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Boteco connection #3 — Sapatinho de cristal e cara de pau

A pandemia criou uma nova categoria: o intelectual de calçada. Você pode chamar de uma evolução do intelectual de boteco. A diferença entre os dois é que os do novo grupo se preocupam mais com a saúde. Ou têm mais medo de morrer. O que (para os menos esclarecidos, pelo menos) pode dar no mesmo. Ambos ficam com aquele caô de chamar o garçom pelo nome, ensaiando uma intimidade/gentileza que não passa do terceiro copo ou do primeiro “não” que o trabalhador for obrigado a dizer. O que é que ia mudar mesmo, depois do Covid, hein? Ah, a maneira como as pessoas veem o mundo, a vida, quem está do lado…

Seguimos esperando. E bebendo. Porque cerveja é coisa sagrada, para esquerdopatas e terraplanistas. Disso, você já sabe. É o que obriga os dois a acreditarem na água, mesmo que no fim da rodada cada um dê um peso para aquele “produto”. Mas nestes dias de pré-derrubada do atual prefeito do Rio (com o caminho aberto pela queda do Trump), faz mais sentido a gente falar naquilo que — pra te influenciar — colocam no teu WApp (e não na piada mais velha, sobre o que puseram na água) e não no encanamento. Capivarinha esperta não deveria beber qualquer água ou acreditar em qualquer vídeo. Mas não podemos esperar muito de capivarinhas.

Pois então: tava em algumas bolhas, no WApp, a historinha de uma Patrícia que teria pedido ao menino do boteco que cruzasse uma praça inteira para, como um favor, comprar para ela um maço de cigarros. A primeira resposta dele, depois da cara de descrença diante do pedido, foi o “não”. A cliente seguiu tentando. Explicou que estava usando saltos muito altos e que precisava fazer aquilo porque o calçado tinha sido presente da avó. “Tenho que provar para a minha avó que usei o presente dela”, declarou, sorrindo. A cara do garçom continuou sendo de descrença. Faltam palavras para descrever a cara de quem estava em volta, alguém que provavelmente frequentou alguma aula de teatro.

Conhecida num passado não muito distante como destruidora de superego, a cerveja pós-pandemia poderá ajudar em duas coisas: combustível para juntar os cacos dos muros que forem quebrados. E, o que é mais provável, a quebrar barreiras que durante estes dias difíceis acabaram se solidificando ainda mais. Como sempre, haja goró.

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Pobres elétrons

Hoje em dia, não se fala em rebobinar. Mas para sugerir uma rápida volta aos anos 80, talvez até valha apelar pra um vocábulo tão das antigas. Era uma época em que, num certo colégio em Marechal Hermes, subúrbio carioca, havia o temido trote. O moleque que entrava lá ficava careca, era obrigado a matar formigas no grito, medir o campo de futebol com um palitinho. O movimento estudantil ainda organizava congressos e havia quem acreditasse numa certa revolução. O clima era de abertura. Os pais mais precavidos/desconfiados avisavam aos filhos que tomassem cuidado com o que diziam no colégio. Mas a perspectiva, de um modo geral, e ainda mais se compararmos com os dias de hoje, era favorável. Ah, o trote. É possível entender melhor o trote lendo “O calvário dos carecas”, do Glauco Mattoso.

No livro, o sado-maso-poeta/escriba mergulhava fundo para entender/explicar aquela “tradição”. Era possível dizer que se tratava de uma tradição. Até os professores davam uma zoada nos alunos. Aquele colégio de Marechal Hermes, por exemplo, oferecia cursos técnicos. Entre eles, o de eletrônica. Foi para muitos uma chance aprender que os chuveiros elétricos têm “resistor” e não “resistência”, como todo (o resto do) mundo acreditava. Os professores deste curso davam aos novatos uma lista de material, logo na primeira aula. Aquelas coisas poderiam ser facilmente achadas nas lojas de componentes eletrônicos que pipocavam no subúrbio e no centro do Rio. Menos uma parada: o tubinho de elétrons livres.

