{"id":487,"date":"2021-04-06T13:22:39","date_gmt":"2021-04-06T16:22:39","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=487"},"modified":"2021-04-06T13:40:28","modified_gmt":"2021-04-06T16:40:28","slug":"segundo-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=487","title":{"rendered":"Segundo tempo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Teve sorte: conseguiu parar o carro bem em frente \u00e0 casa do maluco. Deu uma ajeitada no banco, mexeu nos espelhos e s\u00f3 depois disso tudo mandou uma mensagem, para dizer que j\u00e1 estava l\u00e1. Tinha tempo. Enquanto escrevia, e gra\u00e7as aos ajustes que havia feito no assento, percebeu que em volta dava para contar tr\u00eas outros ve\u00edculos brancos estacionados por perto. Era dif\u00edcil manter a concentra\u00e7\u00e3o para digitar frases; preferia mensagens de voz. Por um momento, sorriu, pensando que o amigo talvez tivesse dificuldade para encontr\u00e1-lo, quando descesse com o pen-drive. Estava ali para resgatar arquivos importantes, mas n\u00e3o havia mal nenhum em dar umas risadas vendo o Porco indeciso sobre que dire\u00e7\u00e3o tomar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles se tratavam assim. Um era o Porco. O outro, Animal. Morricone, Banh\u00e3o, Cezinha, Rocky e Arrombado completavam o time. Ningu\u00e9m era bom de futebol. Com o Arrombado, era um problema, porque era um apelido\/termo que usavam tamb\u00e9m como tratamento de um modo geral e ainda para demonstrar &#8220;carinho&#8221;. Era comum ouvir coisas do tipo &#8220;E a\u00ed, arrombado?&#8221; ou &#8220;Eu te amo, arrombado&#8221;.&nbsp; Eram man\u00e9s carinhosos. Tinha de tudo: os que n\u00e3o acreditavam mais em Direita e Esquerda e os que sentiam saudade da \u00e9poca em que se ensaiava uma revolu\u00e7\u00e3o qualquer. Com os apelidos, sentiam-se num universo tarantinesco. Percebiam-se adolescentes. Havia inclusive quem se sentisse mais &#8220;macho&#8221;, caso do Rocky, e por conta disso os amigos precisavam tomar conta dele quando o encontro era em algum boteco e bebiam demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Para encontrar divers\u00e3o, voc\u00ea precisa estar disposto a encontrar divers\u00e3o.&#8221; Foi disso que o Arrombado lembrou quando o Porco apareceu, de repente, quase lhe dando um susto, sem-querer-querendo. E a\u00ed, por cinco segundos, o aben\u00e7oado-que-usa-o-ve\u00edculo-da-firma sentiu-se um sujeito de sorte. N\u00e3o tivera a chance de testemunhar o amigo perdido entre os v\u00e1rios carros brandos da \u00e1rea, mas a gargalhada havia chegado, anyway, com aquele quase-susto. Naquele par\u00eantese, ali, sentiu-se um homem de sorte, por conseguir rir. As pessoas de um modo geral n\u00e3o andavam rindo muito. O Arrombado gostava de sentir-se algu\u00e9m &#8220;fora da curva&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;E a\u00ed, viu o filme?&#8221; &#8220;Vi, cara, e porra achei muito maneiro.&#8221; &#8220;A ideia era essa. A mina curtiu?&#8221; &#8220;Porra, supercurtiu.&#8221; &#8220;A ideia era essa.&#8221; &#8220;Quando \u00e9 que a gente vai beber uma cerveja?&#8221; &#8220;Porra, t\u00e1 foda esse neg\u00f3cio de conseguir parar pra beber uma cerveja.&#8221; &#8220;O amigo at\u00e9 tem conseguido de vez em quando sair cedo do trampo, n\u00e9? Maneiro, isso.&#8221; Houve um momento de sil\u00eancio. Sempre havia. Parece at\u00e9 que esperavam por isso. E tamb\u00e9m como sempre acontecia um dos dois falou: &#8220;Porra, cara, eu te amo. \u00c9 sempre um prazer ver o amigo.&#8221; Combinaram cerveja, acertaram churrasco, sacanearam o Morricone, reclamaram da mulher do Rocky. Repetiram a declara\u00e7\u00e3o de amor e se despediram, satisfeitos pra caramba com aquela meia-d\u00fazia de bobagens que haviam dito um pro outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o Arrombado ligou o carro para embicar na dire\u00e7\u00e3o do M\u00e9ier, percebeu um barulho estranho. Trabalhava com aquilo, com barulhos estranhos, e ficou feliz por ter aquela habilidade\/sensibilidade. Desligou de novo o motor. Desta vez, n\u00e3o arrumou o banco para digitar a mensagem, que seria para a patroa. Estava treinando mensagens de texto. Queria avis\u00e1-la do problema na carro\u00e7a da empresa, porque aquilo significava que, no finde, talvez n\u00e3o fossem viajar. Meio que para compensar, avisou que levaria um galetinho e cervejas bem geladas compradas na Marlene. N\u00e3o queria confus\u00e3o com a patroa. N\u00e3o tinha tempo para isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teve sorte: conseguiu parar o carro bem em frente \u00e0 casa do maluco. 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