Categorias
Comportamento Conto Crônica Ctrl + C -> Ctrl + V Freudcast Literatice Sem categoria Umbigada

1990 ou O-Ano-Da-Pantera (quase, quase Boteco Connection #9)

Ela não queria apelar para as ferramentas de pesquisa na internet. Não era uma decisão fácil, esta, porque o telefone estava ali, o tempo todo. Mas mantinha-se firme, mesmo que fosse uma tentação mergulhar no protagonismo de uma daquelas sequências em que, após uns poucos segundos de concentração, arrumando os cabelos bem pretos, ela pegaria o aparelho e, com a firmeza de quem enxerga muito bem, deslizaria as unhas pintadas de vermelho cintilante pela telinha. Andava digitando com o dedo até um pouco de lado, por causa do tamanho das garras. E assim como não era exagero falar em “garras”, também não era demais falar dela como uma pantera. Mas estamos apontando alguém que pretendia voltar aos dias de “jovem felina 1990”, quando tinha 9 anos e foi, com o pai, ver um jogo de futebol na maior cidade do país. Não qualquer jogo. Mas aquele que faria com que ela trocasse de time. O que será que uma ferramenta de busca nos mostraria como dicotomia se fôssemos opor “jovem felina 1990” e “pantera 2022”?

Puxar pela memória tinha começado como uma diversão. Sempre que esbarrava com alguém que parecia entender de futebol, ela engatilhava o assunto, mencionando a conquista de um título, naquele ano, e comentando resultados. Era boa com placares históricos, o que excitava marmanjos metidos a entender de futebol. Recheava suas crônicas — porque eram mais do que memórias — falando da eleição de uma mulher nordestina para a prefeitura de São Paulo. E enchia-se de orgulho recapitulando o episódio em que, no metrô, desafiou skinheads para proteger o irmão mais novo. Enxergava bem e tinha boa memória, a pantera. E se divertia, diante de barbudos entendedores do jogo da bola, vendo-os sem resposta para questões que, ela deixava claro, trariam grande felicidade para ela. Mobilizava os caras, sem muito esforço.

Na verdade, mais do que conseguir respostas, mais do que ser capaz de organizar na cabeça um almanaque definitivo sobre aquele jogo, ela elevava, a cada menção/tentativa, um castelo de paixões — pelo time, pela vida, pelo mar, por…. Uma construção que ia ficando sempre mais e mais imponente. Depois da pandemia do início dos Anos 2020, nossa personagem parecia estar diante da necessidade de tomar uma outra grande decisão, algo que poderia ser tão transformador quanto trocar de time, e talvez por isso mais importante do que conseguir respostas definitivas eram as chances de visitar, mentalmente, os sabores de um novo horizonte.

Ela enxergava bem e pensava também muito bem. E, ao contrário do que tinha imaginado até ali, talvez fosse possível trocar de time mais de uma vez na vida. O tempo passa. Ou, como ela dizia parecendo querer desconcertar seus interlocutores: “O tempo tem o próprio tempo. É assim que se constrói intimidade.” Se um só pensamento preenche a imensidão, também com esta medida se ergue uma fortaleza, um castelo.

Pegou-se ontem começando uma conversa, numa calçada de boteco. Tinha testemunhas, gente que já a tinha visto armar aquela arapuca. Houve até quem comentasse: “Pô, de novo, esse papo de 1990? Sério?” Era uma deixa, tal tipo de comentário, para que ela mostrasse outro talento: o sorriso. Sorria que era uma beleza. E invariavelmente seguia, firme, na prosa. Esse cara da calçada era mais ou menos da idade do pai dela, e fanático pelo mesmo clube. Sentindo o desafio, o malandro não recuou: “Mas a gente jogou nesse estádio, em 1990?” A mulher respondeu que “Sim… E a gente perdeu…” E foi quando ouviu o que precisava, sem saber que era aquilo que precisava: “Ah, é por isso então qu’eu não lembro.”

