{"id":171,"date":"2020-06-25T12:39:17","date_gmt":"2020-06-25T15:39:17","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=171"},"modified":"2020-06-25T12:40:47","modified_gmt":"2020-06-25T15:40:47","slug":"cliques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=171","title":{"rendered":"Cliques"},"content":{"rendered":"\n<p>Passava pelo Dorminhoco, tirava uma foto. Ele &#8220;pedia&#8221;. \u00c0s vezes, era um movimento que chamava a aten\u00e7\u00e3o de quem estava perto. Mas nunca deve ter parecido invas\u00e3o de privacidade. Jamais houve uma reprimenda e, com o tempo, o &#8220;fot\u00f3grafo&#8221; foi sentindo-se mais \u00e0 vontade para investir nos registros. Tinha se acostumado a chamar daquele jeito um senhor que parecia ganhar a vida como guardador de carros, ali perto daquela padaria na Ministro Lira. Quase sempre cal\u00e7ava chinelos de couro, ele. Havaianas, nunca. Durante muito tempo, exibiu uma certa dignidade: roupas limpas, barba sempre bem feita. Era comum v\u00ea-lo mais dormindo do que acordado, mas invariavelmente com sacolas de mercado penduradas num dos bra\u00e7os. Vazias, sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha se tornado um exerc\u00edcio regular, aquela hist\u00f3ria de chegar perto e registrar o sono daquela pessoa. Era um sono despreocupado, o dele. Ou parecia ser. Mesmo enquanto dormia, dava a impress\u00e3o de estar tomando conta ali do peda\u00e7o. Fechava os olhos, mas demonstrava autoridade. Falando assim, \u00e9 dif\u00edcil algu\u00e9m acreditar. Assim como era um desafio entender de que maneira um cochilo podia ser aproveitado nas posturas que aquele senhor assumia\/exibia. Mas era prazerosamente esparramado nas cadeiras que ele comandava as coisas. Depois, a cadeira foi substitu\u00edda por um banco. Pra que encosto, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>As capturas com o celular variavam na medida em que o Dorminhoco se mostrava em mergulhos diferentes. Mergulhos de\/no sono. Houve uma vez em que o lugar escolhido por ele para encostar-se foi a porta de acesso a uma escada que levava ao segundo andar do pr\u00e9dio colado \u00e0 banca de jornal. Funcionavam l\u00e1 em cima um restaurante japon\u00eas e uma sinuca. O japon\u00eas era conhecido por ser o mais barato da regi\u00e3o. A sinuca, pelas mesas grandes lindonas e por ter apenas cerveja e nenhum petisco dispon\u00edvel. Mas, para o fot\u00f3grafo, vamos chamar o cara de fot\u00f3grafo mesmo, para ele, bem, o importante era aqueles estabelecimentos estarem no caminho\/quadrado do Dorminhoco. Tinha mesmo desenvolvido alguma rela\u00e7\u00e3o com aquele personagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Planejava abord\u00e1-lo. Achava ter ouvido algu\u00e9m na padaria cham\u00e1-lo de &#8220;Sap\u00e3o&#8221;. Achou pouco respeitoso, o apelido. N\u00e3o gostou. Preferiu ficar com &#8220;Dorminhoco&#8221; mesmo. Ainda mais que n\u00e3o tinha revelado a alcunha a ningu\u00e9m. Chamava-o daquele jeito mas s\u00f3 fazia isso quando falava consigo mesmo. &#8220;Ent\u00e3o, tudo bem. E ele pede&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Certa vez, com uma metideza de artista, o homem-do-smartphone ficou na d\u00favida se deveria ou n\u00e3o aproximar-se bem do &#8220;alvo&#8221;. E resolveu ir. Teve a impress\u00e3o de que sua chegada havia sido notada. Os olhos daquele homem pareceram se abrir um tantinho. Nunca soube se aquela veloc\u00edssima encarada aconteceu ou n\u00e3o mas, depois daquela noite, ficou pensando: &#8220;Caramba, ele t\u00e1 ligado no que eu t\u00f4 fazendo&#8230;&#8221; Naquela ocasi\u00e3o, o Dorminhoco estava meio torto sobre um caixote que fazia a gente se perguntar como \u00e9 que algu\u00e9m conseguia se equilibrar ali para dormir. Parecia n\u00e3o haver espa\u00e7o para algu\u00e9m sentar-se, quanto mais para dormir.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo passa, dessa maneira que um dia todo mundo percebe que \u00e9 mesmo assim como parece\/anunciam. Superveloz. Sabe? Numa tarde, estava l\u00e1 um jovem, com tra\u00e7os muito parecidos com os do Dorminhoco. Ser\u00e1 que ia ocupar o lugar do pai? Ser\u00e1 que era o filho ou um dos filhos? Dias depois, aparece de novo o Dorminhoco, sem uma perna, e com roupas j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o limpas. Os di\u00e1logos que nunca existiram, sempre foram necess\u00e1rios, mas nunca existiram, pareceram ent\u00e3o ser imposs\u00edveis. Houve uma breve troca de olhares. Havia dor, sim. Mas existia tamb\u00e9m calma. Nenhuma foto. Assim como n\u00e3o havia mais perna, parecia n\u00e3o haver mais sono.