Havia CDFs, claro, eles estão em todas as gerações, e alguns pareciam saber que não seria possível comprar um “tubo de elétrons livres”. Mas a maioria sofria percorrendo lojas para voltar à escola com a lista completa, com tudo que diziam ser necessário para as primeiras experiências. Sim, havia laboratórios e eles funcionavam: o projeto de destruição da educação pública ainda não estava no estágio atual. As relações, a despeito das maldades que os veteranos exercitavam com os calouros, também pareciam ser melhores. Bota aí uma dose de saudosismo, claro. Mas não esqueça que nem se falava em internet. Em muitas lojas, os vendedores diziam que “acabou isso aí, deve chegar depois…”

Já existia polarização. Porque polarização é tipo CDF: parece que sempre existiu. Mas — e aí o saudosismo já não tem tanto peso na conclusão — mas aparentemente existia também mais espaço para discutir e elaborar as coisas. Pode ter a ver com a velocidade com que tudo acontece, hoje em dia. Mas pode ser que a explicação vá além disso. Aqui, não há a pretensão de explicar nada. Só há mesmo um certo lamento. Depois que você aprende um pouco sobre elétrons livres e “entende” a polarização sob a luz da Física, dá até pra dizer que com algum tutano dá para sacar a polarização no mundo de uma maneira mais, digamos, consistente.

Para muita gente, ter tutano hoje em dia é falar em “empreendedorismo”. Há quem apele para a “inteligência emocional” para relativizar a formação de laços entre monstros e monstros-ainda-mais-monstruosos. Já não podemos encontrar tantas lojas de componentes eletrônicos, apesar de até aparelhos como máquinas de lavar, atualmente, serem controlados por placas de circuito integrado. Isso sem falar nos toca-discos, que seguem em alta. Os elétrons que antes eram livres parecem, coitados, estar hoje presos e a serviço de circuitos que cheiram muito mal. Devem ser vendidos por algum site, bem baratinhos, com entrega em no máximo duas semanas, vindo diretamente do outro lado do mundo. O que prova que, mesmo velhas, frases de ordem podem servir para alguma coisa. Liberdade para os elétrons!

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Boteco connection #2 — Cortando a asa do pavão

A louca dos gatos. O louco dos cães. Dois personagens que, entra pandemia, sai pandemia, continuam aí firmes e fortes. Às vezes, sem máscara, desafiam as “leis”, como se sua relação com os bichos garantisse tudo. Além de afeto-anti-estresse, eles parecem ter superpoderes que lhes permitem descartar(/desdenhar d)o paninho na cara. Já tem até loja de animais de estimação prometendo, além do pet, uma dose extra de imunidade/saúde/anticorpos para seus clientes. Se não tem, anota aí, vai ter. Afinal, se tem uma coisa que a doença não colocou abaixo é essa história de que “marketing é tudo”. Pra algumas pessoas, não vai ser atraente, porque ficam mais “atraentes” de máscara mesmo.

Outro dia, uma LDL, tipo numa “crise”, foi ao bar levando na gaiolinha o felino de estimação. Disse que fazia aquilo por conta da dedetização que estava em andamento na casa em que moram ela e a gatinha. Explicou também que “a pessoa é alérgica a gatos e mesmo assim tem gatos”, o que pareceu colocar abaixo (ou ao menos em xeque) o cheiro de razão que havia primeira justificativa. Mas loucura é loucura, a gente não está aqui (e muito menos nos bares) para apontar a cura para ninguém. A gente só espera que os bichos, na hora do passeio, estejam devidamente preparados: com máscaras e, no caso dos cachorros, com coleira e se pá focinheira.

Porque marketing não resolve tudo. Ponto para o cidadão de bom senso, se é que ainda existe algum solto por aí. Aliás, marketing bom (ou ao menos divertido) muitas vezes é marketing desmontado. Os montadores de estratégias não deviam ter medo disso. Assim como muita gente não tem medo de sair sem máscara.