Categorias
Arte Desenho Lowbrow Quadrinhos XXX

@monteiro4852 #127

Quando mesmo, hein!?

Categorias
Arte Desenho Lowbrow Quadrinhos Sem categoria XXX

@monteiro4852 #126

Você está me dizendo para esperar sete dias?

Categorias
Comportamento Conto Crônica Literatice Sem categoria Umbigada

Contagem regressiva para o festival

Atravessou a rua, sem olhar para os lados. Uma aposta bem pouco prudente, pensou, no ato, mas a torcida do time adversário bloqueava o trânsito, ele sabia; havia um cálculo naquele espasmo de amor-mucho-mucho-loco. O movimento não era a esmo, não. Tirou a camisa suada, como se bastasse aquilo para realizar o sonho do abraço demorado. Estava um pouco bêbado, mas… Mas acreditava merecer aquele encontro com palavras colhidas na hora, fresquinhas. Acreditava num futuro com sorrisos de aprovação. Não qualquer aprovação, mas uma daquelas que a gente alcança já no terceiro trimestre e sugerem vagabundagem de primeira no que resta de ano letivo.

Acertar a entrada da chave, sem olhar para a fechadura era mais difícil do que cruzar a rua. Equilibrar-se para tirar as meias sem precisar apelar para a banqueta, idem. Chegar a uma conclusão sobre a necessidade de novos jatos de desodorante, também. No primeiro lugar da lista de impossibilidades estava “Lembrar em que fase estava a Lua”, então, o negócio era continuar arriscando. Pegou o celular e com cuidado vasculhou o aparelho. O protetor de tela estava quebrado e dificultava as coisas. “Pra que facilitar, né?”, perguntou-se, sabendo que não haveria resposta. “Aposto que ela está por perto. Vou mandar mensagem”, programou-se.

Tinham tomado juntos um café, no dia anterior. E pela primeira vez — ele achava que tinha sido a primeira vez, pelo menos — escolheram docinhos diferentes. “É bom que as diferenças apareçam”, digitou. Mas antes de mandar a mensagem, percebeu que não era aquilo que deveria ser dito num momento regido pelo sonho do abraço demorado. “Porra, maluco, tá de bobeira!?” “Calma, calma…” E aí sim digitou, de uma tacada só, uma daquelas mensagens de tela inteira, em que falava uma coisa, emendava com outra, tentava uma piada e não dizia o que queria de verdade.

“Tropix” estava esparramado no prato do toca-discos. Era como se não tivesse coragem de tirar de lá aquele álbum. “Ela trouxe um disco, cara!” Ninguém sabia, mas, ultimamente, quando precisava de um pico de coragem para fazer ou falar alguma coisa, um dos recursos era colocar aquela bolacha para rodar. Outra possibilidade era apelar para uma dose de Januária, mas, ali, naquela hora, não, era melhor manter alguma sobriedade para o instante do abraço. Precisava de um abraço. Só isso. “Só isso tudo!”, como diziam na época do ensino médio. Alcançou alguma concentração e escreveu: “Muita, muita saudade!”

Toda essa conversinha aí sobre amores líquidos, os fantasmas que o ajudaram a atravessar a rua, a conta que ficou pendurada no bar, o moleque com a camisa do tamanho errado mas do time certo lhe pedindo dinheiro e ele dando. A conversa dos escolados esclarecidos e suas verdades bem arrumadinhas, a banca de jornal que virou tabacaria, essa gente que entende de cervejas e de vinhos e de comidinhas. Por um instante, ficou em dúvida: o botão certo era o de fugir ou o de enviar?

Um scroll-down-sem-fim, um benza-Deus-por-um-rim. O Zé dizendo pra segurar a onda que o sofrimento ia ter fim, Maria concordando e dizendo que sim. Que falta passou a fazer um doce de limão. Como podia um percurso pesar tanto assim? Uma intimidade tão desejada que era como se tivesse sempre existido, uma prova em que dez era a única nota possível. “Vamos almoçar então?” “Vamos. Vamos, sim.”

