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Boteco Connection #10 — Calçada unida

Dezembro nem começou direito e parece que é a premissa é: “Mês de sentir saudades”. Teria sido a conclusão mais “lógica” de cinco pessoas que se encontraram sem-querer-querendo, numa calçada, ainda agora. Mas cinco cervejas para cada um e os pensamentos acompanham a vibração: começam uns a querer falar mais alto que os outros sobre o que lhes apertava o peito. Não é que pensamento e cerveja não combinem. É que o papo era saudade, não era combinação. O que combina com saudade? Atravessar a rua, rabiscar toda uma parede com o nome de alguém, mensagens que batem recordes de doçura, flores amarelas, café com canela?

Cinco pessoas, isso. Cinco itens, isso, também. Cinco segundos de silêncio e alguém dispara, no embalo de uma conversa que passa a ser temperada por sacanagens diversas: “A Help era o coração do Brasil. Quando fechou aquilo, você matou o Brasil. Por isso é que aquele museu não vai, gente, não vai pra frente, virou tipo um cemitério de índio.” Foi tão bem construído e certeiro, o negócio, que os cinco segundos seguintes pareceram cinco minutos. A resposta, ninguém viu bem de onde veio, mas provocou de xingamentos a risadas, ambas tímidas: “Tá com saudade da putaria, né?”

“As ideias são como um prêmio para quem trabalha. Quem trabalha merece ter ideias. No meio dessa demolição da intelectualidade, o problema é que a gente tá com muito mais trabalho. E poucas ideias…” Frase complexa é assim. Por um lado, pode fazer todo mundo pensar que talvez tenha bebido demais. Por outro, faz todo mundo pensar e isso é bom. Era o caso de aproveitar, ali, naquela assembleia, o fato de que estava todo mundo a fim de pensar. Alguns até sofriam com isso. Para estes, pintou uma frase, mais curta, ainda com tapa-na-cara-mode-on: “Bora! Bora! Bora!” Tipo na academia, isso mesmo.

Foi possível sentir no ar um sopro de confiança. Ou estava todo mundo meio desnorteado mesmo. Talvez alguns até se perguntassem se seria possível retomar o papo, a partir daquele ponto. A autora do veredicto estava quase envergonhada por ter soltado aquilo, como se fosse culpada pelo silêncio que se seguiu. Era o caso de sentir-se orgulhosa. Mas não adiantou aquele outro maluco dizer isso a ela, baixinho. O movimento gerou até desconforto, porque parecia uma divisão do time. Não que a divisão fosse proibida, ali, mas… Ainda estava fresquinho na cabeça de geral aquela vontade de unir. “Calçada! Unida! Jamais será vencida!” Quase dava para imaginar o pessoal saindo com isso aos gritos: “Calçada! Unida! Jamais será vencida!”

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Boteco Connection #9 — Fordismo

O Ruivo investiu em duas cervejas mais fortes do que as de costume e danou a falar. Pediu double ipa em vez de german pilsner, sabe? Aproveitou para papear com os professores, que estavam sempre ali, na calçada. Tinha desenvolvido com os mestres — como eram conhecidos — uma certa intimidade, naqueles oito meses de vizinhança nova. Mas quase, quase discutiu sério com um que defendeu “trabalhos em vez de provas porque prova é uma coisa muito fordista”. Duas cervejas podem mesmo fazer diferença. Como dois pontos, no fim do ano: não são muita coisa, mas se pá rendem um período de recuperação, criam a exigência de novas aulas e novas notas. Essas coisas. O rapaz vazou sem conseguir perdoar-se pelo vexame de peitar, isto é, quase chamar pra briga um tiozinho doutor em Psicologia. Temia não a recuperação, mas uma reprovação mesmo.  O conselho de classe da calçada não perdoa… reprova.

