{"id":1092,"date":"2023-09-28T12:18:08","date_gmt":"2023-09-28T15:18:08","guid":{"rendered":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=1092"},"modified":"2023-09-28T12:18:09","modified_gmt":"2023-09-28T15:18:09","slug":"brain-reward-system","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sambapunk.com.br\/?p=1092","title":{"rendered":"Brain Reward System"},"content":{"rendered":"\n<p>Pra algumas coisas, n\u00e3o encontrava palavras. Pra certas palavras, o problema era achar coisas, isto \u00e9, ouvintes. Via pe\u00e7as de xadrez, do nada, e pensava em jogadas. Adorava ficar \u00e0 toa. Na pra\u00e7a, observou um casal que j\u00e1 havia enquadrado, num bar da vizinhan\u00e7a: gestos r\u00e1pidos, promessas e provoca\u00e7\u00f5es em voz alta, historinhas mirando quem estava em volta. Mal conseguiam dar bicadas nos dois lat\u00f5es de cerveja que, horas antes, talvez estivessem gelados. Sorrisos amarelos, na madrugada. Talvez por esse motivo, pelo adiantado da hora, estivessem ali. Os bares no Rio hoje em dia fecham cedo. Com concentra\u00e7\u00e3o, como num jogo de tabuleiro, qualquer um podia pescar o que conversavam aqueles dois. Alternavam climas de vel\u00f3rio e festa. &#8220;Tem um motel, aqui perto&#8221;, disse ela. &#8220;Prefiro n\u00e3o comer fritura&#8221;, respondeu o man\u00e9, como que dando continuidade ao assunto anterior, que passava pelos salgadinhos da \u00e9poca em que eram crian\u00e7as \u2014 quando coxinhas, past\u00e9is e empadinhas tinham outra &#8220;moral&#8221;. Depois de quase rir, o que seria arriscado, o observador achou por bem desistir da tocaia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se estivessem numa mesa de madeira, dessas povoadas por guardanapos, palitinhos, sach\u00eas de sal e \u00e0s vezes garrafinhas de azeite, seria a hora de o homem e a mulher pedirem a conta. Costumavam dizer, nestas ocasi\u00f5es: &#8220;Estamos atrasados, mo\u00e7o, pode por favor fechar pra gente?&#8221;. O observador condenou-se por n\u00e3o ser capaz, de imediato, de abandonar a cena; porque conhecia de vista a dupla-alvo. Era na verdade um momento de d\u00favida. Para geral. O espectador n\u00e3o conseguia vazar. E os dois pareciam n\u00e3o saber bem se continuavam na &#8220;brincadeira&#8221; que, pelas alian\u00e7as, era coisa &#8220;s\u00e9ria&#8221;. Era um encontro que parecia traduzir uma crise.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem, bem b\u00eabado, fez sinal com a m\u00e3o pedindo que a mulher aguardasse. Pegou no bolso da cal\u00e7a um papel amassado: &#8220;Vamos conferir. Ver se est\u00e1 tudo certo. Eu pago 25. E o que faltar voc\u00eas dividem por dois.&#8221; Mandou essa e dirigiu o olhar para o observador, num gesto que poderia ser tomado como o de um tonto que n\u00e3o sabe o que est\u00e1 fazendo ou, o que seria surpreendente, de um marido que sabe sim o que est\u00e1 fazendo. O vigilante, na sua pira enxadrista, preferiu n\u00e3o calcular o pr\u00f3ximo lance. Levantou-se da muretinha, num pulo, e se afastou dali. A mulher solu\u00e7ou e levou a m\u00e3o, em formato de concha, at\u00e9 a boca. Solu\u00e7ou, de novo, antes de responder: &#8220;Melhor dividir logo por quatro. Assim, fica tode munde satisfeite&#8221;, disse, zoando com a onda da neutralidade no vocabul\u00e1rio, t\u00e3o em alta nos botecos frequentados por eles.<\/p>\n\n\n\n<p>O sujeito por algum motivo desandou a falar que as pessoas n\u00e3o se satisfazem dividindo contas no valor correto. Exagerou, na sequ\u00eancia: &#8220;Brain Reward System. Bi&#8230; ar&#8230; ess&#8230; Satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra coisa. Satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 quando voc\u00ea encontra \u00e1gua&#8230;&#8221; Ela se zangou, como sempre se zangava, nos momentos em que o cara tirava aquela onda de professor: &#8220;\u00c9 s\u00e1bado, porra! Quase domingo&#8230;&#8221; Depois de uns instantes de sil\u00eancios, foram salvos pelo barulho que poderia ser de uma coruja. &#8220;Olha o passarinho&#8221;, disse ele, solu\u00e7ando e fazendo com a m\u00e3o um formato de concha, do mesmo jeito que ela mostrara. Devia ser uma tradi\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia. &#8220;Voc\u00ea devia esperar para dizer isso quando a gente chegasse ao motel. Eu sei que aqui somos quatro, o p\u00fablico para a piada \u00e9 maior. Mas voc\u00ea precisa aprender a esperar.&#8221; Ela podia estar se vingando do momento-aula sobre Brain Reward System.<\/p>\n\n\n\n<p>Chamava a aten\u00e7\u00e3o, o figurino dos dois: muitas pe\u00e7as brancas. Oxal\u00e1 talvez pudesse explicar aquilo. O vestido dela era justo e estava surpreendentemente limpo para algu\u00e9m que trope\u00e7ava tanto nas palavras. Menos caprichoso, o man\u00e9 usava uma camiseta meio amassada e amarelada na altura dos sovacos. Cada um tinha uma pequena mochila e levavam, tamb\u00e9m, sacolas de mercado. Quando saiu do ambiente, instantes antes, o observador havia olhado para aquelas bolsas largadas displicentemente e pensou, quase falando, em voz baixinha: &#8220;Tomara que n\u00e3o tenha nada que precise de geladeira&#8230;&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pra algumas coisas, n\u00e3o encontrava palavras. Pra certas palavras, o problema era achar coisas, isto \u00e9, ouvintes. Via pe\u00e7as de xadrez, do nada, e pensava em jogadas. Adorava ficar \u00e0 toa. 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