{"id":909,"date":"2022-11-15T00:03:03","date_gmt":"2022-11-15T03:03:03","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=909"},"modified":"2022-11-15T00:09:19","modified_gmt":"2022-11-15T03:09:19","slug":"1990-ou-o-ano-da-pantera-quase-quase-boteco-connection-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=909","title":{"rendered":"1990 ou O-Ano-Da-Pantera (quase, quase Boteco Connection #9)"},"content":{"rendered":"\n<p>Ela n\u00e3o queria apelar para as ferramentas de pesquisa na internet. N\u00e3o era uma decis\u00e3o f\u00e1cil, esta, porque o telefone estava ali, o tempo todo. Mas mantinha-se firme, mesmo que fosse uma tenta\u00e7\u00e3o mergulhar no protagonismo de uma daquelas sequ\u00eancias em que, ap\u00f3s uns poucos segundos de concentra\u00e7\u00e3o, arrumando os cabelos bem pretos, ela pegaria o aparelho e, com a firmeza de quem enxerga muito bem, deslizaria as unhas pintadas de vermelho cintilante pela telinha. Andava digitando com o dedo at\u00e9 um pouco de lado, por causa do tamanho das garras. E assim como n\u00e3o era exagero falar em &#8220;garras&#8221;, tamb\u00e9m n\u00e3o era demais falar dela como uma pantera. Mas estamos apontando algu\u00e9m que pretendia voltar aos dias de &#8220;jovem felina 1990&#8221;, quando tinha 9 anos e foi, com o pai, ver um jogo de futebol na maior cidade do pa\u00eds. N\u00e3o qualquer jogo. Mas aquele que faria com que ela trocasse de time. O que ser\u00e1 que uma ferramenta de busca nos mostraria como dicotomia se f\u00f4ssemos opor &#8220;jovem felina 1990&#8221; e &#8220;pantera 2022&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p>Puxar pela mem\u00f3ria tinha come\u00e7ado como uma divers\u00e3o. Sempre que esbarrava com algu\u00e9m que parecia entender de futebol, ela engatilhava o assunto, mencionando a conquista de um t\u00edtulo, naquele ano, e comentando resultados. Era boa com placares hist\u00f3ricos, o que excitava marmanjos metidos a entender de futebol. Recheava suas cr\u00f4nicas \u2014 porque eram mais do que mem\u00f3rias \u2014 falando da elei\u00e7\u00e3o de uma mulher nordestina para a prefeitura de S\u00e3o Paulo. E enchia-se de orgulho recapitulando o epis\u00f3dio em que, no metr\u00f4, desafiou skinheads para proteger o irm\u00e3o mais novo. Enxergava bem e tinha boa mem\u00f3ria, a pantera. E se divertia, diante de barbudos entendedores do jogo da bola, vendo-os sem resposta para quest\u00f5es que, ela deixava claro, trariam grande felicidade para ela. Mobilizava os caras, sem muito esfor\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, mais do que conseguir respostas, mais do que ser capaz de organizar na cabe\u00e7a um almanaque definitivo sobre aquele jogo, ela elevava, a cada men\u00e7\u00e3o\/tentativa, um castelo de paix\u00f5es \u2014 pelo time, pela vida, pelo mar, por&#8230;. Uma constru\u00e7\u00e3o que ia ficando sempre mais e mais imponente. Depois da pandemia do in\u00edcio dos Anos 2020, nossa personagem parecia estar diante da necessidade de tomar uma outra grande decis\u00e3o, algo que poderia ser t\u00e3o transformador quanto trocar de time, e talvez por isso mais importante do que conseguir respostas definitivas eram as chances de visitar, mentalmente, os sabores de um novo horizonte. <\/p>\n\n\n\n<p>Ela enxergava bem e pensava tamb\u00e9m muito bem. E, ao contr\u00e1rio do que tinha imaginado at\u00e9 ali, talvez fosse poss\u00edvel trocar de time mais de uma vez na vida. O tempo passa. Ou, como ela dizia parecendo querer desconcertar seus interlocutores: &#8220;O tempo tem o pr\u00f3prio tempo. \u00c9 assim que se constr\u00f3i intimidade.&#8221; Se um s\u00f3 pensamento preenche a imensid\u00e3o, tamb\u00e9m com esta medida se ergue uma fortaleza, um castelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou-se ontem come\u00e7ando uma conversa, numa cal\u00e7ada de boteco. Tinha testemunhas, gente que j\u00e1 a tinha visto armar aquela arapuca. Houve at\u00e9 quem comentasse: &#8220;P\u00f4, de novo, esse papo de 1990? S\u00e9rio?&#8221; Era uma deixa, tal tipo de coment\u00e1rio, para que ela mostrasse outro talento: o sorriso. Sorria que era uma beleza. E invariavelmente seguia, firme, na prosa. Esse cara da cal\u00e7ada era mais ou menos da idade do pai dela, e fan\u00e1tico pelo mesmo clube. Sentindo o desafio, o malandro n\u00e3o recuou: &#8220;Mas a gente jogou nesse est\u00e1dio, em 1990?