Ele se chamava Rui, o que parecia garantir-lhe um prazer extra com o apelido de Ruivo. Houve uma namorada que tentou chamá-lo de Ru-Ru. Mas era estranho, isso, e a coisa não decolou nem entre quatro paredes. Outra tentativa tinha sido R2D2, numa referência ao gosto do sujeito por drogas psicoativas de todos os tipos, das estimulantes às perturbadoras, passando pelas depressoras. A quizumba com o coroa professor tinha começado por aí, aliás. E a prosa desandou, no entendimento do Ruivo, porque ele tem problemas com professores desde aquela sexta-feira, trinta anos atrás…

Era uma sexta. E ele tinha ido para a escola. Não para fazer trabalho, mas para responder as questões que lhe garantiriam a aprovação naquele ano e, também, um videogame. Fordismo não passava pela cabeça dos pais dele. Nem pela dos professores daquela época. Mas o que ele considerava um detalhe de sorte era mesmo o fato de os pais não acharem que videogame era coisa de vagabundo, entendimento muito comum entre as famílias do pessoal com que o Ruivo se relacionava na escola.

Outra coisa que não era falada na época era bullying. “Tinha gente que levava surra de toalha molhada, depois da aula de Educação Física”, declarou, naquela tarde, na calçada, revivendo uma autêntica cara de desespero. “E o trote? Tinha o trote. Os veteranos cortavam o cabelo da gente. Não tinha como fugir…” Era só história triste, preparando para o acontecimento daquela tarde de sexta-feira-de-prova.

Rui, o Ruivo, estava na fileira do canto, à esquerda. Era comum ser zoado com alguma musiquinha. Dali a 15 minutos, seria a hora de começar a resolver as questões que lhe abririam as portas da série seguinte, e, de quebra, garantiriam o game de presente. Foi quando um companheiro de turma começou, baixinho: “Morte ao Ruivo! Morte ao Ruivo!” Poderia ser só mais uma piada, como tantas outras que já tinham sido inventadas naquelas salas. A coisa foi crescendo. Em sexta-feira de prova, o horário era diferente. Os alunos chegavam uma hora antes do horário regular, recebiam os papéis, isto é, as provas, e tinham quatro tempos de aula, cada um de 45 minutos, para resolverem tudo. Quem terminasse antes podia sair e ir para a casa.

“Morte ao Ruivo! Morte ao Ruivo!” Aquilo foi crescendo. Em pouco tempo, todos na sala do menino de cabelos vermelhos estavam dando soquinhos na mesa e cantando o troço. O tom e o andamento lembravam uma prática marcial qualquer. O Ruivo sentia-se ameaçado. Faltavam ainda 13 minutos para o início da prova. E o coro já extrapolava aquele retângulo. De repente, era como se os ambientes próximos tivessem sido tomados pela mesma cerimônia. E dava para perceber que em todo o andar estavam batendo nas mesas e cantando “Morte ao Ruivo! Morte ao Ruivo!” Dava para crescer ainda mais. E cresceu. Por toda a escola. Chegou à sala dos professores, onde entre um cafezinho e outro eles se preparavam para se encaminhar para as salas de aula. Mas a marcha ficou tão forte que os fordistas, isto é, os professores responsáveis pelas provas daquela tarde, apressaram o passo para tentarem interromper aquela onda toda. Quando um deles entrou no ambiente em que estava o Ruivo, deu um esporro: “Olha o que você fez! Como assim, rapaz!?” O menino, suado, com cara de desespero, quase não conseguiu mas falou: “M-mas eu não fiz nada! E eles querem me matar!”

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1990 ou O-Ano-Da-Pantera (quase, quase Boteco Connection #9)

Ela não queria apelar para as ferramentas de pesquisa na internet. Não era uma decisão fácil, esta, porque o telefone estava ali, o tempo todo. Mas mantinha-se firme, mesmo que fosse uma tentação mergulhar no protagonismo de uma daquelas sequências em que, após uns poucos segundos de concentração, arrumando os cabelos bem pretos, ela pegaria o aparelho e, com a firmeza de quem enxerga muito bem, deslizaria as unhas pintadas de vermelho cintilante pela telinha. Andava digitando com o dedo até um pouco de lado, por causa do tamanho das garras. E assim como não era exagero falar em “garras”, também não era demais falar dela como uma pantera. Mas estamos apontando alguém que pretendia voltar aos dias de “jovem felina 1990”, quando tinha 9 anos e foi, com o pai, ver um jogo de futebol na maior cidade do país. Não qualquer jogo. Mas aquele que faria com que ela trocasse de time. O que será que uma ferramenta de busca nos mostraria como dicotomia se fôssemos opor “jovem felina 1990” e “pantera 2022”?