Aconteceu outro dia, num balcão aqui das Laranjeiras: o gerente de vendas de uma grande marca acompanhava o seu “vendedor” para enfrentar uma comerciante com fama de raivosa. Falando assim é quase como que falar de um cão ou um gato, né? Mas vivemos uma época em que muita gente tem mesmo mais “paciência” com bicho do que com gente. Aqui nesta página, não deixamos de acreditar na coleção de motivos de ninguém. Chegaram na lojinha e disseram, quer dizer, disse o gerente: “Senhora, esta cerveja não pode custar menos do que aquela…” Ao que a dona olhou por cima dos óculos e num momento de rara calma respondeu que “Pode, sim, porque aquela outra é mais popular, todo mundo quer, e aquele pessoal lá quando diz que vai entregar, entrega mesmo. Os pedidos que faço a vocês vêm sempre faltanto alguma coisa…”

O gerente e seu quase-cão saíram algo enfurecidos/cabisbaixos. A senhora foi quase aplaudida pela simplicidade e firmeza com que enfrentou a situação. Ela não precisa de bichos de estimação. É ela mesmo quem diz isso. Precisa apenas de marqueteiros que não se metam onde não devem. E que cumpram o que prometem. Ponto para as vendedoras deste naipe, enquanto ainda estão soltas por aí.

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Boteco connection

Dali, de trás do balcão, pelo que podia ver, nada tinha mudado muito. Havia o dinheiro mais curto. Quer dizer, quase não havia dinheiro. Quando aparecia, era o de plástico. Mas tirando isso estavam lá os bêbados, as bêbadas em menor número, crianças pedindo salgadinho, vendedores tentando emplacar uma mercadoria nova que não era assim tão nova e por isso era quase certo que não conseguiriam nada. Os incansáveis adestradores de amendoins, que jamais faltavam e impressionavam todo mundo com sua capacidade de encaixar aquele papelzinho com uma família de “bichinhos” no meio da mesa-selva de garrafas vazias e copos pela metade. O pessoal de esquerda e de direita se misturando, de novo, nos hábitos, quase como se não houvesse mesmo nenhuma diferença entre eles, como se esta distinção tivesse deixado de existir. Talvez fosse possível dizer que estavam todos mais tolerantes. Talvez. Tolerantes entre aspas, claro. Cansados, com certeza. Cerveja já não deixava ninguém relax.

O cara do bar ficava um pouco angustiado com aquela história de usar máscara e fechar mais cedo. Sentia que estava deixando crescer uma espécie de dívida com a Madrugada. Tinha a Madrugada, que ele sempre havia considerado uma amiga, carinhosa e silenciosa, mas agora a distância entre os dois crescia e o deixava angustiado. A distância era tipo capim: tomava espaço, preenchia gretas. Se havia “alguém” com quem não queria faltar com o respeito, era com a Dona Madrugada. Escolhia muito bem, ele, o que e quem merecia “respeito”. Mas vinha parecendo impossível negociar qualquer coisa, então, o que sobrava era a resignação. E a percepção de que aquela grande amiga estava como que indo embora. Seria capaz de ir e nunca mais voltar, a Madrugada? Temia que não fosse um afastamento temporário, como todo mundo apostava. Tentava não pensar nisso. Ver de longe a grande amiga era doloroso demais.

Houve quem dissesse que ele andava cuidando das cervejas com mais carinho. Zoaram a ponto de jurar que estavam mais geladas. Coisa que ofendia o dono do boteco. Porque ele sempre — sempre — fez questão de não dar mole de ser encaixado no perfil do porcalhão e de avarento. Fazia isso não economizando em boas geladeiras e organizando a pia do estabelecimento, oferecendo copos descartáveis para quem insistia em beber na calçada, usando papel branco — em vez do pardo e do rosado, que até eram mais baratos — para embrulhar as empadinhas que a dona Silvia entregava e que eram um sucesso. As noites de terças, quintas e sábados eram noites de empadinhas.

