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Boteco Connection #9 — Fordismo

O Ruivo investiu em duas cervejas mais fortes do que as de costume e danou a falar. Pediu double ipa em vez de german pilsner, sabe? Aproveitou para papear com os professores, que estavam sempre ali, na calçada. Tinha desenvolvido com os mestres — como eram conhecidos — uma certa intimidade, naqueles oito meses de vizinhança nova. Mas quase, quase discutiu sério com um que defendeu “trabalhos em vez de provas porque prova é uma coisa muito fordista”. Duas cervejas podem mesmo fazer diferença. Como dois pontos, no fim do ano: não são muita coisa, mas se pá rendem um período de recuperação, criam a exigência de novas aulas e novas notas. Essas coisas. O rapaz vazou sem conseguir perdoar-se pelo vexame de peitar, isto é, quase chamar pra briga um tiozinho doutor em Psicologia. Temia não a recuperação, mas uma reprovação mesmo.  O conselho de classe da calçada não perdoa… reprova.

Ele se chamava Rui, o que parecia garantir-lhe um prazer extra com o apelido de Ruivo. Houve uma namorada que tentou chamá-lo de Ru-Ru. Mas era estranho, isso, e a coisa não decolou nem entre quatro paredes. Outra tentativa tinha sido R2D2, numa referência ao gosto do sujeito por drogas psicoativas de todos os tipos, das estimulantes às perturbadoras, passando pelas depressoras. A quizumba com o coroa professor tinha começado por aí, aliás. E a prosa desandou, no entendimento do Ruivo, porque ele tem problemas com professores desde aquela sexta-feira, trinta anos atrás…

Era uma sexta. E ele tinha ido para a escola. Não para fazer trabalho, mas para responder as questões que lhe garantiriam a aprovação naquele ano e, também, um videogame. Fordismo não passava pela cabeça dos pais dele. Nem pela dos professores daquela época. Mas o que ele considerava um detalhe de sorte era mesmo o fato de os pais não acharem que videogame era coisa de vagabundo, entendimento muito comum entre as famílias do pessoal com que o Ruivo se relacionava na escola.

Outra coisa que não era falada na época era bullying. “Tinha gente que levava surra de toalha molhada, depois da aula de Educação Física”, declarou, naquela tarde, na calçada, revivendo uma autêntica cara de desespero. “E o trote? Tinha o trote. Os veteranos cortavam o cabelo da gente. Não tinha como fugir…” Era só história triste, preparando para o acontecimento daquela tarde de sexta-feira-de-prova.

Rui, o Ruivo, estava na fileira do canto, à esquerda. Era comum ser zoado com alguma musiquinha. Dali a 15 minutos, seria a hora de começar a resolver as questões que lhe abririam as portas da série seguinte, e, de quebra, garantiriam o game de presente. Foi quando um companheiro de turma começou, baixinho: “Morte ao Ruivo! Morte ao Ruivo!” Poderia ser só mais uma piada, como tantas outras que já tinham sido inventadas naquelas salas. A coisa foi crescendo. Em sexta-feira de prova, o horário era diferente. Os alunos chegavam uma hora antes do horário regular, recebiam os papéis, isto é, as provas, e tinham quatro tempos de aula, cada um de 45 minutos, para resolverem tudo. Quem terminasse antes podia sair e ir para a casa.

“Morte ao Ruivo! Morte ao Ruivo!” Aquilo foi crescendo. Em pouco tempo, todos na sala do menino de cabelos vermelhos estavam dando soquinhos na mesa e cantando o troço. O tom e o andamento lembravam uma prática marcial qualquer. O Ruivo sentia-se ameaçado. Faltavam ainda 13 minutos para o início da prova. E o coro já extrapolava aquele retângulo. De repente, era como se os ambientes próximos tivessem sido tomados pela mesma cerimônia. E dava para perceber que em todo o andar estavam batendo nas mesas e cantando “Morte ao Ruivo! Morte ao Ruivo!” Dava para crescer ainda mais. E cresceu. Por toda a escola. Chegou à sala dos professores, onde entre um cafezinho e outro eles se preparavam para se encaminhar para as salas de aula. Mas a marcha ficou tão forte que os fordistas, isto é, os professores responsáveis pelas provas daquela tarde, apressaram o passo para tentarem interromper aquela onda toda. Quando um deles entrou no ambiente em que estava o Ruivo, deu um esporro: “Olha o que você fez! Como assim, rapaz!?” O menino, suado, com cara de desespero, quase não conseguiu mas falou: “M-mas eu não fiz nada! E eles querem me matar!”