Puxar pela memória tinha começado como uma diversão. Sempre que esbarrava com alguém que parecia entender de futebol, ela engatilhava o assunto, mencionando a conquista de um título, naquele ano, e comentando resultados. Era boa com placares históricos, o que excitava marmanjos metidos a entender de futebol. Recheava suas crônicas — porque eram mais do que memórias — falando da eleição de uma mulher nordestina para a prefeitura de São Paulo. E enchia-se de orgulho recapitulando o episódio em que, no metrô, desafiou skinheads para proteger o irmão mais novo. Enxergava bem e tinha boa memória, a pantera. E se divertia, diante de barbudos entendedores do jogo da bola, vendo-os sem resposta para questões que, ela deixava claro, trariam grande felicidade para ela. Mobilizava os caras, sem muito esforço.

Na verdade, mais do que conseguir respostas, mais do que ser capaz de organizar na cabeça um almanaque definitivo sobre aquele jogo, ela elevava, a cada menção/tentativa, um castelo de paixões — pelo time, pela vida, pelo mar, por…. Uma construção que ia ficando sempre mais e mais imponente. Depois da pandemia do início dos Anos 2020, nossa personagem parecia estar diante da necessidade de tomar uma outra grande decisão, algo que poderia ser tão transformador quanto trocar de time, e talvez por isso mais importante do que conseguir respostas definitivas eram as chances de visitar, mentalmente, os sabores de um novo horizonte.

Ela enxergava bem e pensava também muito bem. E, ao contrário do que tinha imaginado até ali, talvez fosse possível trocar de time mais de uma vez na vida. O tempo passa. Ou, como ela dizia parecendo querer desconcertar seus interlocutores: “O tempo tem o próprio tempo. É assim que se constrói intimidade.” Se um só pensamento preenche a imensidão, também com esta medida se ergue uma fortaleza, um castelo.

Pegou-se ontem começando uma conversa, numa calçada de boteco. Tinha testemunhas, gente que já a tinha visto armar aquela arapuca. Houve até quem comentasse: “Pô, de novo, esse papo de 1990? Sério?” Era uma deixa, tal tipo de comentário, para que ela mostrasse outro talento: o sorriso. Sorria que era uma beleza. E invariavelmente seguia, firme, na prosa. Esse cara da calçada era mais ou menos da idade do pai dela, e fanático pelo mesmo clube. Sentindo o desafio, o malandro não recuou: “Mas a gente jogou nesse estádio, em 1990?” A mulher respondeu que “Sim… E a gente perdeu…” E foi quando ouviu o que precisava, sem saber que era aquilo que precisava: “Ah, é por isso então qu’eu não lembro.”

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X, quadrado, triângulo, ondinhas, raios

Era alto e gordo, o Comandante. Carregava esse apelido mas era engenheiro, não milico. Do time dos escrotos, sem dúvida, tratado como “doutor” pelos homens que trabalhavam com ele. Tinha sido “presenteado” co’a chance de ser padrinho do Tito, filho do seu empregado mais antigo. “Presenteado” era como dizia a mãe dele, que enxergava naquilo uma chance de aprendizado para o filho. Com o vocabulário fofo dela e um considerável apanhado de orações, rogava por um cabra mais gente fina. Ao longo de 20 anos, o gesto mais carinhoso dele na direção de Tito tinha sido deixar para o garoto o troco que ficou de 300 gramas de salaminho que mandou comprar na padaria do outro lado da avenida. Foi também uma das poucas vezes em que a “plateia” que sempre o cercava deixou de seguir a regra de rir das “graças” que pintavam: naquela ocasião, apostou que o garoto poderia não voltar da missão porque atravessar a avenida era coisa perigosa para uma criança daquela idade.

