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Boteco connection

Dali, de trás do balcão, pelo que podia ver, nada tinha mudado muito. Havia o dinheiro mais curto. Quer dizer, quase não havia dinheiro. Quando aparecia, era o de plástico. Mas tirando isso estavam lá os bêbados, as bêbadas em menor número, crianças pedindo salgadinho, vendedores tentando emplacar uma mercadoria nova que não era assim tão nova e por isso era quase certo que não conseguiriam nada. Os incansáveis adestradores de amendoins, que jamais faltavam e impressionavam todo mundo com sua capacidade de encaixar aquele papelzinho com uma família de “bichinhos” no meio da mesa-selva de garrafas vazias e copos pela metade. O pessoal de esquerda e de direita se misturando, de novo, nos hábitos, quase como se não houvesse mesmo nenhuma diferença entre eles, como se esta distinção tivesse deixado de existir. Talvez fosse possível dizer que estavam todos mais tolerantes. Talvez. Tolerantes entre aspas, claro. Cansados, com certeza. Cerveja já não deixava ninguém relax.

O cara do bar ficava um pouco angustiado com aquela história de usar máscara e fechar mais cedo. Sentia que estava deixando crescer uma espécie de dívida com a Madrugada. Tinha a Madrugada, que ele sempre havia considerado uma amiga, carinhosa e silenciosa, mas agora a distância entre os dois crescia e o deixava angustiado. A distância era tipo capim: tomava espaço, preenchia gretas. Se havia “alguém” com quem não queria faltar com o respeito, era com a Dona Madrugada. Escolhia muito bem, ele, o que e quem merecia “respeito”. Mas vinha parecendo impossível negociar qualquer coisa, então, o que sobrava era a resignação. E a percepção de que aquela grande amiga estava como que indo embora. Seria capaz de ir e nunca mais voltar, a Madrugada? Temia que não fosse um afastamento temporário, como todo mundo apostava. Tentava não pensar nisso. Ver de longe a grande amiga era doloroso demais.

Houve quem dissesse que ele andava cuidando das cervejas com mais carinho. Zoaram a ponto de jurar que estavam mais geladas. Coisa que ofendia o dono do boteco. Porque ele sempre — sempre — fez questão de não dar mole de ser encaixado no perfil do porcalhão e de avarento. Fazia isso não economizando em boas geladeiras e organizando a pia do estabelecimento, oferecendo copos descartáveis para quem insistia em beber na calçada, usando papel branco — em vez do pardo e do rosado, que até eram mais baratos — para embrulhar as empadinhas que a dona Silvia entregava e que eram um sucesso. As noites de terças, quintas e sábados eram noites de empadinhas.

Dona Silvia tinha provocado uma tempestade porque “permitiu” que um fio de cabelo ocupasse um espaço bem indevido numa das empadinhas de camarão. “Porra, justo na de camarão.” Costumava comer, de vez em quando, uma ou outra empadinha. De camarão. Sempre de camarão. Só vendia coisas que era capaz de comer. E cervejas que era capaz de beber. E, numa dessas, encontrou o fio. Quase vomitou. E amaldiçoou dona Silvia, por conta daquele vacilo. Jurou que não compraria mais os produtos dela. Por “sorte”, tinha sido ele o contemplado com o fio de cabelo na iguaria. “Imagina se acontece com o seu Zeca, aquele… Ia todo mundo achar que sou porco… Não posso dar esse mole.”

Dona Silvia dependia dos salgadinhos para pagar as contas. E o bar do amigo da Madrugada era o melhor cliente. Na verdade, o único com regularidade. Ela fez cara de desesperada, disse que não sabia como aquilo tinha acontecido, explicou que usava touca justamente para evitar este tipo de chateação… Depois de ouvir as explicações, Tito, o amigo da Madrugada se chamava Tito, ficou se perguntando se o que tinha encontrado era mesmo cabelo ou se não poderia ter sido um fio dental que ficara preso nos dentes, da noite anterior. Tito usava fio dental. E isso era outro motivo de orgulho dele. Acabou aceitando o pedido de perdão de dona Silvia. O que fez com que ela se perguntasse: “Será que anos atrás, quando os dois se separaram, faltou empenho da parte dela?” Foi tomada pela sensação de que havia perdido seu grande amor por descuido.  E por falta de insistência.

