{"id":838,"date":"2022-08-25T12:55:51","date_gmt":"2022-08-25T15:55:51","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=838"},"modified":"2022-08-25T12:57:36","modified_gmt":"2022-08-25T15:57:36","slug":"ultima-chamada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=838","title":{"rendered":"\u00daltima chamada"},"content":{"rendered":"\n<p>As coisas na igreja andavam mornas. E em casa o term\u00f4metro de Didi costumava ficar longe daquela \u00e1rea vermelha \u2014 a da quentura extrema \u2014 que a gente via nos desenhos animados de antigamente. Bota longe nisso. Tinha uma barraca de cachorro-quente, em frente \u00e0 vila. Aterrissava ali, naquele projeto de b\u00ean\u00e7\u00e3o e riqueza, ap\u00f3s a jornada como faxineira com um uniforme que a invisibilizava. Gostava da palavra &#8220;aterrissar&#8221;, ela; porque fantasiava o glamour de frequentar o aeroporto e desfilar com mala de rodinha. Sonhava com o alto da pir\u00e2mide. N\u00e3o era \u00e0 toa que lua ap\u00f3s lua enfrentava o trin\u00f4mio igreja-faxina-salsicha. Quando falava &#8220;aterrissar&#8221;, e sempre dava um jeito de fazer isso, chegava a sentir nas m\u00e3os o amendoinzinho que daria para as crian\u00e7as, como se em vez de &#8220;ganhar no voo&#8221; ela tivesse lembrado de comprar aquilo. Queria o prazer dos deslizes, das culpinhas da classe m\u00e9dia alta. Talvez tamb\u00e9m por esse motivo aceitasse os bombons do Manga.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou &#8220;Velho Manga&#8221;, como dizia sua m\u00e3e. A coroa era a \u00fanica que a chamava de &#8220;Edil&#8221; e parecia fazer isso de zoa\u00e7\u00e3o. Da mesma forma que praticava co&#8217;o Manga ao acrescentar o &#8220;Velho&#8221;. Didi n\u00e3o aceitava o jeito como a m\u00e3e se referia a ela. Mas engolia. No caso dos doces do Manga, pegava mas&#8230; N\u00e3o comia. Nem dava para as crian\u00e7as. Porque todo mundo sabe que no avi\u00e3o n\u00e3o distribuem bombons. E por n\u00e3o acreditar nas boas inten\u00e7\u00f5es do vizinho. Temia algum feiti\u00e7o, ali naquele mimo. Era uma situa\u00e7\u00e3o que ela considerava engra\u00e7ada, at\u00e9. O cara tinha uma mania que a deixava preocupada\/intrigada: dava os doces e no dia seguinte perguntava: &#8220;E a\u00ed, ficou tudo bem? O bombom n\u00e3o fez mal, n\u00e3o, n\u00e9?&#8221; A primeira vez em que aceitou, lembrava bem: tinha recebido uma liga\u00e7\u00e3o da Legi\u00e3o da Boa Vontade e a Val\u00e9ria, com quem ela se desculpou por n\u00e3o poder fazer qualquer doa\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s alguns minutos de papo, plantou em Didi uma semente de adivinha o qu\u00ea. De boa vontade, caramba! Aquela coisa de LBV parecia um sinal. E isso deu ao safado da vizinhan\u00e7a a chance de ver seu bombom trocando de m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma: &#8220;Mas o Manga \u00e9 muito amigo daquelas mulheres ali de cima.&#8221; Duas: &#8220;O Manga, todo mundo comenta, tem aquele foguinho; \u00e9 um velho foguento.&#8221; Tr\u00eas: &#8220;O Manga finge que \u00e9 santo, mas de santo n\u00e3o tem nada.&#8221; Quatro: &#8220;Isso s\u00f3 pode ser coisa daquelas rameiras l\u00e1 de cima, que ficam de olho no Tuta. \u00c9 flecha!&#8221; Ela engatilhava esta s\u00e9rie de frases e sempre empacava na \u00faltima. Porque Tuta era seu marido. Era um dos respons\u00e1veis pela baixa temperatura na vida de Didi. Mas era marido. &#8220;Meu marido, caramba!