Aos sábados, aquele escroto vestia uma fantasia de discotecário. Ou quase. Ficava numa parte da sala da casa, onde acumulava discos antigos, a maioria de rock progressivo, e se enlameava naquele repertório. Ninguém o incomodava. Porque não ousariam fazer isso, de um modo geral, e também porque a seleção musical era mesmo bem chata e repetitiva. No Dia do Juízo Final dos Discotecários, se for julgado também nesta categoria, terá garantido um dos lugares na lista de Piores de Todos os Tempos. Voltava sempre às mesmas músicas, aos sábados, entre 14h e 17h. Pode-se dizer que tinha um set bem amarradinho. Gostava de se sentar numa poltrona que ficava perto da janela, e, durante aqueles 18 intermináveis minutos de duração média de cada faixa, fazia de conta que estava pensando. Tinha a mania de vestir-se de preto, nestas ocasiões. O que fez com que uma amiga da mãe — porque ele morava com a mãe — achasse que se tratava de uma assombração. Aconteceu porque ele estava agachado no canto, perto da prateleira onde ficavam os LPs, e ali havia pouca iluminação. Uma pessoa desavisada, embalada por aquela música danada de ruim, poderia ter a impressão de que se tratava de um ser de outro mundo, em vez de um vacilão daqui da Terra mesmo.

Os discos ficavam organizados numa prateleirinha e também num armário. Na prateleirinha, os compactos. No armário, os grandões: de 10 e 12 polegadas. Todos os formatos ficavam abrigados em plásticos novos, que protegiam as capas em que invariavelmente o Comandante escrevia seu nome com esferográfica azul. Era neste detalhe que ele entregava que além de mau DJ era também um colecionador porcalhão. Arrumava os bolachões numa ordem que não era alfabética, mas, sim, de preferência. Da esquerda para a direita, de cima para baixo. O disco que mais ouvia era o primeiro da prateleira de cima. Se algum louco fosse surrupiar uma bolacha dali e pegasse a primeira de cima, estaria levando o disco mais ouvido pelo pior DJ do mundo. Entrar na casa para subtrair dali qualquer coisa seria tarefa não muito simples mas, sim, possível para alguém que conhecesse a rotina de (falta de segurança) daquela condomínio de casas.

O mané quase teve um troço quando pegou o preferidão dos sábados e, ao tirar da capa, deu de cara com uma bolacha marcada por um X que deve ter sido “esculpido” com um bom estilete, canivete ou faca. Chamava a atenção a simetria com que os dois lados do LP tinham sido marcados. Parecia casar direitinho, um X com o outro do lado oposto. O autor da obra deve ter ficado orgulhoso. Mas a reação do Comandante, surpreendentemente, não passou dos olhos arregalados. Manteve o que pode-se chamar de “calma”,  na sequência. Decidiu pegar o segundo disco da fileira e, neste, encontrou riscada de cada lado a figura de um quadrado. Sentou-se na cadeira e lembrou do Tito, que segundo o pai, havia viajado para o Nordeste. “De Niterói para o Nordeste é um pulo grande”, havia pensado, quando ouviu do empregado a informação. Ainda sentado, experimentando aquela sensação completamente nova, não sabia que ainda encontraria nos três discos seguintes figuras geométricas diferentes.

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Quadro colorido

Foi um diálogo rápido. Mas chamou a atenção porque era um pouco Doce contra Salgado. E Doce contra Salgado mobiliza as pessoas. O “contra” não revelava uma oposição, exatamente, mas talvez uma impossibilidade, ou incapacidade — de ambas as partes — de chegar a um acordo. Porque a opção pelo desacordo criava pelejas como aquela. Durou uma meia-hora. Divertido, às vezes, para quem teve a sorte de acompanhar. Houve até quem fizesse vídeo, sob a promessa de não publicar em lugar nenhum mas, sim, guardar as imagens apenas como… Recordação? Recordação de uma discussão? Big-brothermente falando, fica difícil hoje em dia filmar algo e não publicar, mas a questão ali era o Doce contra o Salgado, então o pessoal soube se concentrar no que importava: nos ensinamentos.

