{"id":584,"date":"2021-07-16T13:35:51","date_gmt":"2021-07-16T16:35:51","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=584"},"modified":"2021-07-16T13:35:52","modified_gmt":"2021-07-16T16:35:52","slug":"cartaz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=584","title":{"rendered":"Cartaz"},"content":{"rendered":"\n<p>Paulinho chegava sempre com uma fome que parecia m\u00f3rbida. Pedia a quem estivesse por perto que lhe pagasse um peda\u00e7o de empad\u00e3o de frango. \u00c0s vezes, conseguia. Teve um dia em que chegou no balc\u00e3o, n\u00e3o viu ningu\u00e9m nas mesas e arriscou com a tiazinha que trabalhava no lugar: &#8220;Esse empad\u00e3o a\u00ed t\u00e1 sobrando, n\u00e9?&#8221; Ela era boa e r\u00e1pida nas respostas: &#8220;Aqui, nada sobra&#8230;&#8221; Com a barba mais por-fazer do que geralmente mostrava, entregando muitos fiapos brancos, o avoado insistiu. Na verdade, ele n\u00e3o era avoado, mas estava alheio a tudo, inclusive \u00e0s caras de poucos amigos que a tiazinha tinha na manga: &#8220;Mas se sobrar voc\u00ea pode me dar?&#8221; O fechamento da conversa veio sem nenhuma v\u00edrgula diferente: &#8220;Aqui, nada sobra&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes, e geralmente isso acontecia \u00e0 noite, Paulinho andava com um cartaz. Com aquilo, pedia ajuda. Ou achava que estava pedindo. Provavelmente, n\u00e3o era nada escrito\/feito por ele. Muitas vezes, a mensagem parecia uma zoa\u00e7\u00e3o. Como quando trazia a frase &#8220;Eu quero casar&#8221;. Os observadores mais constantes sabiam que, em momentos de crise, o &#8220;maluco&#8221; repetia aquela frase. Houve uma noite em que a pra\u00e7a estava recheada de policiais, por algum motivo, e deu para perceber o olhar de que-porra-\u00e9-essa-? que alguns dos fardados faziam quando viam Paulinho passar pela cal\u00e7ada, entrando e saindo dos bares, em alta velocidade, gritando isso: &#8220;Eu quero casar? Eu quero casar!&#8221; A frase do cartaz vinha de algum lugar da alma daquele sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez fosse l\u00e1 da alma tamb\u00e9m que viesse a for\u00e7a para um agudo assustador. Mesmo para policiais em bando. Dava pra ver pelas caras, de espanto, descren\u00e7a&#8230; Aproveitando que se tratava claramente de um &#8220;maluco&#8221;, os homens da lei ficavam s\u00f3 observando. Paulinho era grandalh\u00e3o e segur\u00e1-lo, para que parasse de gritar ou revisse aquela hist\u00f3ria de anunciar num cartaz o desejo de cas\u00f3rio, n\u00e3o seria f\u00e1cil. Para quem era do time sem farda mas ficava tamb\u00e9m s\u00f3 observando, podia surgir alguma pergunta do tipo &#8220;De onde vem essa hist\u00f3ria de o cara andar por a\u00ed gritando que quer casar?&#8221;. A vizinhan\u00e7a quase n\u00e3o recebia forasteiros, ent\u00e3o, de um modo geral, ningu\u00e9m se assustava com a eventual gritaria. Aguentar a m\u00fasica dos playbas, madrugada adentro, com seus carros abertos, meio que garantindo que ningu\u00e9m na \u00e1rea ia dormir direito, era mais chato do que testemunhar a peregrina\u00e7\u00e3o repetitiva e neur\u00f3tica do Paulinho.<\/p>\n\n\n\n<p>De vez em quando, surgia uma resposta. Ou era um m\u00e9dico qualquer explicando o comportamento do candidato a noivo ou um morador mais antigo repetindo uma hist\u00f3ria n\u00e3o muito divulgada: &#8220;Paulinho era normal. At\u00e9 queria casar, como todo mundo, mas era normal. N\u00e3o ficava gritando isso por a\u00ed, n\u00e3o. Empad\u00e3o, ele comia como todo mundo&#8230; Mas ele trabalhava pro pessoal do Bicho e, parece, pegou um dinheiro que n\u00e3o era pra pegar&#8230; Levou uma surra que deixou ele assim, meio abobado&#8230;&#8221; Havia uma outra vers\u00e3o, de que o Paulinho fingia que tinha ficado doido porque, sem conseguir repor o dinheiro, ficar maluco foi a sa\u00edda para continuar vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uns &#8220;humoristas&#8221; tinham criado para o showman da \u00e1rea uma conta num aplicativo de encontros. Entre eles, um advogado que se divertia bebendo por ali e misturando portugu\u00eas e ingl\u00eas. Sempre que via o Paulinho, gritava, num agudo que devia ser comum aos de pouco ju\u00edzo: &#8220;C&#8217;mon, Paulinho! Come here!&#8221; Numa noite de frio, esse a\u00ed deu ao Paulinho uma jaqueta branca. Estava usando a pe\u00e7a, tirou e deu ao solit\u00e1rio do cartaz: &#8220;Com uma jaqueta assim, voc\u00ea vai arrumar hoje mesmo um casamento&#8230;&#8221; Paulinho agradeceu. E na sequ\u00eancia perguntou se podia ganhar tamb\u00e9m um peda\u00e7o de empad\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulinho chegava sempre com uma fome que parecia m\u00f3rbida. Pedia a quem estivesse por perto que lhe pagasse um peda\u00e7o de empad\u00e3o de frango. \u00c0s vezes, conseguia. 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