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You Glauco Tube

Mister Mattoso tem agora um canal só dele:

https://www.youtube.com/channel/UCT1MNFLK_9-nnlNN3JPppFw

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@monteiro4852 #18

O tempo cada vez mais corrido. Era difícil, no fim das contas. O sol voltando a brilhar. Era amarelo, se não me engano. O isso-éramos dando lugar ao é-pra-já. Cama foi feita pra pular, esse negócio de dormir é atraso de vida…

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@monteiro4852 #16

“Estamos apenas no início”, ele disse. Elas deram uma risada.

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Puxar, babar, lamber

Uma “atividade” parecia estar sendo especialmente prejudicada pelo isolamento social. A do Puxa-Saco. Ou do “Puxa-Sacos”, como parecem preferir os mais estudados. Atualmente, é mais fácil falar do Bava-Ovo, pra todo mundo entender. Mas os mais estudados, sempre eles, talvez prefiram Baba-Ovos. A questão não é o S, mas a puxação, ou babação em si. Virtualmente, isto é, pela web, a segunda “profissão” mais antiga do mundo parecia ameaçada de perder força.

O Puxa-Saco tem todo aquele jogo de corpo, né? Começando com o olhar pidão, detalhe que integra um semblante extremamente doador, com aquela dualidade que só os subservientes e interesseiros parecem ser capazes de colocar em prática. Como fazer isso online? Com as palminhas batendo, no WApp? Perde muito da graça. Um “hahahaha” ou um “rsrsrsrs” jamais terão a gosminha de uma gargalhada forçada após uma piada que nem era assim tão boa.

Uma vantagem que a gente talvez possa apontar é que, teclando, parece que se cria um contrato de babação, uma declaração de puxa-saquismo, a formalização daquela velha sem-vergonhice. É comum a gente voltar a uma mensagem para ter certeza de que o entendimento foi correto. É comum a gente ler um contrato, ou parte dele, para ter certeza de que é aquilo mesmo. Nada mais “normal” então do que dedicar alguns minutos à releitura de uma babação-de-ovo no Foicebook ou no WApp. Para em seguida perguntar-se: é isso mesmo, é pro mundo inteiro ver e entender que é babação descarada?

Os protocolos internéticos, aquelas coisas de atenção aos momentos em que se usa caixa alta, as carinhas, os “risos”… tudo isso criou uma “gordura” para a linguagem que pode ser bem aproveitada pelos bajuladores de plantão. Estamos vivendo uma época de divisão de águas. Agora, veremos sobreviverem e se sobressaírem os babadores realmente sérios e comprometidos com a “coisa social”. O Pusa-Saco entra finalmente no século XXI, diferenciando-se do Pela-Saco, que — vale explicar — parece ser a evolução quase natural do Puxa-Saco que se deixa tomar pelo ódio.

A contemporaneidade/inteligentsia ainda não achou resposta para a questão de gênero. Falar em Puxa-Saco traz uma perspectiva muito masculina. Na busca/luta por igualdade, precisamos dar a todEs a chance de serem escrotEs. Talvez Lambe-Botas, hein? Mas aí fica muito old-school, né? Tem a pegada fetichista/BDSM, mas é muito old-school. Para sobreviver, o puxa-saquismo precisa continuar evoluindo, como tem acontecido, agora; não voltar atrás…

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@monteiro4852 #15

“Rumo ao milhão”, disse hoje o Alberto. De vez em quando, todo mundo deve pensar: “Será que puseram alguma coisa na água?”

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Futum

Pra muita gente, hoje é dia de voltar ao passado. Porque acham corriqueiro e ao mesmo sério e pertinente agora falar do episódio que muitos passaram a chamar de O Dia Que Mudou A História. A maioria faz isso ainda sem saber se deve escrever assim, com maiúsculas, ou não; sem ter lá muita certeza sobre aquilo de que estão sentenciando. É a perspectiva botequiana tomando de novo conta da História, emprestando seriedade ao mesmo tempo em que banaliza; mesmo em dias/noites de botecos vazios. O que você estava fazendo, 19 anos atrás? É a pergunta que mais se ouve, hoje? Ou geral está mais preocupado com o preço do arroz?