“Você tem 39 anos e nunca entrou num banheiro de Salgado”, perguntou Salgado ao Doce. “Como é que pode isso?” E com o sorriso de quem parecia conhecer segredos do oponente seguiu no ataque: “Banheiro é território de liberdade. Você não precisa ter medo de sair do seu e entrar no do outro…” Foi possível perceber o desconforto com que Doce ouviu aquilo. Parecia saber que se tratava de uma piada. Entendia a provocação, porque era isso, uma provocação, mas não queria perder tempo pesando consequências e atirou: “Você está muito enganado!” Não era só defesa. Era também ataque.

A conversa começou com os dois professores falando de questões estéticas. O que está escrito em banheiros masculinos será parecido com o que fica registrado nos femininos? Tipo isso. “Eu não sei, porque não frequento banheiros masculinos”, declarou a professora, tranquilamente, sem imaginar o ataque que viria em seguida: “Ah, mas vai dizer que você nunca entrou em um?”. Era uma provocação, claro. E talvez entregasse que havia, ou que tivesse havido, entre eles, mais do que uma relação cordial.

Cada um bebeu um gole de cachaça, a bebida disponível, ali, por perto, em copinhos minúsculos e com detalhes que permitiam identificar o que era de quem. Copinhos que pareciam dizer: cuide do que é seu, não do que é dos outros. E era como se Doce e Salgado precisassem também de marcas mais visíveis, para que pudessem entender quem era de quem. Ou melhor: que ninguém era de ninguém. Ver duas pessoas discutindo por uma coisa e perceber que, na verdade, há outros pontos em jogo, é divertido. Pode ser assustador, mas, ali, estava divertido. Ainda bem que existe cachaça.

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@monteiro4852 #120

“Não tá fácil pra ninguém?” É isso que você tem pra me dizer?

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Última chamada

As coisas na igreja andavam mornas. E em casa o termômetro de Didi costumava ficar longe daquela área vermelha — a da quentura extrema — que a gente via nos desenhos animados de antigamente. Bota longe nisso. Tinha uma barraca de cachorro-quente, em frente à vila. Aterrissava ali, naquele projeto de bênção e riqueza, após a jornada como faxineira com um uniforme que a invisibilizava. Gostava da palavra “aterrissar”, ela; porque fantasiava o glamour de frequentar o aeroporto e desfilar com mala de rodinha. Sonhava com o alto da pirâmide. Não era à toa que lua após lua enfrentava o trinômio igreja-faxina-salsicha. Quando falava “aterrissar”, e sempre dava um jeito de fazer isso, chegava a sentir nas mãos o amendoinzinho que daria para as crianças, como se em vez de “ganhar no voo” ela tivesse lembrado de comprar aquilo. Queria o prazer dos deslizes, das culpinhas da classe média alta. Talvez também por esse motivo aceitasse os bombons do Manga.

Ou “Velho Manga”, como dizia sua mãe. A coroa era a única que a chamava de “Edil” e parecia fazer isso de zoação. Da mesma forma que praticava co’o Manga ao acrescentar o “Velho”. Didi não aceitava o jeito como a mãe se referia a ela. Mas engolia. No caso dos doces do Manga, pegava mas… Não comia. Nem dava para as crianças. Porque todo mundo sabe que no avião não distribuem bombons. E por não acreditar nas boas intenções do vizinho. Temia algum feitiço, ali naquele mimo. Era uma situação que ela considerava engraçada, até. O cara tinha uma mania que a deixava preocupada/intrigada: dava os doces e no dia seguinte perguntava: “E aí, ficou tudo bem? O bombom não fez mal, não, né?” A primeira vez em que aceitou, lembrava bem: tinha recebido uma ligação da Legião da Boa Vontade e a Valéria, com quem ela se desculpou por não poder fazer qualquer doação, após alguns minutos de papo, plantou em Didi uma semente de adivinha o quê. De boa vontade, caramba! Aquela coisa de LBV parecia um sinal. E isso deu ao safado da vizinhança a chance de ver seu bombom trocando de mãos.

