{"id":881,"date":"2022-10-07T14:22:04","date_gmt":"2022-10-07T17:22:04","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=881"},"modified":"2022-10-07T14:22:06","modified_gmt":"2022-10-07T17:22:06","slug":"doce-de-quarta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=881","title":{"rendered":"Doce de quarta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Uma m\u00e1quina ocupada. Outra ali&#8230; Duas m\u00e1quinas vazias. Ser\u00e1 que aceitam cart\u00e3o?&#8221; Pensou nisso, apressou o passo e n\u00e3o acreditou quando viu naquele guich\u00ea de metr\u00f4 um ser humano desempenhando o papel de homem que vende bilhetes. Tinha que aproveitar a oportunidade. Era minuto de sorte, s\u00f3 podia ser. Ningu\u00e9m queria saber do ser humano, pareciam todos preferir as m\u00e1quinas, e, a julgar pela pressa com que pegou a placa em que se lia &#8220;FECHADO&#8221;, tamb\u00e9m aquele ali atr\u00e1s da estrutura aparentemente blindada n\u00e3o pretendia mais contato com seus &#8220;semelhantes&#8221;. Pelo menos n\u00e3o naquele in\u00edcio de noite. &#8220;D\u00e1 tempo de o senhor me vender um unit\u00e1rio?&#8221;, foi a pergunta que ele ouviu. E Ivan, como indicava o crach\u00e1, respondeu &#8220;Sim, mas vai ser o \u00faltimo; vou colocar a placa s\u00f3 pra n\u00e3o ter d\u00favida.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um momento, o humano-comprador pensou se seria o caso de contar ao Ivan que estava a caminho de uma adega, em Copa, para comer ostras, beber cerveja e cacha\u00e7a e, o que era mais importante, encontrar uma doceira. Imaginou a estranheza com que ele ouviria aquela informa\u00e7\u00e3o. Quase uma confiss\u00e3o, na verdade. Temeu que fosse muita coisa para compartilhar, ali, naqueles poucos minutos em que os dois teriam a chance de interagir. Distraiu-se, o humano-comprador, ao amadurecer na velocidade da luz o que lhe pareceu um novo conceito para &#8220;intera\u00e7\u00e3o&#8221;: &#8220;Momento de contato entre uma pessoa que vende algo, como um bilhete, e algu\u00e9m que quer comprar aquilo.&#8221; Respirou fundo, para n\u00e3o se perder em conceitua\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias naquele momento e retomou o di\u00e1logo com o humano de \u00f3culos, cabelos crespos, pele negra, crach\u00e1 e tr\u00eas canetas no bolso do uniforme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a placa de &#8220;FECHADO&#8221; entre os dois, parecia haver alguma proibi\u00e7\u00e3o no ar. Haviam combinado, isto \u00e9, Ivan-o-humano-vendedor, dissera que aquela seria sua \u00faltima venda. &#8220;Que seja ent\u00e3o a melhor venda&#8221;, deixou escapar o comprador, antecipando no guich\u00ea um pouco do que esperava que fosse o encontro com a doceira. Encontros entre seres humanos eram mesmo capazes de liberar coisas escondidas. Era assim, no passado. Blade-runnermente falando, pode ser que n\u00e3o seja bem assim, daqui a algum tempo. Ent\u00e3o, o neg\u00f3cio \u00e9 aproveitar. Agora. Aproveitar os doces. Aproveitar as cervejas. Aproveitar as cacha\u00e7as. Aproveitar as ostras. Aproveitar os beijos. Aproveitar a noite. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O comprador estava se distraindo muito. Voltou de onde estava gra\u00e7as \u00e0s batidinhas que Ivan deu, com uma de suas canetas, no vidro que o separava do resto do mundo. &#8220;Desculpa, seu Ivan, viajei, aqui. Quando \u00e9 mesmo?&#8221;A resposta veio r\u00e1pido: &#8220;Seis e cinquenta.&#8221; &#8220;Tem troco pra dez?&#8221; O sil\u00eancio pareceu um &#8220;Sim&#8221; nos ouvidos do comprador e ele pegou uma nota de 20. Fez o dinheiro escorregar pela brecha que servia para isso, pedindo desculpas ao homem que precisou recorrer a uma caneta para concluir seu trabalho, coisa que n\u00e3o devia ser muito comum. Dinheiro vai, cart\u00e3o\/bilhete vem. Um obrigado, um por-nada. Dois sorrisos, ambos aparentemente satisfeitos. Um fim de expediente, uma promessa de doce.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Uma m\u00e1quina ocupada. Outra ali&#8230; Duas m\u00e1quinas vazias. Ser\u00e1 que aceitam cart\u00e3o?&#8221; Pensou nisso, apressou o passo e n\u00e3o acreditou quando viu naquele guich\u00ea de metr\u00f4 um ser humano desempenhando o papel de homem que vende bilhetes. Tinha que aproveitar a oportunidade. Era minuto de sorte, s\u00f3 podia ser. 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