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Cliques

Passava pelo Dorminhoco, tirava uma foto. Ele “pedia”. Às vezes, era um movimento que chamava a atenção de quem estava perto. Mas nunca deve ter parecido invasão de privacidade. Jamais houve uma reprimenda e, com o tempo, o “fotógrafo” foi sentindo-se mais à vontade para investir nos registros. Tinha se acostumado a chamar daquele jeito um senhor que parecia ganhar a vida como guardador de carros, ali perto daquela padaria na Ministro Lira. Quase sempre calçava chinelos de couro, ele. Havaianas, nunca. Durante muito tempo, exibiu uma certa dignidade: roupas limpas, barba sempre bem feita. Era comum vê-lo mais dormindo do que acordado, mas invariavelmente com sacolas de mercado penduradas num dos braços. Vazias, sempre.

Tinha se tornado um exercício regular, aquela história de chegar perto e registrar o sono daquela pessoa. Era um sono despreocupado, o dele. Ou parecia ser. Mesmo enquanto dormia, dava a impressão de estar tomando conta ali do pedaço. Fechava os olhos, mas demonstrava autoridade. Falando assim, é difícil alguém acreditar. Assim como era um desafio entender de que maneira um cochilo podia ser aproveitado nas posturas que aquele senhor assumia/exibia. Mas era prazerosamente esparramado nas cadeiras que ele comandava as coisas. Depois, a cadeira foi substituída por um banco. Pra que encosto, né?

As capturas com o celular variavam na medida em que o Dorminhoco se mostrava em mergulhos diferentes. Mergulhos de/no sono. Houve uma vez em que o lugar escolhido por ele para encostar-se foi a porta de acesso a uma escada que levava ao segundo andar do prédio colado à banca de jornal. Funcionavam lá em cima um restaurante japonês e uma sinuca. O japonês era conhecido por ser o mais barato da região. A sinuca, pelas mesas grandes lindonas e por ter apenas cerveja e nenhum petisco disponível. Mas, para o fotógrafo, vamos chamar o cara de fotógrafo mesmo, para ele, bem, o importante era aqueles estabelecimentos estarem no caminho/quadrado do Dorminhoco. Tinha mesmo desenvolvido alguma relação com aquele personagem.

Planejava abordá-lo. Achava ter ouvido alguém na padaria chamá-lo de “Sapão”. Achou pouco respeitoso, o apelido. Não gostou. Preferiu ficar com “Dorminhoco” mesmo. Ainda mais que não tinha revelado a alcunha a ninguém. Chamava-o daquele jeito mas só fazia isso quando falava consigo mesmo. “Então, tudo bem. E ele pede…”

Certa vez, com uma metideza de artista, o homem-do-smartphone ficou na dúvida se deveria ou não aproximar-se bem do “alvo”. E resolveu ir. Teve a impressão de que sua chegada havia sido notada. Os olhos daquele homem pareceram se abrir um tantinho. Nunca soube se aquela velocíssima encarada aconteceu ou não mas, depois daquela noite, ficou pensando: “Caramba, ele tá ligado no que eu tô fazendo…” Naquela ocasião, o Dorminhoco estava meio torto sobre um caixote que fazia a gente se perguntar como é que alguém conseguia se equilibrar ali para dormir. Parecia não haver espaço para alguém sentar-se, quanto mais para dormir.

O tempo passa, dessa maneira que um dia todo mundo percebe que é mesmo assim como parece/anunciam. Superveloz. Sabe? Numa tarde, estava lá um jovem, com traços muito parecidos com os do Dorminhoco. Será que ia ocupar o lugar do pai? Será que era o filho ou um dos filhos? Dias depois, aparece de novo o Dorminhoco, sem uma perna, e com roupas já não tão limpas. Os diálogos que nunca existiram, sempre foram necessários, mas nunca existiram, pareceram então ser impossíveis. Houve uma breve troca de olhares. Havia dor, sim. Mas existia também calma. Nenhuma foto. Assim como não havia mais perna, parecia não haver mais sono.

Depois que as imagens foram organizadas no que se podia chamar até de uma série, o fotógrafo pensou em imprimir tudo. Mais: talvez aquilo pudesse render algum dinheiro para o personagem. O Dorminhoco ia gostar de saber. Mas de repente tudo mudou, no cenário. A banca de jornal foi substituída por uma maior. Dessas com vidro e aparelho de ar-condicionado. O japonês e a sinuca fecharam as portas. O que se vê lá hoje são placas com números de telefone, para quem estiver interessado nos imóveis. O Dorminhoco tinha sumido, assim como sua perna fizera antes. O rapaz sentiu um certo alívio, por nunca ter mostrado as imagens a ninguém. Desejou que seu amigo estivesse numa cama confortável. Teve medo de perder o sono. Sentiu-se com sorte por isso não ter acontecido.