Uma: “Mas o Manga é muito amigo daquelas mulheres ali de cima.” Duas: “O Manga, todo mundo comenta, tem aquele foguinho; é um velho foguento.” Três: “O Manga finge que é santo, mas de santo não tem nada.” Quatro: “Isso só pode ser coisa daquelas rameiras lá de cima, que ficam de olho no Tuta. É flecha!” Ela engatilhava esta série de frases e sempre empacava na última. Porque Tuta era seu marido. Era um dos responsáveis pela baixa temperatura na vida de Didi. Mas era marido. “Meu marido, caramba!” era às vezes a quinta frase da série. Tuta fazia Didi ter vontade de xingar. “Caramba”, pra ela, já era palavrão. “Se não pode falar na igreja, é palavrão”, apontava, sem ter certeza sobre isso ser mesmo uma regra no templo. Manga, por sua vez, alimentava na moça uma certa desconfiança., diferente dum convite ao xingamento. Às vezes, fazia rapidamente uma comparação, sem perceber que estava calculando: achava que quando escalasse a pirâmide seria mais fácil conviver com alguém como o Manga do que com um tipo como o Tuta.

“Tuta” lhe parecia um apelido esquisito. Não entendia por que a mãe não acrescentava/mudava nada ali naquela alcunha. Não decifrava também por que a velha ficava do lado do cara, quando surgia alguma pendenga. A última tinha sido quando ele, no encontro natalino do ano anterior, disse que daria de presente a todos ali uma prova da sua importância. Isso numa festa em que não havia álcool, hein! Contou então que o pessoal lá da parte de cima da rua estava pensando em abrir uma lanchonete, na esquina, e o lugar seria chamado de “Tuta Lanches”. Didi arriscou xingar: “Caramba!” Mas só conseguiu fazer isso uma vez porque a mãe ordenou: “Deixe o homem falar!” E ele continuou, explicando que aquilo aconteceria porque “Tuta é um apelido que traz sorte.” O projeto seguiria sem autorização do dono da “marca”, primeiro, porque ninguém havia pedido autorização; segundo, porque ele também se declarava generoso.

Uma nova série de sentenças havia se formado, depois daquela passagem da porcaria do Papai Noel. Uma: “Por que o negócio ia se chamar ‘Tuta Lanches’ se todo mundo sabe que nessa história quem dá duro sou eu?” Duas: “O Tuta acha que é só ir no Ceasa sábado pra comprar queijo e fica tudo certo?” Três: “Tem que encostar o umbigo ali, na chapa, cortar todo dia a cebola pro molho do cachorro-quente, tá?” Antes da quarta, Didi foi interrompida por um garoto que de súbito soltou uma que fez a mulher sorrir: “Didi, Didi, vou embarcar num podrão. Dá um cachorro-daqueles-com-tudo.” Ela gostou particularmente do “Vou embarcar”, claro. Chegou quase a sentir o trepidar das rodinhas de uma mala, e pensou em oferecer o lanche de presente para o moleque. Era assim que pretendia subir na vida. Com gentileza. “Sem o Tuta, caramba!”, disse, ruborizando em seguida e sem coragem para levantar a cabeça e descobrir se haveria alguma reação na cara do jovem cliente. Decidiu não cobrar pela iguaria, como que para de desculpar por causa do palavrão. O garoto não entendeu, mas aceitou o presente. Se naquele instante chegasse o Manga, ela pensou, talvez aceitasse um bombom. E talvez também desse de troco um sorriso diferente. Se pá, era hora de embarcar.