Dona Silvia tinha provocado uma tempestade porque “permitiu” que um fio de cabelo ocupasse um espaço bem indevido numa das empadinhas de camarão. “Porra, justo na de camarão.” Costumava comer, de vez em quando, uma ou outra empadinha. De camarão. Sempre de camarão. Só vendia coisas que era capaz de comer. E cervejas que era capaz de beber. E, numa dessas, encontrou o fio. Quase vomitou. E amaldiçoou dona Silvia, por conta daquele vacilo. Jurou que não compraria mais os produtos dela. Por “sorte”, tinha sido ele o contemplado com o fio de cabelo na iguaria. “Imagina se acontece com o seu Zeca, aquele… Ia todo mundo achar que sou porco… Não posso dar esse mole.”

Dona Silvia dependia dos salgadinhos para pagar as contas. E o bar do amigo da Madrugada era o melhor cliente. Na verdade, o único com regularidade. Ela fez cara de desesperada, disse que não sabia como aquilo tinha acontecido, explicou que usava touca justamente para evitar este tipo de chateação… Depois de ouvir as explicações, Tito, o amigo da Madrugada se chamava Tito, ficou se perguntando se o que tinha encontrado era mesmo cabelo ou se não poderia ter sido um fio dental que ficara preso nos dentes, da noite anterior. Tito usava fio dental. E isso era outro motivo de orgulho dele. Acabou aceitando o pedido de perdão de dona Silvia. O que fez com que ela se perguntasse: “Será que anos atrás, quando os dois se separaram, faltou empenho da parte dela?” Foi tomada pela sensação de que havia perdido seu grande amor por descuido.  E por falta de insistência.

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Seja pvc

Mais uma daquelas cenas em que as pessoas se encontram, demonstram pra começar algum entusiasmo e vão invariavelmente murchando abrigadas/protegidas dentro de suas máscaras e amarras pandêmicas. A estas, uma boa dose de Bruce Lee! O cara que já se foi mas em vídeos nos explica que a água deve/pode tornar-se a garrafa. E este espaço todo que anda ficando entre as pessoas, este void/vazio que parece ser impossível de preencher, hoje em dia, como a gente vai resolver isso, depois da vacina? Como, Bruce? De onde você estiver, mande uma resposta ou um sinal. Será esta a grande transformação pela qual vai passar a classe média, a tomada de consciência a respeito do vazio que mais do que nunca HÁ entre as pessoas?

Claro que não, né, porque esperar que o classe-mediano-mediano experimente um insight qualquer, mesmo dos pequenininhos, e perceba seu lugar no mundo, antes ou depois da pandemia, tanto faz, é esperar demais. Está aí, o novo grande ensinamento pandêmico é este, a grande queda da ficha é: “O idiota classe-mediano não vai aprender nada mesmo, porque ele não veio ao mundo para aprender. Ele bebe uma cachaça e fala besteira com o peito estufado. E só.” Quer dizer, aprende, sim, uma ou outra música de torcida, um ou outro passinho de dança, e o estrangulamento básico — porque não basta alimentar-se bem, é preciso praticar um esporte maneiro para conseguir encarar este mundão de meu Deus.

É justamente do vazio que falava o cozinheiro desempregado, ali na mesa ao lado. Ele acredita que “os restaurantes vão precisar se reinventar”. E depois de declarar de peito também projetado pra frente suas crenças básicas, aos quase-aglomerados tasqueiros em derredor, ele pode ter deixado muita gente em dúvida sobre quantos vídeos no YT precisou ver para chegar a esta conclusão. A pergunta seguinte também é básica para os dias de hoje: quando ele vai começar o seu próprio canal naquela rede? É mais fácil ser showman do que fazer batatas fritas decentes? Há quem acredite que sim. O que será que Bruce, lá de onde ele está, tem a dizer sobre essa dicotomia?