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O cidadão 125 cilindradas

Estava num post, pra todo mundo ver: a história de um entregador que, feito o serviço, estendeu para o cliente uma nota de dez pratas dizendo “Olha, por favor, fica com isso aqui e me dá o mesmo valor em gorjeta lá pelo aplicativo, porque, quando mais gorjeta eu tiver, mais me chamam pra outras entregas”.  Não estava escrito lá se a proposta havia sido ou não aceita. Entregadores tomaram mesmo conta dos nossos corações e mentes.

“Coxinha” é uma palavra que parece ter ficado no passado. Mas é tão fofa que vamos resgatá-la. Aqui, agora, ó… O coxinha-padrão, que enxerga nos rapazes de moto ou de bicicleta do Itaú exemplos de força de vontade, de boa índole e de empreendedorismo, deve aplaudir a proposta do rapaz… Afinal, ele está tentando garantir o seu. O que deixa um classe-mediano-coxinha mais feliz do que um “pobre esforçado”? Eles têm convicção de que “é por aí mesmo”. Se for um pobre que freqüenta a igreja, então, aí não há felicidade maior.

O esquerdopata… O esquerdopata fala algo sobre isso? Ou o mortadela (outro resgate semântico) está até agora pensando o que é mais OK: “Pedir comida pelo telefone ou pelo aplicativo”? O esquerdista-raiz gasta seu tempo não comendo, mas mergulhado na digestão dos possíveis desdobramentos de uma “greve ‘séria’ de entregadores”. Antes, sonhava com a organização do proletariado, agora, pós-pandemia, não lhe sai da cabeça uma paralisação/conscientização do motocariado.

Enquanto uns fazem greve, outros fazem pedidos. E há ainda os que se viram. Como é que os arautos pregadores da resiliência ainda não recorreram ao exemplo dos motoboys para suas palestras online? O pessoal do Tarot, também muito na ativa, nos dias de hoje, já podia pensar em adicionar uma carta ao deck: O Entregador. E os compositores? Teve aniversário do Chico Buarque, estes dias, né? Daqui a pouco, surge um hit com algo do tipo “Você não pede nada pra mim, mas sua filha…”

Uma avalanche de possibilidades, né, minha filha? Muito mais desdobramentos do que imaginava o rapaz que fez a proposta de trocar dinheiro vivo por gorjeta virtual. Seguindo assim, a gente daqui a pouco vê surgir um Partido dos Entregadores. E aí já dá pra antecipar um futuro em que a grande discussão será se a culpa por tudo isso que está aí é ou não desse desgraçado desse PE.

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É, camará…

“Nem tudo que reluz é ouro… Nem tudo que balança cai…”, diz um corrido de Capoeira. Isso parece retratar bem nosso momento político, nos fazendo pensar que estamos em meio a um grande, grande jogo, né? Todo mundo achava que estava acontecendo uma coisa, mas, na verdade, é bem outra que se revela co’o andar da carruagem: é o que está implícito nas estrofes que abrem este texto. “Corridos” são os versos cantados por quem está, digamos, no comando da roda. E estes versos são respondidos pelos que integram o grupo e, não raramente, por quem está assistindo ao espetáculo. As respostas formam um coro. Talvez o corrido mais conhecido seja o “Paranaê…” Todo mundo sabe a resposta e isso ajuda muito a animar o jogo. O coro fica bonito.

Dependendo da escola, há às vezes gente batendo palmas; para com isso contribuir com o ritmo. Na Capoeira, a música pode funcionar como uma espécie de crônica: fala sobre o que está acontecendo, ali, no momento. Noutras ocasiões, é a música quem imprime/dita uma cadência, faz certos movimentos se desenvolverem ou, no mínimo, inspira isso. Uma canção superpode tornar mais rápidos e consequentemente mais agressivos os movimentos dos jogadores.

Assim… Se um participante leva uma rasteira, o puxador pode mudar rapidamente o canto e soltar um “Meu facão cortou em baixo, eu falei…” E todo mundo vai/deve responder: “A bananeira caiu!” Está aí um bom exemplo de “crônica”. Ou, por outro lado, se o mestre responsável num determinado instante avalia que o clima está morno demais, tem o “direito” de provocar, cantando algo como “Olha, rala o coco…” E a resposta para isso será: “Catarina!” Com a repetição de “Catarina!…”, de forma constante e mais acelerada do que vinha acontecendo até então no coro, é certo que os movimentos ficarão mais acalorados. No mínimo, mais animados/quentes.

