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Cartaz

Paulinho chegava sempre com uma fome que parecia mórbida. Pedia a quem estivesse por perto que lhe pagasse um pedaço de empadão de frango. Às vezes, conseguia. Teve um dia em que chegou no balcão, não viu ninguém nas mesas e arriscou com a tiazinha que trabalhava no lugar: “Esse empadão aí tá sobrando, né?” Ela era boa e rápida nas respostas: “Aqui, nada sobra…” Com a barba mais por-fazer do que geralmente mostrava, entregando muitos fiapos brancos, o avoado insistiu. Na verdade, ele não era avoado, mas estava alheio a tudo, inclusive às caras de poucos amigos que a tiazinha tinha na manga: “Mas se sobrar você pode me dar?” O fechamento da conversa veio sem nenhuma vírgula diferente: “Aqui, nada sobra…”

Às vezes, e geralmente isso acontecia à noite, Paulinho andava com um cartaz. Com aquilo, pedia ajuda. Ou achava que estava pedindo. Provavelmente, não era nada escrito/feito por ele. Muitas vezes, a mensagem parecia uma zoação. Como quando trazia a frase “Eu quero casar”. Os observadores mais constantes sabiam que, em momentos de crise, o “maluco” repetia aquela frase. Houve uma noite em que a praça estava recheada de policiais, por algum motivo, e deu para perceber o olhar de que-porra-é-essa-? que alguns dos fardados faziam quando viam Paulinho passar pela calçada, entrando e saindo dos bares, em alta velocidade, gritando isso: “Eu quero casar? Eu quero casar!” A frase do cartaz vinha de algum lugar da alma daquele sujeito.

Talvez fosse lá da alma também que viesse a força para um agudo assustador. Mesmo para policiais em bando. Dava pra ver pelas caras, de espanto, descrença… Aproveitando que se tratava claramente de um “maluco”, os homens da lei ficavam só observando. Paulinho era grandalhão e segurá-lo, para que parasse de gritar ou revisse aquela história de anunciar num cartaz o desejo de casório, não seria fácil. Para quem era do time sem farda mas ficava também só observando, podia surgir alguma pergunta do tipo “De onde vem essa história de o cara andar por aí gritando que quer casar?”. A vizinhança quase não recebia forasteiros, então, de um modo geral, ninguém se assustava com a eventual gritaria. Aguentar a música dos playbas, madrugada adentro, com seus carros abertos, meio que garantindo que ninguém na área ia dormir direito, era mais chato do que testemunhar a peregrinação repetitiva e neurótica do Paulinho.

De vez em quando, surgia uma resposta. Ou era um médico qualquer explicando o comportamento do candidato a noivo ou um morador mais antigo repetindo uma história não muito divulgada: “Paulinho era normal. Até queria casar, como todo mundo, mas era normal. Não ficava gritando isso por aí, não. Empadão, ele comia como todo mundo… Mas ele trabalhava pro pessoal do Bicho e, parece, pegou um dinheiro que não era pra pegar… Levou uma surra que deixou ele assim, meio abobado…” Havia uma outra versão, de que o Paulinho fingia que tinha ficado doido porque, sem conseguir repor o dinheiro, ficar maluco foi a saída para continuar vivo.

Uns “humoristas” tinham criado para o showman da área uma conta num aplicativo de encontros. Entre eles, um advogado que se divertia bebendo por ali e misturando português e inglês. Sempre que via o Paulinho, gritava, num agudo que devia ser comum aos de pouco juízo: “C’mon, Paulinho! Come here!” Numa noite de frio, esse aí deu ao Paulinho uma jaqueta branca. Estava usando a peça, tirou e deu ao solitário do cartaz: “Com uma jaqueta assim, você vai arrumar hoje mesmo um casamento…” Paulinho agradeceu. E na sequência perguntou se podia ganhar também um pedaço de empadão.

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