Categorias
Arte Desenho Lowbrow Quadrinhos XXX

@monteiro4852 #125

É uma sensação estranha, essa de que você conhece a pessoa de algum lugar.

Categorias
Comportamento Conto Crônica Freudcast Literatice Música

X, quadrado, triângulo, ondinhas, raios

Era alto e gordo, o Comandante. Carregava esse apelido mas era engenheiro, não milico. Do time dos escrotos, sem dúvida, tratado como “doutor” pelos homens que trabalhavam com ele. Tinha sido “presenteado” co’a chance de ser padrinho do Tito, filho do seu empregado mais antigo. “Presenteado” era como dizia a mãe dele, que enxergava naquilo uma chance de aprendizado para o filho. Com o vocabulário fofo dela e um considerável apanhado de orações, rogava por um cabra mais gente fina. Ao longo de 20 anos, o gesto mais carinhoso dele na direção de Tito tinha sido deixar para o garoto o troco que ficou de 300 gramas de salaminho que mandou comprar na padaria do outro lado da avenida. Foi também uma das poucas vezes em que a “plateia” que sempre o cercava deixou de seguir a regra de rir das “graças” que pintavam: naquela ocasião, apostou que o garoto poderia não voltar da missão porque atravessar a avenida era coisa perigosa para uma criança daquela idade.

Aos sábados, aquele escroto vestia uma fantasia de discotecário. Ou quase. Ficava numa parte da sala da casa, onde acumulava discos antigos, a maioria de rock progressivo, e se enlameava naquele repertório. Ninguém o incomodava. Porque não ousariam fazer isso, de um modo geral, e também porque a seleção musical era mesmo bem chata e repetitiva. No Dia do Juízo Final dos Discotecários, se for julgado também nesta categoria, terá garantido um dos lugares na lista de Piores de Todos os Tempos. Voltava sempre às mesmas músicas, aos sábados, entre 14h e 17h. Pode-se dizer que tinha um set bem amarradinho. Gostava de se sentar numa poltrona que ficava perto da janela, e, durante aqueles 18 intermináveis minutos de duração média de cada faixa, fazia de conta que estava pensando. Tinha a mania de vestir-se de preto, nestas ocasiões. O que fez com que uma amiga da mãe — porque ele morava com a mãe — achasse que se tratava de uma assombração. Aconteceu porque ele estava agachado no canto, perto da prateleira onde ficavam os LPs, e ali havia pouca iluminação. Uma pessoa desavisada, embalada por aquela música danada de ruim, poderia ter a impressão de que se tratava de um ser de outro mundo, em vez de um vacilão daqui da Terra mesmo.

Os discos ficavam organizados numa prateleirinha e também num armário. Na prateleirinha, os compactos. No armário, os grandões: de 10 e 12 polegadas. Todos os formatos ficavam abrigados em plásticos novos, que protegiam as capas em que invariavelmente o Comandante escrevia seu nome com esferográfica azul. Era neste detalhe que ele entregava que além de mau DJ era também um colecionador porcalhão. Arrumava os bolachões numa ordem que não era alfabética, mas, sim, de preferência. Da esquerda para a direita, de cima para baixo. O disco que mais ouvia era o primeiro da prateleira de cima. Se algum louco fosse surrupiar uma bolacha dali e pegasse a primeira de cima, estaria levando o disco mais ouvido pelo pior DJ do mundo. Entrar na casa para subtrair dali qualquer coisa seria tarefa não muito simples mas, sim, possível para alguém que conhecesse a rotina de (falta de segurança) daquela condomínio de casas.