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X, quadrado, triângulo, ondinhas, raios

Era alto e gordo, o Comandante. Carregava esse apelido mas era engenheiro, não milico. Do time dos escrotos, sem dúvida, tratado como “doutor” pelos homens que trabalhavam com ele. Tinha sido “presenteado” co’a chance de ser padrinho do Tito, filho do seu empregado mais antigo. “Presenteado” era como dizia a mãe dele, que enxergava naquilo uma chance de aprendizado para o filho. Com o vocabulário fofo dela e um considerável apanhado de orações, rogava por um cabra mais gente fina. Ao longo de 20 anos, o gesto mais carinhoso dele na direção de Tito tinha sido deixar para o garoto o troco que ficou de 300 gramas de salaminho que mandou comprar na padaria do outro lado da avenida. Foi também uma das poucas vezes em que a “plateia” que sempre o cercava deixou de seguir a regra de rir das “graças” que pintavam: naquela ocasião, apostou que o garoto poderia não voltar da missão porque atravessar a avenida era coisa perigosa para uma criança daquela idade.

Aos sábados, aquele escroto vestia uma fantasia de discotecário. Ou quase. Ficava numa parte da sala da casa, onde acumulava discos antigos, a maioria de rock progressivo, e se enlameava naquele repertório. Ninguém o incomodava. Porque não ousariam fazer isso, de um modo geral, e também porque a seleção musical era mesmo bem chata e repetitiva. No Dia do Juízo Final dos Discotecários, se for julgado também nesta categoria, terá garantido um dos lugares na lista de Piores de Todos os Tempos. Voltava sempre às mesmas músicas, aos sábados, entre 14h e 17h. Pode-se dizer que tinha um set bem amarradinho. Gostava de se sentar numa poltrona que ficava perto da janela, e, durante aqueles 18 intermináveis minutos de duração média de cada faixa, fazia de conta que estava pensando. Tinha a mania de vestir-se de preto, nestas ocasiões. O que fez com que uma amiga da mãe — porque ele morava com a mãe — achasse que se tratava de uma assombração. Aconteceu porque ele estava agachado no canto, perto da prateleira onde ficavam os LPs, e ali havia pouca iluminação. Uma pessoa desavisada, embalada por aquela música danada de ruim, poderia ter a impressão de que se tratava de um ser de outro mundo, em vez de um vacilão daqui da Terra mesmo.

Os discos ficavam organizados numa prateleirinha e também num armário. Na prateleirinha, os compactos. No armário, os grandões: de 10 e 12 polegadas. Todos os formatos ficavam abrigados em plásticos novos, que protegiam as capas em que invariavelmente o Comandante escrevia seu nome com esferográfica azul. Era neste detalhe que ele entregava que além de mau DJ era também um colecionador porcalhão. Arrumava os bolachões numa ordem que não era alfabética, mas, sim, de preferência. Da esquerda para a direita, de cima para baixo. O disco que mais ouvia era o primeiro da prateleira de cima. Se algum louco fosse surrupiar uma bolacha dali e pegasse a primeira de cima, estaria levando o disco mais ouvido pelo pior DJ do mundo. Entrar na casa para subtrair dali qualquer coisa seria tarefa não muito simples mas, sim, possível para alguém que conhecesse a rotina de (falta de segurança) daquela condomínio de casas.