&#8221; era \u00e0s vezes a quinta frase da s\u00e9rie. Tuta fazia Didi ter vontade de xingar. &#8220;Caramba&#8221;, pra ela, j\u00e1 era palavr\u00e3o. &#8220;Se n\u00e3o pode falar na igreja, \u00e9 palavr\u00e3o&#8221;, apontava, sem ter certeza sobre isso ser mesmo uma regra no templo. Manga, por sua vez, alimentava na mo\u00e7a uma certa desconfian\u00e7a., diferente dum convite ao xingamento. \u00c0s vezes, fazia rapidamente uma compara\u00e7\u00e3o, sem perceber que estava calculando: achava que quando escalasse a pir\u00e2mide seria mais f\u00e1cil conviver com algu\u00e9m como o Manga do que com um tipo como o Tuta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tuta&#8221; lhe parecia um apelido esquisito. N\u00e3o entendia por que a m\u00e3e n\u00e3o acrescentava\/mudava nada ali naquela alcunha. N\u00e3o decifrava tamb\u00e9m por que a velha ficava do lado do cara, quando surgia alguma pendenga. A \u00faltima tinha sido quando ele, no encontro natalino do ano anterior, disse que daria de presente a todos ali uma prova da sua import\u00e2ncia. Isso numa festa em que n\u00e3o havia \u00e1lcool, hein! Contou ent\u00e3o que o pessoal l\u00e1 da parte de cima da rua estava pensando em abrir uma lanchonete, na esquina, e o lugar seria chamado de &#8220;Tuta Lanches&#8221;. Didi arriscou xingar: &#8220;Caramba!&#8221; Mas s\u00f3 conseguiu fazer isso uma vez porque a m\u00e3e ordenou: &#8220;Deixe o homem falar!&#8221; E ele continuou, explicando que aquilo aconteceria porque &#8220;Tuta \u00e9 um apelido que traz sorte.&#8221; O projeto seguiria sem autoriza\u00e7\u00e3o do dono da &#8220;marca&#8221;, primeiro, porque ningu\u00e9m havia pedido autoriza\u00e7\u00e3o; segundo, porque ele tamb\u00e9m se declarava generoso. <\/p>\n\n\n\n<p>Uma nova s\u00e9rie de senten\u00e7as havia se formado, depois daquela passagem da porcaria do Papai Noel. Uma: &#8220;Por que o neg\u00f3cio ia se chamar &#8216;Tuta Lanches&#8217; se todo mundo sabe que nessa hist\u00f3ria quem d\u00e1 duro sou eu?&#8221; Duas: &#8220;O Tuta acha que \u00e9 s\u00f3 ir no Ceasa s\u00e1bado pra comprar queijo e fica tudo certo?&#8221; Tr\u00eas: &#8220;Tem que encostar o umbigo ali, na chapa, cortar todo dia a cebola pro molho do cachorro-quente, t\u00e1?&#8221; Antes da quarta, Didi foi interrompida por um garoto que de s\u00fabito soltou uma que fez a mulher sorrir: &#8220;Didi, Didi, vou embarcar num podr\u00e3o. D\u00e1 um cachorro-daqueles-com-tudo.&#8221; Ela gostou particularmente do &#8220;Vou embarcar&#8221;, claro. Chegou quase a sentir o trepidar das rodinhas de uma mala, e pensou em oferecer o lanche de presente para o moleque. Era assim que pretendia subir na vida. Com gentileza. &#8220;Sem o Tuta, caramba!&#8221;, disse, ruborizando em seguida e sem coragem para levantar a cabe\u00e7a e descobrir se haveria alguma rea\u00e7\u00e3o na cara do jovem cliente. Decidiu n\u00e3o cobrar pela iguaria, como que para de desculpar por causa do palavr\u00e3o. O garoto n\u00e3o entendeu, mas aceitou o presente. Se naquele instante chegasse o Manga, ela pensou, talvez aceitasse um bombom. E talvez tamb\u00e9m desse de troco um sorriso diferente. Se p\u00e1, era hora de embarcar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As coisas na igreja andavam mornas. E em casa o term\u00f4metro de Didi costumava ficar longe daquela \u00e1rea vermelha \u2014 a da quentura extrema \u2014 que a gente via nos desenhos animados de antigamente. Bota longe nisso. Tinha uma barraca de cachorro-quente, em frente \u00e0 vila. 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