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que as imagens foram organizadas no que se podia chamar at\u00e9 de uma s\u00e9rie, o fot\u00f3grafo pensou em imprimir tudo. Mais: talvez aquilo pudesse render algum dinheiro para o personagem. O Dorminhoco ia gostar de saber. Mas de repente tudo mudou, no cen\u00e1rio. A banca de jornal foi substitu\u00edda por uma maior. Dessas com vidro e aparelho de ar-condicionado. O japon\u00eas e a sinuca fecharam as portas. O que se v\u00ea l\u00e1 hoje s\u00e3o placas com n\u00fameros de telefone, para quem estiver interessado nos im\u00f3veis. O Dorminhoco tinha sumido, assim como sua perna fizera antes. O rapaz sentiu um certo al\u00edvio, por nunca ter mostrado as imagens a ningu\u00e9m. Desejou que seu amigo estivesse numa cama confort\u00e1vel. Teve medo de perder o sono. Sentiu-se com sorte por isso n\u00e3o ter acontecido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passava pelo Dorminhoco, tirava uma foto. Ele &#8220;pedia&#8221;. \u00c0s vezes, era um movimento que chamava a aten\u00e7\u00e3o de quem estava perto. Mas nunca deve ter parecido invas\u00e3o de privacidade. Jamais houve uma reprimenda e, com o tempo, o &#8220;fot\u00f3grafo&#8221; foi sentindo-se mais \u00e0 vontade para investir nos registros. Tinha se acostumado a chamar daquele jeito [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20,22,11],"tags":[99,226,223,224,229,231,227,228,179,204,155,230,222,225],"class_list":["post-171","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronica","category-literatice","category-paulo-coelhismo","tag-amizade","tag-arte","tag-dorminhoco","tag-fotografia","tag-japones","tag-largodomachado","tag-metideza","tag-noite","tag-padaria","tag-paulocoelhismo","tag-sambapunk","tag-sinuca","tag-sono","tag-timidez"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v14.0.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Cliques - sambapunk<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow\" \/>\n<meta name=\"googlebot\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta name=\"bingbot\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=171\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Cliques - sambapunk\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Passava pelo Dorminhoco, tirava uma foto. Ele &#8220;pedia&#8221;. \u00c0s vezes, era um movimento que chamava a aten\u00e7\u00e3o de quem estava perto. Mas nunca deve ter parecido invas\u00e3o de privacidade. Jamais houve uma reprimenda e, com o tempo, o &#8220;fot\u00f3grafo&#8221; foi sentindo-se mais \u00e0 vontade para investir nos registros. Tinha se acostumado a chamar daquele jeito [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=171\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"sambapunk\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2020-06-25T15:39:17+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2020-06-25T15:40:47+00:00\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/#website\",\"url\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/\",\"name\":\"sambapunk\",\"description\":\"\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?s={search_term_string}\",\"query-input\":\"required name=search_term_string\"}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=171#webpage\",\"url\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=171\",\"name\":\"Cliques - sambapunk\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/#website\"},\"datePublished\":\"2020-06-25T15:39:17+00:00\",\"dateModified\":\"2020-06-25T15:40:47+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/#\/schema\/person\/fb3630fdfa003c4ed928306c08b7b121\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=171\"]}]},{\"@type\":[\"Person\"],\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/#\/schema\/person\/fb3630fdfa003c4ed928306c08b7b121\",\"name\":\"Adilson Pereira\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"@id\":\"https:\/\/sambapunk.com.br\/#personlogo\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"url\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/3eba92a6aecdf0ed174373a38e9a19ef4a1f022d17242e397e7c9ef930f9659e?s=96&d=mm&r=g\",\"caption\":\"Adilson Pereira\"}}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/171","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=171"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/171\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":172,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/171\/revisions\/172"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=171"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=171"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sambapunk.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=171"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}