O mané quase teve um troço quando pegou o preferidão dos sábados e, ao tirar da capa, deu de cara com uma bolacha marcada por um X que deve ter sido “esculpido” com um bom estilete, canivete ou faca. Chamava a atenção a simetria com que os dois lados do LP tinham sido marcados. Parecia casar direitinho, um X com o outro do lado oposto. O autor da obra deve ter ficado orgulhoso. Mas a reação do Comandante, surpreendentemente, não passou dos olhos arregalados. Manteve o que pode-se chamar de “calma”,  na sequência. Decidiu pegar o segundo disco da fileira e, neste, encontrou riscada de cada lado a figura de um quadrado. Sentou-se na cadeira e lembrou do Tito, que segundo o pai, havia viajado para o Nordeste. “De Niterói para o Nordeste é um pulo grande”, havia pensado, quando ouviu do empregado a informação. Ainda sentado, experimentando aquela sensação completamente nova, não sabia que ainda encontraria nos três discos seguintes figuras geométricas diferentes.

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Flerte

Começou com um “Te vi ontem de longe”. A vontade do outro lado era de responder de pronto usando “Ah, se de longe tá bom é melhor ficar assim mesmo…” Mas — angústia-vai-angústia-vem — pintou um “Quer me ver hoje?” e foi tipo no instinto o disparo de um certo “Só se for bem de perto”. A maneira como certas questões se apresentam e se resolvem/dissolvem, é um território em que se pode ainda enxergar originalidade. Sim, dá pra falar em “originalidade”, aí, nesse terreno. Assim como se pode afirmar que é mais fácil falar sobre como elas, as questões, se apresentam, do que sobre as questões-em-si. Este não é um texto para formar samurais. Questões-em-si, na maioria dos casos, seriam boas se ficassem longe. Aplausos para a originalidade, que consegue às vezes entortar as coisas.

Singularidade não anda sozinha. Quando está de mãos dadas co’a sutileza, constrói uma pradaria de beleza ímpar. Uma amplitude danada de bonita, mesmo vista numa telinha de celular. Que é onde todo mundo vê o troço todo, hoje em dia. Né? Quando uma companhia (dona Sutileza, no caso) for capaz de garantir a existência de piadas perigosas, ela mais do que deve ser vivida: deve, isso, sim, ser celebrada. É quase um flerte com a autodeterminação, sem correr o risco de enganar o cara dizendo que crescerá nele um samurai. É do que prescinde o sujeito que vende bilhetes de loteria e pede um refrigerante e uma empada a quem estiver sentado no bar. Bebe o que tem. Come o que tem. Nossa Senhora das Empadinhas nem sempre faz o milagre pelo qual reza o fiel.

Ainda tem gente que vende bilhetes de loteria. Perguntam o ano em que você nasceu e se houver ali uma milhar com aquele número… prepare-se para ser firme no “Não, não quero”. Mas… Do tamanho da fome deveria ser também a retumbância do agradecimento. Como um prêmio na Federal, com bilhete inteiro. Não é porque Nossa Senhora das Empadinhas dessa vez garantiu o frango, no lugar do camarão, que não merece uma… uma missa. Ela, a santa, estava longe ou mostrou-se próxima, quando matou a fome e a sede do mané?

O que acontece é que a gente, a gente que não é samurai e jamais vai ensinar alguém a segurar uma espada, a gente se confunde com os sinais que aparecem. E com as piadas que youtubemente falando se mostram necessárias para uma vida plena de realizações, quer dizer, de seguidores. Aconteceu outro dia com um cara que se viu diante de uma banda que misturava alemão e japonês. Idiomas. Misturava os idiomas, não cidadãos.

Uma banda pode mesmo te apresentar mais problemas do que diversão? Vai saber. Tinha o caso daquela chilena que ficava com o pé atrás com as músicas do Nirvana, porque achava as letras pesadas. Não queria cantar aquelas coisas. Não queria aquelas influências. Não queria. Não queria ficar perto daquilo. E nem mesmo longe sentia-se segura.

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Olha o Zé aí.

