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Bart, Lisa e você aí

Tem um episódio (bem antigo) de “Os Simpsons” que é maravilhoso. A Lisa pergunta mais ou menos assim ao Bart: “Se uma árvore cai, no meio da floresta… isso fez barulho?” O pequeno capeta responde e ela ensina que, tipo, aquilo é uma questão filosófica, é uma frase/pergunta que permeia nossas vidas há séculos e “não tem uma resposta definitiva”. Para o pequeno garoto amarelo, parece ter resposta, sim. Talvez ele viva uma vida mais confortável que a da irmã. Que não é exatamente um anjo, mas está do lado oposto ao de Bart. O lado de quem “sofre”, talvez.

Seres humanos têm a sorte de poder contar com frases, filmes, livros que são capazes de tornar melhores as suas vidas. Não, não precisa ser livro daquele tipo lindamente (des)organizado, como os que aparecem atrás de muita gente que faz live. Ah, sim, hoje em dia, há também as lives no Instagram; mas isso é outra parada. Boas histórias e bons roteiros deixam a gente com um sorriso de satisfação e, se não chegam a ser um ensinamento, são vá lá um quase-ensinamento. O que já é muita coisa. Nesse sentido, “Los Angeles – Cidade proibida” (“L.A. confidential”, de 1997) merece ser citado. Uma frase muda o filme, explica ligações, provoca um “estalo” no mocinho. É, tem uma espécie de herói, mas dá pra perdoar isso em nome de um bom insight/script.

Na sequência, você pode ficar se perguntando que frases está deixando de entender, quais crimes foi incapaz de perceber, quantos lobos continuam ali do lado disfarçados. Não porque você é louco. Mas porque lobos, no sentido “mau cidadão, sujeito escroto” da palavra, existem. Estão nas reuniões de condomínio, nos agrupamentos de WhatsApp. Ah, nos grupos de WhatsApp, então, nem se fala. E é muito difícil enxotá-los.

Passamos horas e horas, mensagens e mensagens, esperando que se contradigam. Percebemos a astúcia e constatamos péssimas intenções em falas aparentemente cheias de boa vontade. Temos certeza de que planos horríveis estão em andamento e levarão todo o grupo a uma grande armadilha. O tempo passa, o candidato a herói continua sofrendo e aquela frase cinematográfica não vem. Não vem nem em hora errada, quanto mais no momento certo.

Aí, o que pode ser ainda pior, surge a desconfiança de que mesmo se surgir a frase não há plateia suficiente acompanhando com atenção a história para entender a grande revelação. Surgem dúvidas sobre o combustível gasto só para manter atenção nos enredos que nos cercam, na tentativa de sobreviver aos lobos, às árvores que caem na floresta, ao preço do milk shake ou da cerveja (que não para de subir). Nessa hora, muita gente pode sentir inveja do Bart Simpson. E com certa razão.

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Lua a(i)nda minguante

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Boa semana!

Tão especial quanto o amigo que te manda Slayer… é o outro que envia Replicantes. Uma semana punk rock, no bom sentido, pra geral. Com muito amor:

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Sabe a Bruna?

Janela perto da rua, em época assim de isolamento, é uma beleza. Você pode ficar fechado e sentindo a vibe da calçada. Tem o cara que varre alguma área bem cedinho. Tem o porteiro do prédio em frente e suas teorias sobre… ah, só bobagem. Tem a dona do cachorro, com voz de quem tem mais de 80, verdadeira especialista em reclamar de alguém que se chama Bruna. É fácil você de ouvinte transformar-se em “cúmplice”. Três manhãs seguidas ouvindo a mesma ladainha e dá até para se perguntar: será que ela está falando mesmo pelo celular ou está querendo ser ouvida, sabe que está sendo ouvida? Quatro manhãs ouvindo que Bruna “é mó muquirana, não sabe reconhecer o que fazem por ela” e já dá pra concordar que se trata de uma grande vacilona.

Às vezes, abrir a janela se apresenta como uma alternativa. Mas fica só nisso, numa possibilidade. Isolamento é isolamento. Alguém tem que respeitar. E vai que o cálculo é mal feito e a inimiga, quer dizer, conhecida da Bruna ainda está ali, esperando o cachorro fazer número dois, porque o bicho pode ser daqueles que demoram, e você dá de cara com ela. O que esperar de uma breve troca de olhares? Será uma conexão carregada de cumplicidade? Ou de desconfiança? A dona vai perceber que você está ali há dias acompanhando aquele desenrolo? Com quem será que ela tanto fala sobre a Bruna? E, hm, como será a Bruna, fisicamente, hein?

Assim, perto de onde passam os carros, fica possível também rever uns episódios do passado das nossas vidas. Nunca há silêncio. Nem à noite. É sempre uma avalabche de informações. Pode-se perceber as construções daquilo que, nas próximas pandemias, daqui a uns 30, 40 anos, será o passado da molecada de hoje: o carro que passa oferecendo “ovos fresquinho”, o outro que promete recolher qualquer tralha de metal que esteja ocupando desnecessariamente espaço em casa: ar-condicionado, máquina de lavar, sucata de alumínio… O vendedor de pamonha deve ter sido contaminado pelo vírus. Que se recupere logo. Será que esse pessoal passa na rua da Bruna?

