{"id":936,"date":"2022-12-23T21:56:20","date_gmt":"2022-12-24T00:56:20","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=936"},"modified":"2022-12-23T21:56:21","modified_gmt":"2022-12-24T00:56:21","slug":"boteco-connection-11-o-monstro-e-o-lago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=936","title":{"rendered":"Boteco Connection #11 \u2014 O monstro e o lago"},"content":{"rendered":"\n<p>Parecia perdida, ela. Olhos arregalados. Ofegante, sim; ofegante mesmo. Sem saber para onde ir e algo exausta. Suada. A cal\u00e7ada, que se lhe apresentava meio como um labirinto, carregava tamb\u00e9m tra\u00e7os bastante familiares: os poucos pinos perto do meio-fio, que estavam ali para inibir os motoristas de t\u00e1xi em seus devaneios secundaristas, faziam o papel de pilastras, de t\u00e3o grandes que tinham ficado. Tudo isso, sob o olhar da mo\u00e7a; antes de ela investir no primeiro gole de cacha\u00e7a. Com as unhas dos p\u00e9s e das m\u00e3os bem pintadas de vermelho, olhava para os lados como se aguardasse o Minotauro, que apareceria para gritar &#8220;Bu!&#8221;. Como que numa tentativa de manter-se l\u00facida, fez a piada: &#8220;Ser\u00e1 que o Minotauro faz &#8216;Bu!&#8217; ou ser\u00e1 que faz &#8216;Mu!&#8217;?&#8221; Estava falando consigo mesma, mas no esquema voz-alta-mode-on. Foi a chance que o maluco do lado esperava para tentar engatar uma conversa: &#8220;Me d\u00e1 tamb\u00e9m uma cacha\u00e7a dessa, dona Marlene! Igual \u00e0 da mo\u00e7a&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Vera respirou aliviada. &#8220;\u00c9 s\u00f3 um man\u00e9, n\u00e3o \u00e9 o Minotauro&#8221;, comentou, depois de mexer rapidamente no painel e garantir voz-alta-mode-off. Na avalia\u00e7\u00e3o cordial dela, estava lidando com alguma esp\u00e9cie de monstrinho. Mas n\u00e3o teve medo. E resolveu jogar. Deu ao boy uma chance, revisitando uma gracinha antiga, apostando que assim assustaria o cara: &#8220;Oi, eu sou a Vera. Estou aqui \u00e0 vera.&#8221; A parada era dizer isso bem r\u00e1pido, meio que se fazendo de b\u00eabada, meio que disparando um teste. O cara n\u00e3o mordeu a isca. Respondeu com um pobre &#8220;Nino. Prazer.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A tiazinha que controlava o outro lado do balc\u00e3o fingiu n\u00e3o ouvir o pedido do rapaz. Porque ela sabia que era cliente de gelada e n\u00e3o de quente. Queria evitar problemas. Vera, por sua vez, come\u00e7ou a falar num &#8220;lago escuro&#8221;, onde ela n\u00e3o tinha certeza se &#8220;pulava ou n\u00e3o&#8221;. Foram uns bons 15 segundos de sil\u00eancio, depois daquilo. At\u00e9 que sob a sombra de um certo ju\u00edzo o rapaz retomou suas pr\u00e1ticas mais tradicionais: &#8220;D\u00e1 uma cerveja, dona Marlene. Bem gelada.&#8221; Ele e a tiazinha se entreolharam e trocaram um breve sorriso, e, estando ambos calibrados para voz-alta-mode-off, trocaram tamb\u00e9m uma frase que parecia ensaiada: &#8220;N\u00e3o pode mais chamar de canela de pedreiro&#8230;&#8221; Riram alto, como se \u00e0s vezes esquecessem das regulagens que fazem em seus pain\u00e9is.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada um com seu gor\u00f3. Como tinha que ser. Minotauro ia, \u00e0-vera vinha, taxistas iam, taxistas vinham e&#8230; o lago escuro n\u00e3o sa\u00eda da pauta. Ela insistia no assunto. Falava de mergulhos. Citava encruzilhadas e igrejas. Apontava d\u00favidas. Mencionava o pai. Olhava inquisidora para os olhos do rapaz e falava em &#8220;transfer\u00eancia&#8221;. E quando ele come\u00e7ava qualquer frase ela devagarinho batia palmas, como que conduzindo um samba; sugerindo uma melodia, um andamento. Num primeiro momento, Nino n\u00e3o percebeu aquilo; mas, depois do segundo litr\u00e3o, muita coisa foi ficando mais clara. Vera no entanto n\u00e3o parecia disposta a abrir m\u00e3o de controlar o jogo. Na cabe\u00e7a da mo\u00e7a, era o seguinte: se do outro lado do ringue n\u00e3o estava o Minotauro, n\u00e3o havia o que temer. Ou o que perder.<\/p>\n\n\n\n<p>Em jogos de sedu\u00e7\u00e3o, com ou sem monstros m\u00edticos, chega uma hora em que um dos dois lados pode mudar de estrat\u00e9gia. O que dizer sobre uma brincadeira que ocupa uma preciosa e disputada mesinha de cal\u00e7ada por tr\u00eas horas? Dona Marlene n\u00e3o dizia nada, ainda mais que o casal estava bebendo bem. J\u00e1 eram vistos como um casal. Compraram amendoins dos moleques que passaram vendendo a iguaria. Investiram em pa\u00e7oca, gomas de mascar; ajudaram uma m\u00e3e que precisava de fraldas para o beb\u00ea. O Minotauro estava demorando demais. O monstro estava perdendo. O playboy tinha chances de vencer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parecia perdida, ela. Olhos arregalados. 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