{"id":1164,"date":"2026-03-26T10:34:05","date_gmt":"2026-03-26T13:34:05","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=1164"},"modified":"2026-03-26T10:34:07","modified_gmt":"2026-03-26T13:34:07","slug":"medo-e-cao-em-lalanjeilas-hiperlocal02","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=1164","title":{"rendered":"Medo e ca\u00f4 em Lalanjeilas (#hiperlocal02)"},"content":{"rendered":"\n<p>Dona \u00c9le estava atrasada para um encontro de neg\u00f3cios na cal\u00e7ada. Era assim mesmo: a necessidade n\u00e3o motivava nela a menor pontualidade. Tamb\u00e9m, n\u00e9, esperar o que da &#8220;necessidade&#8221;, alguma coisa boa? A bola ret\u00f3rica quicou, entre uma piscada e outra, e inspirou uma cabeceada do te\u00f3rico de padaria da galera ali das redondezas. Seu C\u00ea ganhara o t\u00edtulo quando deu numa frase a explica\u00e7\u00e3o para o que a gente est\u00e1 vivendo, nos dias de hoje: &#8220;Voc\u00ea vai ali na butique de p\u00e3es, pede um sonho, e leva pra casa uma Conta d&#8217;\u00c1gua.&#8221; Dois meses ap\u00f3s o disparo da senten\u00e7a, ainda havia quem se lembrasse da p\u00e9rola. Uma piada vencedora. Um ensinamento que promete durar. Atento ao risco das entrelinhas, o tiozinho gostava de destacar, sobre si mesmo: &#8220;\u00c9 te\u00f3rico de padaria. N\u00e3o mosca de padaria.&#8221; Assim, ali, ao vivo, consegu\u00edamos todos deixar um pouco de lado o medo da guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o precisa&#8221;, insistia um. &#8220;Precisa, sim&#8221;, ouvia de volta, sendo o medo ainda o assunto. Quem ficava perto cansava de tanto buscar e n\u00e3o achar o entendimento da quest\u00e3o. &#8220;Cansado, sim. Derrotado, n\u00e3o&#8221;, dizia um outro. Nunca vencido, sempre aparentemente esgotado: era a regra que tinha se firmado como a estrat\u00e9gia mais malandra, aquela a ser usada. O pessoal do corporativo adorava falar em &#8220;comunica\u00e7\u00e3o de crise&#8221;. Pode ter vindo da\u00ed a Malandragem de Crise. E n\u00e3o foi truque aprendido em nenhum v\u00eddeo de YouTube. Mas sim anos de sabedoria zipados num frasco de m\u00e1goa declarada por uma trintona em rela\u00e7\u00e3o ao seu irm\u00e3o mais novo. Sorte da m\u00e3e que j\u00e1 se foi e n\u00e3o precisa mais aguentar a declara\u00e7\u00e3o de voto da filha. &#8220;Ele \u00e9 menino e ent\u00e3o o bife maior \u00e9 sempre pra ele&#8221;, \u00e9 isso mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p>Vizinhan\u00e7a estranha. Vizinho esquisito. Nunca estavam legais. Nunca bastava birita. Pode ser isso, o resumo. E aquele tipo de lugar em que, numa noite, h\u00e1 gente chorando pelo fim do mundo, e, carnavalescamente, ao mesmo tempo, subindo nas mesas&nbsp; da pra\u00e7a, como que ensaiando um desfile e tentando l\u00e1 de cima descobrir que versos s\u00e3o aqueles escritos l\u00e1 longe. A descoberta \u00e9 importante porque pode estar l\u00e1 a \u00faltima chance de ganhar uma disputa no torneio que elege o samba da agremia\u00e7\u00e3o. Cartas marcadas, sambas marcados, guerra marcada. O gado pode acabar se ressentindo disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica mais f\u00e1cil sair vencedor se a comunidade te abra\u00e7a. Dona \u00c9le sabia disso, quando convocava uma sess\u00e3o de terapia com cerveja mais ou menos gelada sa\u00edda diretamente do isopor de Mano R\u00e9gi. O &#8220;mano&#8221;era um adere\u00e7o rec\u00e9m-conquistado, garantia um ar de local ao forasteiro. Quantos anos, 13? Treze anos depois, Mano R\u00e9gi ainda era visto como n\u00e3o-local, mas se agasalhava com o quentinho da aceita\u00e7\u00e3o quase plena quando, entre um ca\u00f4 e outro, falavam dele desse jeito. Engra\u00e7ado era que a iniciativa para o t\u00edtulo tinha sido coisa de Dona Suza. Logo ela, uma baixo-astral-de-elite. Isso. H\u00e1 atiradores e atiradoras de elite. Snipers, saca? Ent\u00e3o, j\u00e1 h\u00e1 tamb\u00e9m \u2014 pode procurar a\u00ed \u2014 o baixo-astral-de-elite. Pessoas que insistem em lembrar de mortes que aconteceram, anos atr\u00e1s, no pr\u00e9dio em frente. Ou, para se&nbsp; mostrar atualizada, gente que comenta o atropelamento da semana passada. N\u00e3o d\u00e1 para condenar por unanimidade um baixo-astral-de-elite. Eles t\u00eam seguidores, desde quando essa palavra n\u00e3o era usada com tanta frequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O notici\u00e1rio mundo-c\u00e3o preenchia os intervalos de conversas dif\u00edceis. Tinha para todos. A doen\u00e7a do s\u00e9culo, as dores que todo mundo est\u00e1 sentindo. Dentro, fora e ao lado da cabe\u00e7a. Tem coisa que a pessoa nunca quis sentir, mas sente. Tem coisa que ela espera de outrem \u2014 uma sobrinha, por exemplo. E os emaranhados se esbarram-completam, indo at\u00e9 a amiga que vive noutra regi\u00e3o do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as paradas acontecem. O momento errado pra falar de certas coisas. O sol, que hoje resolveu castigar. Isso \u00e9 o ganhar da Megasena que citaram, ontem. \u00c9 sobre salva\u00e7\u00e3o. Sobre ser o tiro que te faz correr de um lugar. Macondo. Falam de Macondo e bebem Negroni, o tempo todo, hoje em dia. A moda te ajuda tamb\u00e9m a esquecer certos perrengues. Fuga e esquecimento. Pacote completo. Dona \u00c9le, exausta, n\u00e3o sabia mais por que tinha ido at\u00e9 aquele lugar. Para ela, falta de mem\u00f3ria nunca tinha sido problema.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dona \u00c9le estava atrasada para um encontro de neg\u00f3cios na cal\u00e7ada. Era assim mesmo: a necessidade n\u00e3o motivava nela a menor pontualidade. Tamb\u00e9m, n\u00e9, esperar o que da &#8220;necessidade&#8221;, alguma coisa boa? A bola ret\u00f3rica quicou, entre uma piscada e outra, e inspirou uma cabeceada do te\u00f3rico de padaria da galera ali das redondezas. 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