Os barulhos das campainhas ganham outra dimensão, quando você está em casa, concentrado em alguma tarefa muito importante para fazer o tempo passar, na esperança de afastar a preocupação com o dinheiro que está acabando. O porteiro-eletrônico, que se mistura com os de carne-e-osso de antigamente, e a vizinhança mais silenciosa são capazes de fazer a gente se perguntar: o que essa pessoa do 203 aí de frente tanto compra online, hein? E a Bruna, será que tem cascalho para gastar assim de bobeira, nestes tempos bicudos?

Este grande espetáculo oferecido a quem está disposto a prestar um pouco de atenção aos ruídos que preenchem esse mundão de meu Deus servem também de pulga. Pulga atrás da orelha. Se você está ouvindo geral, geral também está te ouvindo. Cuidado com os sons que produz. Defenda-se da fofoca old-school, aquela que mesmo em tempos de isolamento pode surgir numa calçada, numa fila de banco; é capaz de vir nas conversas telefônicas de alguém sem nome mas com língua afiada, conversando pelo celular, cedinho, em frente a uma jalena silenciosa. Viu, Bruna?

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Segunda-feira desmascarada

Chegamos a uma época em que cenas que eram corriqueiras são capazes de nos deixar assustados. Ou pensativos. Pensativos sobre se estamos mesmo assustados ou não, no mínimo. Como um restaurante cheio, agora no início de junho.

“Não era pra todos estarem em casa? Ou nós estamos mais uma vez com a cartilha errada? Quem distribuiu as cartilhas, Isadora?”

A menina, com seus 13 anos, era o que ainda se chamava de “mocinha”. Ela olha para o avô, que não tem cara de avô mas é avô, e não entende se ele está fazendo uma piada ou não.

Com o tempo, a menina vai entender que às vezes os mais velhos não se decidem sobre fazer ou não uma piada e falam mesmo assim, como se não conseguissem prender dentro deles o sofrimento que as zoações são às vezes capazes de aliviar. Era o que estava acontecendo, ali, naquele início de junho. Culpa de maio.

“Isadora, eu sei que às vezes te confundo…”

Ela riu, abraçando o velho não mais na altura da cintura, como costumava ser, mas já bem mais no alto, e isso o deixava feliz porque ele tinha a sensação de ter feito um bom trabalho de amor: a neta o abraçava sem pensar muito, deixava essa vontade vir à tona, não tinha muito aquela coisa de adolescente, de ficar envergonhada na interação com os mais velhos.

Dentro do restaurante, dava pra ver isso, claramente, as mesas estavam quase todas ocupadas. As pessoas próximas umas das outras, todo mundo sem máscara. E outra daquelas dúvidas toma o pensamento do velho malandro, ou “ex-malandro”, como o malandro gostava de dizer.

“Se pá, as pessoas não estão com máscaras porque está na hora da comida, né? Mas… Será que elas podiam estar assim já tão juntinhas?”

E aí o susto foi outro: teve aquele medo de estar pensando como um velho, de estar apegado a preocupações pesadas demais, de andar curtindo pouco a vida, uma vida que, ele sabia, estava já pra terminar, mesmo que só falasse “ex-malandro” como piada, mas sabendo que o jogo não estava mais no início… Mas não era para pensar nisso, naquele momento. A angústia por ver na rua um monte de gente sem máscaras de proteção já era tortura suficiente. E era ainda segunda-feira. Melhor empurrar alguns sofrimentos para depois. Pelo menos alguns.

“Isadora, menina, vamos comprar uma água de coco pra gente tomar em casa?” Ela sorriu e fez que sim, celebrando a proposta com um outro abraço. Era ainda uma criança.

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Floral

Não anotou, deu mole, perdeu o verso

Num espere que volte, que meia hora já é muito

Perdeu, perdeu, playboy,

Fosse mais esperto

.

Coração que é bom, é coração bom

Coração bom, é coração batendo

Mas é tanto tum, no coração

Que quase não entendo

.

Conflito, é a última coisa que vai ter

Competição, angústia…

Outra aposta, podia não custar nada

Mas custa

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:)

É muito fofo, quando logo pela manhã na segunda-feira um amigo do segundo grau te manda um vídeo do Napalm Death. Muito fofo mesmo: cover de um clássico do Sonic Youth! Só um camarada das antigas sabe do que a gente gosta, do que a gente sente saudade. Os vídeos de mulher pelada estão mesmo em baixa, durante a pandemia. Ou essa onda toda de doença mudou de fato a cabeça das pessoas. Valeu, Macaco Louco.

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Leminskiando

Tenho uma coisa com sonho

Eu sonho

E tenho uma coisa contigo

Eu contigo

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Terça? Que nada!

