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Se 2+2=5, 1984+2026=?

No Rio, se você está no imediatamente-pós-carnaval, não dá pra ter certeza absoluta de que é mesmo pós-carnaval. Ainda que se passem bem na tua frente flashes pouco ou nada carnavalescos, como um cartaz do documentário do haitiano Raoul Peck, pode pintar do nada uma batucada e… E cadê que na economia psíquica do sujeito surge espaço/tempo para gerenciar tais e tantas informações? Às vezes, você precisa é de beliscão e não de uma rainha de bateria para te ajudar a acatar um expresso custando R$ 12,00. O reinado de Momo é um período de aceitação de “absurdos”, e um cinema em Botafogo pode se mostrar uma boa prolongação disso. Resta ao folião resignar-se antes do mergulho na sala escura, de onde sairá outra pessoa, talvez mais cética, mas certamente mais entendedora do mundo, depois de ver “Orwell: 2 + 2= 5”.

Está tudo lá. Estão todos lá. Trump, Hitler, Netanyahu, Zuckerberg. O diretor Raoul Peck já alcançou a casa dos 70 e poucos anos, mas nos deu num certo sentido um filme adolescente, uma colagem punk. O que é ótimo. Funciona. É tudo muito contundente, sem firula e amarradinho; contemplando até uma conhecidíssima família brasileira ao falar da galera do topo da pirâmide controladora do planeta. É punk, sim. E o Raoul Peck assume um lado, ao apresentar um filme-discurso. E ele segue por aí meio que num paralelo com a crença do próprio George Orwell, de que não há arte sem posicionamento político.

É quando fala mais diretamente do autor de “1984”, esmiuçando um pouco o processo de produção do livro (que já ganhou, no ano do título, uma adaptação cinematográfica), que o documentário assume ares mais amenos. Quer dizer, mais ou menos, né?, porque são os dias de um cara que está doente e passando por um tratamento. A gente pode até rir, como quando o escritor fala sobre ser um gentleman. A gente pode também se comover, no instante em que Orwell fala sobre um menino que ele e a esposa estavam adotando. De uma maneira ou de outra, ficamos diante de uma colagem capaz de fazer um folião chorar.

Ainda sem largar o carnaval: desta vez, forçando a barra para falar de “sacanagem” e atraso. Dois aspectos que têm também muito a ver com esse período. Atraso, porque, hm, vá lá, porque desfiles por exemplo podem atrasar. Como aconteceu com o lançamento de “Literoutubro”, editado pela dupla Lisandro Gaertner e Paula Maria. A publicação é o desdobramento de um projeto desenvolvido por eles e deveria ter vindo à tona em outubro do ano passado.

O tema é orwelliano, neste terceiro ano de empreitada: “Disutópicos”. Ficou um registro que merece aplausos, reunindo autores que participaram de um “desafio criativo” organizado por Gaertner e Maria. Segundo Gaertner, pelo menos um pouco da inspiração vem do Inktober, que também pode ser considerado um desafio: anualmente, com hashtags, reúne (durante o mês dez) trabalhos de artistas visuais do mundo inteiro. Outubro revelou-se um mês-deixa para criar coisas/modas.

O livro nasce num formato que faz lembrar um calendário. Como que não dando chance para que tiremos Outubro da cabeça. E vem com o selo Toranja, que é uma newsletter (Substack) feita pela dupla.

E a “sacanagem”, onde entra? Num primeiro momento, claro, porque na folia o que não falta é gente escancarando as intimidades. E há licença/permissão/cultura para isso, então, que sigam todos fazendo o que lhes deixa felizes. Com responsabilidade, né? E mergulhando no paralelo com a coletânea de textos, no embalo da imensidão de possibilidades que o mês de outubro parece oferecer, vale lembrar do pessoal do BDSM, que organiza o Locktober, aproveitando o período para “brincar” com cintos de castidade. Isso, isso mesmo: “sacanagem” consentida não precisa ser só no carnaval.

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Carbona aí, ó

Você pisca, Harry Potter completa quatro décadas. Pisca de novo e não acredita no tamanho da barba do Henrique Badke (voz), que junto com Melvin Ribeiro (baixo), Pedro Roberto (bateria) e Bjorn Hovland (guitarra) está lançando hoje uma música nova do Carbona: “Minha cabeça”. Badke, além de cultivar os pelos que lhe cobrem a cara, vem mostrando recentemente uma rica/constante produção musical, frutos que não parecem ser só por causa do plantio forçado no isolamento pandêmico mas, sim, desdobramentos de uma inquietação inerente ao punk/rock bubblegum que desde 1998 ele vem defendendo com o Carbona.

A faixa composta por Badke é fresquinha, deste ano que para muita gente merece o rótulo de “maldito”. E, sim, também, a música fala um pouco disso que a gente está vivendo. Diz um trecho: “Dentro da minha cabeça / Antes que’u enlouqueça / Aí fora tá osso/ Eu nem quero seguir/ Já que dentro da minha cabeça / Aconteça o que aconteça / Eu pego minha viola / Conto umas histórias / Sigo por aí / Eu pego minha viola / Toco três acordes / Saio por aí.”

É Carbona roots, rápido, divertido, podendo provocar uma invejinha em quem está parado só esperando que o tempo melhore. Capaz de comover quarentões, graças às imagens que incluem compactos em vinil, vitrolas, fita cassete, sujeitos tocando instrumentos. O clipe foi dirigido por Sergio Caldas. Uma ótima para quem quer animar a sexta-feira.