{"id":320,"date":"2020-10-01T15:52:59","date_gmt":"2020-10-01T18:52:59","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=320"},"modified":"2020-10-01T15:53:00","modified_gmt":"2020-10-01T18:53:00","slug":"pediu-levou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=320","title":{"rendered":"Pediu, levou"},"content":{"rendered":"\n<p>Tem uma m\u00fasica d&#8217;O Rappa, uma daquelas antigas, que fala em &#8220;tapa na cara&#8221;. Logo no in\u00edcio, numa &#8220;locu\u00e7\u00e3o&#8221; do saudoso Marcelo Yuca: &#8220;Tapa na cara pra mostrar quem \u00e9 que manda&#8230;&#8221; O tabefe, como aponta a letra, sempre foi (tido como) uma verdadeira institui\u00e7\u00e3o nacional. Talvez at\u00e9 mundial, n\u00e9? \u00c9 poss\u00edvel que a bofetada tenha perdido espa\u00e7o \u2014 na prefer\u00eancia de agentes da lei \u2014 para o &#8220;estrangulamento&#8221;. Teve o &#8220;I can&#8217;t breathe&#8221;, do falecido George Floyd, lembra? E o BJJ parece ter se tornado t\u00e3o popular quanto a Capoeira, como produto de exporta\u00e7\u00e3o. Mas, de volta aos sopapos: eles ainda t\u00eam seu lugar no imagin\u00e1rio de grande fatia do &#8220;p\u00fablico em geral&#8221; e, neste fim de semana, bem no dia de Cosme e Dami\u00e3o, o Alexandre Coutinho, vizinho aqui da \u00e1rea, experimentou uma variante que parecia andar, esta, sim, meio em &#8220;desuso&#8221;: o &#8220;tapa sem m\u00e3o&#8221;. Vem s\u00f3 com o verbo, acompanhado no m\u00e1ximo de uma car\u00e3o, mas quando bem aplicado faz as testemunhas jurarem que houve um &#8220;estalo&#8221;. Machuca.<\/p>\n\n\n\n<p>A gente diz &#8220;Alexandre Coutinho&#8221; porque o Xande, como \u00e9 conhecido por cachaceiros e maconheiros da \u00e1rea, tem essa mania, de se apresentar usando &nbsp;nome e sobrenome, muitas vezes colocando em seguida a m\u00e3o no bolso da camisa abotoada para tirar um cart\u00e3o. Coisa de advogado, dir\u00e3o alguns. Coisa de homem branco, classe mediano, dir\u00e3o as feministas. Ali\u00e1s, foram \u2014 separadamente \u2014 duas, digamos, feminazis as respons\u00e1veis por deixar o Xande de rosto vermelho-amargo, bem no dia de distribuir doces.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se dizer que o Xande, com aquela camisa para dentro da cal\u00e7a, e de sapatos bem engraxados, \u00e9 um classe-mediano gentil. N\u00e3o por conta do figurino. Ele diz &#8220;al\u00f4&#8221; para as senhorinhas; sorri ao aceitar o amendoim dos ambulantes e tira uma onda de do-povo ao negociar o pre\u00e7o para comprar tr\u00eas pacotinhos; sua na pelada e se orgulha de, no vesti\u00e1rio, interagir com outros classe-medianos que considera menos esclarecidos: executivos de corretoras, ex-jogadores de futebol, eleitores do coisa-ruim. &#8220;Eu quero falar com essa gente, quero mostrar a eles que fizeram uma op\u00e7\u00e3o errada&#8221;, diz sempre que passa do quinto chope, como que querendo mostrar ao mundo que n\u00e3o \u00e9 um tiozinho careta.<\/p>\n\n\n\n<p>Xande tem aquela mania de perguntar aos gar\u00e7ons quais s\u00e3o seus nomes, para &#8220;encurtar a dist\u00e2ncia&#8221;. E estende esta pr\u00e1tica \u00e0s outras r\u00e1pidas rela\u00e7\u00f5es que \u00e0s vezes se estabelecem nos balc\u00f5es de botecos das Laranjeiras. Numa dessas, quando uma mo\u00e7a estava pagando a conta, surgiu no ambiente um coment\u00e1rio sobre o Covid. Ela emendou uma frase. Xande, outra. Ela prosseguiu e o cara considerou que poderia esticar a prosa, querendo saber o nome&#8230; Esperava descobrir al\u00e9m disso o sobrenome, o que tamb\u00e9m pode ser coisa de advogado, e, assim, talvez identificasse a integrante de uma fam\u00edlia velha conhecida da regi\u00e3o. Nem era paquera, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta que veio provocou no ambiente um sil\u00eancio de dois segundos: &#8220;Pra que quer saber meu nome? N\u00e3o tem essa de nome, n\u00e3o&#8230;&#8221; E o engomadinho parecia um tomate, de t\u00e3o vermelho. O segundo epis\u00f3dio envolveu duas mulheres, sendo que o assunto j\u00e1 n\u00e3o era o v\u00edrus. Elas entraram no bar e uma anunciou que a outra estava passando mal e, depois disso, pediu uma \u00e1gua t\u00f4nica e um chope.<\/p>\n\n\n\n<p>A t\u00f4nica era para a que n\u00e3o se sentia bem. E foi sobre esta que Xande inquiriu: &#8220;Quem \u00e9 ela?&#8221; N\u00e3o houve resposta. O advogado estava mais lento, por causa da quantidade de chopes que j\u00e1 lhe preenchiam a alma. E aquele hiato pareceu uma eternidade para os outros ocupantes do balc\u00e3o, sendo que alguns j\u00e1 deviam imaginar que haveria continua\u00e7\u00e3o. &#8220;Quem \u00e9 ela?&#8221;, insistiu, olhando ent\u00e3o mais diretamente para a que esperava pelo chope. Parecia acreditar numa certa for\u00e7a de intimida\u00e7\u00e3o. A t\u00f4nica j\u00e1 tinha chegado, porque pessoas que est\u00e3o passando mal t\u00eam prefer\u00eancia, n\u00e9? &#8220;Quem \u00e9 ela?&#8221; E veio o segundo tapa daquela tarde: &#8220;\u00c9 minha mulher, porra, o que que tem?&#8221; A &#8220;agressora&#8221; usou de tanta for\u00e7a que ficou vermelha, mas, claro, a cor que ela alcan\u00e7ou n\u00e3o era nem de perto t\u00e3o intensa quanto a que tomou de novo as bochechas de Xande. Pediu, levou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem uma m\u00fasica d&#8217;O Rappa, uma daquelas antigas, que fala em &#8220;tapa na cara&#8221;. Logo no in\u00edcio, numa &#8220;locu\u00e7\u00e3o&#8221; do saudoso Marcelo Yuca: &#8220;Tapa na cara pra mostrar quem \u00e9 que manda&#8230;&#8221; O tabefe, como aponta a letra, sempre foi (tido como) uma verdadeira institui\u00e7\u00e3o nacional. 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