O Passado é compadre da Justiça? Segure a gargalhada aí, porque a pergunta é séria. Poucos anos atrás, era comum a gente ouvir alguém dizer que os dias que estávamos vivendo eram os melhores que havíamos conseguido alcançar. Agora, já não dá para dizer/garantir isso. Quase dá para ter certeza do contrário. Águas passadas não movem mesmo moinhos. E o arroz será sempre uma das partes do binômio que no fim das contas comanda toda a organização da humanidade por estas: o arroz-com-feijão. Ah, sim: Feijão, pode esperar, a tua hora vai chegar/voltar. Afinal, se tem uma coisa que o Passado nos ensina é que, se podem ferrar a massa com dois ingredientes, não usarão apenas um.

Cada um de nós tem o próprio 11 de Setembro. Ou terá. Aquele dia em que é atingido(a) no peito com uma frase mortal, desconstrutora/desmoronante, fatal para uma enxurrada de sonhos que podiam sair dali mas se perderam. Viraram poeira. “Você não sabe o que é amor.” “Seu filho morreu.” “É que eu quero ficar com outra pessoa.” “Foi embora.” “Vá embora.” “Some da minha frente.” “Eu não sou isso aí que você está falando, não…” Aviões derrubando torres. Perceber pessoas se esforçando para entender O Dia Que Mudou A História, quase duas décadas depois de um acontecimento que ainda merece manchete, pode ser um ótimo estopim para quem pretende entender (pelo menos um pouco) o próprio percurso. Ou a interrupção do percurso, o que não deixa de ser percurso-em-si.

Para quem ainda está em isolamento, por conta da pandemia, este pode ser um exercício ainda mais marcante/assustador. Quem ainda vive de construir listas, coisa que parece não sair da moda, pode brincar com a coincidência entre os números: no décimo nono aniversário do ataque às torres gêmeas, estamos às voltas com o Covid-19. No mesmo dia, pipoca uma notícia de que as vendas de vinis ultrapassaram as de CDs na primeira metade do ano. Passado é assim: às vezes, traz um perfuminho. Mas noutras resgata mesmo é um futum bem desagradável. Tá sentindo, né?

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Chocolate

Ela chegou, sorrindo, e depois de tirar o tênis, a máscara, passar álcool pelos braços, pelas orelhas, pelo cangote e de tirar também a camiseta e o short, disse: “Trouxe uma coisa pra você.” Seguiu removendo as peças mais íntimas, aí dispensando o líquido higienizante, porque aquilo tudo estava coberto por tecidos que devem proteger de alguma maneira. “Ar fresco”, completou, uns bons minutos depois de ter começado a falar. Estava se dirigindo à plantinha, que ficava no início do corredor que não era bem um corredor mas que levava à cozinha. Tinha voltado da primeira caminhada desde o início da pandemia. E arriscou fazer aquilo, mesmo com uma dorzinha no joelho, porque precisava trazer ar fresco para dentro de casa.

As janelas andavam ficando mais fechadas do que abertas. Quando percebia isso, lembrava de uma decisão tomada logo depois que o vírus tomou conta do noticiário. Não conseguiria escrever num papel que decisão tinha sido aquela. E pensava nisso, na impossibilidade de transcrever a coisa, porque tinha tido essa vontade. Não se assustou com sua incapacidade. Mas ficou pensativa. Achava que tinha percebido a primeira pontada no joelho direito bem neste instante, o instante em que não conseguiu escrever o que tinha decidido. Naquele dia, fez um desenho que decidiu prender com fita crepe na parede do corredor que não era corredor, perto da planta a quem dava ar fresco depois de voltar daquela esplêndida primeira caminhada.