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Colagem / Pregação #2

O dia, ah, mais um dia. Tinha alguma coisa estranha/diferente já na aula de natação da menina. E que sonhos foram aqueles? Boias que prometiam se esvaziar, uma insegurança anunciada. Um amigo da onça com o sorriso de sempre, mas ao menos desta vez com um brilho que era de falsidade evidente. Jogos de palavras com cães — estes sim jesusmente fiéis — como se não restasse humanidade em que se pudesse conseguir apoio. Os medos de sempre: em vez de trigo, o joio. Mas um pão de mel no sábado pode salvar tudo.

Mosquito se tivesse tutano não picava gente. Era preciso uma boa partida de xadrez. Tinha que achar diversão, novamente. Um bom drible, uma letra com rima elegante, um pedido de aplauso que não fosse só coisa de marqueteiro insolente. Estava cheio de gente encapada de séria mas com raiz desrespeitosa. Chocolate bom é o mais amargo, minha gente. Pão de mel com recheio de laranja, incluindo raspas da casca, ah, que coisa boa. É de mais doce que a humanidade precisa. Quer dizer, a humanidade não tem mais jeito, mas a gente que ainda acredita em alguma poesia precisa de doce.

Naquela cachoeira de palavrinhas, diminutivo às vezes vinha pra fazer a coisa ficar quente. Não era provocação. Era somentemente necessidade de calcular. Chuveiro de onde sai fumaça, afinal, não pode ser boa coisa: não é brincadeira que garanta saúde, então, quanto mais que haverá sobrevivente. E como saúde de morto não serve pra muita coisa…

As pequenas sereias devem ter tido sonhos mais amenos, parecem não se importar com o que há na cabeça dos que estão fora d’água. Erradas, não estão. Batem os pés e gritam “Sai da frente!”. Não precisam de pão de mel, nesta idade. Mas não custa nada adoçar a vida de quem ainda está no início do jogo, porque vai que isso faz diferença lá na frente. Para quem ainda vai nascer, uma dose de doce na/para a mãe também é indicada. A estrada perfeita do amor, como no samba.

Dar as costas para aquilo tudo. Parecia ser a solução. Dar as costas para aquilo tudo. Dar de ombros para o mundo. E esperar por novas acusações. Seria mais tranquilo, então. Tinha aprendido a respirar fundo. Um terceiro pão de mel não faz mal a ninguém.

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A gente que desenha

Há diferentes maneiras de “encarar” o desenho. Desde “uma possibilidade de profunda elaboração” até “um simples hobby”, passando por “terapia ocupacional” e “exercício libertador”. Um sujeito ali da outra rua dizia que não apanhava dos playboys da Barra, nos anos 80, conhecidos de escola, porque sabia desenhar. Quer dizer, estamos falando de uma prática capaz ainda de pesar nas questões de segurança e integridade física. Que coisa, né?

Quando se insere a figura de um(a) modelo, um ser humano que fará pose para ser observado e transportado para uma folha de papel, a coisa é capaz de avançar um degrau na escala da complexidade. No mínimo, porque envolve uma pessoa a mais, além daquele(a) que segura o lápis.

Nos mergulhos que os detentores dos lápis (ou bastões de carvão, gizes etc) damos, nunca sabemos o que vamos encontrar. Um esboço vai nascendo, mas terminará como? É parte da “graça” do desenho. Claro que se pode apostar num resultado fotográfico, fruto de uma técnica que exigiu anos de prática e — como negar? — ao menos algum talento. Mas a imagem que surgirá numa folha, após a observação de alguém que está ali para ganhar um “retrato”, pode oferecer detalhes que nascem de grandes, digamos, subjetividades.

O desenhista algo atento pode ser capaz de ver “além”. Pode? Deve? E se pá de “sentir além”. Ah, e ainda isso? Há mestres desta arte/prática que defendem, como parte fundamental do exercício, o investimento de “bastante tempo” na “observação” — antes de serem dados os primeiros riscos.

Num encontro entre pessoas que seguram o lápis e uma outra que tira a roupa para ser observada, todos experimentamos uma certa tensão. Tensão mesmo, mas que dá pra chamar às vezes de “tesão” (sem conotação sexual). X modelx reclamou sutilmente do pé que estava doendo e, a partir daquilo, houve quem enxergasse dor nas poses que vieram. Comentou sobre o cansaço e pode contar que os observadores ali enxergaram/experimentaram “uma verdadeira exaustão”. A gente que desenha observa não apenas com os olhos. A gente que desenha faz mais do que rabiscos. A gente que desenha às vezes sofre para desenhar.

