{"id":987,"date":"2023-03-24T14:36:36","date_gmt":"2023-03-24T17:36:36","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=987"},"modified":"2023-03-24T14:36:36","modified_gmt":"2023-03-24T17:36:36","slug":"que-calor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=987","title":{"rendered":"Que calor!"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando Douglas era moleque, chamavam-no de Hot-Doug. Na verdade, era s\u00f3 um cara que falava aquilo, mas fazia isso com tanta frequ\u00eancia que \u00e0s vezes parecia que o apelido tinha colado. Pouca gente entendia. O Douglas, que era um moleque em situa\u00e7\u00e3o de rua, era dos que menos entendiam. Quer dizer, n\u00e3o conseguia ligar bem formalmente os pontos, a sem\u00e2ntica e a signific\u00e2ncia, porque estava acostumado a lidar com a insignific\u00e2ncia, com a agora famosa e (meio na-moda, muito comentada) invisibilidade. Mas o garoto sabia\/sentia que o gringo que se referia a ele daquele jeito tinha alguma &#8220;sensibilidade&#8221;, algum &#8220;interesse&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Douglas conseguia fugir da baba\u00e7\u00e3o de ovo que de um modo geral percebia o pessoal exercitar para lidar com essa galera vinda de fora. Estava na rua mas n\u00e3o era bobo. Ou n\u00e3o podia ser bobo. Enxergava algum interesse por tr\u00e1s daquelas palavras, daquela boca, daqueles olhos, daquela cabe\u00e7a coberta por cabelos dourados. Os cabelos do gringo chamavam a aten\u00e7\u00e3o de Douglas. O corpo esquio do menino, os dentes surpreendentemente brancos pra quem mastigava joelhos e empadas e quibes com tanta frequ\u00eancia, o cabelo desgrenhado e o queixo quadrado chamavam a aten\u00e7\u00e3o do forasteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Zap! Zooot! Pow! Woool! Bang! De repente, tinha crescido. R\u00e1pido. Como se desse um salto. Havia ca\u00eddo em alguns buracos, e, sim, tinha conseguido levantar-se um pouco mais forte. Continuava magro. E tinha encurtado e adotado de vez o apelido, que virou tag: Hot. Douglas agora era o Hot. O Hot-Doug de um ano e pouco atr\u00e1s estava uns bons dez cent\u00edmetros mais alto, com alguma altivez. Perdera um pouco da &#8220;tranquilidade&#8221; com que conseguia se aproximar das pessoas e que, ao longo do dia, lhe garantia boa quantidade de salgadinhos e refrigerantes. Por sorte, ainda n\u00e3o tinha perdido nenhum dos dentes, que seguiam surpreendentemente brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>O estrangeiro e duas mulheres que moravam no 59, Din\u00e1 e Ruiva, tinham tentado fazer o menino seguir carreira militar. As duas preferiram n\u00e3o entender, ou n\u00e3o foram mesmo capazes, quando ouviram-no confessar que gostava de gente fardada. Quando o jovem que viram crescer ia completar a idade certa, recorreram a um pessoal da assist\u00eancia social do munic\u00edpio e conseguiram os documentos necess\u00e1rios para que ele se alistasse. Dizem na rua que a \u00fanica exig\u00eancia era que Douglas ficasse, por tr\u00eas meses, num certo abrigo. Isso era necess\u00e1rio para que pudesse comprovar resid\u00eancia fixa. Estava tudo certo. Farda garantida. Um futuro na vida. O trio Gringo-Din\u00e1-Ruiva mobiizou-se para que isso acontecesse. As duas fizeram promessa. Mas Douglas j\u00e1 n\u00e3o era Douglas, nem Hot-Doug. Era o Hot e n\u00e3o conseguiria ficar tanto tempo sob um teto.<\/p>\n\n\n\n<p>O trio continuava achando estar diante de um menino. Aparentando cansa\u00e7o, declarando frustra\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram a planejar para o &#8220;pupilo&#8221; uma vida de modelo. O f\u00e3 de fardas foi quem fez a sugest\u00e3o e as duas toparam. Conseguiram &#8220;convid\u00e1-lo&#8221; para uma pizza numa lanchonete que ficava perto do abrigo. Ele argumentou, quer dizer, deu uma ideia e disse que perto do abrigo n\u00e3o seria uma boa. Mas o trio achou por bem insistir. Achavam que Douglas deveria aprender a lidar com seus medos. E Hot aceitou. Eram 19h, quando os quatro se encontraram, na cal\u00e7ada. E dali dava para ouvir os gritos que vinham de dentro do abrigo. N\u00e3o era poss\u00edvel saber se eram s\u00f3 zoa\u00e7\u00e3o, se havia algu\u00e9m levando um sacode. Seria poss\u00edvel apostar que havia alguma dor envolvida, ali, naquilo tudo. Hot olhou para o trio e perguntou se em vez da pizza podia pedir um joelho. Foi o que rolou: um joelho e um refri.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Douglas era moleque, chamavam-no de Hot-Doug. Na verdade, era s\u00f3 um cara que falava aquilo, mas fazia isso com tanta frequ\u00eancia que \u00e0s vezes parecia que o apelido tinha colado. Pouca gente entendia. O Douglas, que era um moleque em situa\u00e7\u00e3o de rua, era dos que menos entendiam. 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