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Zero-vinte-e-um-nove-nove-um

Sofria com aquela bobagem de esperar alguma coisa dar errado, sabe? Ela era assim. Falou sobre isso com o cara. E comentou que naquele dia estava experimentando um prazerzão. Viu os olhos dele ficarem diferentes e continuou: “Você concordou com o lance que sugeri e aí… É que eu sou meio louca, entende? Fica tudo pior, na vida de uma louca.” Teve certeza de que o parceiro não havia sacado nada. Pegou dali e insistiu: “Quando a gente está feliz, ou pelo menos acha que está, o que dá quase no mesmo, a mana que é meio louca acha que vai acumulando pontos que lá na frente vão dar numa grande M.” Tinha acabado de ter a sensação, ela, de que aquilo tudo era bobabem e, melhor, de que estava esquema-tudo-tranquilo. Isso porque havia lido a mensagem do sujeito em que ele dizia “Ok, vamos viajar, neste fim de semana”, e manteve os batimentos numa levada razoável, sem precisar do respira-calma-concentra-respira-calma. Mais: ficou serena e feliz. Usou até a palavra “Feliz”. Fez uma pausa e se comentou: “É estranho falar ‘mana’? Mulher pode falar ‘mina’, né?”

Tinha pensado que aquelas dores que andava sentindo representavam uma chance de alcançar aquilo que a humanidade como um todo não tinha conseguido, mesmo com a pandemia: melhorar. Chamava de “pandemia própria”, a sentença do médico, que indicava a necessidade de um “pequeno procedimento cirúrgico”. Sofria com isso tudo e se escorava na vontade de brincar de ser artista. Anotou uma frase — “O sonho da pandemia própria” — e prometeu transformar aquilo num cartaz, assim que estivesse recuperada. Rapidinho, deixou escapulir: “Não, não é pra gastar mais dinheiro, porra!” Também em relação ao tratamento tinha medo, mas achava que havia mesmo uma chance de vencer aquilo. E fez mais uma promessa a si mesma: de escrever aquela máxima nos banheiros femininos dos botecos que tivesse a sorte de frequentar, num futuro próximo. Tinha aprendido com o namorado a se divertir com canetões.

Pixies, Martinho da Vila, Blur, Gal, Beatles, Novos Baianos, Nação Zumbi, Cake, Céu, Breeders, Miles Davis. Ouviu coisa pra caramba, na véspera do feriadão. Achava que com música construía um clima, tornava uma cena mais palpável, aliementava uma esperança, passava o tempo, esquecia a culpa, resistia ao respira-calma-concentra-respira-calma, aproveitava mais o respira-calma-concentra-respira-calma, preservava a libido, bloqueava sugadores anônimos e outrem nem tão anônimos assim, controlava as despesas com chocolate e castanhas e vinhos e queijo, aceitava os banhos quentes nos quais quase invariavelmente achava demorar mais do que devia. E o que parecia melhor que tudo: resistia à ideia de ter um gato. Tinha conversado com o namorado sobre Led Zeppelin e ficou incomoda com a zoação do cara, que classificou os tiozinhos como metal farofa. Quase ficou puta. Mas sorriu quando ele pediu perdão, explicou que ela era “muito nova pra gostar de Zeppelin” e disse que topava ouvir o álbum favorito dela. Já estava clareando, quando combinaram isso, antes de uma nova agarração e da chegada do sono. Pensou em arrumar confusão dizendo que Dead Kennedys também é som de velho. Antes de dormir, lembrou do médico e do tratamento. Pensou na vida curta. Queria ter coragem para levantar e tomar um banho quente e demorado. Queria dormir só quando o sol já estivesse alto. Mas ficou ali com o cara. “Ainda bem que ele não ronca.”

“Não precisa de acompanhante, não. Você vai se internar na segunda logo cedo e no dia seguinte já deve estar liberada.” Foram as palavras do médico. Ela não entendia como tinham conseguido marcar tudo tão rápido. E por que não precisava de acompanhante? Será que o boy insistiria na ideia de acompanhá-la? Será que não haveria chance de novos banhos quentes, num futuro próximo? Queria ter a chance de aproveitar a água sem culpa. Já não acreditava na polarização na política, evitava hambúrgueres na loja do palhaço, às vezes abusava do vinho, queria ter mais tempo, precisava de mais tempo, não era justo que tudo terminasse ali daquele jeito, sem que tivesse ouvido sequer um álbum do Led Zeppelin com o maluquinho. “Caralho, tô chamando o cara de namorado. A gente tem que tomar um banho quente juntos. A gente já morre, todo dia. Mas é pior quando a gente se mata, todo dia…” Respira-calma-concentra-respira-calma.