&#8221; A mulher respondeu que &#8220;Sim&#8230; E a gente perdeu&#8230;&#8221; E foi quando ouviu o que precisava, sem saber que era aquilo que precisava: &#8220;Ah, \u00e9 por isso ent\u00e3o qu&#8217;eu n\u00e3o lembro.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela n\u00e3o queria apelar para as ferramentas de pesquisa na internet. N\u00e3o era uma decis\u00e3o f\u00e1cil, esta, porque o telefone estava ali, o tempo todo. Mas mantinha-se firme, mesmo que fosse uma tenta\u00e7\u00e3o mergulhar no protagonismo de uma daquelas sequ\u00eancias em que, ap\u00f3s uns poucos segundos de concentra\u00e7\u00e3o, arrumando os cabelos bem pretos, ela pegaria [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,21,20,45,12,22,1,6],"tags":[831,832,838,834,837,833,835,830,542,836],"class_list":["post-909","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comportamento","category-conto","category-cronica","category-ctrl-c-ctrl-v","category-freudcast","category-literatice","category-sem-categoria","category-umbigada","tag-copacabana","tag-bairropeixoto","tag-cabelopreto","tag-castelos","tag-cintilante","tag-paixoes","tag-pantera","tag-pontinho","tag-praca","tag-unhasvermelhas"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v14.0.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>1990 ou O-Ano-Da-Pantera (quase, quase Boteco Connection #9) - sambapunk<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow\" \/>\n<meta name=\"googlebot\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta name=\"bingbot\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=909\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"1990 ou O-Ano-Da-Pantera (quase, quase Boteco Connection #9) - sambapunk\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Ela n\u00e3o queria apelar para as ferramentas de pesquisa na internet. N\u00e3o era uma decis\u00e3o f\u00e1cil, esta, porque o telefone estava ali, o tempo todo. Mas mantinha-se firme, mesmo que fosse uma tenta\u00e7\u00e3o mergulhar no protagonismo de uma daquelas sequ\u00eancias em que, ap\u00f3s uns poucos segundos de concentra\u00e7\u00e3o, arrumando os cabelos bem pretos, ela pegaria [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=909\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"sambapunk\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2022-11-15T03:03:03+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2022-11-15T03:09:19+00:00\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/#website\",\"url\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/\",\"name\":\"sambapunk\",\"description\":\"\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?s={search_term_string}\",\"query-input\":\"required name=search_term_string\"}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=909#webpage\",\"url\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=909\",\"name\":\"1990 ou O-Ano-Da-Pantera (quase, quase Boteco Connection #9) - sambapunk\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/#website\"},\"datePublished\":\"2022-11-15T03:03:03+00:00\",\"dateModified\":\"2022-11-15T03:09:19+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/#\/schema\/person\/fb3630fdfa003c4ed928306c08b7b121\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=909\"]}]},{\"@type\":[\"Person\"],\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/#\/schema\/person\/fb3630fdfa003c4ed928306c08b7b121\",\"name\":\"Adilson Pereira\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/#personlogo\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"url\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/3eba92a6aecdf0ed174373a38e9a19ef4a1f022d17242e397e7c9ef930f9659e?s=96&d=mm&r=g\",\"caption\":\"Adilson Pereira\"}}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/909","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=909"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/909\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":910,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/909\/revisions\/910"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=909"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=909"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=909"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}