Há outros tipos de música, nos rituais capoeirísticos. A Ladainha, que abre os trabalhos, é uma das mais importantes. Além de contar uma história, de muitas vezes fazer alusões, por exemplo, ao passado da vida dos negros escravos, a Ladainha pode conter provocações. Agachado, de frente para o oponente, um jogador pode puxar uma música que soe como afronta. E isso pode ser o prenúncio de uma movimentação particularmente ardilosa, com o intuito de desconcentrar/desnortear o “oponente”.

Co’essa história do confinamento, não se vê roda de Capoeira pela cidade. As pessoas já estão andando pela orla, enchendo bares, deixando máscaras de lado, mas roda de Capoeira — graças a Deus — ainda não anda rolando, o que talvez comprove que capoeirista é mesmo malandro(a). Malandro(a), no bom sentindo, sim. A “malandragem”, aliás, é um dos temas musicais mais recorrentes, nestas reuniões de praticantes da grande arte/luta que tem como referências mais famosas os mestres baianos Pastinha e Bimba.

Um corrido que nos faz pensar na situação política que a gente vive pode ser um convite para que mergulhemos noutros ensinamentos da Capoeira. Ficar bem atento ao que está acontecendo, no jogo, por exemplo. Isso é uma regra básica, que serve para a vida como um todo. Vai que na hora daquele bocejo despreocupado vem um pé na orelha… Na orelha de quem estava só assistindo ao jogo. Cabe a nós identificar o sujeito que, pela postura, ou por uma orquestração enganosa, sugere que é capaz de fazer e acontecer, mas… Mas em cinco segundos mostra que ginga feito um siri com câimbra. Atenção, camará! Atenção para o jogo em que te puseram. Atenção pra não responder errado na hora do coro, hein!

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Bocas e suas orientações políticas

Outro dia, numa pesquisa de Twitter, uma jornalista usou a linha do tempo para tocar uma pauta: “Quantas pessoas de esquerda estão com empregada em casa na pandemia?” Era provavelmente uma pesquisa para achar personagens para uma matéria. Mas um detalhe — o “de esquerda” — chamou a atenção de gente que noutra esquina da rede mundial de computadores discutia os “50 tons de esquerda”. Era um grupo de lero às vezes bem-humorado, batizado a partir do nome daquele filme de 2015. Uma galera também muito “atenta”, do tipo que está em casa agora durante o isolamento, porque pode. Gente capaz de pescar a pesquisa da repórter para rechear suas argumentações, contra e a favor de qualquer coisa.

Para você ter uma ideia do que rolava: ali, naquela aglomeração internética, e portanto atualmente permitida, era possível ler coisas como “se é de esquerda, não tem como ser machista”. Questão que, como resposta, TODAS dadas por mulheres, além de uma ameaça de tapa na cara gerou a única unanimidade daquela tarde: a conclusão de que estavam diante de um “esquerdomacho”. A ameaça de esbofeteamento, caso venha mesmo a acontecer, só após o período de isolamento. A conferir.

Quanta variedade, nestas discussões de grupos de mensagens! É. Parecia feira. Dá pra imaginar pessoas de jaleco, sacudindo moedas nos bolsos como se fossem chocalhos e oferecendo seus produtos, quase esfregando na cara da dona que passa com o carrinho aquele caqui da promoção. “Experimenta, experimenta aqui!” Ofertas que às vezes soavam como ameaças. Houve quem aparecesse para dizer que não acreditava mais em Esquerda. O “consolo” é que não acreditava também em Direita, o que para ambos os lados pareceu ainda pior.

Estavam ligados pelo desconforto. Sim, parecia que no debate eram todos esquerdopatas, mas falar dos tons quase colocava alguém do/de outro lado. Mesmo num grupo em que os membros se identificavam pelas ideias em comum, havia diferenças. E aí… havia lados diferentes. Pra não dizer opostos. O que pra muitos significava “Direita”. A conferir, também — aí, provavelmente, só nas próximas eleições. Quando e se surgir o papo de “voto útil”, isso poderá ajudar muito.

“Eu nunca tive dúvidas de que você era a Esquerda da Direita. Ou a Direita da Esquerda”, dizia um playboy, tentando ser simpático. Sim, havia playbas na conversa. E eles se comportavam até bem. Talvez estivessem medrosos, o que fazia deles pelo menos temporariamente “playbas razoáveis”. E, às vezes, dava para ser simpático. Talvez porque estivessem todos neste “momento água”, vendo no Youtube (e indicando) vídeos sobre resiliência. Com certeza, cansados de estar em casa por tanto tempo. Vale repetir: sim, eram do tipo de gente que anda podendo ficar entre quatro paredes, lidando com a culpa, em muitos casos, e, noutros, rezando para o achatamento da Curva.

