{"id":378,"date":"2020-11-17T16:05:37","date_gmt":"2020-11-17T19:05:37","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=378"},"modified":"2020-11-17T16:07:38","modified_gmt":"2020-11-17T19:07:38","slug":"ardencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=378","title":{"rendered":"Ard\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;Duas por cinco, ainda?&#8221; O classe-mediano compra flores, na feira; mas n\u00e3o dispensa a pechincha. J\u00e1 n\u00e3o se sente culpado por negociar trocados e conseguir vantagens em cima duma galera que est\u00e1 bem mais ferrada do que ele. O classe-mediano anda tentando evitar palavr\u00f5es, ent\u00e3o, &#8220;ferrada&#8221; \u00e9 uma palavra atualmente bastante usada. A camiseta branca surrada, amarelada em certas partes, principalmente ali pelo sovaco, parece dar a ele a desenvoltura e o direito de al\u00e9m de tudo escolher com muito cuidado as melhores pe\u00e7as, as que vai levar para a casa. Porque estamos falando de algu\u00e9m que quer um ax\u00e9 maneiro para a semana, que est\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando; u\u00e9. Mas a\u00ed pinta aquele constrangimento\/inc\u00f4modo quando, na hora em que estava prestes a se decidir por Aquela Rosa Vermelha J\u00e1 Mais Aberta, tem que dizer &#8220;n\u00e3o&#8221; a um cara que do nada \u2014 Bum! \u2014 apareceu para pedir dinheiro. Quer dizer, &#8220;n\u00e3o \u00e9 dinheiro, n\u00e3o&#8221;, declarou o pedinte.<\/p>\n\n\n\n<p>O grandalh\u00e3o da barraca de flores, bem sem saco, dispara um &#8220;a\u00ed, se liga&#8230;&#8221; e faz com as m\u00e3os um sinal que a gente facilmente entende como algo que quer dizer &#8220;sai daqui&#8221;. Parece que no cotidiano o feirante tamb\u00e9m est\u00e1 evitando algumas palavras. O pedinte, at\u00e9 ali, tinha dado a deixa de que, por sua vez, o que ele parece estar &nbsp;evitando \u00e9 pedir dinheiro. Talvez porque esteja dif\u00edcil pra todo mundo e, na rua, deve ser poss\u00edvel sentir isso muito bem. Deve ser quase imposs\u00edvel as pessoas ouvirem o que ele diz. Aquele que pode escolher flores faz isso com tanto cuidado que parece at\u00e9 um lance de xadrez ou um daqueles momentos em que, conversando com o gerente do banco, precisa decidir o que fazer com aquele dinheirinho que ficou na poupan\u00e7a. Uma indecis\u00e3o\/demora cheia de &#8220;poesia&#8221;, quase um an\u00fancio de sabonete.<\/p>\n\n\n\n<p>O da camisa amarelada, ent\u00e3o, fura o dedo numa das rosas que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tinham causado nenhum desprazer. Furos nas pontas dos dedos, voc\u00ea sabem, provocam uma sensa\u00e7\u00e3o bem ruim. Quem n\u00e3o quiser testar isso escolhendo rosas em feiras pode optar por um daqueles testes (de colesterol?) em que furam o dedo da gente, apertam pra que o sangue saia na quantidade devida e, depois, espalham o l\u00edquido vermelho numa plaquinha transparente, aparentemente de vidro, para que seja inserida numa m\u00e1quina. O classe-mediano, algo angustiado porque o atual prefeito da cidade em que mora conseguiu uma vaga no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es, j\u00e1 fez este tipo de exame. O feirante de poucas palavras, tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou pela cabe\u00e7a do pechincheiro: &#8220;Deve ter a pele dos dedos bem grossa, nunca deve ter passado por um exame assim.&#8221; Antes de seguir para o pensamento seguinte, sobre a resist\u00eancia das m\u00e3os do rapaz ao manusear flores com espinhos, mexeu nos bolsos e, tirando de l\u00e1 muitas notas de $5 e de $2, separou o suficiente para pagar pelas flores e&#8230; E al\u00e9m disso pegou uma, a de menor valor, para dar ao rapaz. \u00a0Sob o olhar do feirante, dobrou uma nota, como que para que ficasse firme no trajeto entre a m\u00e3o dele e a do destinat\u00e1rio dos dedos que nunca foram furados. E esticou aquilo na dire\u00e7\u00e3o do homem que tinha ficado ali, meio de lado. &#8220;Mas n\u00e3o \u00e9 dinheiro, n\u00e3o&#8230;&#8221;, lembrou o pedinte. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas cara dinheiro \u00e9 o que eu tenho, agora&#8230;&#8221;, desculpou-se com &#8220;calma&#8221; o mais bem-alimentado dos tr\u00eas ali. E sentiu-se aliviado com esta frase\/explica\u00e7\u00e3o, como se ela deixasse muita, muita coisa clara. Foi ajudado pelo olhar c\u00famplice do vendedor, que balan\u00e7ava pros lados a cabe\u00e7a como se n\u00e3o entendesse a recusa do mais ferrado dos tr\u00eas ali: &#8220;P\u00f4, a\u00ed, que vacilo&#8230;&#8221; Percebeu-se suado, o comprador\/pechicheiro\/classe-mediano, talvez em consequ\u00eancia do excesso de pensamentos que tomavam conta dele, e lamentou que em tempos de pandemia n\u00e3o fosse poss\u00edvel tirar\/secar as gotinhas que se haviam formado em baixo do nariz, por baixo da m\u00e1scara. Era o \u00fanico dos tr\u00eas que usava m\u00e1scara. Tinha tomado o cuidado de n\u00e3o limpar o sangue do dedo na roupa. Bastava uma camiseta amarelada, n\u00e3o queria uma bermuda manchada. E, em vez de fazer isso, espalhou o l\u00edquido pela m\u00e3o \u2014 que ficou um pouco grudenta. Mas uma borrifada de \u00e1lcool resolveria tudo. Antecipou a ard\u00eancia que sentiria no dedo furado. O classe-mediano voou para casa porque estava atrasado para a medita\u00e7\u00e3o. Fazia isso todos os dias. Flor era s\u00f3 uma vez por semana. Mas medita\u00e7\u00e3o era diariamente. Precisava meditar. Precisava meditar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Duas por cinco, ainda?&#8221; O classe-mediano compra flores, na feira; mas n\u00e3o dispensa a pechincha. J\u00e1 n\u00e3o se sente culpado por negociar trocados e conseguir vantagens em cima duma galera que est\u00e1 bem mais ferrada do que ele. 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