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Ressignifica que eu gamo

Todo esse papo de ressignificação e, na banca, para mais uma confirmação, jornais para… para quem quer manter a rua limpa. Pro classe-mediano-responsa-e-revolucionário, pra esse cara fazer bonito e tirar dali o cocô lindamente liberado pelo cachorrinho. Assusta um pouco que haja gente que largue porcaria no caminho dos outros? Sim, ainda. Ainda há. Mas beliscão maior nesta era ressignificativa é ver um pacote de jornais, embalados em saco plástico, para serem usados meio que como papel higiênico. Sempre se falou de como o noticiário impresso naquelas folhas enormes quase que invariavelmente será/seria usado, no dia seguinte, numa feira, como embrulho de peixe, mas… Abrigar cocô de cachorro é o fundo do poço.

O bêbado aqui da calçada também estava querendo dar uma nova perspectiva para sua ressaca. Chamou a desagradabilíssima de “momento do beijinho”. Ele tratou de se explicar, vendo-se diante de caras/máscaras muito inquisidoras: “É que a receita pra curar esse bagulho, no dia seguinte, é fazer um suco com frutas vermelhas e batizar co’um beijinho de vodca, antes de bater…” A pergunta seguinte poderia ser a respeito das frutas vermelhas ele gostava de usar. Mas quiseram saber a marca do destilado que ele adicionava, como se a garantia do milagre estivesse ali.

Lugar bom pra ressignificação é mesmo balcão de bar. Ou mesa de bar. Ou a calçada em frente a um bar. Neste inferno que é o Rio de Janeiro, nem sobre a temperatura da cerveja o pessoal se entende. Já sabemos, porque estavam dizendo outro dia, aqui em frente, que usar a expressão “canela de pedreiro” nos dias de hoje não pega bem. Por enquanto, você ainda pode dizer que a garrafa está “mofada”. Por enquanto. Até aí, ok. Mas voltando ao inferno que é o Rio, no que diz respeito ao calor, uma regra básica deveria ser ver as garrafas sendo servidas no modo “estupidamente gelada”. Aí, se o cara está bebendo uma artesanal ou algo assim, se para ele é importante saborear a bebida numa temperatura mais “alta”, beleza: espera um pouco e esta temperatura será alcançada. A grande maioria das pessoas quer a “mofada”. E não vão ressignificar esta preferência. Não aqui no Inferno.

E aí surge outro problema: acreditam que o “mofo” vai durar para sempre. Acreditam no caô da “camisinha”. É, “camisinha”, aquela capinha para proteger a garrafa e o precioso líquido, com a promessa de que vai manter a temperatura. Nenhuma temperatura aqui no Inferno, que parece o Rio, pode ser mantida razoavelmente baixa/refrescante por mais de alguns segundos. Aí, o guerreiro da luz ressignificante pede uma gelada e, depois do primeiro copo, vai e reclama da temperatura da ampola. Na era da ressignificação, pilotar um balcão requer mais do que sintonia. Precisa mesmo é da boa e velha paciência.

Também se fala muito dos novos contratos entre namorades. Entre os mais cascudes, há quem aponte aí não uma simples ressignificação, mas, sim, uma ressignifornicação. “Eu quero ser livre”, diz um. “Marquei de ficar contigo mas vou aproveitar o carnaval para viajar pra um lugar lindo que descobri com amigues…”, desculpa-se outrem. Aí, é quase uma dupla mudança de significado, porque este ano, oficialmente, o carnaval não ia existir mas no fim das contas será dobrado: então, tudo o que acontecer neste período, ao pé da letra oficial, poderá ser tomado como pura ilusão. Para o bem ou para o mal, dependendo do significado que apesar de não valer para nada pode continuar marcando a alma de muita gente por aí.