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Medo e caô em Lalanjeilas (#hiperlocal02)

Dona Éle estava atrasada para um encontro de negócios na calçada. Era assim mesmo: a necessidade não motivava nela a menor pontualidade. Também, né, esperar o que da “necessidade”, alguma coisa boa? A bola retórica quicou, entre uma piscada e outra, e inspirou uma cabeceada do teórico de padaria da galera ali das redondezas. Seu Cê ganhara o título quando deu numa frase a explicação para o que a gente está vivendo, nos dias de hoje: “Você vai ali na butique de pães, pede um sonho, e leva pra casa uma Conta d’Água.” Dois meses após o disparo da sentença, ainda havia quem se lembrasse da pérola. Uma piada vencedora. Um ensinamento que promete durar. Atento ao risco das entrelinhas, o tiozinho gostava de destacar, sobre si mesmo: “É teórico de padaria. Não mosca de padaria.” Assim, ali, ao vivo, conseguíamos todos deixar um pouco de lado o medo da guerra.

“Não precisa”, insistia um. “Precisa, sim”, ouvia de volta, sendo o medo ainda o assunto. Quem ficava perto cansava de tanto buscar e não achar o entendimento da questão. “Cansado, sim. Derrotado, não”, dizia um outro. Nunca vencido, sempre aparentemente esgotado: era a regra que tinha se firmado como a estratégia mais malandra, aquela a ser usada. O pessoal do corporativo adorava falar em “comunicação de crise”. Pode ter vindo daí a Malandragem de Crise. E não foi truque aprendido em nenhum vídeo de YouTube. Mas sim anos de sabedoria zipados num frasco de mágoa declarada por uma trintona em relação ao seu irmão mais novo. Sorte da mãe que já se foi e não precisa mais aguentar a declaração de voto da filha. “Ele é menino e então o bife maior é sempre pra ele”, é isso mesmo?

Vizinhança estranha. Vizinho esquisito. Nunca estavam legais. Nunca bastava birita. Pode ser isso, o resumo. E aquele tipo de lugar em que, numa noite, há gente chorando pelo fim do mundo, e, carnavalescamente, ao mesmo tempo, subindo nas mesas  da praça, como que ensaiando um desfile e tentando lá de cima descobrir que versos são aqueles escritos lá longe. A descoberta é importante porque pode estar lá a última chance de ganhar uma disputa no torneio que elege o samba da agremiação. Cartas marcadas, sambas marcados, guerra marcada. O gado pode acabar se ressentindo disso.

Fica mais fácil sair vencedor se a comunidade te abraça. Dona Éle sabia disso, quando convocava uma sessão de terapia com cerveja mais ou menos gelada saída diretamente do isopor de Mano Régi. O “mano”era um adereço recém-conquistado, garantia um ar de local ao forasteiro. Quantos anos, 13? Treze anos depois, Mano Régi ainda era visto como não-local, mas se agasalhava com o quentinho da aceitação quase plena quando, entre um caô e outro, falavam dele desse jeito. Engraçado era que a iniciativa para o título tinha sido coisa de Dona Suza. Logo ela, uma baixo-astral-de-elite. Isso. Há atiradores e atiradoras de elite. Snipers, saca? Então, já há também — pode procurar aí — o baixo-astral-de-elite. Pessoas que insistem em lembrar de mortes que aconteceram, anos atrás, no prédio em frente. Ou, para se  mostrar atualizada, gente que comenta o atropelamento da semana passada. Não dá para condenar por unanimidade um baixo-astral-de-elite. Eles têm seguidores, desde quando essa palavra não era usada com tanta frequência.

O noticiário mundo-cão preenchia os intervalos de conversas difíceis. Tinha para todos. A doença do século, as dores que todo mundo está sentindo. Dentro, fora e ao lado da cabeça. Tem coisa que a pessoa nunca quis sentir, mas sente. Tem coisa que ela espera de outrem — uma sobrinha, por exemplo. E os emaranhados se esbarram-completam, indo até a amiga que vive noutra região do país. Não é à toa que as paradas acontecem. O momento errado pra falar de certas coisas. O sol, que hoje resolveu castigar. Isso é o ganhar da Megasena que citaram, ontem. É sobre salvação. Sobre ser o tiro que te faz correr de um lugar. Macondo. Falam de Macondo e bebem Negroni, o tempo todo, hoje em dia. A moda te ajuda também a esquecer certos perrengues. Fuga e esquecimento. Pacote completo. Dona Éle, exausta, não sabia mais por que tinha ido até aquele lugar. Para ela, falta de memória nunca tinha sido problema.