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Quem cringe?

Explicar a moda pode ser mais difícil do que entender a estupidez. Tendência é coisa que um dia, quem sabe, vai parar de ser discutida. Pode nem estar longe, isso, porque continua perigoso ficar em mesa de bar, falando besteira e tentando entender a vida. Daqui a pouco, todo mundo desiste disso, dessa história de “entender”. Seja como for, “cringe” segue sendo a coisa que todos — de influencers a antigos “formadores de opinião” — parecem querer escrever/citar. Aliás, todos, não: todEs, né? Vamos brincar de “respeitar tendência”, já que é pra falar de uma, sempre correndo o risco da acusação de deboche. Quer coisa mais divertida?

Pode ser que com aquilo que chamam de “fim do período de retrogradação de Mercúrio”, que estava anunciado para ontem, não como tendência mas como, sei lá, fato, seja possível “mais comunicação e portanto mais entendimento”. Mas é bom ir com calma. Sem cringe, sem crise. Tipo vai ser tranquilo para lavar a louça do almoço, mas pensar na roupa suja são outros quinhentos. Deixe a roupa suja para depois. Siga a tendência que não põe em risco a tua vida. Tome vacina.

Ah, de repente, dá uma saudade de “Inverno sombrio”, d’Os Replicantes.

Tendência e publicidade se misturam? Ou se sustentam? Uma cria a outra? O que o carioca vai fazer com esse frio todo? O que a gente precisa fazer para frear o Tik Tok, pra eles pararem com aquele anúncio em que colocam uma menina para dançar, no quarto? O André Dahmer já fez tirinha falando de dançarinas de Tik Tok, os mais velhos já lembramos de Carla Perez e do É O Tcham. Já deu. O Tik Tok já pode parar. Alguém precisa parar o Tik Tok.

A menina aparece de shortinho, quase sempre de barriga de fora, às vezes de Mulher-Maravilha. Há sequências em que duas outras pessoas se anunciam, no filminho, como que interrompendo a dança da protagonista. Deve ser uma campanha para uma geração muito específica porque a gente que passou pelo medo da guerra nuclear não consegue fazer outra coisa que não seja se incomodar com aquilo. E odiar o Tik Tok. O Tik Tok é a prova de que publicidade pode funcionar muito bem com um nicho.

Vai ter quem diga que este escriba está frequentando ambientes virtuais “errados”. Nem é o caso. O caso de o escriba parar para ouvir isso. É o caso de os publicitários-marketeiros descolados e criativos e extremamente capazes de produzir com baixo custo segurarem a onda. O que nos resta de neurônio serve para lembrar que houve um momento ali na campanha do Trump em que uma “legião de tik tockers” zoou o republicano fazendo com que um comício fracassasse. Esquerdopatas de plantão aplaudimos. Mas agora chega. Ou… Zooom! Zapp! Punch! Cringe!

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Um feat aqui, outro ali

Nessas brincadeiras de ir até o “passado”, que a internet faz com a gente, apareceram duas coisas “novas”. Dois feats. Löis Lancaster Feat. Negro Leo com “O poder da merda” e BNegão Feat. Paulão King com a releitura de “Cérebros atômicos”.

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A dor de perder um disco…

Um momento música de acampamento. Assim é “Sketch of light“. Capaz de fazer você imaginar um ex-SY em frente a uma fogueira, com um violão de aço… Prepare-se para uma daquelas introduções demoradas, do tipo que levam a gente até um passado que nem é tão distante mas que, pela velocidade como as coisas andam acontecendo, sugerem um hiato de sei lá 200 anos (?). E olha que Sonic Youth tinha um pouco a ver com “velocidade”, hein? Agora, “Sketch of light” faz a gente acreditar estar diante de um certo vovô Thurston, na jogada. É, porque apesar de aparecer posando em fotos com Iggy Pop ele não parece ter se transformado no monstro pop que dona Kim desenhou naquele livro dela. De volta à música: não era introdução, era uma instrumental mesmo.

