{"id":357,"date":"2020-11-06T16:05:21","date_gmt":"2020-11-06T19:05:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=357"},"modified":"2020-11-06T16:07:59","modified_gmt":"2020-11-06T19:07:59","slug":"pobres-eletrons","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=357","title":{"rendered":"Pobres el\u00e9trons"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje em dia, n\u00e3o se fala em rebobinar. Mas para sugerir uma r\u00e1pida volta aos anos 80, talvez at\u00e9 valha apelar pra um voc\u00e1bulo t\u00e3o das antigas. Era uma \u00e9poca em que, num certo col\u00e9gio em Marechal Hermes, sub\u00farbio carioca, havia o temido trote. O moleque que entrava l\u00e1 ficava careca, era obrigado a matar formigas no grito, medir o campo de futebol com um palitinho. O movimento estudantil ainda organizava congressos e havia quem acreditasse numa certa revolu\u00e7\u00e3o. O clima era de abertura. Os pais mais precavidos\/desconfiados avisavam aos filhos que tomassem cuidado com o que diziam no col\u00e9gio. Mas a perspectiva, de um modo geral, e ainda mais se compararmos com os dias de hoje, era favor\u00e1vel. Ah, o trote. \u00c9 poss\u00edvel entender melhor o trote lendo &#8220;O calv\u00e1rio dos carecas&#8221;, do Glauco Mattoso.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro, o sado-maso-poeta\/escriba mergulhava fundo para entender\/explicar aquela &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221;. Era poss\u00edvel dizer que se tratava de uma tradi\u00e7\u00e3o. At\u00e9 os professores davam uma zoada nos alunos. Aquele col\u00e9gio de Marechal Hermes, por exemplo, oferecia cursos t\u00e9cnicos. Entre eles, o de eletr\u00f4nica. Foi para muitos uma chance aprender que os chuveiros el\u00e9tricos t\u00eam &#8220;resistor&#8221; e n\u00e3o &#8220;resist\u00eancia&#8221;, como todo (o resto do) mundo acreditava. Os professores deste curso davam aos novatos uma lista de material, logo na primeira aula. Aquelas coisas poderiam ser facilmente achadas nas lojas de componentes eletr\u00f4nicos que pipocavam no sub\u00farbio e no centro do Rio. Menos uma parada: o tubinho de el\u00e9trons livres.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia CDFs, claro, eles est\u00e3o em todas as gera\u00e7\u00f5es, e alguns pareciam saber que n\u00e3o seria poss\u00edvel comprar um &#8220;tubo de el\u00e9trons livres&#8221;. Mas a maioria sofria percorrendo lojas para voltar \u00e0 escola com a lista completa, com tudo que diziam ser necess\u00e1rio para as primeiras experi\u00eancias. Sim, havia laborat\u00f3rios e eles funcionavam: o projeto de destrui\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica ainda n\u00e3o estava no est\u00e1gio atual. As rela\u00e7\u00f5es, a despeito das maldades que os veteranos exercitavam com os calouros, tamb\u00e9m pareciam ser melhores. Bota a\u00ed uma dose de saudosismo, claro. Mas n\u00e3o esque\u00e7a que nem se falava em internet. Em muitas lojas, os vendedores diziam que &#8220;acabou isso a\u00ed, deve chegar depois&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 existia polariza\u00e7\u00e3o. Porque polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 tipo CDF: parece que sempre existiu. Mas \u2014 e a\u00ed o saudosismo j\u00e1 n\u00e3o tem tanto peso na conclus\u00e3o \u2014 mas aparentemente existia tamb\u00e9m mais espa\u00e7o para discutir e elaborar as coisas. Pode ter a ver com a velocidade com que tudo acontece, hoje em dia. Mas pode ser que a explica\u00e7\u00e3o v\u00e1 al\u00e9m disso. Aqui, n\u00e3o h\u00e1 a pretens\u00e3o de explicar nada. S\u00f3 h\u00e1 mesmo um certo lamento. Depois que voc\u00ea aprende um pouco sobre el\u00e9trons livres e &#8220;entende&#8221; a polariza\u00e7\u00e3o sob a luz da F\u00edsica, d\u00e1 at\u00e9 pra dizer que com algum tutano d\u00e1 para sacar a polariza\u00e7\u00e3o no mundo de uma maneira mais, digamos, consistente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para muita gente, ter tutano hoje em dia \u00e9 falar em &#8220;empreendedorismo&#8221;. H\u00e1 quem apele para a &#8220;intelig\u00eancia emocional&#8221; para relativizar a forma\u00e7\u00e3o de la\u00e7os entre monstros e monstros-ainda-mais-monstruosos. J\u00e1 n\u00e3o podemos encontrar tantas lojas de componentes eletr\u00f4nicos, apesar de at\u00e9 aparelhos como m\u00e1quinas de lavar, atualmente, serem controlados por placas de circuito integrado. Isso sem falar nos toca-discos, que seguem em alta. Os el\u00e9trons que antes eram livres parecem, coitados, estar hoje presos e a servi\u00e7o de circuitos que cheiram muito mal. Devem ser vendidos por algum site, bem baratinhos, com entrega em no m\u00e1ximo duas semanas, vindo diretamente do outro lado do mundo. O que prova que, mesmo velhas, frases de ordem podem servir para alguma coisa. Liberdade para os el\u00e9trons!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje em dia, n\u00e3o se fala em rebobinar. Mas para sugerir uma r\u00e1pida volta aos anos 80, talvez at\u00e9 valha apelar pra um voc\u00e1bulo t\u00e3o das antigas. Era uma \u00e9poca em que, num certo col\u00e9gio em Marechal Hermes, sub\u00farbio carioca, havia o temido trote. 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