{"id":921,"date":"2022-11-29T23:39:52","date_gmt":"2022-11-30T02:39:52","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=921"},"modified":"2022-12-03T17:46:07","modified_gmt":"2022-12-03T20:46:07","slug":"boteco-connection-9-fordismo%ef%bf%bc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=921","title":{"rendered":"Boteco Connection #9 \u2014 Fordismo"},"content":{"rendered":"\n<p>O Ruivo investiu em duas cervejas mais fortes do que as de costume e danou a falar. Pediu double ipa em vez de german pilsner, sabe? Aproveitou para papear com os professores, que estavam sempre ali, na cal\u00e7ada. Tinha desenvolvido com os mestres \u2014 como eram conhecidos \u2014 uma certa intimidade, naqueles oito meses de vizinhan\u00e7a nova. Mas quase, quase discutiu s\u00e9rio com um que defendeu &#8220;trabalhos em vez de provas porque prova \u00e9 uma coisa muito fordista&#8221;. Duas cervejas podem mesmo fazer diferen\u00e7a. Como dois pontos, no fim do ano: n\u00e3o s\u00e3o muita coisa, mas se p\u00e1 rendem um per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o, criam a exig\u00eancia de novas aulas e novas notas. Essas coisas. O rapaz vazou sem conseguir perdoar-se pelo vexame de peitar, isto \u00e9, quase chamar pra briga um tiozinho doutor em Psicologia. Temia n\u00e3o a recupera\u00e7\u00e3o, mas uma reprova\u00e7\u00e3o mesmo. &nbsp;O conselho de classe da cal\u00e7ada n\u00e3o perdoa&#8230; reprova.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se chamava Rui, o que parecia garantir-lhe um prazer extra com o apelido de Ruivo. Houve uma namorada que tentou cham\u00e1-lo de Ru-Ru. Mas era estranho, isso, e a coisa n\u00e3o decolou nem entre quatro paredes. Outra tentativa tinha sido R2D2, numa refer\u00eancia ao gosto do sujeito por drogas psicoativas de todos os tipos, das estimulantes \u00e0s perturbadoras, passando pelas depressoras. A quizumba com o coroa professor tinha come\u00e7ado por a\u00ed, ali\u00e1s. E a prosa desandou, no entendimento do Ruivo, porque ele tem problemas com professores desde aquela sexta-feira, trinta anos atr\u00e1s&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma sexta. E ele tinha ido para a escola. N\u00e3o para fazer trabalho, mas para responder as quest\u00f5es que lhe garantiriam a aprova\u00e7\u00e3o naquele ano e, tamb\u00e9m, um videogame. Fordismo n\u00e3o passava pela cabe\u00e7a dos pais dele. Nem pela dos professores daquela \u00e9poca. Mas o que ele considerava um detalhe de sorte era mesmo o fato de os pais n\u00e3o acharem que videogame era coisa de vagabundo, entendimento muito comum entre as fam\u00edlias do pessoal com que o Ruivo se relacionava na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra coisa que n\u00e3o era falada na \u00e9poca era bullying. &#8220;Tinha gente que levava surra de toalha molhada, depois da aula de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica&#8221;, declarou, naquela tarde, na cal\u00e7ada, revivendo uma aut\u00eantica cara de desespero. &#8220;E o trote? Tinha o trote. Os veteranos cortavam o cabelo da gente. N\u00e3o tinha como fugir&#8230;&#8221; Era s\u00f3 hist\u00f3ria triste, preparando para o acontecimento daquela tarde de sexta-feira-de-prova.<\/p>\n\n\n\n<p>Rui, o Ruivo, estava na fileira do canto, \u00e0 esquerda. Era comum ser zoado com alguma musiquinha. Dali a 15 minutos, seria a hora de come\u00e7ar a resolver as quest\u00f5es que lhe abririam as portas da s\u00e9rie seguinte, e, de quebra, garantiriam o game de presente. Foi quando um companheiro de turma come\u00e7ou, baixinho: &#8220;Morte ao Ruivo! Morte ao Ruivo!&#8221; Poderia ser s\u00f3 mais uma piada, como tantas outras que j\u00e1 tinham sido inventadas naquelas salas. A coisa foi crescendo. Em sexta-feira de prova, o hor\u00e1rio era diferente. Os alunos chegavam uma hora antes do hor\u00e1rio regular, recebiam os pap\u00e9is, isto \u00e9, as provas, e tinham quatro tempos de aula, cada um de 45 minutos, para resolverem tudo. Quem terminasse antes podia sair e ir para a casa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Morte ao Ruivo! Morte ao Ruivo!&#8221; Aquilo foi crescendo. Em pouco tempo, todos na sala do menino de cabelos vermelhos estavam dando soquinhos na mesa e cantando o tro\u00e7o. O tom e o andamento lembravam uma pr\u00e1tica marcial qualquer. O Ruivo sentia-se amea\u00e7ado. Faltavam ainda 13 minutos para o in\u00edcio da prova. E o coro j\u00e1 extrapolava aquele ret\u00e2ngulo. De repente, era como se os ambientes pr\u00f3ximos tivessem sido tomados pela mesma cerim\u00f4nia. E dava para perceber que em todo o andar estavam batendo nas mesas e cantando &#8220;Morte ao Ruivo! Morte ao Ruivo!&#8221; Dava para crescer ainda mais. E cresceu. Por toda a escola. Chegou \u00e0 sala dos professores, onde entre um cafezinho e outro eles se preparavam para se encaminhar para as salas de aula. Mas a marcha ficou t\u00e3o forte que os fordistas, isto \u00e9, os professores respons\u00e1veis pelas provas daquela tarde, apressaram o passo para tentarem interromper aquela onda toda. Quando um deles entrou no ambiente em que estava o Ruivo, deu um esporro: &#8220;Olha o que voc\u00ea fez! Como assim, rapaz!?&#8221; O menino, suado, com cara de desespero, quase n\u00e3o conseguiu mas falou: &#8220;M-mas eu n\u00e3o fiz nada! E eles querem me matar!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Ruivo investiu em duas cervejas mais fortes do que as de costume e danou a falar. Pediu double ipa em vez de german pilsner, sabe? Aproveitou para papear com os professores, que estavam sempre ali, na cal\u00e7ada. 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