Pesquisou “joelho”. Pesquisou “dor”. Pesquisou “caminhar”. Pesquisou “pandemia”. Pesquisou “vítimas”. Pesquisou “prefeito”, mas desistiu desta e antes que o resultado aparecesse pesquisou “bdsm”. Pesquisou “mulheres dominadoras”. Pesquisou “sagitarianos”. Pesquisou “compatibilidade entre os signos”. Pesquisou “tarot” e “tarô”. Pesquisou “trabalho voluntário”. Pesquisou “mudança de carreira”. Pesquisou “solitude”. Pesquisou “Cem anos de solidão”. Pesquisou “delivery japonês botafogo”. Pesquisou “saquê”. Seguiu pesquisando, até que o interfone tocou e percebendo que já era noite colocou máscara, armou-se com o borrifador de álcool 70 e foi até a porta receber a comida e o saquê. Tinha sido dia de ar fresco. Achava que podia ser uma noite de peixe fresco.

Começou uma série. Estava disposta a maratonar. Não maratonava havia já algum tempo. Maratonar tinha perdido a graça, se é que algum dia teve graça. Sorriu satisfeita, olhando pros sashimis. E a satisfação escorria do sorriso porque o saquê era uma bebida danada de boa para contribuir com isso, com sorrisos de satisfação. Sentiu saudades de caipisaquês de lichia. Pensou nas estações do ano, achou que lembrava de ter visto lichia nas feiras em dezembro, época de natal. Mas não quis pesquisar aquilo. Enquanto colhia ar fresco, mais cedo, havia decidido só pesquisar uma vez por dia. Ficou pensando que talvez pudesse complementar aquela decisão, acrescentando um limite de horas ou assuntos para mergulhos no computador.

Foi como um insight: “Essa dor no joelho pode ser de ficar demais no computador, com a perna cruzada… Não é bom pra circulação, isso…” Sentiu-se aliviada e sorriu o melhor sorriso do dia, melhor do que quando disse à planta que lhe tinha trazido de presente ar fresco. Derramou o restinho de saquê num copo quadrado, com bordinha larga para quem quisesse colocar sal, ali, na beiradinha. Gostava de saquê com pitadinhas de sal, e se sentia uma personagem de série enquanto fazia isso. Estava de novo sem roupa e pensou em quanta gente gostaria de vê-la daquele jeito.

Lembrou dos chocolates que namorava de vez em quando e que mantinha guardados no armário da cozinha, quase escondidos. Do lado de fora, deixava as barrinhas de cereais. Pensou em pesquisar sobre calorias, fazendo rapidamente um cálculo importante, pro qual o resultado era que gastaria menos tempo ligando o computador do que tentando ler o que estava escrito no rótulo de cada embalagem. Lembrou-se da decisão tomada naquele dia. Nada de pesquisas. Não havia decidido nada ainda sobre o consumo de chocolates. E mesmo sem digitar ou ler nada achou que comer um docinho ajudaria a curar o joelho. Desejou ter mais saquê.

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Promoção

Desde que viu um anúncio de “orgânico torrado e moído especialmente para cariocas”, ficou com aquilo na cabeça. Talvez porque tivesse coincidentemente comentado com um camarada, dias antes, que estava incomodado com essa história de viver uma época em que andava bebendo mais café do que cerveja. Se pá, porque a “anunciante” era uma garota-propaganda e tanto. Aliás, tinha dela uma imagem diferente, e, vasculhando o HD, achou um clique de tempos bem-bem-pré-pandêmicos em que a moça aparecia sorrindo como poucas são capazes de sorrir, ali na adega da praça, com uma caldereta na mão. Na época deste clique, não enxergava nela uma “vendedora”. Mas, então, anos depois, percebendo que o registro não se apagara com o tempo, tinha entendido o “poder de venda” que se concentrava ali naquela personagem. Levou um tempão, mas tinha sacado que aquilo era um anúncio. E duplo: de chope e de consultório de ortodontia.

As redes já há séculos não são sociais, mas comerciais. Tira esse risinho daí, que isso é sério. Se é que o ódio foi superado, na computância internética, foi para dar lugar às (estratégias de) vendas. Mas não é qualquer uma que vende tão bem. E é disso que estamos falando. Ainda mais que lá pelas tantas a gente descobre que o café não é dela. Na verdade, é coisa da irmã que andou se aventurado pelo interior de São Paulo e agora traz isso na bagagem. Se você é um comprador cuidadoso, não pode ser acusado de stalker. Em algum momento, um cliente mais desconfiado pode chegar a pensar naquilo que bem-bem-antigamente chamavam de “rivalidade” entre os dois picos, RJ e SP. Mas não há de ser uma preocupação que crie raízes: mesmo se tiverem batizado o produto, tenham feito sabe lá o que com o café, para torná-lo especial para os playbas gourmets do litoral, depois de torrado e moído deve ficar tudo certo. Deve ser café com gosto de café mesmo.

