{"id":437,"date":"2021-01-20T12:57:42","date_gmt":"2021-01-20T15:57:42","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=437"},"modified":"2021-01-20T12:57:43","modified_gmt":"2021-01-20T15:57:43","slug":"sol-sol-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=437","title":{"rendered":"Sol-sol-mesmo"},"content":{"rendered":"\n<p>Estava escuro, quando ela tirou da bolsa aquele pequeno objeto. Parecia uma alian\u00e7a. Vinha alguma coisa escrita, ali no miolo: dois nomes. Palavras que a gente teria lido com muito mais facilidade se naquele instante houvesse sol. Quer dizer, tinha sol. Mas a gente aqui est\u00e1 falando do sol-sol-mesmo e n\u00e3o da luz e do calor super-intensos que uma pessoa \u00e9 capaz \u2014 mesmo durante o sono \u2014 de soltar ao longo da madrugada. Depois de fazer as contas, porque al\u00e9m de palavras o neg\u00f3cio trazia tamb\u00e9m n\u00fameros, havia um resultado: 25. Isso, 25 era a resposta. Todo mundo ali precisava de uma resposta, n\u00e3o dava para esperar pelo sol-sol-mesmo, que demoraria ainda um pouco para aparecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Estavam mais uma vez mergulhados na madrugada, quando mesmo com a voz baixinha a gente \u00e9 \u00e0s vezes capaz de gritar\/rezar por explica\u00e7\u00f5es, quer dizer, respostas. Ou sol-sol-mesmo. Na madrugada, sussurros s\u00e3o como gritos para dentro. Como gargalhadas desentupidoras. Palavrinhas \u00e1cidas que v\u00e3o corroendo os canos; \u00e0s vezes, dando \u00e0 carca\u00e7a uma chance de reviver movimentos que h\u00e1 muito andavam esquecidos. Depois de experimentar isso, voc\u00ea pode ter certeza de que os minutos que precedem a alvorada s\u00e3o os melhores para os bons desentupimentos. Desobstru\u00e7\u00f5es que se tornar\u00e3o inesquec\u00edveis. H\u00e1 quem diga que novas vidas nascem sempre neste per\u00edodo do dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o resultado decorado, o que n\u00e3o foi dif\u00edcil de conseguir, mesmo um pouco b\u00eabados, tinham dado o primeiro passo sugerido no mapa. Havia um mapa. Ela o tinha tirado da bolsa logo depois de mostrar a ele a alian\u00e7a. Houve tamb\u00e9m um minifestival de piadas. Porque ela acreditava ser imposs\u00edvel mostrar uma alian\u00e7a a um homem sem fazer alguma gra\u00e7a, sem desconversar, sem embaralhar express\u00f5es, sem deixar pelo menos por um momento o interlocutor confuso, quase perdido, duvidando da sua capacidade de entendimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda havia alguma coisa, na garrafa. J\u00e1 n\u00e3o estava gelado, como antes. Mas era alguma coisa. Serviu bem. Empurrou, por uns bons instantes, bem pra frente, qualquer coisa que pudesse parecer uma senten\u00e7a. Sentiram de perto a respira\u00e7\u00e3o um do outro. De olhos fechados, viram olhos fechados. De olhos abertos, viram algo que n\u00e3o conseguiam entender. Iam mais fundo. Suavam, mesmo na reta do ventilador. De vez em quando, rapidamente, fugiam dali, e se perguntavam por exemplo por que o ventilador n\u00e3o dava conta das coisas. Mas voltavam logo, porque o suor n\u00e3o era um problema.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que a gente faz com o 25?&#8221; &#8220;E agora, a gente tem o 25?&#8221; N\u00e3o foi exatamente a mesma frase, mas quase&#8230; Ela sabia a resposta, porque tinha o mapa. Mapa \u00e9 o jeito de dizer, pra parecer aquela coisa de ca\u00e7a ao tesouro. Estava mais para manual de instru\u00e7\u00f5es. A resposta dela veio antes que ele tivesse chance de insistir no questionamento. Ele tinha esse problema do questionamento, coisa que deixava a menina irritada. &#8220;Vamos ver o que est\u00e1 escrito na linha 25&#8221;, orientou, experimentando em seguida uma leve irrita\u00e7\u00e3o diante daquilo que considerou ser uma express\u00e3o de desgosto dele. O homem se explicou, o quanto antes: &#8220;Cara&#8230; Olha essa letrinha, parece que \u00e9 ainda menor do que a da alian\u00e7a. Como a gente vai conseguir ler o que est\u00e1 escrito a\u00ed?&#8221; Foi quando o sol-sol-mesmo nasceu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava escuro, quando ela tirou da bolsa aquele pequeno objeto. Parecia uma alian\u00e7a. Vinha alguma coisa escrita, ali no miolo: dois nomes. Palavras que a gente teria lido com muito mais facilidade se naquele instante houvesse sol. Quer dizer, tinha sol. 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