{"id":710,"date":"2022-01-18T15:28:13","date_gmt":"2022-01-18T18:28:13","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=710"},"modified":"2022-01-18T15:28:14","modified_gmt":"2022-01-18T18:28:14","slug":"juventude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=710","title":{"rendered":"Juventude"},"content":{"rendered":"\n<p>Chegou adiantado mas preferiu n\u00e3o ver como estava o paciente. Foi para a cozinha do lugar em que trabalhava. Queria comer um p\u00e3o. Vinha fazendo contas, desde cedo, naquele dia, e continuava, ali, tentando n\u00e3o olhar para uma pia que estava sempre imunda. Para fugir daquela imagem, pegava pedacinhos de miolo e enfileirava bolinhas como se constru\u00edsse um \u00e1baco. Se o velho tivesse melhorado, teria tempo para continuar nas investidas pelo aplicativo e, com sorte e empenho, conseguiria marcar uma sa\u00edda para aquela noite, ainda.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era medo. Era um tro\u00e7o estranho. O tro\u00e7o estranho atrapalhava a concentra\u00e7\u00e3o e fazia com que seus m\u00fasculos ficassem enrijecidos. Tro\u00e7os estranhos deixam a gente mais apreensivo, como que anunciando que alguma trag\u00e9dia est\u00e1 prestes a acontecer. Tro\u00e7os Estranhos, sempre eles. Poderia ser uma Grande Merda. Mas achava que se tratava s\u00f3 de um Tro\u00e7o Estranho. Se p\u00e1: Trocinho Estranhozinho. Mas \u00e9 que mesmo no diminutivo eles bastam\/bastavam\/bastariam para, por exemplo, impedir que um encontro noturno acontecesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazia contas jo\u00e3o-e-mariamente, com o aux\u00edlio do miolo do p\u00e3o. N\u00e3o queria correr riscos. O que deveria fazer? Tinha que encarar o problema, respirar fundo diante de eventuais perrengues e&#8230; Talvez rezando, os bagulhos se resolvessem. Foi o que pensou. E rezou. Rezou. Rezou. Depois de um tempo, cansou de rezar e foi at\u00e9 o quarto. Precisava ver como estava o velho. E quem sabe, depois de tanta reza, fosse poss\u00edvel no caminho encontrar os tro\u00e7os estranhos e dar cabo deles. As rezas eram r\u00e1pidas, o que alimentava sua inseguran\u00e7a. Achava que para funcionar as rezas deveriam ser mais longas. Mas s\u00f3 podia usar as rezas que tinha e estas, no caso, eram todas curtinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Era dif\u00edcil para aquele senhor de quase 90 anos ajeitar-se sozinho na cama. Mesmo assim, com as pernas meio que penduradas, ele achava conforto e tranquilidade para mergulhar no sono. O enfermeiro viu aquilo e se perguntou: &#8220;Ser\u00e1 que os tro\u00e7os estranhos andaram por aqui e puxaram as pernas do velho para fora da cama?&#8221; Ficou na d\u00favida sobre se aquela era ou n\u00e3o uma posi\u00e7\u00e3o inadequada para o paciente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E se a filha dele chega aqui e v\u00ea o mulambento desse jeito?&#8221; Foi a quest\u00e3o que surgiu. E, com esta, at\u00e9 conseguiu lidar. Mas, se estivesse diante de um sinal, deveria fazer alguma interven\u00e7\u00e3o? Sabia que invariavelmente os sinais lhe seriam apresentados e que tudo dependia de uma boa interpreta\u00e7\u00e3o. Tudo, no caso, era a solu\u00e7\u00e3o, o pr\u00eamio para o fim daquele dia de expediente sofrido. Come\u00e7ara no servi\u00e7o havia poucos minutos, mas j\u00e1 sabia que seria uma jornada de dor. Dor para ele. &#8220;O mulambento que se vire&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Vendo as pernas tortas do coitado, era certo que as coisas n\u00e3o se ajeitariam sozinhas. Meio amasadas, meio penduradas, meio traduzindo desconforto, meio r\u00edgidas demais, meio fazendo dele o coisa-ruim. A inadequa\u00e7\u00e3o daquele senhor colocava tudo em xeque. Eram tantas perguntas que quase esqueceu dos rem\u00e9dios. Os dele e os do velho. Os dele, tudo bem, tomaria e pronto. Mas teria que cutucar aquele corpo mal-ajambrado, teria que lidar com um ensaio de lucidez daquele monte de pele e ossos&#8230; Estava quase desistindo do encontro. &#8220;Vou pedir pra sair dessa porra! Isso, sim! N\u00e3o, pra mim, n\u00e3o d\u00e1 mais&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O sol entrava pelas frestas da janela. Fazia com que novas ideias surgissem. E com que rem\u00e9dios fossem tomados, como se fosse aquilo a rotina mais normal do mundo, solu\u00e7\u00e3o at\u00e9 para amea\u00e7a de meteoro. Numa manh\u00e3 como aquela, depois de dias de chuva, aquele brilho amarelo oferecia o brilho de um pr\u00eamio. Lembrou de uma outra reza, ensinada por uma amiga de uma religi\u00e3o diferente, uma reza que falava sobre o sol. Quis &#8220;pegar&#8221; aquele sol. Quis agradecer a amiga por ter ensinado a reza. E, quando percebeu que quis isso, sorriu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouviu ao longe a descarga de um banheiro. Mais longe ainda, uma maritaca. E bem perto percebeu que o velho abrira os olhos, babava, sorria e falava com dificuldade: &#8220;O sol&#8230;&#8221; Arrumou as pernas do doente, ent\u00e3o, sem medo de que a disposi\u00e7\u00e3o anterior delas fosse um sinal do Mal. &#8220;Ser\u00e1 que esqueci alguma porra de rem\u00e9dio?&#8221; O velho babou ainda mais, seguiu sorrindo e conseguiu for\u00e7as para falar ainda mais alto: &#8220;O sol&#8230;&#8221; Naquele instante, o enfermeiro retribuiu o mostrar de dentes e teve certeza de que n\u00e3o ia dar merda, \u00e0 noite. Teve certeza de que teria um bom encontro. &#8220;Bom dia, velho&#8221;, disse, para ouvir de volta o costumeiro &#8220;Velho \u00e9 o caralho&#8230;&#8221;.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegou adiantado mas preferiu n\u00e3o ver como estava o paciente. Foi para a cozinha do lugar em que trabalhava. Queria comer um p\u00e3o. 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