A mobilização foi tanta, a partir daquela mensagem publicada no Instagram, que logo depois de ler pela primeira vez o texto, já ficou pensando em quantos amigos frescos, destes que não bebem Pilão e ainda falam mal pra caramba dele, estariam interessados no produto. Talvez pudesse ser um segundo atravessador. A pandemia anda obrigado a gente a pensar em maneiras de levantar um trocado a mais. Mas na verdade não queria ganhar nada com isso, nada que não fosse a gratidão das irmãs. Era só no que pensava. E pensava muito porque, com essa história de investir menos em álcool e mais em cafeína, o cérebro dispara. Neurônios parecem fazer ligações nunca antes experimentadas. E com uma pitada de algoritmo em vez de açúcar, garantindo que o post-anúncio apareceu em cinco das 17 conectadas mais recentes, a mensagem havia se fixado de maneira surpreendente/assustadora. Platão pode explicar.

Há uma formalidade, no café. Ele vem de um universo diferente daquele de onde sai a cerveja. E isso talvez revele, ou ao menos ajude a entender, por que andamos nos dedicando mais a um do que a outro. Cerveja é coisa de boteco. E boteco, por mais que haja um afrouxamento nas regras de isolamento, ainda é proibitivo. O café é um lance mais caseiro. Cerveja é da mesma escola do cachorro-quente-podrão: na rua, ganha um sabor especial. Porque sugere uma interação entre os consumidores. Você até pode ser um bebedor solitário. Mas, ao escolher este avatar, meio que aceita exibir um status e — querendo ou não — pode ser apontado ou virar alvo de um comentário feito por alguém que está num grupo e em busca de assunto. “Olha aquele maluco sozinho quase caindo, ali; puts, como é que dá pra segurar garrafa, copo descartável, cigarro, celular e a porcaria do álcool em gel?”

Quando as artesanais estavam na moda, havia a possibilidade de juntar as duas coisas: café e cerveja. Tinha até bebidas de cor clara mas reunindo os dois sabores. Bom, na verdade, aí não eram dois sabores. Você achava que estava bebendo um café estranho e só sabia que se tratava de uma cerveja porque esta informação vinha escrita na garrafa ou na latinha.

Café gelado, até o fim do século passado, não era uma coisa fácil de ser vista por aqui. As Starbucks e o bagulho da globalização instituíram novos hábitos, nestas terras. Talvez o Covid, que está sendo responsável pelo fechamento de muitas lojas, provoque uma volta ao paladar antigo — se o vírus for suficientemente forte, como apontam os adivinhos de plantão, para varrer daqui as redes gringas que colocam gelo no café com leite e fazem todo mundo acreditar que isso é gostoso. Será que nossa garota-propaganda conseguiria vender um pingado gelado? Será que ela é tão boa assim?

Falar sobre café, cerveja e uma pessoa (mesmo uma garota-propaganda, com o distanciamento garantido pela eventual fama) é uma maneira de mergulhar nas sensações que tanto as bebidas quanto a pessoa em questão são capazes de provocar. Olha só a equação, que apesar de um tanto esdrúxula não deixa de ajudar a entender a relação: gostar de café sem açúcar é uma coisa, e tem gente que tira onda de descolado(a) fazendo esta opção; gostar de uma pessoa sem sal é outra bem diferente, mistura o inaceitável e o inexplicável. Pensar em cerveja “quente” é outra coisa, só inglês ou alemão é capaz de entender. Quando a gente fala em amargor, o da cerveja provoca menos estranheza. Pelo menos no entendimento do bebedor-médio, aquele que preenche os balcões das padarias e botecos mais populares, que não se rendeu ao pingado gelado. E que dependendo da garota-propaganda gasta até o último trocado ou divide no cartão de crédito, mas não deixa de adquirir o produto.

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@monteiro4852 #8