A sugestão é a gente ficar mesmo com o sketch, com o rascunho, porque comprar vinil está muito caro e muito arriscado. Este sujeito aqui do outro lado da tela amargou uma perda, recentemente, ao apostar na encomenda do 12 polegadas do vovô Moore. Nunca houve um cara tocando a campainha para avisar que “By the fire” estava chegando. Aí, agora, nessa internetência de meu Deus, surge um consolo. É um consolo. Lento. Sem voz, como se ele não tivesse o que dizer pelo bolachão que nunca chegou…

A solução, como já pregava nosso amigo Zé Sem Nome, é o Bandcamp. Lá, você ouve “Sketch of light” e outras coisas mais frescas do ex-/sempre- Sonic Youth. Tem por exemplo “7/7/77“, dele com (o guitarrista e DJ) Zac Davis, que é um mergulho naquela agonia noise de antigamente. ZD já tinha trabalhando com grampa Moore e outros integrantes do SY, ao longo da década passada, quase sempre ensopado por esse molho noisey do fim do século 20. Alguns caras parecem congelados no tempo e são muito atuais por isso. “7/7/77” é um desafio para qualquer ouvinte, mesmo fã dos trabalhos antigos dos artistas em questão.

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Mameluco Canibal

Uma loucura leva à outra. Teve essa história de o Junior Abreu participar daquele single do Zé Sem Nome e logo na sequência ele lançou também uma parada novinha: “Só pro teu dia alegrar”, com o Diego Cruz, com quem forma o Mameluco Canibal. Outra onda.

Nesse caso, é bem mais fácil entender a letra: “sou capaz de tudo até mover o muro / só pro teu dia alegrar / corro riscos, enfrento o mundo / só pro teu dia alegrar / dou nó em pingo d`água / só pro teu dia alegrar / enfeito noites com castelos / pinto de cores todo o resto / só pro teu dia alegrar / finjo paz quando há guerra / acalanto as noites de trevas”.

Dá pra chamar de muitas coisas, isso aí. Clipe feito com o celular. Música de estreia. Guitarras cremosas. Dá até pra correr o risco de dizer que Abreu e Cruz estão lidando com o grande combustível da música pop. Aquele papo de amor, sabe qual é? Em tempos pandêmicos, um ingrediente assim, pros mais ranzinzas, pode parecer ainda mais piegas. Mas a dupla aperta o bom e velho botão do F… “F” de “fazer”, sacou?

Cruz (esq.) e Abreu fazem de tudo pra alegrar o dia de alguém
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Cheiro de diversão, digo, treta

O Zé continua Sem Nome e Em Forma. Deu à luz “Cheiro de treta”, faixa que vem com participação dos ilustres Junior Abreu e Marco Homobono. O lance nasceu, segundo Zé Felipe, a.k.a. ZSN, porque “o pessoal dum coletivo lá de Curitiba pediu uma inédita pruma coletânea”. Quer dizer: em Curitiba há, sim, pessoas a quem devemos agradecer por alguma coisa.

Você passa um tempo sem ouvir o clássico “Parece Rap” e este distanciamento te dá — se ainda não tinha certeza — o que é preciso para concluir que, sim, se trata(va) de um troço muito louco e muito bom. “Cheiro de treta” mantém o nervosismo, uma avalanche de palavras que não é um simples caô verborrágico, mas, sim, a tradução de uma postura (somente sonora?) peituda de quem parece estar chamando o ouvinte para uma porrada.

Seguir a letra requer concentração. Dá para identificar um refrão, ali, mas vai transcrever, na intenção de fazer uma texto-resenha. Dá pra sacar bem o coro com as respostas do Homobono e do Abreu, quase construindo a cena de um baile funk-charme apocalíptico. Vai; tenta, aí. “Cheiro de treta no ar, acho melhor nem falar nisso, a gente zoa e pede desculpa, (…) uns passinho e vamos dançar…”

Tudo pautado por um certo desprendimento, um descompromisso, uma leveza que tempera a música com “atitude” e revela uma poesia mucho-mucho-loka. Pode rir. Porque o Zé é isso, é pra te fazer rir. Te divertir. E fazer pensar. Pelo menos um pouco. Elaborar, sabe? Se não for pra isso, melhor procurar alguém “com nome”, correndo o risco de perder toda uma diversão.