Eram bons de explicações, os envolvidos. E faziam questão de pormenorizar as coisas, às vezes distanciando-se da discussão que parecia ser mais importante num determinado momento. Apelaram muito para o futebol, apontando que, “historicamente”, entre os que amam o jogo de bola, “os times trabalham pela destruição do adversário, muitas vezes, mais do que para o sucesso da própria agremiação.” Foi um dos poucos momentos de consenso, naquelas horas quentes.

Podia parecer um pouco estranho a exemplificação não ir para o mundo das cervejas, depois de passar pelo futebol. Talvez porque não haja muita familiaridade co’o rótulo Esquerda-Loura-Gelada. Por outro lado, ali naquelas intermináveis mensagens sobre “50 tons de esquerda”, foi quase consenso que “esquerda nutella” anda sendo um troço difícil de sustentar porque o pote de 650 gramas dessa parada está saindo por 40 moedas num supermercado da Zona Sul do Rio. “E não pode ser um pote menor?”, perguntou um conciliador esperançoso, porque entre esquerdopatas há conciliadores, sim. Depois, teve que engolir, sem cacau com avelã, que “precisa ser da grande, sim, porque a gente não quer socializar pobreza, a gente quer dividir riqueza”.

É importante manter o bom humor nas discussões. Ou, então, o cara pira. Seja de que lado estiver. A grande lição foi que, se é do tipo que anda recebendo diarista em casa, o negócio é manter a boca fechada. Seja qual for a orientação política da boca.

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Sabe a Bruna?

Janela perto da rua, em época assim de isolamento, é uma beleza. Você pode ficar fechado e sentindo a vibe da calçada. Tem o cara que varre alguma área bem cedinho. Tem o porteiro do prédio em frente e suas teorias sobre… ah, só bobagem. Tem a dona do cachorro, com voz de quem tem mais de 80, verdadeira especialista em reclamar de alguém que se chama Bruna. É fácil você de ouvinte transformar-se em “cúmplice”. Três manhãs seguidas ouvindo a mesma ladainha e dá até para se perguntar: será que ela está falando mesmo pelo celular ou está querendo ser ouvida, sabe que está sendo ouvida? Quatro manhãs ouvindo que Bruna “é mó muquirana, não sabe reconhecer o que fazem por ela” e já dá pra concordar que se trata de uma grande vacilona.

Às vezes, abrir a janela se apresenta como uma alternativa. Mas fica só nisso, numa possibilidade. Isolamento é isolamento. Alguém tem que respeitar. E vai que o cálculo é mal feito e a inimiga, quer dizer, conhecida da Bruna ainda está ali, esperando o cachorro fazer número dois, porque o bicho pode ser daqueles que demoram, e você dá de cara com ela. O que esperar de uma breve troca de olhares? Será uma conexão carregada de cumplicidade? Ou de desconfiança? A dona vai perceber que você está ali há dias acompanhando aquele desenrolo? Com quem será que ela tanto fala sobre a Bruna? E, hm, como será a Bruna, fisicamente, hein?

Assim, perto de onde passam os carros, fica possível também rever uns episódios do passado das nossas vidas. Nunca há silêncio. Nem à noite. É sempre uma avalabche de informações. Pode-se perceber as construções daquilo que, nas próximas pandemias, daqui a uns 30, 40 anos, será o passado da molecada de hoje: o carro que passa oferecendo “ovos fresquinho”, o outro que promete recolher qualquer tralha de metal que esteja ocupando desnecessariamente espaço em casa: ar-condicionado, máquina de lavar, sucata de alumínio… O vendedor de pamonha deve ter sido contaminado pelo vírus. Que se recupere logo. Será que esse pessoal passa na rua da Bruna?

Os barulhos das campainhas ganham outra dimensão, quando você está em casa, concentrado em alguma tarefa muito importante para fazer o tempo passar, na esperança de afastar a preocupação com o dinheiro que está acabando. O porteiro-eletrônico, que se mistura com os de carne-e-osso de antigamente, e a vizinhança mais silenciosa são capazes de fazer a gente se perguntar: o que essa pessoa do 203 aí de frente tanto compra online, hein? E a Bruna, será que tem cascalho para gastar assim de bobeira, nestes tempos bicudos?

Este grande espetáculo oferecido a quem está disposto a prestar um pouco de atenção aos ruídos que preenchem esse mundão de meu Deus servem também de pulga. Pulga atrás da orelha. Se você está ouvindo geral, geral também está te ouvindo. Cuidado com os sons que produz. Defenda-se da fofoca old-school, aquela que mesmo em tempos de isolamento pode surgir numa calçada, numa fila de banco; é capaz de vir nas conversas telefônicas de alguém sem nome mas com língua afiada, conversando pelo celular, cedinho, em frente a uma jalena silenciosa. Viu, Bruna?