Por falar em batata frita, o segredo para muitos candidatos à fama parece ser este: transformar-se numa espécie de salgadinho. E na Grande Lanchonete Universal do Reino do Entretenimento seguir se movimentando para que as pessoas babem de vontade de morder algo todas as vezes que te percebem na tela. Simples assim. Vale dizer que por trás de uma batata-frita-style muitas vezes há técnicas surpreendentes. No próprio YT, você vai encontrar receitas que dizem que o segredo é fritar duas vezes. Há muitos segredos por trás de uma batata. Imaginem o que nos escondem os pastéis, hein!?

Está aí uma instituição que perigou sumir do mapa, ou pelo menos das feiras, nestes tempos de Covid. Foi estranho ver rolos e mais rolos de plástico finíssimo envolvendo as barracas que servem caldos de cana, pastéis e hoje em dia também quibes e bolinhos de bacalhau. Agora, é estranho testemunhar que aquela barreira já foi dispensada. De repente, é isso, hein… Lições da pandemia… É com filme de pvc que vamos “amenizar” o danado do vazio. O que Bruce Lee diria sobre isso?

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You Glauco Tube

Mister Mattoso tem agora um canal só dele:

https://www.youtube.com/channel/UCT1MNFLK_9-nnlNN3JPppFw

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@monteiro4852 #18

O tempo cada vez mais corrido. Era difícil, no fim das contas. O sol voltando a brilhar. Era amarelo, se não me engano. O isso-éramos dando lugar ao é-pra-já. Cama foi feita pra pular, esse negócio de dormir é atraso de vida…

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Pediu, levou

Tem uma música d’O Rappa, uma daquelas antigas, que fala em “tapa na cara”. Logo no início, numa “locução” do saudoso Marcelo Yuca: “Tapa na cara pra mostrar quem é que manda…” O tabefe, como aponta a letra, sempre foi (tido como) uma verdadeira instituição nacional. Talvez até mundial, né? É possível que a bofetada tenha perdido espaço — na preferência de agentes da lei — para o “estrangulamento”. Teve o “I can’t breathe”, do falecido George Floyd, lembra? E o BJJ parece ter se tornado tão popular quanto a Capoeira, como produto de exportação. Mas, de volta aos sopapos: eles ainda têm seu lugar no imaginário de grande fatia do “público em geral” e, neste fim de semana, bem no dia de Cosme e Damião, o Alexandre Coutinho, vizinho aqui da área, experimentou uma variante que parecia andar, esta, sim, meio em “desuso”: o “tapa sem mão”. Vem só com o verbo, acompanhado no máximo de uma carão, mas quando bem aplicado faz as testemunhas jurarem que houve um “estalo”. Machuca.

A gente diz “Alexandre Coutinho” porque o Xande, como é conhecido por cachaceiros e maconheiros da área, tem essa mania, de se apresentar usando  nome e sobrenome, muitas vezes colocando em seguida a mão no bolso da camisa abotoada para tirar um cartão. Coisa de advogado, dirão alguns. Coisa de homem branco, classe mediano, dirão as feministas. Aliás, foram — separadamente — duas, digamos, feminazis as responsáveis por deixar o Xande de rosto vermelho-amargo, bem no dia de distribuir doces.

Pode-se dizer que o Xande, com aquela camisa para dentro da calça, e de sapatos bem engraxados, é um classe-mediano gentil. Não por conta do figurino. Ele diz “alô” para as senhorinhas; sorri ao aceitar o amendoim dos ambulantes e tira uma onda de do-povo ao negociar o preço para comprar três pacotinhos; sua na pelada e se orgulha de, no vestiário, interagir com outros classe-medianos que considera menos esclarecidos: executivos de corretoras, ex-jogadores de futebol, eleitores do coisa-ruim. “Eu quero falar com essa gente, quero mostrar a eles que fizeram uma opção errada”, diz sempre que passa do quinto chope, como que querendo mostrar ao mundo que não é um tiozinho careta.