Ela se ajeita como qualquer outra

Ou uma outra qualquer

Nova ferida aberta

Tem ferida, sobrando, pra quem quiser

Tanto faz, se for mais uma porta fechada

Quem não anda descalço não descobre o alívio de um calo

Seu Olímpio, tudo bem com o senhor?

Tudo bem, meu filho.

Tudo bem, minha filha.

Barbeiro assusta a gente quando demonstra muito carinho com a navalha

Que vacilão, você, hein, querendo colocar tudo embaixo da coberta

Encara de frente, na reta

Encara a treta, teu meleca

Como tem gente dedicada, eficiente, rápida

Gente boa de ser chata

Batendo na concorrência, devagar, repetidamente, sempre ensopada de marra

Como tem tralha que você não larga, acha que cataloga, finge que guarda

E no fim das contas tropeça nelas pra xingar e no flow querer dar bicada

Como tem saudade que não passa, sempre ela, até que passa e…

Caralha!

A vida segue assim como que refrescante reaberta refrigerada

Tudo mais fácil sim agora mas sai pra lá co’esse papo de que foi de mão beijada

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A máscara nossa de cada dia

Havia antes o desejo de que caíssem as máscaras. Agora, há a necessidade de que elas sejam usadas. E isso está sendo bom, porque além de proteger ela pode revelar. Claro. Novos tempos. As máscaras dizem muito sobre o sujeito. O cara ali nas Laranjeiras com aquele lenço (tomara que tenha um filtro de café por dentro da dobra) com a estampa da caveira-símbolo dos Misfits, por exemplo… E o outro, com uma amarelinha toda arrematada com detalhes azuis, no que parece ser uma alusão clara à camisa da seleção? Sim, tem máscara pra roqueiro, coxinha, hipster, esquerdopata; pra todos os gostos. Tem máscara pra proteger, pra se liberar, pra todos os propósitos.

Não é de hoje que a máscara tem espaço nas nossas fantasias. Quatro, cinco décadas atrás, no subúrbio carioca, mães mais preocupadas avisavam que não era bom ir na direção duma muvuca encapuzada. Se você visse alguém de Clóvis (ou Bate-Bola), então, nem precisava ser uma aglomeração; era bom passar longe. No carnaval, diziam, as máscaras protegiam e emprestavam salvo-conduto a criminosos, ou no mínimo baderneiros: gente que queria aproveitar o período de folia para fazer o mal, para pôr em prática algum plano de vingança.  Antes da internet, quem sempre tinha razão era a mãe.

Nos cultos afro-brasileiros, que no mínimo pela batucada trazem alguma relação com o Reinado de Momo, a máscara também merece um “capítulo” especial. Diz  que, se o macumbeiro está de máscara, será abandonado por seus protetores. Isso, os Exus — N.R.: Laroyê! — não garantem a segurança de quem esconde o rosto. Parece que há uma maneira de driblar isso, mas para quem quer a companhia destas forças protetoras a “regra” básica é não cobrir a cara.

Noutros casos, o apetrecho parece dar mais poder ao usuário. Ou à usuária. Veja a Mulher-Gato. Que chicote, o daquela moça, hein!? Então, de máscara (e, claro, de macacãozinho de couro ou vinil bem colado ao corpo, botas e tal), ela pode te pedir o que for que você, mermão, vai fazer. Ai de você se não fizer… Slapt!

Máscara virou ícone de um momento que, muita gente aposta, será de “transformação” na humanidade. Tempos atrás, podíamos achar exótico quando um japonês usava isso, por causa do pólen que, em alguns deles, provocava alergia. Era assim que conseguiam percorrer com tranquilidade vizinhanças repletas de árvores floridas.  Parecia coisa de país rico, como quase tudo que aparecia em revistas de moda.

Por falar em moda: algum tempo atrás, você parava e folheava numa banca de Ipanema uma revista inglesa sobre estilo pra ver o que copiar e, ali, podia encontrar o registro de gente “comum” usando máscara como se fosse acessório. Coisa de inglês. Hoje, quando estamos todos às voltas com a pandemia, ir ao mercado, OK, mas só se for com a devida proteção.  Pra desgosto dos “descolados”, não é só mais uma questão de sintonia com a tiração de onda dos primos ricos. Tem também a história de as máscaras darem aos homens uma chance de aproximação com o universo feminino. Por causa do que elas, ou pelo menos muitas delas, sempre protagonizaram com suas calcinhas: aquele ritual de lavar a peça durante o banho, pra deixar depois pendurada como um estandarte em algum lugar do banheiro. Homens, ou pelo menos muitos deles, não tinham essa mania com a cueca. Era colocar na máquina de lavar e pronto. Agora, com as máscaras, a gente chega da rua e, pra ser civilizado/essencialmente-não-minion, pega aquela coisinha delicada, passa um sabãozinho, com cuidado, pro troço não desmontar todo nem ficar desmilinguido, e lava com calma. Muita calma, porque é uma peça importante…