{"id":866,"date":"2022-09-23T16:36:17","date_gmt":"2022-09-23T19:36:17","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=866"},"modified":"2022-09-23T16:36:19","modified_gmt":"2022-09-23T19:36:19","slug":"o-heroi-da-estacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=866","title":{"rendered":"O her\u00f3i da esta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Um est\u00eancil &#8220;inc\u00f4modo&#8221; com o qual a gente precisou se acostumar a conviver \u00e9 o &#8220;N\u00e3o desvie o olhar&#8221;. Um desagrado bom\/necess\u00e1rio, nos dias de hoje, parecendo pretender convidar ao pensamento cr\u00edtico. De um modo geral, fica(va) em postes, na parte baixa, rente \u00e0 rua. Como que numa alus\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que rasteja tamb\u00e9m ali naquela altura. Eles, os pedintes. Pessoas em &#8220;situa\u00e7\u00e3o de rua&#8221;, como dizem. Quando A. parou na esquina, naquela sexta, estava perto de um daqueles sinais. Pensava na Primavera, sobre a qual tinha ouvido muita gente falar, naquelas \u00faltimas horas. Era o primeiro dia da esta\u00e7\u00e3o. Estava avexado, mesmo antes de encarar a senten\u00e7a pintada em azul. N\u00e3o queria ler. Queria ser lido. Chegou a imaginar que, talvez por isso, para se mostrar, estivesse parado, ali naquele cruzamento. Mas n\u00e3o teve jeito: foi incapaz de fingir que n\u00e3o viu.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha aprendido que ficar parado numa esquina representa risco. O ensinamento viera de um policial, anos antes. O sujeito disparou num bar algo do tipo &#8220;O cara fardado n\u00e3o pode ficar de bobeira, pra n\u00e3o virar alvo&#8221;, e, mesmo sem farda, fez todo mundo ali entender que estava diante de um prisioneiro de uma daquelas roupas. Quase todo mundo fingiu que n\u00e3o ouviu. Um flash silencioso e nada mais, foi o que aconteceu. A bebida \u00e9 mesmo um \u00f3timo entretenimento, \u00e0s vezes. Mas o bagulho ainda ecoava nas entranhas de A., anos depois. &#8220;Porra, cad\u00ea as flores?&#8221;, reclamava, ali, parado, sem conseguir decidir se estava mais amolodado com as lembran\u00e7as ou com a frase na grande estaca de concreto. Fingir, isto \u00e9, representar n\u00e3o era assim t\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>Parecia ter chegado a hora de tornar mesmo aquele momento um tro\u00e7o mais cinematogr\u00e1fico. Como? Acendendo um cigarro. &#8220;Mesmo sem Zippo, funcionou&#8221;, concluiu, rindo sozinho, quando uma mulher parou e pediu informa\u00e7\u00e3o sobre uma rua. Sentiu-se, a\u00ed, sim, um ator num filme. Era como se naquele momento a Primavera tivesse finalmente come\u00e7ado para ele. Respirou como um her\u00f3i: preocupado com o pessoal jogado nas cal\u00e7adas, conhecedor dos nome das ruas da vizinhan\u00e7a, com a camisa bem passada. Ah, sim: calculou um movimento para ajeitar a roupa. &#8220;Her\u00f3i tem que ser um pouco vaidoso&#8221;, desculpou-se, num c\u00e1lculo-pensamento na velocidade da luz. Ouviu um bem-te-vi. E, ainda com aquela acelera\u00e7\u00e3o impressionante, rimou com quero-te-ouvir. &#8220;Ela quer me ouvir, \u00e9 isso que ela quer&#8230;&#8221;, falou, deixando confusa a interlocutora que, com olhos um pouco arregalados, apressou o passo e saiu daquela cena.<\/p>\n\n\n\n<p>Desconcertado, A. olhou em volta. N\u00e3o sabia bem o que estava procurando. Era como se o sil\u00eancio o isolasse. Pensava em por que os carros tinham parado de fazer barulho. Tentava entender como as crian\u00e7as jogando bola do outro lado da rua conseguiam fazer aquilo em sil\u00eancio absoluto. Teve medo de perder os super-poderes. Olhava para todos os cantos, como que num daqueles passatempos de antigamente, o Jogo dos Sete Erros. Foi quando viu uma mulher e duas crian\u00e7as, protegidas por uma marquise de pr\u00e9dio. &#8220;Porra&#8221;, soltou alto, colocando a m\u00e3o no bolso enquanto ainda n\u00e3o estava completamente certo do que dar a eles como almo\u00e7o. N\u00e3o queria perguntar. Ia fazer surpresa. O bem-te-vi de novo cantou, naquele instante, e meio que confirmou que como her\u00f3i era aquilo mesmo que A. deveria fazer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um est\u00eancil &#8220;inc\u00f4modo&#8221; com o qual a gente precisou se acostumar a conviver \u00e9 o &#8220;N\u00e3o desvie o olhar&#8221;. Um desagrado bom\/necess\u00e1rio, nos dias de hoje, parecendo pretender convidar ao pensamento cr\u00edtico. De um modo geral, fica(va) em postes, na parte baixa, rente \u00e0 rua. 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