Xande tem aquela mania de perguntar aos garçons quais são seus nomes, para “encurtar a distância”. E estende esta prática às outras rápidas relações que às vezes se estabelecem nos balcões de botecos das Laranjeiras. Numa dessas, quando uma moça estava pagando a conta, surgiu no ambiente um comentário sobre o Covid. Ela emendou uma frase. Xande, outra. Ela prosseguiu e o cara considerou que poderia esticar a prosa, querendo saber o nome… Esperava descobrir além disso o sobrenome, o que também pode ser coisa de advogado, e, assim, talvez identificasse a integrante de uma família velha conhecida da região. Nem era paquera, não.

A resposta que veio provocou no ambiente um silêncio de dois segundos: “Pra que quer saber meu nome? Não tem essa de nome, não…” E o engomadinho parecia um tomate, de tão vermelho. O segundo episódio envolveu duas mulheres, sendo que o assunto já não era o vírus. Elas entraram no bar e uma anunciou que a outra estava passando mal e, depois disso, pediu uma água tônica e um chope.

A tônica era para a que não se sentia bem. E foi sobre esta que Xande inquiriu: “Quem é ela?” Não houve resposta. O advogado estava mais lento, por causa da quantidade de chopes que já lhe preenchiam a alma. E aquele hiato pareceu uma eternidade para os outros ocupantes do balcão, sendo que alguns já deviam imaginar que haveria continuação. “Quem é ela?”, insistiu, olhando então mais diretamente para a que esperava pelo chope. Parecia acreditar numa certa força de intimidação. A tônica já tinha chegado, porque pessoas que estão passando mal têm preferência, né? “Quem é ela?” E veio o segundo tapa daquela tarde: “É minha mulher, porra, o que que tem?” A “agressora” usou de tanta força que ficou vermelha, mas, claro, a cor que ela alcançou não era nem de perto tão intensa quanto a que tomou de novo as bochechas de Xande. Pediu, levou.

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Bebemorar

A contemporaneidade levou a sério essa coisa baumaniana, a dos amores líquidos. Suspiremos todos, diante dessa vontade/capacidade classe-mediana de se adequar a certas teorias. Não dava era para imaginar que isso fosse assim, tão longe, né? Primeiro, o troço romântico perdeu a possibilidade de se desdobrar em longo prazo: não é pra durar. Beleza, entre aspas. A inteligentsia acha a solidão muito cool, seja na literatura, nos quadrinhos, no cinema. Descartável pouco é bobagem, vamos escrotizar com os oceanos, inclusive/principalmente o das (nossas) emoções. E, agora, neste dias em que o bom e velho “te pago um chope” tornou-se uma impossibilidade nas vidas de tanta gente, chegou a hora em que demonstrar preocupação e carinho se faz com uma frase do tipo “passa um álcool em gel, hein, quando chegar em casa…” Um novo papel para o álcool, um golaço pentecostal.

Os amores não estão líquidos. Estão liquidificados. O bagulho é pós-Bauman, além-Zygmunt; sentimentos batidos com abacate mais leite desnatado mais mel e mais aveia. Assim, fica verde. O vermelho perdeu a vez. Talvez em breve proíbam qualquer coisa com beterraba. “Comida subversiva!” O pessoal que se sente vítima da “cristofobia” denunciada pela presidência já deve acreditar que se trata de alimento de quem come criancinha. No século passado, você lembra, mastigar e engolir bebês, pré-adolescentes etc era sinônimo de comunismo. Ainda não se sabe como se diz isso, agora, no aperfeiçoamento pentecostal. Se alguém aí tiver acesso à cartilha deles, ou, melhor, se fizer parte de algum grupo de WApp em que haja um pastor, pode contar para a gente.

