando pochete, meu Deus.

É tanta sede, tanta vontade de ir para a rua, que fica bem perigoso o risco de esquecer que o pesadelo ainda não passou. Não acabou. Mesmo que haja menos discurso notadamente pessimista, entre um gole e outro, ainda podemos contar com os matemáticos do apocalipse avisando sobre os números que caem no fim de semana porque ninguém contabiliza direito a coisa, e, na segunda, tudo volta a subir, “sem falar nos países X e Y, onde o vírus parece ter voltado com força e já se ensaiam novos períodos de isolamento”.

Sorrisos, mais do que nunca, revelam-se os melhores entre todos os entorpecentes. Ainda mais quando, por sorte, mesmo dispensando o paninho na cara, muita gente lembra de evitar os abraços. Ah, tem o detalhe dos cotovelos. As pessoas usando os cotovelos umas para cumprimentarem as outras. Será que dobram a quantidade de álcool ali, naquela região, quando chegam em casa? Fica a dica. Poderemos dizer, no futuro, que houve uma época em que as pessoas não se davam as mãos, para que fossem apertadas, mas, em vez disso, faziam um movimento que parecia o de um lançador no beisebol para oferecerem seus cotovelos e assim celebrarem um encontro. Isso tudo em praça pública.

Dez por cento de desconto em que mesmo, hein!? Um carro de som, anunciando promoções numa churrascaria, faz o favor de lembrar todo mundo que já é segunda-feira. Podemos contar ainda com um pouco de sol, por sorte. Há também uma mudança de lua garantida no calendário, para mais tarde. Mas, talvez por ser início de semana, dia de prosseguir com o trabalho mesmo sem saber bem como… Surge na boca aquele gosto amargo de hiato. Esse troço que não passa.