O mané quase teve um troço quando pegou o preferidão dos sábados e, ao tirar da capa, deu de cara com uma bolacha marcada por um X que deve ter sido “esculpido” com um bom estilete, canivete ou faca. Chamava a atenção a simetria com que os dois lados do LP tinham sido marcados. Parecia casar direitinho, um X com o outro do lado oposto. O autor da obra deve ter ficado orgulhoso. Mas a reação do Comandante, surpreendentemente, não passou dos olhos arregalados. Manteve o que pode-se chamar de “calma”,  na sequência. Decidiu pegar o segundo disco da fileira e, neste, encontrou riscada de cada lado a figura de um quadrado. Sentou-se na cadeira e lembrou do Tito, que segundo o pai, havia viajado para o Nordeste. “De Niterói para o Nordeste é um pulo grande”, havia pensado, quando ouviu do empregado a informação. Ainda sentado, experimentando aquela sensação completamente nova, não sabia que ainda encontraria nos três discos seguintes figuras geométricas diferentes.

Categorias
Comportamento Crônica Freudcast Literatice Sem categoria Umbigada

Quadro colorido

Foi um diálogo rápido. Mas chamou a atenção porque era um pouco Doce contra Salgado. E Doce contra Salgado mobiliza as pessoas. O “contra” não revelava uma oposição, exatamente, mas talvez uma impossibilidade, ou incapacidade — de ambas as partes — de chegar a um acordo. Porque a opção pelo desacordo criava pelejas como aquela. Durou uma meia-hora. Divertido, às vezes, para quem teve a sorte de acompanhar. Houve até quem fizesse vídeo, sob a promessa de não publicar em lugar nenhum mas, sim, guardar as imagens apenas como… Recordação? Recordação de uma discussão? Big-brothermente falando, fica difícil hoje em dia filmar algo e não publicar, mas a questão ali era o Doce contra o Salgado, então o pessoal soube se concentrar no que importava: nos ensinamentos.

“Você tem 39 anos e nunca entrou num banheiro de Salgado”, perguntou Salgado ao Doce. “Como é que pode isso?” E com o sorriso de quem parecia conhecer segredos do oponente seguiu no ataque: “Banheiro é território de liberdade. Você não precisa ter medo de sair do seu e entrar no do outro…” Foi possível perceber o desconforto com que Doce ouviu aquilo. Parecia saber que se tratava de uma piada. Entendia a provocação, porque era isso, uma provocação, mas não queria perder tempo pesando consequências e atirou: “Você está muito enganado!” Não era só defesa. Era também ataque.

A conversa começou com os dois professores falando de questões estéticas. O que está escrito em banheiros masculinos será parecido com o que fica registrado nos femininos? Tipo isso. “Eu não sei, porque não frequento banheiros masculinos”, declarou a professora, tranquilamente, sem imaginar o ataque que viria em seguida: “Ah, mas vai dizer que você nunca entrou em um?”. Era uma provocação, claro. E talvez entregasse que havia, ou que tivesse havido, entre eles, mais do que uma relação cordial.

Cada um bebeu um gole de cachaça, a bebida disponível, ali, por perto, em copinhos minúsculos e com detalhes que permitiam identificar o que era de quem. Copinhos que pareciam dizer: cuide do que é seu, não do que é dos outros. E era como se Doce e Salgado precisassem também de marcas mais visíveis, para que pudessem entender quem era de quem. Ou melhor: que ninguém era de ninguém. Ver duas pessoas discutindo por uma coisa e perceber que, na verdade, há outros pontos em jogo, é divertido. Pode ser assustador, mas, ali, estava divertido. Ainda bem que existe cachaça.

Categorias
Arte Desenho Lowbrow Quadrinhos XXX

@monteiro4852 #124

Mais de dez, repito: dez… Mais de dez vestidos na fila?

Categorias
Arte Desenho Lowbrow Quadrinhos XXX

@monteiro4852 #123

Calor, né?

Categorias
Arte Desenho Lowbrow Paulo-Coelhismo Quadrinhos XXX

@monteiro4852 #122

Tem que pensar com calma. E cuidado. Refazer planos, tudo bem. Rever planos, rever parcerias, flertar com a paixão jogando luz sobre ela, regar o amor. Regar o amor, sim. Você tem água é também pra isso.