Tem a pandemia e a fome insaciável por dinheiro. Os amores se liquidificaram, se pá, porque o que importa é liquidez. Há quem se recuse a acreditar ou topar uma vacina, ainda mais se ela vier da China. E há quem nunca vai entender a devastação que pode causar um olho-grande. De uns dias para cá, o que alguns reaças mais esclarecidos pareciam ter escolhido como preocupação máxima era o direito deles de fazer piadas. Você aí que achou que fosse o amor, líquido ou sólido como outrora, pode tirar da cara a expressão de surpresa. Já não cabe mais fingir susto. Querer rir faz muito sentido: se você é bem alimentado, OK a gargalhada ser mesmo uma preocupação. Tanto faz se for em cima de uma minoria, de um bicho ou uma bicha ameaçadx de extinção. Rir era o melhor remédio. Rir agora é mais importante do que amar. Rir é o novo privilégio, o novo black. Amor é coisa de um passado “sólido” e remoto.

Agora, que só se permite ficar na calçada bebendo até as 22h, parece haver mais deixa(s) para um acordo mais amoroso entre diferentes defensores da “liberdade”. Que na verdade não passam de defensores do chope e da consequente gargalhada. Mas já é alguma coisa. Será que o Bauman conseguiria explicar isso ou é carioquice-terceiro-mundista demais para a Filosofia? Um viva para o líquido e a liquidez que unem a arrogância academicista e a truculência verde-e-amarela. Alguma coisa a gente tem que bebemorar.

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E a Elca, hein…?

O Rogério, de vez em quando, apelava para o palavrão mas tinha a vantagem de conseguir com que tudo — ou pelo menos muita coisa — saísse da sua boca de maneira suave: “Chove pra caralho, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.” Rogério se foi quando ainda podia ser chamado de “jovem”, carregando uma acidez que não era bem mau humor, era uma coisa que, sabe, os amigos perdoavam mas não era por isso que não era mau humor… Era um troço que ninguém sabia explicar direito. Nem mesmo os amigos. Talvez por isso achassem melhor perdoar. Claro que era melhor. Mesmo que Rogério não fosse santo. Aliás, não o chamavam muito pelo nome completo. Preferiam Roger. Muitas vezes, depois de tirar o acento agudo e aquelas duas últimas letras, davam uma risada que… que era a comprovação de que não havia mau humor ali naquelas rodas.

Alguns parceiros de Roger, quando se encontravam num boteco, gostaram de falar também do Marcos. Que era outro que tinha partido e a quem raramente se referiam pelo nome. Preferiam falar Meleka. E era assim com “k” porque se tratava de uma espécie de precursor da cultura da tag. Como Roger resumia bem: “O filho-da-puta era um rabiscador de mesa, na escola.” Era mesmo, porque tinha um problema com sua letra: achava horrível, o resultado; sentia vergonha. Não houve caderno de caligrafia que desse jeito. E quando Meleka se cansou de ouvir os camaradas dizerem que ele tinha “letra de médico”, começou a escrever usando “letra de imprensa”. Ou “letra tipo bastão”, como aprendera na aula de Técnicas Comerciais, numa escola pública da Penha. As mesinhas que ocupava na escola eram invariavelmente preenchidas por letras tipo bastão. Escrevia letras de músicas dos grupos punks que curtia. E às vezes fazia desenhos. O melhor de todos foi um garçom correndo com uma bandeja.

Um dos sobreviventes, quando passava de quatro cachaças, sempre, sempre puxava uma discussão sobre um possível encontro entre Roger e Meleka, no Além. E era sempre o Além que esticava as argumentações, as manifestações de descrença e desgosto, as defesas apaixonadas e cheias e culpa. Pulavam daí para a política e começavam a falar mal do prefeito da cidade. Era quando todos voltavam a rir, não sem uma dose de preocupação, mas sentindo o cheiro da adolescência, de quando acreditavam na “revolução” e panfletavam e escreviam nas paredes frases que consideravam transformadoras e capazes de mobilizar as pessoas. Meleka escrevia estas mensagens com letras tipo bastão. E saía tudo tão arrumadinho, às vezes, que ele tinha medo que pudesse ser preso por conta daquilo. Todo mundo ria, lembrando dessa história. Era certo que em algum momento falassem da Elza, por quem um dia todos tinham se apaixonado. Na certa, alguém ia perguntar, arrancando uma gargalhada-geral: “E a Elca, hein…?”